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A matemática como alegoria e estrutura da linguagem

por Sylvia Miguel - publicado 08/11/2016 17:50 - última modificação 09/11/2016 13:54

Escritores mostram que literatura e matemática se convergem em suas estruturas lógica e argumentativa

 

“Vazio”

Na Matemática
A existência do vazio/
É trivial
Na vida
O vazio da existência
É fatal.

Mesa - Literatura e matemática

 

“Finito/infinito”

O fim do que é finito
Não faz vilão, nem herói.
O infinito, quando finda,
Dói.

Escritores debatem a presença da matemática na literatura. A partir da esq: Nilson José Machado, Marco Lucchesi, Jacques Fux e Flavio Ulhoa Coelho

Os versos acima, “brincadeiras com as palavras, em que o twitter é o mote e a matemática é o tema”, são definidos por seu autor e inventor como mattemas. “Não arrisco dizer que são poemas. São brincadeiras com a linguagem poética envolvendo um tema de matemática”, disse o escritor e professor da Faculdade de Educação (FE) da USP Nílson José Machado, durante o encontro Literatura e Matemática: Uma Conversa.

Além de Machado, o debate realizado no dia 27 de outubro no IEA reuniu outros dois premiados escritores, especialistas em convergir as letras e os números, o matemático Jacques Fux e o professor de literatura comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Marco Américo Lucchesi.

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A moderação e coordenação do encontro foi do professor Flavio Ulhoa Coelho (USP), do Instituto de Matemática e Estatística (IME) da USP. Autor de diversos livros, Coelho é integrante do Programa Ano Sabático do IEA de 2016 e vem desenvolvendo a pesquisa “História do Pensamento Algébrico e seus Desdobramentos Didáticos”.

“Um aspecto importante da relação entre matemática e literatura é que são dois sistemas básicos de expressão e comunicação que a criança aprende mais ou menos na mesma época, indistintamente. Mas a criança perde essa noção inicial e começa a fazer distinção entre matemática e linguagem devido ao trabalho feito ao longo da escola. Precisamos colocar essa convergência desde o início da alfabetização. São dois sistemas que em todas as culturas e épocas têm apresentado paralelismos e complementaridade nas suas funções e metas. A lógica e a argumentação da linguagem, por exemplo, têm como fonte primária a matemática”, disse Machado.

A construção do imaginário e das estruturas de pensamento se alimenta da relação entre realidade e ficção e, da mesma forma, da matemática e da literatura. Assim, a relação entre matemática e literatura passa pela relação entre realidade e ficção, segundo Machado.

“Nada mais parecido à matemática do que contos de fadas. A similaridade é que são estruturas binárias. O conto de fada se constrói sobre a estrutura bem e mal, herói e bandido, certo e errado, bruxa e fada. A criança é ótima nessas questões de valores”, compara.

Mas o caráter binário é uma referência inicial e quem estuda a matemática vê que essa estrutura tem sido amplamente revista. A probabilidade e a lógica Fuzzy, por exemplo, são conceitos que mostram que, afinal, há outras construções lógicas. Na vida real, isso se repete, observa Machado.

Nílson José Machado - Literatura e matemática

"A função do professor envolve a construção de significados por meio de narrativas multivárias", diz o professor Nilson

“Então, saímos do conto de fadas e apresentamos às crianças os dilemas, situações que se bifurcam sem que se escolha um lado ou outro. A ultrapassagem dos dilemas nos leva a histórias multivárias, a muitas polarizações. Temos que partir para narrativas não binárias, pois isso é uma desgraça: por mais nítida que pareça uma situação política do bem e do mal, se reduzimos tudo ao bem e ao mal estamos infantilizando a discussão. E isso não é um xingamento. É a forma de pensar da criança. Mas a história real é muito mais complexa”, diz o professor.

