| REVISTA PUBLICAÇÃO QUADRIMESTRAL DO INSTITUTO DE ESTUDOS AVANÇADOS DA USP |
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As mudanças na religiosidade brasileira
As
mudanças no perfil tradicional da religiosidade também
é discutida por Antônio Flávio Pierucci, no artigo
"'Bye Bye, Brasil' - O Declínio das Religiões Tradicionais
no Censo 2000", onde identifica mudanças sociais aceleradas
no campo das religiões e o declínio demográfico
de três delas: catolicismo, luteranismo e umbanda. O exame das
crenças, envolvimento e poderes religiosos de um grande centro
brasileiro está em "Dimensões Básicas da
Religiosidade Belo-Horizontina", de Alexandre Cardoso, a partir
de levantamento feito em 2002 na região metropolitana da capital
mineira. CATOLICISMO Em "A Renovação Carismática Católica - Algumas Observações", Edênio Valle examina esse movimento católico a partir de uma perspectiva sociopsicológica. Ele apresenta as fontes, desenvolvimento e cenários atuais da RCC e reflete sobre como ela realiza as funções básicas da religião. EVANGÉLICOS José
Jeremias de Oliveira Filho traça um histórico da Igreja
Adventista do Sétimo Dia desde seu surgimento como seita na
primeira metade do século 19. O painel está no texto
"Formação Histórica do Movimento Adventista",
onde o autor também trata da presença dos adventistas
no Brasil entre o final do Império e início da República,
com as mesmas características iniciais do movimento, mas gerando
inúmeras seitas. AFRO-BRASILEIRAS Oswaldo
Elias Xidieh, no artigo "A Difícil Viagem de Retorno à
Aldeia", trata do movimento migratório no interior do
Estado de São Paulo. O autor destaca que parte desses andantes
buscava ajuda na umbanda, nem sempre se convertendo, outros se apegavam
aos sindicatos de trabalhadores rurais, outros ainda se aproximavam
de remificações mais abertas da Igreja Protestante. ESPIRITISMO,
XAMANISMO E BUDISMO A religiosidade indígena também está presente no dossiê, através do artigo "Pajés e Feiticeiros", de Carmen Junqueira. A autora estuda a relação entre pajelança e feitiçaria, atividades sociais que se opõem na cultura Kamaiurá. São examinados os procedimentos que acompanham doença e morte, ambos fatores de desordem no cotidiano da aldeia. Embora a mídia com freqüência afirme que o budismo é uma das religiões que mais cresce no Brasil, os dados das pesquisas recentes, inclusive dos censos, indicam exatamente o contrário. No artigo "O Dharma Verde-Amarelo Mal-Sucedido Um Esboço da Acanhada Situação do Budismo", Frank Usarski confronta essa imagem pública exagerada com a realidade empírica e discute de maneira sistemática os problemas e desafios principais com os quais o budismo brasileiro contemporâneo é confrontado. OUTROS
TEMAS O crescimento acentuado do número de brasileiros sem religião, sobretudo jovens de 15 a 24 anos, tem chamado a atenção dos estudiosos. No texto "O Jovens 'Sem Religião': Ventos Secularizantes, "Espírito de Época" e Novos Sincretismos Notas Preliminares", Regina Novaes aponta para a conjugação e a convivência entre: o ideário secularizante (presente entre ateus e agnósticos), o "espírito de Época" (presente entre aqueles que acreditam em Deus mas rejeitam instituições religiosas ou transitam entre pertencimentos institucionais) e, finalmente, as novas modalidades sincréticas (favorecidas pela perda da hegemonia do catolicismo e pela globalização do campo religioso). No artigo "A Propósito de um Texto de Habermas: A Herança Brasileira de um Dilema da Civilização Ocidental", Eduardo Cruz parte das idéias expressas por Jürgen Habermas em artigo sobre os acontecimentos de 2001. Segundo Cruz, Habermas fala do diálogo entre fé e saber apenas para o plano moral. Segundo Cruz, é preciso considerar também o aspecto cognitivo da religão e defende, no caso brasileiro, um esforço comum em face de ameaças como o criacionismo e em prol de uma educação que desenvolva a cidadania e o conhecimento são. Antônio Gouvêa Medonça, no artigo "A Experiência Religiosa e a Institucionalização da Religião", discute o duplo caminho, de ida e volta, entre a experiência religiosa psicológica e a religião institucionalizada ou igreja, no caso do Cristianismo. Para ele, esse percurso "apresenta o sagrado como constituinte ou constituído e é, ao mesmo tempo, conservador e transformador da religião". Para o autor de "Fronteiras da Fé Alguns Sistemas de Sentido, Crenças e Religiões no Brasil de Hoje", Carlos Rodrigues Brandão ressalta que, "para além da religião, o tempo cultural em que vivemos e para onde nos dirigimos inclui cada vez mais um número maior de estilos de espiritualidades, de outros sistemas de sentido, de combinações pessoais de saberes e valores que não apenas permitem, mas obrigam a própria pessoa-religiosa a interações de sentido, a integrações de escolhas, a indeterminações de seu próprio destino como um indivíduo e uma identidade". O dossiê traz como fecho a íntegra da conferência que o cardeal d. Paulo Evaristo Arns fez no IEA no dia 19 de outubro sobre o tema "A Paz entre as Religiões". Segundo o cardeal Arns, é preciso que as religões criem um clima de paz mundial: "Até agora pouco se apelou para o mundo das religiões, e menos ainda para a ação da juventude, nesta nova fase de enfrentamento do problema que se torna cada vez mais angustiante". A
edição se completa com mais duas seções:
"Entrevista" transcreve os trechos principais de depoimento
de Igacy Sachs sobre sua carreira aos editores da revista; em "Cinema",
Walnice Nogueira Galvão contribui com o texto "Metamorfoses
do Sertão", onde trata da presença de tipos emblemáticos
do interior brasileiro nas telas.
Conhecer o Brasil e o povo brasileiro nos seus mais diversos aspectos materiais e simbólicos eis um dos princípios que têm norteado as edições de EstudosAvançados. O dossiê sobre as religiões no Brasil contempla uma das marcas com que os cidadãos se auto-identificam ao lado da nacionalidade, do sexo, da idade, da cor, do estado civil, da escolaridade, da profissão etc. A objetividade dos números foi o primeiro alvo a ser atingido mediante a consulta ao último Censo efetuado pelo IBGE em 2000. Estudos Avançados agradece aos autores do "Atlas da Filiação Religiosa e Indicadores Sociais no Brasil", coeditado pela PUC do Rio de Janeiro e Edições Loyola, que autorizaram a transcrição dos comentários de abertura, bem como dos mapas impressos em encarte. Junto aos resultados do recenseamento, que interessam de perto à Demografia e à Sociologia da Religião, o leitor encontrará estudos que visam ao conhecimento da religião enquanto experiência pessoal ou comunitária. Crenças motivam diversidade de percepções, projetos de vida, padrões éticos, tendências políticas e toda uma gama de comportamentos que vêm sendo objeto das Ciências Humanas em regime transdisciplinar: a palavra está com os filósofos, os historiadores, os antropólogos, os psicólogos e por que não? com os teólogos. Outros números da revista poderão suprir as lacunas que todo empreendimento desta abrangência costuma apresentar. Alfredo
Bosi
EDITORIAL DOSSIÊ
RELIGIÕES NO BRASIL ENTREVISTA CINEMA |