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Cinemateca Brasileira, um projeto de vida de Paulo Emílio Salles Gomes

por Mauro Bellesa - publicado 05/10/2017 12:45 - última modificação 10/11/2017 09:47

O crítico e professor de cinema Ismael Xavier foi o expositor do seminário "Dirigentes Culturais: Dos Anos 50 à Atualidade - Paulo Emílio Salles Gomes", realizado na Cinemateca Brasileira no dia 3 de outubro.
Ricardo Ohtake e Ismael Xavier - Dirigentes Culturais 2 - 3/10/17
Ricardo Ohtake (à esq.) e Ismail Xavier no encontro sobre a atuação de Paulo Emílio Salles Gomes como gestor da Cinemateca Brasileira

O crítico, pesquisador e professor de cinema Paulo Emílio Salles Gomes (1916-1977) foi a personagem fundamental do processo de criação e consolidação da Cinemateca Brasileira. Nada mais natural, portanto, que ele fosse um dos gestores abordados pelo ciclo Cultura, Institucionalidade e Gestão, organizado pela Cátedra Olavo Setubal de Arte, Cultura e Ciência, parceria do IEA com o Itaú Cultural.

Para falar sobre a atuação de Paulo Emílio na Cinemateca, o atual titular da cátedra, Ricardo Ohtake, diretor do Instituto Tomie Ohtake, convidou o crítico e professor de cinema Ismail Xavier, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.

Na abertura do seminário, ocorrido na própria Cinemateca, no dia 3 de outubro, e com o título Dirigentes Culturais 2: Dos anos 50 à Atualidade - Paulo Emílio Gomes, Ohtake lembrou que Paulo Emílio dedicou-se à Cinemateca Brasileira desde os anos 40 e foi professor e orientador de mestrado de Xavier, aluno da primeira turma de cinema da ECA, tornando-se depois colega do crítico no corpo docente da escola.

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    "Criada no final de 1966, a ECA teve a sorte de no processo de seleção de docentes para o curso de cinema ter contato com críticos e cineastas vindos da Cinemateca, como Paulo Emílio, Rudá de Andrade, Jean-Claude Bernardet, Roberto Santos e Maurício Capovilla", segundo Xavier. Dessa maneira, "uma cultura e uma forma de ver as questões do cinema foram transpostas da Cinemateca para a ECA."

    Paulo Emílio Salles Gomes
    Paulo Emílio Salles Gomes

    Um dos legados de Paulo Emílio foi a preocupação com as circunstâncias do momento social onde a produção cultural se realiza: "Sua juventude, durante o Estado Novo, foi marcada pela militância política. Acabou preso em dezembro de 1935. Mas em fevereiro de 1937, ele e outros 16 presos empreenderam uma fuga cinematográfica do Presídio do Paraíso por meio de um túnel com 10 m". Em seguida, exilou-se na França, onde conheceu a Cinemateca Francesa, criada um ano antes.

    Xavier disse que na Cinemateca Francesa acabou conhecendo Plínio Sussekind Rocha, um dos fundadores do Chaplin-Club, principal cineclube do Rio de Janeiro, que funcionou de 1928 a 1931, "local de produção da melhor crítica de cinema até aquele momento". Essa experiência francesa despertou em Paulo Emílio a paixão pelo cinema, afirmou o expositor.

    De volta a São Paulo em 1940, ele ingressa na então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP para estudar filosofia e participa do grupo de estudantes responsável pela revista "Clima", entre eles Antonio Candido, Décio de Almeida Prado, Gilda de Melo e Souza e Lourival Gomes Machado, "todos herdeiros da tradição modernista de 1922, mas direcionados para a crítica de literatura, cinema e artes visuais". O grupo também criou o Primeiro Cineclube de São Paulo.

    Cinemateca Brasileira
    Corredor de entrada da Cinemateca Brasileira, instalada desde 1997 no antigo matadouro da cidade de São Paulo

    No livro "Plataforma de uma Geração", organizado por Mário Leme em 1943 (publicado apenas em 1945, com o fim do Estado Novo), Paulo Emílio relaciona em seu artigo todos os textos clássicos relevantes para a militância política dos jovens do período interessados na lógica do processo social, mas termina o texto com uma frase sintomática: "Do Brasil a gente não sabia nada", comentou Xavier

    "Paulo Emílio se preocupava com o fato de os jovens não saberem que não bastava a teoria, que era preciso também conhecer a realidade e ser atento à literatura sobre a formação do país. Ele também se preocupava com ao combate ao dogmatismo, pois em sua estada na França tinha tido acesso a discussões mais aprofundadas sobre o stalinismo e sobre os Processos de Moscou, coisas pouco debatidas no Brasil. Por isso ele voltou de lá com uma postura antidogmática."

