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Cátedra Olavo Setubal lança censo realizado nas comunidades vizinhas à USP

por Leandra Rajczuk Martins - publicado 07/07/2022 10:15 - última modificação 13/07/2022 16:05

Dados populacionais e socioculturais de comunidades vizinhas de dois campi da USP na capital, lançados em versão impressa e digital, podem ser acessados também em site.

A Cátedra Olavo Setubal de Arte, Cultura e Ciência apresentou, na última sexta-feira, dia 1º de julho, o resultado das pesquisas realizadas ao longo de dois anos nas comunidades próximas aos territórios da Universidade. O Censo Vizinhança USP reúne dados populacionais e socioculturais de comunidades vizinhas à Cidade Universitária da USP, na Zona Oeste de São Paulo, e a Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH), na Zona Leste da cidade.

Eliana Sousa Silva - Censo
Eliana Sousa: relação mais qualitativa da USP com seu entorno. Crédito: Leonor Calasans
O projeto foi idealizado pela educadora e ativista social, Eliana Sousa Silva, diretora-fundadora da Redes da Maré, no período em que foi titular da cátedra, parceria entre o Itaú Cultural e o IEA, de 2018 a 2019. O censo também contou com o apoio da Fundação Tide Setúbal.

Transmitido ao vivo pelo site do IEA, a atividade reuniu presencialmente Eliana, pesquisadores e moradores das comunidades recenseadas que atuaram no projeto, a vice-reitora da USP, Maria Arminda do Nascimento Arruda, o pró-reitor de Pesquisa e Inovação da USP, Paulo Nussenzveig, a assessora técnica da Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento da USP, Márcia Lima, a antropóloga e supervisora geral do projeto, Érica Peçanha, a presidente do conselho curador da Fundação Tide Setúbal, Neca Setúbal e o diretor do IEA, Guilherme Ary Plonski. A mediação do encontro foi do coordenador acadêmico da cátedra, Martin Grossmann. Entre os presentes estavam Ricardo Ohtake, diretor do Instituto Tomie Ohtake, José Antonio Visintin, superintendente de Prevenção e Proteção Universitária e Raquel Rolnik, prefeita da Cidade Universitária.

“Quando cheguei em 2018 na Cátedra, procurei pensar uma perspectiva para aprofundar uma relação que já existia entre a USP e as comunidades vizinhas. Queria construir algo que pudesse deixar um legado e esse legado pudesse contribuir com essa perspectiva de uma relação mais orgânica, mais qualitativa da USP com seu entorno”, contou Eliana Sousa durante sua apresentação. “Precisávamos desenvolver conhecimento e esse conhecimento precisava fazer sentido para as pessoas dessas comunidades. O censo tem o rigor acadêmico da pesquisa, mas o significado maior dele é que ele tinha que fazer sentido para todos os envolvidos, em especial, para as pessoas onde estamos fazendo a pesquisa”.

Para Grossmann, o censo se trata de um projeto ampliativo. “Pela primeira vez o IEA abarca um projeto que tem na sua base jovens pesquisadores. A tecnologia social usada na Maré com mais de 140 mil pessoas teve de ser adaptada para o contexto acadêmico, que é essencialmente pedagógico”, frisou. “São Paulo importa um ‘know how’ da periferia do Rio de Janeiro para desenvolver um projeto que pode ser replicado em outras instâncias”.

Visão geral - Censo
Evento reuniu pesquisadores, moradores das comunidades recenseadas e apoiadores. Crédito: Leonor Calasans

Dalcio Marinho Gonçalves, coordenador de pesquisa do projeto Democracia, Artes e Saberes Plurais (Dasp), da Cátedra Olavo Setúbal, explicou que foi utilizada a mesma metodologia do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) para que houvesse validade, confiabilidade e comunicabilidade entre os dados. “Nosso censo não ficará desatualizado nunca. Primeiro porque os censos se comunicam e fizemos um trabalho complementar, onde trouxemos questões que são incomuns se comparado ao censo demográfico oficial, que por sua abrangência não tem como dar conta. Temos a quantidade de casais homoafetivos, de gestantes, incluindo seus parceiros que moram junto ou não, tem a relação com a USP e de uso do campus, as práticas culturais, doenças crônicas e até animais domiciliados”.

Ericsson Magnavita, articulador local do censo São Remo, avalia que o censo causou impacto dentro da comunidade, uma vez que significativamente era a USP lá dentro. “A equipe foi sensacional. Se tivéssemos essa equipe em outros projetos da São Remo seria uma evolução de material, de produto, de conhecimento para todos, tanto para a comunidade como para a USP”, relatou. “Esse projeto trouxe e está trazendo informações qualitativas para dentro da comunidade”.

