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Biodiversidade, clima e pandemias exigem novo modelo de desenvolvimento

"Vetores Saudáveis: O Relacionamento entre Pandemias, Clima e Biodiversidade", segundo encontro de série de webinars organizada pelo IEA, Pró-Reitoria de Pesquisa e Aciesp, foi realizado no dia 28 de maio.

Desmatamento na Amazônia
Destruição de florestas reduz biodiversidade, contribui para o aquecimento global e pode colocar seres humanos em contato com vírus causadores de pandemias

As conexões, similaridades e diferenças entre as crises de perda de biodiversidade, do clima e de saúde púbica em função da pandemia da Covid-19 foram exploradas em webinar no dia 28 de maio.  Foi o segundo encontro da série de webinars Vetores Saudáveis, organizada pelo IEA, Pró-Reitoria de Pesquisa da USP e Academia de Ciências do Estados de São Paulo (Aciesp).

O ecólogo Carlos Alfredo Joly, do Instituto de Biologia da Unicamp tratou das  questões relativas à biodiversidade e da importância dos próprios vírus para ela. “Eles constituem, possivelmente, a classe de organismos mais abundante. Surgiram há 3,5 bilhões de anos e se desenvolveram incorporando estruturas dos organismos em que se hospedaram. E continuam a ter importância no processo evolutivo.”

Vírus perigosos

Joly explicou que há dois grupos de vírus mais problemáticos: a família dos betacoronavírus, da qual o Sars-CoV-2, causador da Covid-19, faz parte; e o grupo dos arbovírus, transporta por mosquitos, carrapatos, borrachudos e outros insetos e responsáveis por doenças como a febre amarela, zika, dengue e chikungunya.

“Os betacoronavírus se hospedam em mamíferos e, em geral, não infectam o homem diretamente, mas por meio de um hospedeiro secundário. Os arbovírus também se hospedam em mamíferos e quando uma pessoa é infectada passa a ser a transmissora para outras pessoas.”

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No caso do Sars-CoV-2, tudo indica que num mercado chinês que também vende animais vivos para serem abatidos e eviscerados no local, passou de morcegos para pangolins e destes para o homem.

“No Brasil come-se tatu, paca, cotia, capivara e outros animais silvestres, mas não há transmissões desse tipo”, talvez pelo fato de o abate e a evisceração não acontecerem como nos mercados asiáticos, mas sim com menor densidade de pessoas, disse Joly.

“Entretanto, estamos num processo de enorme desmatamento, mais acentuado no atual governo. Estamos criando condições para o homem entrar em contato com animais que podem ser reservatórios de vírus. Estamos aumentando as possibilidades de pandemias futuras.”

Biodiversidade e fármacos

Apesar de incluir vírus e outros micro-organismos que causam doenças no homem, a biodiversidade também abriga moléculas que, uma vez transformadas em fármacos, são utilizadas no tratamento de doenças, ressalvou o ecólogo. “Muitos antivirais, inclusive contra o HIV e a herpes, tiveram origem em substâncias presentes em esponjas marinhas.”

Do ponto de vista ambiental, o que mais preocupa, segundo Joly, é como será o pós-pandemia. “Além de nos voltarmos para uma economia independente de carbono, será preciso pensar na saúde coletiva, num sistema único que envolva a saúde do planeta e a saúde humana.”

Os aspectos relacionados com as mudanças climáticas foram o tema da exposição do físico Paulo Artaxo, integrante do IEA e do Instituto de Física da USP e vice-presidente da Aciesp.

Para ele, a perda de biodiversidade, as mudanças climáticas e a pandemia de Covid-19 são três crises que refletem a superexploração da natureza, a falta de governança global e a visão de curtíssimo prazo dos sistemas político e econômico. No caso da governança em relação ao combate à Covid-19, comentou o fato de que países próximos um dos outros, como Bélgica, França, Luxemburgo e Alemanha, adotaram política de enfrentamento da doença diferentes. “Lidar com uma pandemia global dessa maneira é impossível.”

As três crises têm também vários aspectos comuns, afirmou. Um dele é a tomada de decisão ter de se basear em conhecimento científico. O problema é que “governos autoritários rechaçam a ciência quando ela vai contra seus interesses”.

Aquecimento global

A redução da biodiversidade e a pandemia encontram uma crise climática em andamento. “Em média, o planeta já aqueceu um 1 grau. Em algumas regiões do Nordeste a elevação foi de 2,3 graus e em partes do leste da Amazônia já está perto de 2 graus.  Dependendo da emissão de gases, a temperatura média no Brasil pode subir 4 ou 5 graus. Isso terá impactos socioeconômicos como os da Covid-19. A chuva no Nordeste pode diminuir 30%. O Semiárido vai virar uma região árida. O que fazer com 20 milhões de brasileiros que vivem lá?”

