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As exposições panorâmicas da arte contemporânea brasileira e africana

Encontro "Exposições 5: 'Meio Século de Arte Brasileira' e 'Africa Africans', do ciclo 'Cultura, Institucionalidade e Gestão", aconteceu no dia 21 de novembro. Os expositores foram Agnaldo Farias e Emanoel Araújo.
Agnaldo Farias e Emanoel Araújo - 21/11/17
Agnaldo Farias (à esq.) e Emanoel Araújo foram os expositores do encontro

O quinto encontro sobre exposições que marcaram a cena artística brasileira tratou de dois projetos: um sobre a produção nacional desde os anos 50 e outro sobre a pouco conhecida arte contemporânea africana.

Realizado no dia 21 de novembro, o evento teve como expositores o crítico e curador Agnaldo Farias, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, e o artista, curador e dirigente cultural Emanoel Araújo, diretor do Museu Afro Brasil.

Farias falou sobre o projeto "Meio Século de Arte Brasileira", produzido pelo Instituto Tomie Ohtake em 2006 e 2007. Araújo tratou da exposição "Africa Africans", organizada pelo Museu Afro Brasil em 2015.

A coordenação do evento foi de Ricardo Ohtake, titular da Cátedra Olavo Setubal de Arte, Cultura e Ciência e diretor do Instituto Tomie Ohtake. A cátedra é responsável pelo ciclo "Cultura, Institucionalidade e Gestão", do qual o encontro fez parte.

A atualidade africana

Para explicar como chegou à concepção da "Africa Africans", Araújo relembrou suas atividades relacionadas com as culturas africana e afro-brasileira, inclusive a criação do Museu Afro Brasil.

Segundo ele, a ideia de criação do museu surgiu a partir de uma exposição realizada no Museu de Arte de São Paulo (Masp) em 1988 para comemorar o centenário da Abolição da Escravatura. A exposição também marcava o lançamento do livro "A Mão Afro-Brasileira", que Araújo organizou motivado por uma visita ao Senegal em 1987. "O livro destinava-se a mostrar quem foi o negro brasileiro e como ele contribuiu para a cultura do país."

Depois daquela exposição, ele foi convidado a ser professor visitante de artes gráficas e escultura na Universidade da Cidade de Nova York, EUA. De volta ao Brasil, assumiu a direção da Pinacoteca do Estado de São Paulo, onde permaneceu de 1992 a 2002 e realizou uma reforma profunda, "de quase dez anos", tanto do edifício quanto do perfil artístico da instituição.

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Em 1998, ele organizou na Pinacoteca uma exposição com trabalhos do fotógrafo malinês Seydou Keïta, com apoio da Fundação Cartier de Paris. "Ali começou o meu interesse na produção contemporânea da África. Depois fiz uma mostra sobre a fotografia africana e brasileira, vista por pouca gente."

Depois de visitar um festival de arte negra na Nigéria e algumas visitas ao Benin, Araújo teve a ideia de fazer uma exposição sobre arte contemporânea africana. "Vi no Benin trabalhos de artistas admirados em Nova York, Londres e Paris." De acordo com ele, foi preciso realizar um esforço enorme para trazer alguns artistas, pois muitos já tinham contratos com galerias estrangeiras.

A "Africa Africans" se articulou com uma exposição de 2007, também no Museu Afro Brasil, sobre a arte do Benin. "Eu trouxe todos os artistas cujos trabalhos já tinham sido apresentados aqui. Vieram para a exposição e depois os levei para a Bahia, onde fizemos um seminário internacional para discutir a arte tradicional da África e sua arte contemporânea."

Repercussão

O esforço de Emanoel Araújo e sua equipe para organizar a "Africa Africans" foi recompensado. A mostra teve uma visibilidade bem maior do que as outras iniciativas dele sobre arte africana e ganhou o prêmio de Melhor Exposição de 2015 da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).

No final de apresentação, Araújo desabafou sobre a dificuldades para organizar uma exposição de grande porte: "O trabalho de um museu é sempre muito complexo e quando uma exposição sai da vida da gente, fecha-se um capítulo. Toda vez que temos de falar de uma exposição dessas é um 'revival' de um momento difícil, dos problemas para trazer as obras para um país muitas vezes indiferente às exposições. Mas isso deve ser feito, pois faz parte das atribuições de um museu."

Exposição "Africa Africans" - Museu Afro Brasil
"Skyline" (2008), obra de El Anatsui apresentada na exposição "Africa Africans" do Museu Afro Brasil, em 2015

"Não temos estrutura. A equipe humana é maravilhosa, mas faltam recursos para embalagem, transporte, seguro e outras despesas. Nos custa muito de esforço físico, psicológico, financeiro."

Processo

Perguntado por Martin Grossmann, coordenador da Cátedra Olavo Setubal, sobre seu processo curatorial e como chegou aos nomes que compuseram a exposição, Araújo explicou que teve de ir a Londres, Paris e Benin para ver os artistas, bem como analisar como eles são recebidos nos seus lugares de origem. "Na África não há museus com suas obras e os artistas vivem em lugares muito distintos e distantes, no continente africano e no exterior."

