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Graduandos da USP vivem experiência como pesquisadores em censo de comunidades

por Nelson Niero Neto - publicado 13/06/2019 10:55 - última modificação 17/06/2019 17:00

Treinamento Cátedra - 06
Coordenadores do censo participam de reunião no IEA com os pesquisadores

Na sala de reunião do IEA, um grupo de graduandos de diferentes cursos da USP conversavam e comparavam as experiências do censo que realizam nas comunidades vizinhas da Universidade com os resultados de outra pesquisa, a que mapeia as comunidades do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro. Elencando semelhanças e diferenças, a educadora e ativista social e cultural Eliana Sousa Silva instigava a discussão.

O encontro era uma atividade da iniciativa que, desde janeiro, coleta informações diversas nas comunidades Jardim São Remo (vizinha à Cidade Universitária, no Butantã) e Jardim Keralux e Vila Guaraciaba (vizinhas à Escola de Artes, Ciências e Humanidades  EACH, na Zona Leste). Com 38 entrevistadores no total, o censo é feito por graduandos da USP, todos bolsistas do projeto Pontes e Vivências de Saberes, da Cátedra Olavo Setubal de Arte, Cultura e Ciência [leia mais no box abaixo].

Além dos alunos da graduação, participam do censo mestrandos e doutorandos da universidade, que atuam como supervisores de campo, acompanhando e mobilizando o trabalho dos recenseadores. A pesquisa tem o apoio de alguns moradores das comunidades, que atuam como articuladores e facilitam o primeiro contato entre os alunos e os entrevistados.

Apoio institucional e financeiro
O censo é custeado com recursos orçamentários da USP, com apoio da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão, por intermédio de seu Programa Aproxima-Ação; da Pro-Reitoria de Graduação, por meio do Programa Unificado de Bolsas (PUB); da Superintendência de Assistência Social (SAS); da Procuradoria Geral da USP; e também do Itaú Cultural e da Fundação Tide Setubal. O programa é regulamentado por um edital que definiu os critérios de seleção dos pesquisadores.

Eliana, que é responsável pela coordenação do projeto, acredita que os pesquisadores podem enxergar relações entre suas vivências e o trabalho de campo. Isso porque todos eles são moradores ou ex-moradores de periferias paulistanas. Na correria do dia a dia, explicam alguns, não há muito tempo para olhar ao redor e conversar demoradamente com vizinhos. A rua é, muitas vezes, apenas um caminho para a escola ou o trabalho. Na pesquisa, a experiência de circular pelas comunidades tem outra finalidade: ouvir pessoas e atentar-se para os problemas urbanos e sociais. Isso mudou totalmente a maneira como olham a favela, contam.

Treinamento Cátedra - 04
Eliana Sousa Silva orienta bolsistas em um treinamento para o trabalho de campo do censo das comunidades vizinhas à USP

“Como sempre me considerei ativista, achava que sabia falar sobre a favela”, diz Manfrin, de 24 anos, que faz mestrado em artes cênicas e supervisiona a atividade na São Remo. “Mas o censo tem esse olhar clínico, de observação, de espaço de escuta. Está sendo muito importante para entender o que eu considero favela de fato”.

Entrevistas

A pesquisa em campo teve início em fevereiro, após diversos treinamentos no IEA e o contato com os articuladores locais. Todas as semanas, eles trabalham por 10 horas, que podem ser distribuídas da maneira que preferirem. Geralmente, são duas ou três visitas à comunidade. A conclusão da pesquisa domiciliar está prevista para dezembro, mas o mapeamento do comércio e das atividades culturais seguirá até 2020.

Mesmo contando com o suporte dos supervisores e articuladores para explicar o projeto para as comunidades, os graduandos realizam as entrevistas sem acompanhamento, para garantir que o morador se sinta mais à vontade para responder às perguntas. As questões abordam escolaridade, gênero e cor/raça com a qual os moradores se identificam, profissão, hábitos culturais, condições de moradia e também como veem a infraestrutura urbana da região em que vivem, entre outros temas. Demandas como asfaltamento de ruas ou coleta do lixo são tópicos comuns nas conversas. Há, ainda, um levantamento do número de cães e gatos nas comunidades [leia mais no quadro ao final da matéria].

Os graduandos enxergam as entrevistas como situações de trocas de experiências, em que ambas as partes podem ensinar e aprender, e não apenas um preenchimento mecanizado do questionário. “Eu tenho aprendido com as percepções que os moradores têm sobre algumas situações. E eles também comentam que aprendem com as perguntas, ao se questionarem sobre questões que nunca haviam pensado profundamente, como gênero e cor/raça”, conta Patrícia Gomes, de 24 anos, estudante do curso de pedagogia e entrevistadora no Jardim Keralux.

Boas-vindas

São Remo
Pesquisadores caminham em uma das ruas da São Remo

A recepção dos moradores aos estudantes e ao projeto é algo destacado pelo grupo. “Mesmo com todas as dificuldades que têm em suas vidas, essas pessoas nos recebem de uma maneira maravilhosa”, conta Jacqueline Jaceguai, supervisora do Jardim Keralux e Vila Guaraciaba. Formada em ciências sociais, Jacqueline pesquisa favelas há 12 anos e aborda em seu mestrado o tema mudança social e participação política. “Estamos na periferia da periferia, pois a EACH já é vista como um espaço periférico. Então, o censo é uma oportunidade desses moradores serem vistos. É uma esperança de os problemas serem divulgados e de mudanças ocorrerem nesses espaços”.