De acordo com estudos, as emissões de gases efeito estufa terão redução de 4% em 2020 em relação ao ano passado, “mas o IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU] diz que temos de reduzir 7% todos os anos até 2050”, disse Artaxo.

Segundo ele, muitas áreas do planeta ficarão inabitáveis, com mais de 52 graus no verão. “O limiar de sobrevivência das florestas tropicais poderá ser ultrapassado, com mais perda de carbono para a atmosfera e agravamento do efeito estufa. Os efeitos serão migrações em massa, dificuldade de produção de alimentos, secas e inundações.

A diferença entre as três crises é de ordem temporal, afirmou: “A Covid-19 deve durar um ano, um ano e meio, a climática demorará séculos e a perda da biodiversidade será para sempre. Pode aparecer algum tratamento para a Covid-19, mas não há vacina para as outras duas crises”.

Revisão de prioridades

Uma das consequências da pandemia foi trazer à tona questão sobre onde a sociedade investe seus recursos intelectuais e financeiros, destacou Artaxo. “Os Estados Unidos gastam de 2 a 3 trilhões de dólares em máquinas de guerra, mas agora tem 100 mil mortos em quatro meses por causa de um vírus com 120 nanômetros de tamanho.”

Ele frisou que a pandemia mostrou vulnerabilidades importantes no Brasil, como a falta de respiradores suficientes, “uma vulnerabilidade que deveria ser inaceitável”.

“Para aumentar a resiliência da humanidade às três crises é preciso mudar o modelo de desenvolvimento”, afirmou

Em função da ocorrência de outras epidemias e pandemias, como a do HIV e de mais recentes como as do H1N1 e do ebola, a possibilidade de uma pandemia como a atual vinha sendo prevista há algum tempo, segundo o especialista em medicina coletiva Nelson Gouveia, do IEA e da Faculdade de Medicina da USP.

Ele disse que a governança global tinha certa articulação e instrumentos para enfrentar a pandemia, como o Código Sanitário Internacional e o monitoramento por centros sentinelas da Organização Mundial da Saúde (OMS) espalhados pelo mundo, mas isso não foi suficiente. “Depois que a pandemia passar será possível avaliar a atuação das organizações de saúde internacionais e dos países.”

Futuras pandemias

Assim como Joly e Artaxo, Gouveia destacou a possibilidade de novas pandemias, por conta, principalmente, da relação intima de pessoas com habitats pouco explorados ou inexplorados. “Quanto mais o homem avança as fronteiras agrícolas, desmata e tem contato com animais selvagens, maiores as possibilidades.”

Ele também reforçou o comentário de Joly sobre a importância da preservação, uma vez que os diversos ecossistemas também são reservatórios de moléculas importantes. “Mais da metade dos remédios nas farmácias tem origem em moléculas presentes na natureza.”

Entre os impactos das mudanças climáticas na saúde humana, Gouveia citou a difusão de arboviroses. “O aquecimento do planeta fornece as condições para que os mosquitos transmissores desses vírus migrem para latitudes onde antes não tinham como sobreviver.”

Segundo Paulo Artaxo, isso já está acontecendo, com o aumento da área de incidência da malária, por exemplo, via vetores que acompanham o clima. “A chegada da dengue e da malária na Europa já está prevista para os próximos anos.”

Sistemas de saúde

Uma lição que deve ser aprendida com a pandemia é a importância de sistemas universais de saúde, afirmou Gouveia. “Apesar de subfinanciado e sucateado durante anos, se não fosse o nosso SUS, estaríamos numa situação bem pior. Precisamos fortalecer o sistema para nos proteger.”

“A segunda lição é cuidar do planeta e reconhecer que tudo está conectado, que a redução da biodiversidade e as mudanças climáticas têm impactos diversos na saúde e na economia.”

Para ele, a Covid-19 ressaltou a importância de a saúde estar nas mesas de decisão de vários fóruns internacionais. “No pós-pandemia, precisamos discutir como enfrentar essas questões ambientais e de saúde com um pouco mais de consciência.”

O pró-reitor de Pesquisa da USP, Sylvio Canuto, o diretor do IEA, Guilherme Ary Plonski, e a presidente da Aciesp, Vanderlan Bolzani, também fizeram intervenções na abertura e durante a fase de debate do encontro, que teve como instigador Jean Paul Metzger, do IEA e do Instituto de Biociências da USP.

Metzger quis saber de Joly se a biodiversidade é uma ameaça ou uma solução, uma vez que nela estão presentes tanto os agentes patógenos e quanto substâncias que podem propiciar a produção de remédios.

Para Joly, não há dúvida de que a biodiversidade é a solução: “Dependemos de todos os serviços ecossistêmicos. Obtemos algumas vantagens do funcionamento de seus processos naturais.”