Do ponto de vista da concepção de uma mostra, ele afirmou que se "encanta em armar" a exposição, não propriamente elaborar o conceito de ela. "O conceito a gente elabora na hora. As coisas vão se encontrando, se armando."

Quanto aos resultados da exposição, tema de pergunta da plateia, Araújo disse não saber dizer o quanto ela tocou as pessoas. Para ele, a função do museu é mostrar a produção artística. "O importante é que as pessoas sejam informadas que existem artistas fora do circuito internacional tradicional e que há mercado para eles nos Estados Unidos, França e Reino Unido e espaço nos museus desses países."

O projeto de Araújo não se restringe à arte contemporânea africana. Ele quer tratar das matrizes africana, indígena e portuguesas da cultura Brasileira. "Resolvi iniciar com a arte da África e recentemente fizemos a exposição portuguesa."

Arte brasileira

O conjunto de exposições "Meio Século de Arte Brasileira" foi o projeto mais importante concebido - em parceria com Ricardo Ohtake - por Agnaldo Farias, quando trabalhava no Instituto Tomie Ohtake, segundo ele próprio.

"A ideia era fazer uma exposição que materializasse a missão do instituto: dar a ver a produção dos anos 50 para cá, período de atuação de Tomie Ohtake, e fazer projeções para o futuro."

Farias frisou que a definição das fases do período foi relativamente arbitrária, como todo recorte, e o panorama apresentado não esgota a diversidade da produção de mais de meio século. "Uma característica essencial do projeto foi ter vários curadores, com a abertura para visões particulares."

As quatro exposições

A primeira das quatro exposições foi "Pincelada, Pintura e Método, Projeções da Década de 50", em 2006, com curadoria de Paulo Herkenhoff. "Ele privilegiou a pintura, abrindo espaço para a relação entre gesto, pincel e matéria pictórica." Mas não houve restrição à pincelada:  o uso de espátula e da mão e procedimentos como o arrancar de massas de tinta e a cobertura sutil de áreas da tela também foram considerados, disse Farias.

A curadoria da exposição "Arte como Questão - Anos 70", ocorrida em 2007, foi de Glória Ferreira. Farias explicou que o objetivo foi tratar da arte de extração conceitual, relacionada com o processo de elaboração da obra, difundida a partir do final dos anos 60. Nesse período, adquirem importância os textos dos artistas. "Mas nem todo artista escreve e isso já significou trazer a produção de artistas mais autocríticos, com o risco de mostrar trabalhos esquemáticos. A arte conceitual também deu margem a muita bobagem, a trabalhos críticos  sem muito conteúdo."

"Meio Século de Arte Brasileira", volume 1
"Meio Século de Arte Brasileira", volume 1, dedicado à primeira exposição (sobre os anos 50) do ciclo

A grande novidade dos anos 70, de acordo com Farias, foram os artistas que negavam as formas tradicionais. "As instalações se tornam muito importantes, mas os artistas não tinham espaço onde realizá-las e não havia galerias dispostas a apresentar esses trabalhos, de difícil comercialização. Mario Zanine reuniu muitos documentos de artistas conceituais e de arte postal em dois armários do MAC. Esse acervo possibilitou a Glória montar a exposição."

"80/90 - Modernos, Pós-Modernos etc." foi o tema escolhido por Farias para ser o curador. A exposição aconteceu em 2006. "Guardei esse período para mim, por me ser muito caro. Levantei mais de 30 coleções, fiz uma pesquisa muito grande." A mostra apresentou trabalhos de 71 artistas, entre os quais Nelson Felix, Leda Catunda, Alex Flemming, Jorge Guinle, Ana Maria Tavares, Alex Vallouri, Leonilson, Adriana Varejão e Paulo Monteiro.

A quarta fase foi contemplada na exposição "Geração da Virada, 10+1: Os Anos Recentes da Arte Brasileira", em 2006, com Farias e Moacir dos Anjos como curadores. "A mostra tratou da produção de 1995 a 2005. "Chegamos até os coletivos, que eram o que havia na época."

Documentos

"As exposições de arte costumam desaparecer, viram uma vaga memória, e em geral não costumam ter textos, o que é algo da maior gravidade. E quando há textos jornalísticos sobre elas, eles costumam ser de caráter opinativo, com o objetivo de derrubar ou, às vezes, de elogiar, o que não significa nada", comentou Farias.

Por isso a preocupação fundamental em relação à série "Meio Século de Arte Brasileira" foi realizar a documentação das exposições da melhor forma possível, com textos extensos, reflexivos, com muitas referências e resultantes de pesquisas. "Também tive o cuidado de fazer as plantas e fotos de todas as exposições. A intenção foi produzir material de referência, pois estavam começando a nascer os cursos de curadoria."

Fotos: (a partir do alto): 1) e 3) Matheus Araújo/IEA-USP; 2) Museu Afro Brasil