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Descentralização da produção de conteúdo informacional pode enfraquecer democracia e exige leitor mais crítico

por Nelson Niero Neto - publicado 14/11/2019 18:10 - última modificação 21/11/2019 17:05

Seminário "Jornalismo, Mídias Digitais e Literacia Informacional", que aconteceu no IEA no dia 6 de novembro, discutiu as mudanças do jornalismo causadas pelos meio digitais e as oportunidades que surgem neste cenário

Alexandre Amaral, Karina Yamamoto e Ricardo GandourO enxugamento das redações de jornais e revistas e o aumento do uso das redes sociais por políticos podem ser uma ameaça ao funcionamento pleno do regime democrático brasileiro, segundo o jornalista Ricardo Gandour, diretor nacional de jornalismo da rede de emissoras de rádio CBN e diretor de conteúdo do Grupo Estado de 2000 a 2016. A combinação destes dois fatores pode expor a sociedade a mais informações “oficiais ou oficiosas” — muitas vezes, não jornalísticas.

As conclusões de Gandour estão em sua dissertação de mestrado, defendida este ano, e foram apresentadas no seminário Jornalismo, Mídias Digitais e Literacia Informacional, que aconteceu no IEA no dia 6 de novembro. Também participaram o estudante de jornalismo da ECA-USP Alexandre Amaral, que falou sobre literacia midiática ou “alfabetização midiática e informacional”, e a jornalista Karina Yamamoto, debatedora no seminário. Os três são membros do Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade do IEA, que organizou o encontro.

Estruturas de produção jornalística

Inserido nas redações de jornais desde o início dos anos 1990, Gandour testemunhou o enxugamento das equipes por conta de demissões. Os cortes são frutos da crise do modelo de negócios que a mídia tradicional enfrenta desde o final do último século, causada não apenas pela popularização dos meios digitais, segundo ele.

Ricardo Gandour
O jornalista Ricardo Gandour
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“Mesmo antes da internet, já se percebia uma mudança de hábitos de leitura da sociedade, causada por uma transformação no ritmo de trabalho e de vida”. Isso, somado à popularização da internet e dos meios digitais e à queda da receita com publicidade, levou à crise do modelo de negócios do jornalismo tradicional, avalia.

Com a crise do jornalismo, veio também a popularização do uso das redes sociais, inclusive pelos políticos — tradicionalmente, fontes dos repórteres. No Facebook, Twitter e Instagram, dentre outros, políticos passaram a se comunicar diretamente com seus eleitores. O que pode ser entendido por muitos como “comunicação direta” ou “política direta”, para Gandour é um desvio: em vez de receber informações oriundas de redações jornalísticas, onde se seguem princípios para a produção de reportagens, a sociedade pode passar a receber apenas o “lado oficial” da informação.

As redes sociais também permitiram que qualquer pessoa produzisse conteúdo, sem no entanto levar em conta princípios básicos do jornalismo. “Muita coisa que surge neste ecossistema de informações não oriundas de redações parece jornalismo, mas não é”, disse Gandour. “É uma coisa embalada como jornalismo, mas o conteúdo não é. Jornalismo não é um formato, é um método”.

"Se alguém não acredita nas instituições democráticas e na imprensa, a quem vai recorrer quando se deparar com uma informação duvidosa? É a barbárie" — Ricardo Gandour


Durante as eleições no ano passado, lembrou, circulou um vídeo em que o apresentador argumentava que as pesquisas de intenção de voto eram manipuladas. “Ele mostrava uma planilha com o percentual de amostra da pesquisa, os bairros escolhidos, as perguntas feitas… Tudo isso com um ritmo, um tom e um jeito crível, como se fosse uma análise confiável”. Porém, ao analisar de fato a planilha, era possível perceber que ela continha dados falsos e descontextualizados. “O intuito desse tipo de material é lançar uma dúvida e colocar em xeque a credibilidade das instituições”.

