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Democracias de Alta Densidade: Índia e Brasil

por Marilda Gifalli - publicado 14/05/2014 11:20 - última modificação 30/09/2015 10:10

ENCONTRO INTERNACIONAL
26 de junho de 2012
brasilindiaadityajanine1.jpg
Aditya Mukherjee e Renato Janine Ribeiro foram
os expositores da segunda mesa do encontro

As diferenças entre os processos de consolidação da democracia no Brasil e na Índia e as semelhanças entre a realidade atual dos dois países, marcada pelo desafio de combater as desigualdades sociais, foram as principais questões discutidas no encontro internacional "Democracias de Alta Densidade: Índia e Brasil", promovido pelo IEA no dia 26 de junho, com a participação de historiadores indianos e de pesquisadores da USP e da Unicamp.

A primeira mesa, mediada por Maria Inês Nogueira, do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, tratou dos aspectos históricos ligados à instituição da democracia nos dois países. Mridula Mukherjee, historiadora do Centro de Estudos Históricos da Universidade Jawaharlal Nehru (JNU), falou sobre como o movimento pela independência da Índia, conduzido por uma população majoritariamente analfabeta, com expectativa de vida de 30 anos e cultura baseada na religião, culminou na composição de um governo democrático, soberano e secular.

 

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Desafios de Brasil e Índia
(reportagem publicada no "Jornal da USP")

 

De acordo com ela, isso foi possível devido à difusão dos valores nacionalistas e à inclusão do povo em todo o processo. "Ativistas anti-imperialistas iam às favelas e inflamavam as pessoas com argumentos. A justificativa para a independência não era a necessidade de expulsar os brancos e cristãos, mas de libertar o povo indiano de quem havia roubado suas riquezas", afirmou a historiadora.

Já Pedro Paulo Funari, diretor do Centro de Estudos Avançados (CEAv) da Unicamp, discutiu o caso brasileiro. Ao fazer uma retrospectiva da história do Brasil, ele destacou duas particularidades da trajetória política do país: a ausência de uma participação popular efetiva na conquista da independência; e a descontinuidade da democracia, que se consolidou tardiamente, em 1989, com a eleição direta do primeiro civil depois da ditadura militar.

Para Funari, a combinação dessas particularidades impediu a ruptura com os valores do clientelismo e da patronagem, herdados do período colonial, mesmo após a instituição do Estado de Direito. Por ainda se manterem presentes na sociedade brasileira, tais valores dificultariam a promoção da justiça social e a participação mais ativa das pessoas na vida política. "O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo. O diálogo com a experiência indiana é frutífero, pois se trata de um projeto completamente diferente do brasileiro. Estamos na infância e temos muito que aprender", concluiu.

ASPECTOS CONTEMPORÂNEOS

A segunda mesa abordou aspectos contemporâneos das democracias indiana e brasileira e foi mediada por Alfredo Bosi, do IEA e da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. O historiador Aditya Mukherjee, diretor do Instituto de Estudos Avançados Jawaharlal Nehru (JNIAS) da JNU, contestou a ideia de que o desenvolvimento econômico da Índia seja resultado de condições criadas pela Inglaterra na colonização. Para ele, a modernização da economia só foi possível com a democracia e o rompimento com o passado colonial promovido por Jawaharlal Nehru (1889-1964), líder do movimento pela independência e primeiro-ministro do país de 1947 a 1964.

Ao enfatizar o sucesso da tradição democrática indiana, Aditya Mukherjee não deixou de observar que ainda há muito a ser feito: "O desafio para a Índia é o mesmo que para o Brasil: garantir a igualdade e a justiça social. Embora a economia apresente altas taxas de crescimento, 40% das crianças hindus ainda são subnutridas".

A mesa foi fechada com a exposição de Renato Janine Ribeiro, professor da FFLCH e conselheiro do IEA, que tratou das diferenças entre república e democracia. De acordo com ele, esses conceitos são equivocadamente tomados como sinônimos, pois a república, ligada às elites, pressupõe o sacrifício dos interesses particulares em benefício do bem comum; a democracia, por outro lado, refere-se a uma forma de governo voltada para atender os desejos do povo.