Modelo inspirador
O censo nas comunidades do Jardim São Remo, Jardim Keralux e Vila Guaraciaba é uma atividade da Cátedra Olavo Setubal de Arte, Cultura e Ciência, parceria do IEA com o Itaú Cultural. Iniciado em janeiro de 2019, quando Eliana Sousa Silva era titular da cátedra, o projeto é inspirado no censo que ela coordenou no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, que reúne 16 comunidades e cerca de 140 mil moradores.

Na Maré, além de reunir informações sobre a distribuição da população e do comércio, a presença da mulher no território, as religiões praticadas e a questão étnico-racial, o projeto ainda publicou um guia geográfico, evidenciando ruas e espaços que não eram reconhecidas pelo Estado. Após a publicação, a prefeitura do Rio reconheceu mais de 500 logradouros.

Entre esses problemas, estão um enorme descarte de lixo a céu aberto e a poluição do córrego da região. Além disso, as duas comunidades estão em expansão horizontal, ao contrário da São Remo. Jacqueline conta que a equipe do censo descobriu barracos recém-construídos, de madeira, à beira do córrego, o que evidencia a necessidade de mostrar a realidade dessas pessoas. Para ela, não há dúvida que a Keralux e a Vila Guaraciaba estão esquecidas pelo poder público.

Carla Maria, estudante de história de 21 anos e que realiza as entrevistas na Vila Guaraciaba, conta que a receptividade dos moradores foi importante para facilitar a realização da pesquisa. Por não morar na comunidade, as primeiras visitas e entrevistas foram marcadas por um certo embaraço e timidez para abordar perguntas pessoais. Mas, sendo bem recebida desde o início, ela passou a se sentir mais à vontade. Algumas visitas depois, as pessoas já a reconheciam na rua e a cumprimentavam.

Olhar profissional

Além da experiência pessoal, o censo enriquece a formação e a carreira profissional dos estudantes. A historiadora Eduarda Rodrigues, de 25 anos, atualmente graduanda em Letras, é professora de história do Cursinho Popular Florestan Fernandes, ligado à FFLCH. Nas entrevistas com os moradores da São Remo, ela relaciona sua trajetória com as perguntas ligadas à educação e alfabetização. “Tento entender, nas conversas, se o morador sabe ler, escrever, ou se teve que parar de estudar para trabalhar. Com isso, podemos concluir, por exemplo, quantas pessoas da São Remo não terminaram os estudos”, diz. “Quando trago isso para a minha vivência, como professora, é muito proveitoso”.

Jardim Keralux
Com o questionário em mãos, bolsista do censo conversa com morador do Jardim Keralux

A saúde e a prevenção de doenças também são temas levantados no censo. Algumas questões abordam, por exemplo, motivos que levaram moradores a pararem de trabalhar ou a importância da prevenção de riscos. Nesse sentido, os graduandos também encontram relações entre o trabalho de campo e a formação profissional.

Luciana Marques, de 30 anos, é formada em ciências sociais e hoje cursa saúde pública. Entrevistando na São Remo, ela sente que sua atuação vai além do recenseamento e também inclui sua formação como sanitarista. “Quando falamos, por exemplo, se as crianças da casa tomaram as vacinas necessárias, eu costumo reforçar essa importância e indicar locais que oferecem esse serviço”, conta. Cobrindo uma área da comunidade em que a população é mais pobre e as casas são mais vulneráveis, Luciana acredita que para alguns moradores as conversas do censo são momentos únicos, em que, abordando temas relacionados à saúde, eles podem dialogar e tirar dúvidas sem pressa ou constrangimento.

Mesmo estando em um estágio mais avançado da vida acadêmica, os supervisores de campo também sentem que o censo agrega muito para suas formações profissionais. Doutorando na geografia e formado em gestão ambiental pela EACH, Danilo Pereira Sato, 30 anos, inicialmente se interessou pela oportunidade de acompanhar a organização de dados. “Quando fiquei sabendo da proposta, percebi que ela envolvia tanto o aspecto de campo como o aspecto dos dados e geoprocessamento. Me inscrevi para contribuir com essa segunda questão, que é uma área que trabalho há muitos anos”, conta. Danilo também atua na supervisão do Jardim Keralux e da Vila Guaraciaba, dando suporte aos entrevistadores e esclarecendo questões da organização e coleta sistemática de dados.

Articulação

Vila Guaraciaba
Recenseadores caminham em uma das ruas da Vila Guaraciaba

Um papel foi determinante para fechar o elo que torna a pesquisa possível, o dos articuladores. Moradores das comunidades, eles mobilizam o contato entre os alunos, supervisores e entrevistados, e ajudam a divulgar a ideia e o objetivo do projeto. Além da disseminação do censo de boca em boca, um carro de som passou pelas ruas anunciando o projeto antes do início das pesquisas. Mas, buscando atingir o maior número possível de pessoas, os articuladores seguem explicando e convencendo os moradores da importância de participar.

