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A atuação de Justo Werlang na Bienal do Mercosul e na Fundação Iberê Camargo

Justo Werlang foi o expositor no seminário "Dirigentes Culturais 5: Dos Anos 50 à Atualidade", no dia 17 de outubro, na Pinacoteca do Estado de São Paulo.
Justo Werlang - Pinacoteca - 17/10/17
Justo Werlang no encontro realizado na Pinacoteca do Estado de São Paulo

Em meados dos anos 90, a efervescência cultural de Porto Alegre propiciou a criação de duas instituições que se tornaram marcos no panorama das artes visuais da cidade, do Rio Grande do Sul e do Brasil: a Bienal do Mercosul e a Fundação Iberê Camargo (FIC).

É difícil imaginar o sucesso dessas iniciativas sem levar em conta a participação fundamental de Justo Werlang como gestor cultural. Primeiro diretor presidente da FIC (1995 a 2008), posto que voltou a ocupar em dezembro de 2016, Werlang assumiu em 1996 a presidência da 1ª Bienal do Mercosul, ocorrida em 1997. Voltou a presidir a instituição na 6ª Bienal, em 2007, e colaborou com outras edições.

Com esse portfólio, Werlang é um dos grandes dirigentes culturais do Brasil. Sua carreira e experiências foram tema de mais um encontro do ciclo Cultura, Institucionalidade e Gestão. Intitulado Dirigentes Culturais 5: Dos Anos 50 à Atualidade, o encontro com ele foi realizado no dia 17 de outubro, na Pinacoteca do Estado de São Paulo.

O ciclo é uma realização da Cátedra Olavo Setubal de Arte, Cultura e Ciência, parceria do IEA com o Itaú Cultural. A coordenação do ciclo e a moderação dos encontros é de Ricardo Ohtake, diretor do Instituto Tomie Ohtake e titular da cátedra.

Vitrine

A Bienal do Mercosul surgiu a partir da necessidade de os artistas do Rio Grande do Sul terem uma vitrine para divulgação de seus trabalhos, uma vez que sua produção não encontrava espaço adequado em polos como São Paulo e Rio de Janeiro, explicou Werlang.

“A produtora cultural Maria Benites Moreno articulou os artistas com o mundo empresarial e com os governos estadual e da prefeitura de Porto Alegre. A ideia da bienal foi lançada em dezembro de 1995. O empresário Jorge Gerdau Johannpeter liderou o grupo que meses depois sugeriu a criação de uma fundação de direito privado. Por sugestão de dele, fui indicado para presidir a Fundação de Artes Visuais do Mercosul e a 1ª Bienal do Mercosul.”

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Com 256 artistas e 854 obras, além vários espaços adicionais, intervenções urbanas e realizações educativas, 1ª Bienal foi a maior de todas, de acordo com Werlang.

Mas nem tudo foi satisfação para ele na organização da mostra. “Um desgosto foi ver a indiferença do pessoal da área artística em relação ao pessoal de gestão e marketing. Outro problema era a falta de sintonia entre a curadoria e o educativo. A curadoria considerava o educativo desnecessário, sem importância.”

A relação com outros atores da área de artes visuais também foi uma preocupação. Uma das instituições contatadas foi o Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, "mas houve certa resistência por parte do instituto”.

“Isso deixou claro para mim que é preciso analisar a relevância de todos os atores e como atendê-los. Se um ator ficar desatendido, o projeto é que estará perdendo. Na Fundação Iberê Camargo tomei mais cuidado em relação a isso.”

Werlang considera que a relevância que a Bienal do Mercosul foi adquirindo no cenário brasileiro também foi beneficiada por um certo declínio da Bienal de São Paulo.

Mudança

No entanto, dez anos depois da criação da bienal, nas primeiras discussões sobre a organização da 6ª edição, verificou-se que a fórmula tinha sido a mesma nas três edições anteriores, inclusive com a repetição de curadores (brasileiros e dos países convidados) e de artistas participantes, comentou. “Aí eu disse que era preciso mudar e pedi para ser o presidente da 6ª Bienal.”

A primeira mudança promovida por ele foi aumentar a participação da sociedade na diretoria e no conselho da bienal. Dos quatro curadores de perfil internacional cogitados, Werlang escolheu o espanhol (radicado em Nova York) Gabriel Pérez-Barreiro, que a princípio recusou, devido aos seus vários compromissos, "mas mordeu a isca quando informei que o principal público seria o do educativo.

Ao falar dessa preocupação com o educativo, Werlang disse que nos projetos em que trabalha se preocupa com o público geral, com o cidadão comum. "O público especializado nem precisa de bienal para se informar sobre a produção artística.”

"Nosso negócio é democratizar o acesso à arte, possibilitar que o cidadão, mesmo sem formação e sem acesso a material educativo, se sinta à vontade para entrar e se relacionar com as obras presentes na bienal."

Ele ressaltou a responsabilidade da fundação em formar pessoal local para produção das bienais. "Só na 1ª Bienal a produção local e estrangeira foi feita por equipes de São Paulo. Da 2ª à 5ª edição, a produção local esteve a cargo de profissionais de Porto Alegre. E na 6ª Bienal, toda a produção foi de responsabilidade de equipes locais."