Sobre a questão da construção dos sistemas lógicos e estruturas de pensamento, Machado lembrou uma palestra proferida em 1950 por Bertrand Russell (1872-1970), quando o matemático e filósofo ensinou que o professor tem basicamente duas funções. “A primeira é evitar que os alunos construam narrativas unárias, pois isso é a raiz dos dogmatismos, dos fanatismos. A segunda função é evitar que eles consolidem narrativas binárias, pois essas levam a posições do tipo quem não está comigo é meu inimigo. Então, a função do professor envolve a construção de significados por meio de narrativas multivárias”, conclui Machado.

Machado publica seus mattemas no seu blog www.nilsonjosemachado.net, onde é possível também conferir sua produção bibliográfica, conteúdos de aulas e depoimentos em vídeo, além das “Mil e uma”, sessão composta de textos de mil toques e uma ideia.

 

"Litterature sous contraintes"

Graduado em matemática e com mestrado em computação, Jacques Fux foi seduzido desde cedo pela forma literária do argentino Jorge Luis Borges e do francês Georges Perec. “Eu lia Borges e Perec e pensava comigo ‘aqui tem matemática’, quando ainda nem sabia que eles faziam isso com sua literatura”, revela.

Jacques Fux - Literatura e matemática

"Contrainte é um limitante na criação literária que funciona muito bem para alguns autores", diz Fux

O hobby virou investigação científica. Com seu doutorado sobre a matemática presente na literatura, Fux ganhou o prêmio Capes de Teses de 2011. Desse trabalho surgiu seu primeiro livro de crítica literária, “Literatura e matemática: Jorge Luis Borges, Georges Perec e o OuLiPo”, publicado pela Editora Perspectiva.

Encantado com a literatura experimental do OuLiPo (Ouvroir de Littérature Potentielle), chegou a participar de reuniões desse grupo, que foi criado em 1960 por nomes como Raymond Queneau, François Le Lionnais, Italo Calvino e Georges Perec, entre outros.

Essa corrente pratica uma literatura pautada por restrições - litterature sous contraintes, em francês. O termo foi traduzido para o português como "escrita constrangida".

Mais utilizada na poesia, a técnica consiste na imposição de regras ou determinados padrões durante o processo criativo. A leitura vira um quebra-cabeça, um jogo de adivinhações, com paradoxos, espelhamentos, palíndromos e outras artimanhas, já consagradas em autores como Júlio Verne, Edgar Allan Poe, Cervantes, Arnaut Daniel e outros contemporâneos.

“Le Grand Palindrome”, de Georges Perec, por exemplo, entrou no Guinness Book por ser o maior palíndromo do mundo. “O livro inteiro pode ser lido de traz para frente. E foi escrito na década de 1960, quando ainda nem se usava computador”, diz Fux.

Em 2013, a ficção “Antiterapias” (editora Scriptum) rendeu a Fux o Prêmio São Paulo de Literatura, na categoria autor estreante. “Peguei a teoria desenvolvida no doutorado e joguei em ‘Antiterapias’. Eu me impus algumas regras, a exemplo de Borges e Perec. Uma delas foi compor cada capítulo com uma releitura de uma grande obra literária. O livro tem citações que vão se incorporando ao texto. Decidi que o personagem não teria nada de inédito em sua vida. Tudo o que lhe acontece já ocorreu na literatura. E as pessoas podem ou não descobrir as regras do livro. Engraçado que tem um professor em Belo horizonte que adora descobrir regras que não criei”, observa.

"Brochadas - Confissões Sexuais de um Jovem Escritor" (editora Rocco), de 2015, é o segundo livro de Fux, em que investiga a angústia que acompanha homens e mulheres sobre a perda de ereção. Sua pesquisa iniciou durante o pós-doutorado em literatura na Universidade de Harvard, Estados Unidos. Perguntava para colegas, via aplicativo whatsapp, “o que brocha você?”. O resultado foi uma “compilação empírica” intercalada a “dados históricos” sobre o tema.