Gandour sugeriu o que considera como “a resposta mais fácil, mas, no momento, a única à mão”: ao se deparar com uma informação que causa dúvida, recorrer às estruturas estáveis de produção jornalística e checar o que elas têm a dizer sobre isso. Para a jornalista Karina Yamamoto, se os meios digitais dão muita margem para a disseminação de informações falsas, é preciso pensar de que maneira o jornalismo pode contribuir para combater esse tipo de prática — tendo em vista, principalmente, as eleições municipais em 2020.

Ataques
A crise do jornalismo no Brasil passa ainda por uma tentativa de desmoralizar a imprensa tradicional, inclusive com ataques diretos feitos pelo presidente da República Jair Bolsonaro. “Para a democracia, é muito preocupante quando os políticos fazem esse tipo de campanha em nome de um projeto de poder”, disse Gandour. “Isso não coloca em risco apenas o jornalismo. A preocupação vai muito além: é uma questão de civilidade. Se alguém não acredita nas instituições democráticas e na imprensa, a quem vai recorrer quando se deparar com uma informação duvidosa? É a barbárie. O jornalismo é apenas a face mais exposta a esses ataques. O convívio democrático também fica ameaçado”.

Mesmo quem hoje se sente representado pelos grupos que estão no poder deveria se colocar contra o descrédito das instituições democráticas, defende Gandour. “Se o cenário político mudar e essa pessoa deixar de se sentir representada pelo poder vigente, são essas instituições que vão garantir sua cidadania”.

“Se há um boato sobre um novo vírus, você provavelmente ligará para um médico para tirar essa dúvida. Ele pode eventualmente errar, mas é um profissional dedicado a acertar”, disse Gandour. “É isso que a sociedade precisa entender. As redações são falíveis, evidentemente. Mas elas têm um método que costuma funcionar. O jornalista pode eventualmente errar, mas ele acorda pela manhã e vai trabalhar dedicado a acertar”.

Literacia Informacional

Se redes sociais, boatos e mentiras estão interferindo no debate público e no processo político, é preciso pensar em como fazer a sociedade consumir informação criticamente. Com um conceito conhecido como literacia informacional ou alfabetização midiática, a Unesco defende que esse tipo de aprendizado precisa ser incluído nos currículos escolares.

Alexandre Amaral
O estudante de jornalismo Alexandre Amaral
Parte desse preparo do cidadão para consumir notícias, explicou o estudante de jornalismo Alexandre Amaral, se concentra na capacidade de analisar o material consumido. “Ao ler um texto, é importante que a pessoa saiba o que está lendo: é um artigo opinativo ou uma reportagem? É preciso saber o que esperar do texto e identificar o que a pessoa que escreveu pretende com ele”.

Para Gandour, os meios digitais dificultaram essa capacidade de diferenciar informação, análise e opinião. “Essa diferenciação foi muito bem passada para a sociedade nas últimas décadas. As páginas 2 e 3 do jornal tratam de opinião, principalmente da própria publicação, e a partir da 4, há análise e reportagem, ainda que haja opinião de terceiros nas colunas”, disse. “Isso era algo bem claro para a maioria das pessoas. No digital, as fronteiras são fluidas: há textos que são embalados como análise e na realidade são opinativos. E essa capacidade de identificar, de saber em que campo está se pisando, está se perdendo”.

Outra abordagem da alfabetização midiática é o treinamento para identificar notícias falsas, método que Amaral presenciou em um projeto da Geórgia chamado Myth Detector Lab. “Quem participa do aprendizado é instigado a descobrir a verdade por si mesmo. Ao mostrar padrões e características de conteúdos falsos, é possível que a pessoa suspeite e perceba na próxima vez que se deparar com eles”, disse. “É um método de prevenção. Nós não sabemos qual será a próxima mentira a surgir, mas sabemos os padrões usados, como, por exemplo, o excesso de sentimentalismo na narrativa”.

Fotos: Leonor Calasans/IEA-USP