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Novo grupo de estudos formulará propostas para ensino básico público

por Mauro Bellesa - publicado 11/08/2017 12:30 - última modificação 16/08/2017 17:06

IEA cria Grupo de Estudos Educação Básica Pública Brasileira: Dificuldades Aparentes, Desafios Reais.
Crianças em sala de aula

O ensino básico público precisa melhorar em muitos aspectos, mas o sistema educacional brasileiro não é um completo fracasso, como muitos avaliam, segundo Nílson José Machado, professor da Faculdade de Educação (FE) da USP e coordenador do Grupo de Estudos Educação Básica Pública Brasileira: Dificuldades Aparentes, Desafios Reais, criado recentemente no IEA.

Entre as ações que julga primordiais para a melhoria do sistema, Machado defende: a elaboração de um projeto de Estado para a educação; a melhoria das condições de trabalho dos professores; aplicação dos recursos disponíveis em projetos relevantes e objetivos; a ênfase no ensino das ideias fundamentais de cada disciplina; e a formulação de estratégias para o reconhecimento das boas escolas e para que seu exemplo inspire outras instituições de ensino.

O objetivo do novo grupo é produzir com parceiros internos e externos à Universidade, dos setores público e privado, documentos que inspirem e fundamentem ações para o atendimento a essas prioridades. Esse trabalho será feito a partir da dedicação a três linhas de ação:

  • organização de debates e diálogos sobre os reais problemas da educação brasileiras, com a participação de profissionais atuantes na área de educação em diferentes frentes, incluindo-se os diversos níveis de ensino, bem como os setores público e privado;
  • mapeamento das boas escolas brasileiras, para identificação de características comuns apesar da diversidade de projetos institucionais, de forma a propor condições para que o número dessas escolas seja ampliado;
  • mapeamento de pontuais portadoras de ideias inovadoras, tanto em termos de tecnologias utilizadas quanto em termos de metodologias ou gestão, com o objetivo de formular práticas para a disseminação dessas experiências.

Para concretizar essas metas, o grupo promoverá um ciclo de cinco seminários de agosto a dezembro de 2017. Ao final do ciclo, cada linha de ação apresentará um documento. Os três trabalhos constituirão uma síntese das discussões realizadas e das ações propostas a ser encaminhada às instâncias decisórias educacionais.

Os temas dos seminários em cada mês são:

  • agosto (dia 21) - Magistério na Educação Básica Pública: Qual o Perfil? Quais as Condições de Trabalho?
  • setembro - Qualidade da Educação Básica Pública: O Que Realmente Significa Isso?
  • outubro - Escolas e Experiências Inovadoras O Que se Pode Admirar, apesar de Tudo?
  • novembro - Tecnologias, Educação à Distância, Escola Integral: Em Que Pé Estamos?
  • dezembro - Documentos Oficiais (Currículos, Base Nacional, Planos): Eles Impelem ou Impedem as Ações Educacionais?

 

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Além de Machado, fazem parte do grupo outros nove pesquisadores da USP: Chao Wen, da Faculdade de Medicina; Elie Ghanem, da Faculdade de Educação; Guilherme Ary Plonski, vice-diretor do IEA; Helena Singer, do IEA e diretora da Associação Cidade Escola Aprendiz; Hélio Dias, do Instituto de Física; Lino de Macedo, da Escola Politécnica; Luiz Carlos de Menezes, do Instituto de Física; Paulo Saldiva, diretor do IEA;  e Yvonne Mascarenhas, do IEA e do Instituto de Física de São Carlos.

Razões supostas e reais da crise

"Proclamar a existência de uma crise na educação básica brasileira é fácil, pois não faltam dados que supostamente a caracterizam e razões tidas como legítimas para justifica-la”, segundo Machado.

“Entretanto, algumas das narrativas mais sedutoras sobre o tema situam as raízes das dificuldades em problemas aparentes, desviando o foco das atenções dos desafios reais a serem superados.”