Os constrangimentos literários, diz Fux, em geral não são evidentes, pois a leitura ficaria chata. É um jogo que se assemelha ao esconde-esconde. As regras criadas pelo autor são feitas para ficarem escondidas, mas também para serem descobertas. Na brincadeira infantil, há um sentimento de querer se esconder, mas não tanto a ponto de não ser encontrado; e nem tão pouco a ponto de ser achado primeiro, compara.

Alguns constrangimentos literários ganham traduções peculiares, exemplificou. “La Disparition”, de Georges Perec, é um livro de 340 páginas escrito sem o uso da letra “e”, a mais frequente no francês. Foi traduzido para o espanhol como “El Sequestro”, que suprime a vogal “a”, letra mais frequente nesse idioma.

Flavio Ulhoa Coelho - Literatura e matemática

"Há muito espaço para reflexões sobre o tema", diz professor Coelho

Segundo o professor Coelho, organizador e moderador do encontro, a procura por padrões é uma das características da matemática e nada impede que padrões também possam ser impostos na escrita de um texto literário, como faz o grupo OuLiPo, por exemplo. “É claro que a utilização de regras numéricas vem de muito antes da existência desse grupo criado na década de 1960. Há regras atrás dos sonetos, dos tankas, haikais e aldravias, só para citar alguns exemplos”, mostra.

 

Paixão pela matemática

Poeta, escritor, romancista, ensaísta e tradutor, membro da Academia Brasileira de Letras (ABC) e também da Accademia Lucchese delle Scienze, Lettere e Arti, da Itália, o professor da UFRJ, Marco Lucchesi, se diz um apaixonado pela matemática. As criações literárias, para ele, devem ser “aventuras pautadas por uma grande disciplina”, que é a disciplina poética, explica.

Marco Lucchesi - Literatura e matemática

"Deixei Tomás e abracei Agostinho, porque ele era poesia, o grande sopro”, diz Lucchesi

Aos 15 anos de idade, estudava lógica por paixão pessoal, que aconteceu por meio dos escritos de São Tomás de Aquino. “Mas a matemática e a escolástica não andavam bem uma com a outra, então deixei a escolástica. Deixei Tomás e abracei Agostinho, porque ele era poesia, o grande sopro”, diz.

A escolástica, corrente de pensamento que dominava as Universidades Medievais do século 12 ao 16, buscava conciliar a fé cristã com o pensamento racional da filosofia grega. Através do uso da dialética, buscava harmonizar a fé e a razão.  A “Summa Theologica”, de São Tomás de Aquino (1225-1274), é a obra máxima da escolástica. Enquanto Tomás de Aquino defendia a autonomia da razão sobre a fé, o teólogo e filósofo Agostinho de Hipona, ou Santo Agostinho (354 a 430), defendia a subordinação da razão em relação à fé.

A obra do filósofo, matemático e historiador alemão Oswald Arnold Gottfried Spengler (1880-1936) e a etnomatemática do brasileiro Ubiratan de Ambrósio, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), são algumas das inspirações para a literatura de Lucchesi.

O autor cita ainda a autobiografia “A mathematician's Apology”, do matemático inglês Godfrey Harold Hardy (1877-1947), sobre o valor da matemática pura e sua dimensão estética. “Um livro que me derrubou. Hardy conta suas considerações sobre o encontro com a civilização indiana, através do relacionamento profissional com o matemático indiano Srinivāsa Aiyangār Rāmānujan  (1887-1920)”, conta Lucchesi.

O romeno Solomon Marcus (1925-2016), especialista em análise matemática, publicou também artigos sobre diversos aspectos culturais, inlcuindo poética, linguística, semiótica, filosofia, história da ciência e educação. Para Lucchesi, Marcus lançou “a conversa, a centelha, o risco de superar a interdisciplinaridade, a vontade de comunicação poética”. As obras, conta o levou a ser "um curioso para o trabalho que envolve a matemática”.

Segundo o moderador do encontro, o sucesso do debate poderá inspirar outros do gênero. "Há espaço para novas iniciativas e seguramente muito espaço para reflexão a respeito", conclui Coelho.

Imagens: Leonor Calasans