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Atividade da Intercontinental Academia mostra facetas da desigualdade social e da interculturalidade na cidade de São Paulo

por Flávia Dourado - publicado 20/04/2015 18:35 - última modificação 10/08/2015 16:00

No roteiro "Centralidades ↔ Periferias", os participantes da ICA conheceram um pouco dos impactos das desigualdades socioeconômicas e da diversidade cultural na organização do espaço urbano da capital paulista.

Os contrastes entre a região central e periférica da cidade de São Paulo foram apresentados aos participantes da Intercontinental Academia (ICA) no roteiro científico-cultural "Centralidades ↔ Periferias", realizado no domingo, dia 19. A atividade incluiu, ainda, uma exposição sobre as relações entre fluxos migratórios e interculturalidade na capital paulista.

O percurso teve início no centro da cidade, com passagem pelo Pátio do Colégio, marco da fundação da cidade de São Paulo; pela Faculdade de Direito (FD) da USP, no Largo São Francisco; e pela Catedral da Sé. Na segunda etapa do trajeto, os participantes conheceram as imediações da região central e ouviram um pouco sobre as especificidades do bairro Pacaembu e do bairro Canindé, onde visitaram a Praça Kantuta. Na terceira etapa, o itinerário foi pela periferia da capital, passando pela Vila Madeiros, na Zona Norte, com parada para o almoço no restaurante Mocotó; pela USP Leste, no Jardim Matarazzo; e pelo Centro de Recuperação e Educação Nutricional (Cren), na Vila Jacuí, ambos na Zona Leste.

A atividade foi coordenada por Sylvia Dantas, coordenadora do Grupo de Pesquisa Diálogos Interculturais do IEA e professora da Unifesp; Ana Lydia Sawaya, coordenadora do Grupo de Pesquisa Nutrição e Pobreza do IEA e também professora da Unifesp; Fernando Aith, conselheiro da Cátedra Unesco de Educação para Paz, Direitos Humanos, Democracia e Tolerância, sediada no IEA, e professor da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP); e Suzana Pasternak, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP.

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INTERCULTURALIDADE

Dantas explicou que São Paulo foi erguida com auxílio de imigrantes oriundos de várias partes do mundo, sobretudo os de origem japonesa e italiana, que chegaram na primeira metade do século 20 para suprir a demanda de mão-de-obra no campo e nas indústrias e exerceram grande influência na conformação cultural da cidade.

Segundo a professora, nas últimas décadas a capital vem passando por novos fluxos imigratórios, dentre os quais se destaca o de bolivianos, que já somam mais de 300 mil. Atraídos pelo crescimento da economia brasileira, esses imigrantes vêm para São Paulo em busca de emprego e melhores condições de vida. Muitos, em situação ilegal no país, submetem-se a condições de trabalho degradantes, caracterizadas por baixa remuneração e jornadas extenuantes, em confecções nos bairros Bom Retiro e Brás.

Praça Kantuta

Os participantes da ICA tiveram a oportunidade de conhecer um pouco do universo desses imigrantes na Praça Kantuta, onde uma feira boliviana reúne cerca de 3 mil pessoas todos os domingos para cultivar a gastronomia, o artesanato, o folclore e as danças típicas de diversas regiões da Bolívia. Rodrigo González, vice-presidente da Associação Gastronômica Cultural e Folclórica Boliviana "Padre Bento", que organiza a feira, falou aos pesquisadores sobre a importância do evento semanal para a transmissão da cultura boliviana às gerações que já nascem no Brasil e para a promoção das trocas culturais com brasileiros e outros imigrantes latino-americanos.

CIDADE LEGAL X CIDADE ILEGAL

Na passagem pelo Pacaembu, Martin Grossmann, diretor do IEA, fez uma exposição sobre o plano arquitetônico do bairro. Baseado no modelo "cidade-jardim", o projeto foi inspirado na arquitetura britânica da era vitoriana e buscou respeitar a topografia da região, o que resultou em ruas com traçado sinuoso e em casas com grandes terrenos e áreas jardinadas.