Um dos falsos argumentos é atribuir os problemas educacionais à falta ou ao despreparo de professores, afirma o coordenador do grupo. “A falta de professores em algumas áreas está diretamente relacionada às condições de trabalho oferecidas; esse é o problema a ser enfrentado.”

Ele lembra que a USP possui um programa de pós-graduação em ensino de ciências e matemáticas há décadas, responsável pela formação de centenas de mestre e doutores e, “no entanto, uma porcentagem ínfima de tais professores encontra-se em salas de aulas na escola básica”.

“Quanto mais bem preparado se torna um professor, mais ele se afasta da sala de aula da escola básica, buscando melhores condições de trabalho em outros espaços.”

A insuficiência de recursos também não pode ser responsabilizada pelas dificuldades, de acordo com Machado. Para ele, um país com tantas carências não pode almejar ter recursos suficientes para a educação e saúde. “A carência é a regra, mas isso não inviabiliza ações significativas e transformadoras. O problema real a ser enfrentado, no caso, é a inexistência de projetos bem fundamentados, com objetivos bem definidos, nos diversos níveis de ensino.”

Falta ao país um projeto de Estado para a educação, na opinião de Machado, que critica a preocupação excessiva com a melhoria em indicadores - “sem sempre confiáveis ou expressivos da real situação do país” - e inciativas em que os meios assumem o lugar dos fins: “Metas ambiciosas como fornecer um computador a cada aluno podem parecer bandeiras defensáveis, mas não passam de pseudoprojetos”.

“São inúmeros os exemplos em que os recursos alocados são imensos, sem a contrapartida de uma melhoria efetiva nas práticas educacionais. Por outro lado, existem projeto pontuais em andamento ou já concluídos em que, mesmo com poucos recursos, a mobilização efetiva as transformações esperadas são plenamente reconhecidas.”

Outro problema do ensino básico seria o excesso de conteúdos ensinados, com o agravante de não haver uma visão interdisciplinar e/ou transdisciplinar, o que resulta na intenção de reduzir drasticamente o número de disciplinas. Para Machado, o problema real a ser enfrentado é a apresentação de cada disciplina de modo “excessivamente fragmentado, inclusive a língua portuguesa e a matemática”.

Ele considera que o meio eficaz para combater essa fragmentação excessiva é o reconhecimento e a valorização das ideias fundamentais de cada disciplina, deixando-se de lado a imensa quantidade de pormenores presentes em cada uma delas.

Machado também questiona a visão de muitos de que o sistema educacional brasileiro é um completo fracasso, concepção errônea reforçada após a divulgação dos resultados de avaliações periódicas realizadas por várias instâncias nacionais e internacionais. “Ao dar mais destaque ao desempenho negativo do que aos múltiplos exemplos de boas escolas, nos diferentes níveis de ensino, os programas governamentais alimentam uma política de terra arrasada, deixando de estimular parceiros importantes na busca da melhoria no ensino.”

“O problema real é encontrar caminhos e estratégias para que as boas escolas sejam reconhecidas e sejam arquitetadas formas de articulação de ações coletivas, de modo a que seus exemplos inspirem outras escolas.”

Segundo Machado, há uma série de outras pretensas soluções que não contribuem efetivamente para a melhoria do ensino, entre elas figuram:

  • a ampliação do ensino profissionalizante "sem uma discussão substantiva sobre significado do profissionalismo e do que caracteriza uma boa formação profissional na atualidade";
  • a busca da implementação de escolas de tempo integral, "em vez da compreensão do que seja a 'escola integral', que trata da formação total do indivíduo como pessoa e está efetivamente integrada à comunidade que serve";
  • a ênfase no estímulo ao “protagonismo” dos alunos, quando "o que realmente importa é uma formação que os torne capazes de qualquer papel que lhes caiba na sociedade, seja o de protagonista, seja o de coadjuvante ou mesmo o de mero figurante.”

Foto: Ludi/Pixabay.com