Kaio Gameleira, articulador local do censo Jardim Keralux e Vila Guaraciaba, da qual é morador, e graduando de Gestão de Políticas Públicas da EACH, acredita que o projeto também teve importante papel formativo. “O censo contribuiu para minha formação pessoal de forma coletiva. Os aprendizados se perpetuam até hoje na minha vida e nos processos que ocorrem no meu território”, relatou.

Gameleira sugeriu que os projetos acadêmicos em periferias e favelas prevejam a participação dos moradores dos territórios pesquisados, incluindo-os como membros da equipe e valorizando suas vivências e conhecimento. Ele manifestou ainda que os resultados sejam apresentados à comunidade em formatos acessíveis a partir de uma linguagem não acadêmica. Por fim, apresentou uma série de demandas em uma carta-aberta: visitas ao campus, bolsas de pesquisa, monitoria, cursos com vagas reservadas para a comunidade, cursos pré-vestibulares, projetos de extensão e ações afirmativas para promover a inclusão da população periférica vizinha nos cursos de graduação e pós-graduação. “Os territórios periféricos não podem mais continuar sendo vistos apenas como campo de estudos da Universidade, a qual deve se comprometer a incluir os sujeitos de pesquisa como parte da produção de conhecimento”.

Neca Setúbal salientou que a missão da Fundação Tide Setúbal consiste no desenvolvimento das periferias urbanas, enfrentando as desigualdades nas suas diferentes dimensões. “O censo superou muito minhas expectativas pelo grau de profundidade das análises e pela capacidade de integrar diferentes dimensões da vida da comunidade e de sua relação com a USP”.

Maria Arminda lembrou que movimentos no âmbito da instituição em relação às comunidades do entorno já existem há algum tempo, citando como exemplo, o Programa “Avizinhar”, desenvolvido nos anos 90 e que esteve pautado pelo contexto daquele período. “As políticas afirmativas já ganhavam espaço e a partir de 2017 foram reconhecidas. De lá para cá muitas coisas foram feitas e agora estamos institucionalizando essas ações”.

Maria Arminda - Censo
Maria Arminda lembrou primeiras ações com as comunidades próximas. Crédito: Leonor Calasans

Maria Arminda salientou ainda que, muito especialmente, a atual gestão vem dando uma atenção particular a essas questões. “Temos aqui dois exemplos notáveis. A Pró-Reitoria de Inclusão, Diversidade e Pertencimento, que tem um compromisso muito sólido com a manutenção da permanência estudantil, em suas várias modalidades de apoio e hoje a realidade social da USP é muito diversa; assim como a Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação, entendendo o campo da inovação em sua forma mais geral e ampla”.

A vice-reitora declarou que a pesquisa do Censo Vizinhança USP a impressionou demais e possui uma imensa ousadia. “Na EACH, os cursos são absolutamente enraizados na zona leste. É um campus da Universidade que tem um compromisso com aquela região. Se queremos fazer políticas sólidas de permanência temos que tratar de fato essas políticas a partir dos próprios sujeitos”.

Jader Rosa, gestor do Observatório Itaú Cultural – espaço orgânico de pesquisa, formação e reflexão sobre o setor cultural – analisou, por videoconferência, alguns dados sobre práticas culturais, traçando paralelos com estudos realizados no âmbito do Observatório. “Quando vemos que 85% dos moradores praticam pelo menos uma atividade cultural queremos falar com esse público e saber que tipo de manifestação está sendo feita, seja na literatura, dança, contação de histórias, arquitetura”. Citou como outro ponto de convergência as informações sobre informalidade. “Estar em consumo com arte e cultura, por exemplo, melhora o relacionamento dentro de casa, [diminui] a sensação de solidão, depressão, então muitas coisas são convergentes”.

O pró-reitor de Pesquisa e Inovação da USP, Paulo Nussenzveig ressaltou que o Censo não é simplesmente um trabalho de pesquisa que visa apenas aprendizagem e informação, mas principalmente uma ação transformadora de co-criação. “Isso é claramente um projeto de inovação produzido pela Universidade, em especial, para a comunidade do entorno sobre a qual temos uma responsabilidade imensa”, enfatizou. “É um enriquecimento que nos permite fazer melhor o que a gente faz, desenvolver conhecimento, transmitir, armazenar, compartilhar, aprender e criar em conjunto”.