Grossmann observou que a organização urbana do bairro, reservado à elite paulista, contrasta com condições precárias de habitação no centro da cidade, onde usuários de droga e sem-teto dormem nas calçadas ou ocupam prédios vazios, resistindo ao movimento de expulsão da classe de baixa renda das ditas "centralidades".

Aith lembrou que esse contraste trata-se de um dos efeitos do crescimento acelerado pelo qual São Paulo passou sobretudo a partir da década de 1950. Nesse período, intensificou-se um processo de urbanização descontrolada, marcada pela ocupação caótica do espaço, que dividiu a capital em dois mundos distintos: a cidade legal, provida de planejamento urbano, habitações regulares e serviços públicos, como transporte, rede de água e de energia, escolas e hospitais; e a cidade ilegal, que cresce em direção à periferia e em meio à miséria, dando origem a favelas e moradias precárias de todo tipo.

De acordo com o conselheiro, a dificuldade de ter acesso a habitações regulares na "cidade legal", imposta pelas profundas desigualdades socioeconômicas que marcam a cidade de São Paulo, empurram a população pobre para locais cada vez mais distantes do centro, onde não há infraestrutura adequada de transporte, saúde, saneamento básico e educação.

Nessas regiões periféricas, os indivíduos  ocupam terrenos de terceiros (privados ou do Estado) e dão início às chamadas "autoconstruções" — casas feitas de material barato e construídas com mão-de-obra dos próprios moradores e vizinhos. Aith frisou que, somente quando a ocupação irregular já está em estado avançado e é irreversível, o Estado mobiliza-se para "legalizar" o local a partir de projetos de reurbanização.

PERIFERIA

Periferia

A transição entre a cidade legal e a cidade ilegal pôde ser observada à medida que o roteiro do passeio avançou em direção à periferia. Na Vila Medeiros, os pesquisadores da ICA conheceram um exemplo de bairro periférico reurbanizado, que teve início com ocupação irregular. Nos arredores da USP Leste, viram casas precárias estabelecidas num parque ecológico, onde a construção é proibidas pelas leis ambientais.

O grupo teve um panorama mais detalhado das condições de vida na periferia a partir da exposição de Sawaya sobre o trabalho desenvolvido pelo Cren da Vila Jacuí, bairro que surgiu com a ocupação irregular de uma área de manancial que integra uma reserva ecológica.

Embora já tenha sido "reurbanizada", a Vila Jacuí ainda carece de infraestrutura e serviços públicos e é dominada pelo tráfico de drogas. Com um dos menores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) da Zona Leste de São Paulo, o bairro tem no Cren um instrumento para melhoria da qualidade de vida da população.

O Centro atua desde 1993 no combate e prevenção à subnutrição e obesidade infanto-juvenil, fazendo avaliação nutricional, do desenvolvimento e da aprendizagem; tratando infeções; educando; e promovendo a inserção no mundo da cultura. Para isso, conta com um hospital-dia, que recebe cerca de 100 crianças e oferece diariamente cinco refeições balanceadas para cada uma.

Além de contribuir para a recuperação e educação nutricional da população infanto-juvenil, o Cren serve como um espaço de reunião familiar e de prática de atividades diversas: há computadores disponíveis para a comunidade, uma brinquedoteca e uma infraestrutura para o desenvolvimento de atividades físicas e culturais (música, teatro, dança e esportes).

Sawaya, que é ex-coordenadora e atual diretora científica do Cren, ressaltou a importância do projeto como uma iniciativa para desenvolver o protagonismo juvenil e dar oportunidades para jovens e crianças se afastarem da criminalidade. De acordo com ela, das pessoas que frequentam o Centro, 60% têm um familiar na prisão e 70%, um familiar envolvido com uso de drogas ou abuso do álcool.

A professora destacou que, ao longo dos 23 anos de funcionamento, o projeto já atendeu 3 milhões de crianças e contribuiu para reduzir substancialmente o número de assassinatos no bairro.

Fotos: Rafael Borsanelli/IEA-USP (no alto) e Fernanda Rezende/IEA-USP