Camila Santos, de 33 anos, é dona de uma quitanda na São Remo e exerce esse papel de articuladora junto com o marido, Eraldo. “O censo pode ajudar a São Remo, e os moradores sentem isso. Pode trazer uma conscientização para os jovens, que às vezes estão sem uma ocupação no momento, mas podem se envolver e ajudar”, conta. “E nós aprendemos bastante com os alunos. Sentamos e conversamos com eles. A relação é muito prazerosa”.

A supervisora Manfrin vê o estreitamento das comunidades com a USP como um ponto “importantíssimo” da proposta, mas diz que também há uma importância macropolítica. “Como presenciei na São Remo situações muito parecidas com a comunidade em que cresci, eu passei a olhar a situação até tirando a identidade do lugar: não é só mais a São Remo, a Keralux ou a Vila Guaraciaba. Como a maioria dos acontecimentos sociais dentro do Brasil, são realidades espelhadas”, afirma. “Então o censo tem um potencial enorme de ser um projeto modelo na maneira de olhar a pesquisa dentro das comunidades”.

Para Patrícia, entrevistadora do Jardim Keralux, a iniciativa pode ressignificar o que é ser favelado. “Há um estereótipo da favela. Mas, ao ouvir esses moradores, é possível entender um pouco melhor as estratégias de sobrevivência”, diz. Um aspecto nesse sentido é o trabalho informal. “Alguns entrevistados me contaram que não trabalhavam, que não tinham emprego. Mas eu fiquei intrigada e perguntei, como você se sustenta então? E eles me disseram que fazem uma série de bicos e trabalhos informais. Elas não veem isso como um trabalho, mas é. É a forma que elas encontraram de sobreviver. Então nossa tarefa também é dar voz para essas pessoas e desmistificar a forma como os outros veem os pobres”.

Entender para melhorar

O censo nas comunidades no entorno da USP coletará dados diversos, como número de habitantes, composição da população por faixas etárias, escolaridade, condições de moradia, infraestrutura urbana, conforto ambiental, atividades comerciais, instituições públicas e privadas que atuam na comunidade e moradores que desenvolvem ações culturais, esportivas e de comunicação. Um censo animal também faz parte das atividades — parceria com a Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP e coordenado pelo professor Oswaldo Baquero, o levantamento está contabilizando o número de cães e gatos nas comunidades.

“O sentido desse trabalho é simbólico e político”, explica Dálcio Marinho, um dos coordenadores e responsável pelo treinamento dos pesquisadores. Geógrafo com especialização em pesquisa de mercado e opinião pública, ele também participou do censo do Complexo da Maré. “Além da invisibilidade no contexto da cidade, a favela é marcada por um discurso pautado pela ausência e a carência. É a chamada ‘comunidade carente’. Mas carente do quê? De sociabilidade, por exemplo, não é. É preciso definir e denominar quais são essas necessidades, até para o morador poder explicá-las, justificá-las, no momento de reivindicar melhorias”.

Para Dálcio, essa característica do projeto pode ajudar a acabar com a estigmatização e a vitimização da população que mora em favelas. “Como fazer isso? Produzindo conhecimento, superando a invisibilidade, trabalhando com base no que a comunidade tem, ou seja, suas potências, e não só com base nas carências”.

A conclusão da pesquisa domiciliar está prevista para dezembro, com divulgação dos resultados em fevereiro de 2020. O término do mapeamento dos empreendimentos comerciais e das instituições comunitárias deve acontecer em abril de 2020.

Treinamento Cátedra 05A relevância de um censo local está relacionada, entre outros fatores, com a busca por informações específicas. O Censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), por ser uma pesquisa de abrangência nacional, não é capaz de se voltar para determinadas características específicas de cada território, explica Dálcio Marinho.

“Em um contexto de demandas sociais tão acentuadas como o das favelas, é oportuno levantar informações para além das observadas no censo oficial do país”, diz. Outra razão é a representatividade amostral dos dados coletados. Em São Paulo, por exemplo, a fração amostral no Censo do IBGE é de 5%, ou seja, a cada vinte domicílios, um é entrevistado. “No nível municipal, essa amostra apresenta um bom grau de precisão, mas no caso de populações menores, se torna imprecisa”.

O censo das comunidades vizinhas à USP pretende entrevistar todas - ou praticamente todas - as residências. “Para ser admitido como um levantamento censitário, buscamos alcançar, no mínimo, 92% dos domicílios”, explica Dálcio. Segundo o Censo do IBGE de 2010, a São Remo e o Jardim Keralux têm cerca de 8 mil moradores cada um, enquanto a Vila Guaraciaba, cerca de 500.

Fotos (a partir do alto): 1 - Martin Grossmann; 2 - Leonor Calasans/IEA-USP; 3 - Manfrin/Cátedra Olavo Setúbal de Arte, Cultura e Ciência; 4 e 5 - Danilo Pereira Sato; 6 - Leonor Calasans/IEA-USP