Janine trouxe a discussão para o contexto atual da política brasileira ao associar os valores republicanos ao PSDB e os valores democráticos ao PT. Para ele, os governos psdebistas, como o do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, se preocupam com a questão republicana e, por isso, apostam no discurso racional do Estado de Direito. Já os governos petistas, como o do ex-presidente Lula, mais comprometidos com a democracia, investem nos sentimentos do povo e fazem uso de um discurso afetivo.

Segundo o pesquisador, "enquanto Lula ganhou muitos corações, Fernando Henrique chegou à mente de poucas pessoas. O exemplo dos países que vêm se tornando as maiores democracias do mundo demonstra a necessidade de líderes mais carismáticos, capazes de se comunicar com o povo a partir da emoção e de dar forma a uma ‘afetividade democrática’ sem comprometer os fundamentos do Estado de Direito".

DEBATE

Após as exposições, houve um debate estimulado por Ana Lydia Sawaya, pesquisadora da Unifesp e do IEA, e Laura Patrícia Izarra, da FFLCH.  O comentário de Mridula Muckherjee se destacou por amarrar algumas das ideias exploradas nas mesas. Ela ressaltou que a comunicação com o povo indiano foi essencial na luta pela independência e na consolidação da democracia.

De acordo com a historiadora, tanto Nehru quanto Gandhi, os dois grandes líderes do movimento, sabiam falar sobre ideias sofisticadas com pessoas sem instrução. "O mais importante foi levar os ideais anti-imperialistas ao povo. Gandhi soube defender a democracia sem abdicar da tradição. Dava aos símbolos hindus um novo sentido. Usava imagens milenares para simbolizar o ideal democrático".

 

Foto: MB/IEA-USP

Vídeos
Democracias de Alta Densidade: Índia e Brasil - Desenvolvimento com Democracia para o Sul Pós-Colonial: da 'Dependência' à Globalização

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A mesa-redonda aborda os aspectos contemporâneos das democracias do Brasil e da Índia. Aditya Mukherjee afirma que a modernização da economia indiana só foi possível devido à consolidação da democracia e ao rompimento com o passado colonial no país. Renato Janine discute o contexto atual da política brasileira a partir da distinção entre as os conceitos de república e democracia.

Democracias de Alta Densidade: Índia e Brasil - Construir e Aprofundar a Democracia em uma Sociedade Altamente Diferenciada

Democracias de Alta Densidade: Índia e Brasil - Construir e Aprofundar a Democracia em uma Sociedade Altamente Diferenciada

A mesa-redonda trata dos aspectos históricos ligados à instituição da democracia no Brasil e na Índia. Os expositores discutem as diferenças entre os movimentos de independência dos dois países. Mridula Mukherjee fala sobre a importância da população pobre no movimento indiano. Pedro Funari aborda a ausência de participação popular no movimento brasileiro e a descontinuidade da democracia no país.

EXPOSITORES

mridulamukherjee.jpgMridula Mukherjee
Professora de história contemporânea da Índia no Centro de Estudos Históricos (CHS) da Universidade Jawaharlal Nehru (JNU), Nova Delhi. Ex-presidente dos Arquivos de História Contemporânea e do CHS-JNU. Foi diretora do Museu e Biblioteca do Memorial Nehru, presidente do Congresso sobre a História Indiana Moderna e editora das "Obras Escolhidas" de Jawaharlal Nehru.

 

Aditya MukherjeeAditya Mukherjee
É diretor do Instituto de Estudos Avançados Jawaharlal Nehru da JNU, professor de história contemporânea da Índia no CHS-JNU e editor da série sobre história indiana moderna da Sage Publications. Integra o Conselho Indiano de Pesquisa Histórica desde 2008. Atuou como professor visitante na Duke University (EUA) e nos Institutos de Estudos Avançados de Nantes (França) e da University of Lancaster (Reino Unido). Foi bolsista da Japan Foundation Fellowship no Instituto de Cultura Oriental da Universidade de Tóquio.

pedropaulofunari.jpgPedro Paulo Funari
É diretor do Centro de Estudos Avançados (CEAv) e professor titular do Instituto de Filosofia e Ciência Humanas da Unicamp, pesquisador associado da Illinois State University (EUA) e da Universitat de Barcelona (Espanha) e professor do Programa de Pós-Graduação em Arqueologia da USP. Também atua como pesquisador do Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (Nepam) e do Programa de Doutorado em Ambiente e Sociedade da Unicamp.