Na primeira bienal, a ideia era não cobrar a entrada, mas isso aconteceu no primeiro mês. "Foram arrecadados R$ 100 mil, mas quantas pessoas deixaram de visitá-la por ser paga? A Bienal de São Paulo deixou de cobrar ingresso baseada na experiência da gratuidade adotada a partir da 3ª Bienal do Mercosul."

Educativo

Depois de repensar o modelo a ser adotado, Pérez-Barreiro voltou já com a proposta de que Luiz Camnitzer deveria ser o curador pedagógico. Isso foi de grande importância, pois "é melhor ter o curador-geral e o curador pedagógico trabalhando juntos".

Werlang destacou o trabalho feito pelo educativo da 6ª Bienal. "Houve seminários para professores em parceria com a Secretaria de Educação do Estado, entrega de materiais pedagógicos, que foram apresentados na capital e nas coordenadorias de ensino das 42 regiões do interior do estado. Dessa forma, a bienal ocorreu nas escolas do interior antes mesmo de ser aberta ao público."

Assim como acontecera depois da 1ª Bienal, A 6ª edição também foi motivo de uma exposição para prestar contas sobre tudo que tinha sido gasto, o que ficara para a cidade e outras contribuições da mostra. "Oferecer transparência é fundamental quando se tem a perspectiva de realizar um projeto desse porte."

"Dizem que 6ª Bienal foi a melhor. Para mim, foi mais do que isso, foi um momento mágico. Pela primeira vez a cidade aconteceu dentro da bienal. Não havia catraca, não havia cobrança. Havia ônibus trazendo estudantes de escolas da periferia e de cidades vizinhas."

Depois da realização da 6ª Bienal, Werlang saiu da presidência da entidade, mas participou da seleção de curadores para a 7ª, 8ª e 9ª edições. "Depois da crise da 10ª Bienal, trabalhei em 2016 com outras pessoas num projeto que julgávamos mais apropriado à condição econômica do estado, mas o projeto não foi para a frente."

Fundação Iberê Camargo
Sede da Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre (RS), projetada pelo arquiteto português Álvaro Siza; em 2002, antes mesmo do início da construção, o projeto ganhou o Leão de Ouro da Bienal de Arquitetura de Veneza

Fundação Iberê Camargo

Em 2008, Werlang também saiu da Fundação Iberê Camargo, depois de 13 anos de trabalho voluntário. Ele voltou a assumir a presidência da fundação em dezembro de 2016.

"Depois que Iberê Camargo morreu, em 1994, sua viúva pediu ao Jorge Gerdau que liderasse uma fundação dedicada ao artista. Na segunda reunião, trouxemos o Renato Benjamin Ferreira, responsável pela implantação do CCBB no Rio de Janeiro. Era preciso discutir se a instituição seria um museu ou um centro cultural. Eu defendia que devia ser uma fundação, com diversidade de atividades e público.”

Quanto à sede da fundação, inaugurada em 2008, Werlang disse que a ideia era o projeto ser de um arquiteto experiente em projetar museus. "Foi convidado o arquiteto português Álvaro Siza. Já em 2002, antes de cavarmos o primeiro buraco para as fundações da obra, o projeto recebeu o Leão de Ouro da Bienal de Arquitetura de Veneza [em 2014, o projeto também recebeu o Prêmio das Américas Wiers Crown Hall, concedido pelo Instituto de Tecnologia de Illinois, EUA].

"Os projetos desenvolvidos pelas fundação se multiplicaram e ela passou a ser conhecida pela qualidade de suas iniciativas. Concluímos a catalogação da obra de Iberê Camargo e realizamos várias mostras itinerantes no Rio Grande do Sul, em outros estados e até no exterior."

Em 2008, Werlang pediu para deixar a direção da FIC, pois "não concordava com certas coisas, com a diminuição no número de projetos e o enfraquecimento da relação com a comunidade".  Em sua opinião, foi construída "uma visão míope de tentar se equiparar aos grandes players internacionais, deixando de olhar para o próprio em torno".

Reposicionamento

Em 2014, com o início da nova crise econômica do país, os grandes patrocinadores informaram de sua dificuldade em manter o patrocínio. "A FIC devia tentar ser recompor. Eu e Renato Malcon para colaborar na recomposição da fundação. A questão não era captação, mas de reposicionamento da instituição, de definição a quem ela presta serviço."

Em agosto de 2016, decidiu-se abrir a fundação apenas dois dias por semana. A outra opção era fechá-la. Em dezembro, o presidente saiu e volta a haver o risco de fechamento. "Nesse momento, Jorge Gerdau, Renato Malcon e eu assumimos o desafio de promover esse reposicionamento da FIC."

O primeiro trabalho do grupo foi desenhar uma matriz de programação. "Decidimos trabalhar com questões específicas, presentes nas artes visuais e em outras áreas artísticas e culturais. Conseguimos trazer públicos ligados a diferentes áreas, mas conectados por alguma questão comum. Não temos apenas a visualidade. Alguém pode vir para assistir a um seminário e se interessar em ver uma exposição.

A FIC continua a abrir ao público em geral apenas aos sábados e domingos. Às quartas, quintas e sextas-feiras recebe o público agendado pelo educativo.

Fotos (a partir do alto): Matheus Araújo; Empresa Brasil de Comunicação