De acordo com Márcia Lima, a criação da Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento da USP significa um passo muito importante na consolidação das políticas de ações afirmativas dentro da Universidade. A professora salientou um dado que considera “acachapante”. Das estatísticas sobre as formas de relacionamento histórico dos moradores com a USP, considerando-se as atividades e serviços acessados pela vizinhança da zona oeste, em 87,4% dos domicílios não há moradores que utilizam serviços ou desenvolvem atividades na USP enquanto que, na zona leste, este percentual chega a 92,1%. “Essa pesquisa nos traz essa informação, mas também se torna um mecanismo de transformação dessa realidade”, disse. “A gente precisa, daqui a uns cinco anos, olhar para esses números e ver um outro resultado. Esse percentual não é possível, não é aceitável”.

Para Guilherme Ary Plonski, diretor do IEA, do ponto de vista do Instituto, a titularidade da Cátedra Olavo Setúbal e o projeto do Censo Vizinhança USP, em particular, mudaram duas coisas: a cara e a cabeça do IEA. “Ter recebido 30, 40 jovens estudantes em nosso ambiente foi uma alegria inenarrável”, pontuou. “Esse projeto ampliou o que entendemos por avanço, aumentou a sabedoria do IEA. Agora temos um desafio: mudar a alma da USP. Isso requer esforço coletivo, é uma mudança gradual: cara, cabeça e alma”.

Helena Katz, paraninfa da titular Eliana Sousa Silva em 2018, acredita que a cátedra conseguiu reunir democracia e saberes plurais numa referência ao nome do projeto Dasp. “O censo deixa como legado um chão sobre o qual agora se pode caminhar para formular políticas públicas de desenvolvimento”.

Resultados do censo

O documento traça um perfil demográfico das populações dos bairros Jardim São Remo e Sem Terra (vizinhos à Cidade Universitária) e Jardim Keralux e Vila Guaraciaba (vizinhos à EACH), suas práticas socioculturais e formas de relacionamento histórico com a universidade, além de caracterizar os animais domiciliados. Desta forma, é possível ter uma visão ampla sobre a realidade da população periférica das imediações dos dois campi universitários, a fim de subsidiar a identificação de demandas sociais e oferecer dados qualificados para a realização de outros projetos e pesquisas.

A equipe de pesquisa contou com a participação de 56 estudantes de graduação e pós-graduação de diferentes unidades de ensino da USP, 1 pesquisadora de pós-doutorado e 10 moradores dos territórios ao longo de todo o censo, além da colaboração de consultores, professores e funcionários de diferentes unidades da USP.

As informações foram levantadas entre fevereiro de 2019 e março de 2020, a partir da visita às unidades residenciais e de entrevistas com os moradores. No total, foram identificados 5.846 domicílios, 17.588 pessoas e 2.811 animais (cães e gatos). Também foram registrados dados sobre equipamentos públicos, grupos, entidades, instituições, artistas e lideranças comunitárias que desenvolvem ações regulares de caráter social, cultural, artístico, esportivo, educacional ou religioso.

Capa do livro "Censo Vizinhança USP" (Jardim São Remo e Sem Terra) - 140px Capa do livro "Censo Vizinhança USP" (Jardim Keralux e Vila Guaraciaba) - 140px

As publicações Censo Vizinhança USP / Características Domiciliares e Socioculturais – Jardim São Remo e Sem Terra (volume 1) e Jardim Keralux e da Vila Guaraciaba (volume 2) compõe uma obra de quase 400 páginas, em versão impressa e digital, disponível em: www.iea.usp.br/publicacoes. Os dados e as análises podem ser acessados também em um site lançado no mesmo dia: censovizinhanca.iea.usp.br/. A página foi viabilizada por meio de recursos do Programa Ciência Cidadã da Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação.

Destaque dos dados

Entre os vizinhos à Cidade Universitária, 52% dos moradores são mulheres e 48% são homens. A média de moradores por domicílio é de 2,93 pessoas (2,95 em São Remo e 2,78 no Sem Terra). Considerando o conjunto dos territórios vizinhos à EACH/USP Leste, 50,4% são mulheres e 49,6% são homens. A média dos moradores por domicílio é de 3,08 pessoas no Jardim Keralux e 3,23 na Vila Guaraciaba. Foi identificada uma pessoa com 101 anos morando no Jardim Keralux.

No conjunto dos territórios, com relação à situação legal e posse dos imóveis, 70% dos imóveis próprios do Jardim São Remo e Sem Terra não têm documento que comprove a posse do imóvel, enquanto no Jardim Keralux e Vila Guaraciaba essa porcentagem é de 67%.

Sobre as condições de saneamento, os domicílios do Jardim São Remo e Sem Terra que lançavam o esgoto ao córrego formaram um aglomerado na proximidade do Riacho Doce, mas chama a atenção que esse tipo de destinação também ocorreu em outros lugares do território. No Jardim Keralux e Vila Guaraciaba os domicílios que lançam esgoto ao córrego não são somente os que estão no entorno do mesmo, mas também a maioria daqueles que estão localizados próximos ao Parque Ecológico do Tietê.