Ele exemplificou com a capacidade da floresta amazônica de retirar CO2 da atmosfera e transpirar a umidade do solo, criando assim os chamados “rios voadores”, que levam a umidade para outras partes do país. “Toda a produção agrícola do Sudeste e do Centro-Oeste depende desse serviço.”

Não devem ser esquecidos também os benefícios culturais e até psicológicos que a relação com a natureza proporciona, afirmou.

“Se quiséssemos eliminar todos os hospedeiros de vírus que nos causam doenças, teríamos de eliminar todos os mamíferos, inclusive o homem.”

Valor econômico

Quanto à monetização de mecanismos de proteção da biodiversidade e de serviços ecossistêmicos levantada por pergunta do público, Joly disse que essa é uma tendência crescente. Segundo ele, o relatório de 2017 da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos indicou que os serviços de polinização representavam 11 bilhões de dólares ao câmbio da época, “valor tão importante na balança comercial quanto ao da pecuária”.

Sobre a atuação empresarial diante desse panorama de crises, questão apresentada por Guilherme Ary Plonski, Joly respondeu que em termos de biodiversidade há um envolvimento maior da área empresarial, mas pouca interlocução com os governos. “Polinização e restauração despertam maior interesse de empresas privadas, pois a questão monetária envolvida é mais facilmente demonstrável.” Para ele, não há nenhum problema na busca de rentabilidade, “desde que seja orientada por uma base cientifica”.

Outros cinco temas foram abordados no debate: negacionismo, conscientização sobre as três crises, educação básica, interdisciplinaridade e divulgação científica.

Para Artaxo, tem havido um crescimento da divulgação científica nos últimos cinco anos, à medida que várias descobertas repercutem em aspectos econômicos e da saúde. “Um dos efeitos da pandemia é mostrar como a ciência é essencial para a nossa sociedade, não apenas para o desenvolvimento econômico.”

Perguntado sobre a dificuldade de conscientização da população sobre as   mudanças climáticas, afirmou que esperar isso da população de baixa renda é um pouco demais, diante das dificuldades de sobrevivência que ela enfrenta. “Nos países desenvolvidos, essa conscientização já existe, mas as pessoas não querem deixar de andar em carros de mais de 3 toneladas e de manter seu nível de consumo insustentável.”

Negacionismo

Metzger quis saber dos três expositores como viam o clima anticiência presente no Brasil, associado a medidas de flexibilização ambiental, inclusive com discursos de estímulo a práticas ilegais.

Para Artaxo, o negacionismo científico do governo federal não pode ser extrapolado para toda a sociedade. “O que há é um negacionismo não só em relação à ciência, mas também em relação à democracia, ao judiciário, contra as instituições e a legalidade. o negacionismo do atual governo federal ocorre porque a ciência não está dando as respostas que ele gostaria.”

Para Joly, havia nas décadas de 60 e 70 a expectativa de que a ciência poderia resolver todos os problemas, mas as crises climática e da biodiversidade e os desastres naturais foram aumentando e as respostas demoraram. Com isso, diminuiu a confiança na ciência, pois “as expectativas não se realizaram”.

“Isso levou países e organizações científicas a promoverem a pesquisa interdisciplinar direcionada à solução de problemas. O fato de termos hoje uma recuperação da expectativa positiva sobre a ciência é porque a pandemia é um problema emergencial e a ciência está dando uma resposta mais rápida do que costuma dar, e por meio de uma cooperação internacional.”

Sylvio Canuto também enfatizou a importância da interdisciplinaridade: “A priorização de área é extremamente perigosa, pois quando a sociedade coloca um problema para a ciência ele não é de química, de física ou de biologia.”

Gouveia destacou que o descrédito na ciência se tornou um problema mundial e citou os movimentos antivacina surgidos nos últimos anos como exemplo.

Educação básica

Para elevar o nível de conscientização sobre mudanças climáticas, riscos à biodiversidade e outras questões, Gouveia disse que as ações devem começar nos anos iniciais da formação escolar, com a introdução desses temas nas diretrizes curriculares, como já acontece em várias escolas e lugares. “Deveria ser uma política pública de educação.”

Para Vanderlan Bolzani, há uma “discrepância assustadora” entre o nível elevado de várias áreas cientificas do país e o da educação. “Num país tão diverso, com tantas diferenças sociais, falta o lastro de conhecimento básico para entender a importância da biodiversidade, das questões climática e da Amazônia.”

“Enquanto cientistas, temos de trazer a sociedade para a defesa da ciência, mas para essa defesa ocorrer é preciso que as pessoas tenham um mínimo de educação. E mais bem educadas podem escolher melhor os governantes.”

Foto: Felipe Werneck/Ibama