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Conferência aborda experiência artística transcultural entre brasileiros, ianomâmis e alemães

Na primeira conferência temática da Intercontinental Academia, Laymert Garcia dos Santos falou sobre a concepção da ópera multimídia "Amazônia — Teatro Música em Três Partes".

 Laymert Garcia dos Santos - ICAO processo de criação artística da ópera multimídia "Amazônia — Teatro Música em Três Partes" foi apresentando por Laymert Garcia dos Santos na conferência Mito e Tecnociência na Amazônia Transcultural, realizada na segunda-feira, dia 20, como parte da programação da Intercontinental Academia (ICA). 

Resultado de um esforço de cooperação internacional e transcultural envolvendo pesquisadores brasileiros, artistas alemães e índios ianomâmis da aldeia Watoriki, na fronteira com a Venezuela, a ópera trata do futuro da floresta amazônica a partir da perspectiva ocidental, de matriz tecnocientífica, e da xamânica, de matriz mitológica.

Segundo Santos, que é professor do Departamento de Sociologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o objetivo do experimento artístico foi reunir duas visões distintas sobre o futuro da floresta amazônica — uma baseada no pensamento mágico e outra no pensamento racional  — e encontrar um denominador comum em torno do qual produzir a obra. A obra foi produzida de 2006 a 2010 a partir de uma parceria entre o Instituto Goethe, a Bienal de Munique, o Centro de Arte e Mídia ZKM Karlsruhe e a Associação Ianomâmi Hutukara, e apresentada na Bienal de Teatro Música de Munique, Alemanha, e no Sesc Pompeia, São Paulo, em 2010, e no Festival "Out of Control" de Viena, Áustria, em 2013.

Para chegar a essa síntese entre a cosmologia xamânica e a tecnocientífica, estabeleceu-se um diálogo transcultural entre os indígenas e o "homem branco", baseado numa relação simétrica e de respeito mútuo. "Era preciso que as duas visões dialogassem e preservassem suas essências, sem se submeterem uma à outra. A ideia foi integrar, e não apagar as diferenças entre elas", explicou.

O conferencista comparou o processo de criação da ópera ao formato da ICA. De acordo com ele, ambas iniciativas consistem em reunir atores de culturas diversas e integrar suas cosmologias, perspectivas e visões de mundo em prol de um objetivo comum. "Trata-se não de superar os mal-entendidos, mas de transformá-los em mal-entendidos produtivos", disse, parafraseando o antropólogo francês Bruce Albert.

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A opção por uma ópera multimídia e transcultural foi fruto de uma aposta na emoção como forma de sensibilizar a sociedade sobre o problema do desmatamento na Amazônia. O foco, afirmou Santos, era abordar a questão através da arte, usando uma estratégia diferente da convencional, a qual apela para a razão a partir de informações tecnocientíficas, em geral restritas a dados, números e gráficos. "Queríamos refletir sobre por quê, mesmo sabendo que temos que parar o desmatamento, não paramos."

A ÓPERA

Santos explicou cada uma das três partes que compõem a ópera a partir da exibição de trechos. A primeira, "Tilt", foi inspirada na carta de Walter Raleigh à rainha Elizabeth I, na qual o explorador relata sua expedição pela região do rio Orinoco, próximo ao território dos ianomâmis na Venezuela, e afirma ter descoberto o lugar lendário que os espanhóis chamavam de "El Dorado".

Sonorizada com ruídos urbanos, essa seção introdutória remete ao passado, mais especificamente à perspectiva dos antigos descobridores da América, mas se passa no futuro, num tempo em que a floresta foi devastada e já não existe. Segundo Santos, "Tilt" mostra que o futuro da floresta foi selado num passado distante, com a chegada dos europeus. O "homem branco", encarnado na figura de Raleigh, seria o porta-voz da destruição vindoura.

"Queda do Céu", segunda parte da obra, trata do futuro da floresta na perspectiva mítica dos ianomâmis. Perpassada por cantos indígenas e sons da natureza, tal como ouvidos na mata, a narrativa mostra o triunfo de Xawara — espírito do mal que simboliza a ganância do "homem branco" — sobre os xamãs. O desfecho do embate resulta no apocalipse, ao qual a mitologia ianomâmi se refere como "queda do céu".

A última parte, "Conferência Amazônica", subdivide-se em três momentos: 1) "Paraíso", que explora, a partir de dados e modelos matemáticos, os processos bioquímicos que garantem o equilíbrio dos ecossistemas e a biodiversidade em nível molecular; 2) "Conferência", no qual cientistas, políticos, xamãs e economistas debatem o futuro da floresta e chegam à conclusão de que já é tarde demais para conter o processo de devastação; e 3) "Entropia", que expõe o colapso do paraíso anunciado por ianomâmis e ocidentais, com a destruição das cadeias moleculares imprescindíveis para os ciclos vitais da natureza e a consequente destruição da floresta.

Na avaliação de Santos, a ópera revela que, embora sejam calcadas em lógicas muito diferentes, a cosmologia xamânica e a racionalidade tecnocientífica estão de acordo em relação ao futuro da floresta: diante do atual ritmo de desmatamento, o fim é inevitável. "Trata-se de uma morte anunciada", observou.

Foto: Fernanda Rezende/IEA-USP