Renato Janine - B&W Renato Janine Ribeiro
É professor titular de ética e filosofia política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) e conselheiro do IEA. Foi diretor de Avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) no período 2004-2008 e representante dos professores titulares no Conselho Universitário da USP. Entre suas obras destacam-se "A Sociedade contra o Social: o Alto Custo da Vida Pública no Brasil" (2000, Prêmio Jabuti de 2001) e "A Universidade e a Vida Atual — Fellini não Via Filmes" (2003).


DEBATEDORAS

Ana Lydia Sawaya pbAna Lydia Sawaya
Professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e coordenadora do Grupo de Pesquisa Nutrição e Pobreza do IEA. É doutora em nutrição pela University of Cambridge, Reino Unido, e realizou pós-doutorado e foi cientista visitante no Massachusetts Institute of Technology (MIT) e na Tufts University, EUA. Pesquisa o efeito da desnutrição energético-proteica em crianças, adolescentes e adultos e sua associação com a obesidade e risco de doenças crônicas. Estuda também o efeito da recuperação nutricional de crianças desnutridas.

lauraizarra.jpgLaura Patricia Zuntini de Izarra
É professora do Departamento de Letras Modernas da FFLCH, onde coordena a Cátedra de Estudos Irlandeses W. B. Yeats e os convênios de intercâmbio entre a USP e a National University of Ireland/Maynooth, a Queen's University Belfast e o St. Mary's College (Reino Unido). É membro do Conselho Internacional do An Foras Feasa: The Institute for Research in Irish Historical and Cultural Traditions (Irlanda). Atual mente coordena três projetos de pesquisa na área de estudos pós-coloniais, das diásporas e de estudos irlandeses e indianos.


MODERADORES

mariainesnogueira.jpgMaria Inês Nogueira
Professora do Departamento de Anatomia do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) e vice-diretora da Estação Ciência da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP. É doutora em neurobiologia pelo College of Arts and Science da New York University (EUA). É membro da Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento, da Society for Neuroscience e da Hands on Science Association.

Alfredo BosiAlfredo Bosi
Professor titular de literatura brasileira e professor emérito da FFLCH. Membro da Academia Brasileira de Letras. Foi diretor e vice-diretor do IEA, onde é o editor da revista "Estudos Avançados" desde 1989. É autor de "História Concisa da Literatura Brasileira" (1970), "O Ser e o Tempo da Poesia" (1977), "Dialética da Colonização" (1992), "Machado de Assis: o Enigma do Olhar" (1999), "Literatura e Resistência" (2002) e "Brás Cubas em Três Versões — Estudos Machadianos" (2006). Em 1992, recebeu a distinção Homem de Ideias, conferida pelo "Jornal do Brasil".

Fotos (a partir do alto): 1 e 2, IEA de Nantes; 3, Unicamp; 4, CPFL Cultura;
5, "Jornal do Campus"; 6, FFLCH; 7, ICB; 8, Mauro Bellesa
FOTOS
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Abertura do encontro por Martin Grossmann, diretor do IEA
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Mridula Mukherjee
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Mridula Mukherjee e Pedro Paulo Funari, expositores da primeira mesa
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Mridula Mukherjee e
Pedro Paulo Funari
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Mridula Mukherjee e
Pedro Paulo Funari
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Maria Inês Nogueira foi
a moderadora da primeira mesa
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Aditya Mukherjee
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Alfredo Bosi, moderador da segunda mesa, e Aditya Mukherjee
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Aditya Mukherjee e
Renato Janine Ribeiro,
os expositores
da segunda mesa
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Aditya Mukherjee
e Renato Janine Ribeiro
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As debatedoras Ana Lydia Sawaya
(primeira) e Laura Patricia
Zuntini de Izarra (segunda mesa)
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Debate
Foto: MB/IEA-USP
ACERVO ÍNDIA

CONTRASTING BRAZILIAN AND INDIAN EXPERIENCES AND STRATEGIES
Artigos apresentados em seminário realizado pelo IEA em outubro de 1993

THE IDEA OF INDIA IN THE 21st CENTURY
THE INDIAN ECONOMY SINCE INDEPENDENCE
Draft para discussão e artigo de referência para as apresentações de
Vinod Vyasulu no seminário "A ''Idéia de Índia' no Século 21",
realizado pelo IEA, ICB, FEA e FFLCH em maio de 2011