    Em 1946 ele voltou à França, desta vez para estudar no Instituto de Altos Estudos Cinematográficos (Idhec, na sigla em francês), "um lugar importante e com a participação de muitos críticos e cineastas". Nesse período, que se prolonga até 1954, entra em sua vida com mais intensidade a questão da pesquisa. "O resultado será um livro sobre o cineasta Jean Vigo [1905-1934], publicado em 1957 na França, onde se tornou um clássico, e só lançado no Brasil no final dos anos 70. Além de aspectos biográficos, o livro traz uma análise detalhada de cada filme de Vigo."

    Nesse segundo período na Europa, Paulo Emílio foi vice-presidente da Federação Internacional de Arquivos de Filmes (Fiaf, na sigla em francês). Nessa época também um grupo de seus amigos, entre os quais Francisco Luiz de Almeida Salles, Benedito Junqueira Duarte e Rubem Biáfora, criaram o Segundo Clube de Cinema de São Paulo, que depois se tornou a filmoteca do Museu de Arte Moderna (MAM).

    "Quando voltou, Paulo Emílio se tornou conservador-chefe dessa filmoteca, que se desligou do MAM em 1956, dando origem à Cinemateca Brasileira, "o projeto de vida de Paulo Emílio, em paralelo à sua atuação como crítico e professor", segundo Xavier. "Sua presença é marcante em todos os aspectos da vida da Cinemateca, e ele passou essa preocupação com a instituição às novas gerações."

    Na época (1955 a 1963) em que escreveu críticas de cinema no "Suplemento Literário" do jornal "O Estado de S.Paulo", Paulo Emílio tratou da Cinemateca em muitos artigos, que "viraram uma tribuna sobre ela, para falar da necessidade de recursos e despertar o interesse pela instituição nos próprios cinéfilos".

    Xavier ressaltou a importância da Cinematecas de São Paulo e Rio de Janeiro na formação dos cineastas e críticos desde os anos 40, ligados ao Cinema Novo e a outras tendências.

    Segundo Xavier, o processo que levou à consolidação da Cinemateca teve como prioridade a constituição, preservação e restauro do acervo, "até com certo conflito com a outra finalidade dela, que é a difusão dos filmes". Para ele, essa foi uma decisão de Paulo Emílio como gestor que possibilitou que a instituição se tornasse líder na América Latina e a terceira do mundo em termos de preservação.

    No início dos anos 70, a Cinemateca não tinha como pagar funcionários e fazia suas atividades com jovens voluntários cineclubistas, explicou Xavier. "Ela só saiu dessa crise em 1975, quando passou a se articular com a Secretaria de Cultural Municipal, que tinha à frente o crítico teatral Sábato Magaldi." Nesse ano ela resgatou sua personalidade jurídica e criou um Conselho Consultivo. Em 1977 foi declarada de utilidade pública pela Prefeitura. "Paulo Emílio teve um trabalho enorme para que ela fosse regularizada e pudesse receber verbas públicas."

    Durante o debate que se seguiu, foi perguntado a Xavier se a Cinemateca ocupa hoje o mesmo papel de destaque na formação de cineastas críticos. Ele disse que esse papel foi desempenhado primeiro (a partir dos anos 20) pelos cineclubes, depois, nos anos 30, começam a surgir as cinematecas pelo mundo, que absorvem essa função, e, finalmente, a partir dos anos 70, são os cursos de cinema em universidades que passam a responder por essa formação. "Mas como é muito raro uma universidade possuir um acervo relevante, os cursos geralmente dependem de um convênio com cinematecas, como é o caso da parceria entre a ECA e a Cinemateca Brasileira."

    Fotos (a partir do alto): 1) Leonor Calasans/IEA-USP; 2) e 3) Acervo da Cinemateca Brasileira