O perfil dos moradores do Jardim São Remo e Sem Terra que trabalham na USP é de 73% com vínculo de terceirizado, sendo 68,8% declarados pretos ou pardos e 63,4% de mulheres. Dos 41 moradores do Jardim Keralux e Vila Guaraciaba que trabalham na USP, a maioria tem vínculo como terceirizado (27 habitantes ou 65,8% do total), é mulher (24 ou 58,5%) e autodeclarada parda (22 ou 53,6%).

Com relação ao acesso à educação e escolaridade, pode-se destacar que apenas 1,5% dos entrevistados do Jardim São Remo e Sem Terra estudam e 2,7% declararam já terem sido estudantes da USP, considerando-se desde a creche, os cursos livres e pré-vestibulares, além da graduação e pós-graduação. No caso do Jardim Keralux e Vila Guaraciaba, esse percentual não chega a 1,8% dos entrevistados.

No que diz respeito ao pertencimento religioso, observou-se que das pessoas do Jardim São Remo e Sem Terra que se declararam indígenas, nenhuma delas possui pertencimento religioso às tradições indígenas. Entre aqueles que se declaram pretos e pardos está a maior proporção de praticantes de religiões de matriz africana. Das 136 pessoas do Jardim Keralux e Vila Guaraciaba que se declararam indígenas, apenas três (3) possuem pertencimento religioso às tradições indígenas, 2% do total.

Quanto ao acesso aos serviços de saúde, 80% dos moradores do Jardim São Remo e Sem Terra usam somente o Sistema Único de Saúde (SUS) e 19,2% possuem planos de saúde privados; enquanto no Jardim Keralux e Vila Guaraciaba as porcentagens são de 72,6% e 26,5%, respectivamente.

Sobre a dependência de álcool, tabaco e outras drogas verificou-se que em 10,5% dos domicílios do Jardim São Remo e Sem Terra há algum morador com dependência química de álcool ou outras drogas. Dos entrevistados do Jardim Keralux e Vila Guaraciaba, 4,5% se autodeclararam dependentes de alguma substância psicoativa lícita ou ilícita.

Apesar de ser minoria no contexto pesquisado, identifica-se no Jardim São Remo e Sem Terra a presença de casais homoafetivos, sendo 37 casais de mulheres e 8 casais de homens. Nos outros dois territórios (Jardim Keralux e Vila Guaraciaba) foram identificados 23 casais de mulheres e 8 casais de homens.

Quanto às práticas culturais de consumo, expressão ou participação ligadas à vida intelectual e artística, assistir a filmes/séries/documentários e ouvir música/cantar são as mais presentes, sendo praticadas habitualmente por mais da metade dos moradores das quatro comunidades vizinhas dos dois campi da USP.

Cerca de 79% da população do Jardim São Remo e Sem Terra acessa à internet, mas somente 62,4% dos domicílios possuem acesso à internet sem ser a do celular. Em 75,9% dos domicílios do Jardim Keralux e Vila Guaraciaba há acesso à internet sem ser a do celular.

Sobre as formas de relacionamento dos moradores com a USP, o serviço mais acessado pelos moradores do Jardim São Remo e Sem Terra é o atendimento médico e/ou odontológico, seguido do desenvolvimento de atividades físicas e esportivas, atividades culturais e acesso ao transporte. As atividades físicas e/ou esportivas são as mais praticadas pelos moradores no campus da EACH, seguidas por ações ligadas a projetos de escolas da região e atividades culturais.

Com relação aos animais, investigou-se tanto a presença daqueles que são criados e cuidados com a finalidade de companhia, como cães, gatos, aves, como também aqueles que convivem no mesmo ambiente que a população e podem ser responsáveis por alguns agravos à saúde, os chamados animais sinantrópicos: ratos, escorpiões, baratas, aranhas, entre outros.

Foram registrados 745 cães, 685 gatos e 983 aves de companhia no ambiente domiciliar do Jardim São Remo e Sem Terra e 1.135 cães, 834 gatos e 845 pássaros de companhia no ambiente domiciliar do Jardim Keralux e Vila Guaraciaba.

Em 55,5% dos domicílios do Jardim São Remo e Sem Terra relatou-se o incômodo com a presença de animais sinantrópicos, sendo ratos, mosquitos e baratas os mais comuns entre os 29 tipos de animais referidos pelos entrevistados, além dos escorpiões. Em 54,1% dos domicílios do Jardim Keralux e Vila Guaraciaba relatou-se o incômodo com a presença desses animais, sendo ratos, baratas, pernilongos e cobras os mais comuns entre os 47 tipos de animais mencionados pelos entrevistados.