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Pesquisa avalia que Copa e Olimpíadas não melhoraram visão da mídia estrangeira sobre o país

por Mauro Bellesa - publicado 20/05/2019 13:45 - última modificação 20/05/2019 13:46

Seminário 'O Ciclo dos Megaeventos no Brasil: A Visão da Mídia Estrangeira sobre a Sociedade Brasileira e a Organização de Eventos' foi realizado no dia 16 de maio.

Marco Bettine e Diego Gutierrez - 16/5/2019
Marco Bettine (esq.) e Diego Gutierrez, autores da pesquisa feita no Ludens

Apesar do empenho do Brasil em realizar a Copa do Mundo da Fifa de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, os dois megaeventos esportivos não contribuíram para melhorar a imagem do país perante a imprensa internacional e, dessa forma, ampliar seu soft power.

A avaliação é do especialista em sociologia do esporte Marco Bettine, professor da Escola de Artes, Ciência e Humanidades (Each) da USP e participante do Programa Ano Sabático do IEA.

Bettine e Diego Gutierrez, doutorando em biodinâmica do movimento e esporte na Unicamp, foram os expositores do seminário O Ciclo de Megaeventos no Brasil: A Visão das Mídias Estrangeiras sobre a Sociedade Brasileira e Organização dos Eventos, no dia 16 de maio.

O evento apresentou dados e conclusões de pesquisa que os dois realizaram no âmbito do Ludens (Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre Futebol e Modalidades Lúdicas). O estudo é relacionado com o projeto de Bettine no IEA (Soft Power: Um Olhar sobre a Utilização Estratégica dos Brics ao Sediar a Copa do Mundo de Futebol da Fifa - Análise de África do Sul, Brasil e Rússia).

A pesquisa sobre o caso brasileiro foi iniciada em 2013 e envolveu a análise do noticiário internacional tanto sobre a Copa do Mundo quanto das Olimpíadas. Foram coletados 699 artigos sobre a Copa do Mundo e 1.154 sobre os Jogos Olímpicos, publicados em alguns dos principais veículos noticiosos do Reino Unido ("The Guardian", "Daily Mail" e BBC), EUA ("The New York Times" e CNN), França ( "Le Monde" e "Le Figaro") e Espanha ("El País" e "El Mundo"). A escolha de veículos de países de línguas inglesa, francesa e espanhola deve-se à importância delas no contexto da globalização.

No seminário, Gutierrez e Bettine também teceram considerações sobre o quadro em que os dois megaeventos foram realizados. Eles lembraram que a Copa do Mundo aconteceu num contexto ainda impactado pelas manifestações de junho de 2013, com a imprensa internacional manifestando incerteza quanto ao clima político e social durante a realização do torneio.

À medida que os jogos foram acontecendo, com grande público nos estádios e sem grandes protestos e outros acontecimentos importantes, a imprensa estrangeira mudou de tom, passando a elogiar o evento e a capacidade do país em organizá-lo com sucesso, comentaram.

Entre os exemplos que citaram para demonstrar a transição de tom estão títulos de matérias como "Os jogos são encantadores e o drama foi perfeito para a mídia”, no "The Guardian", e "Não era para tanto" (querendo dizer que as preocupações pré-Copa eram exageradas), no "El País".

O ambiente nacional estava pior no período pré e durante as Olimpíadas, com crise política acentuada (processo de impeachment da então presidente Dilma Rousseff), recessão econômica crescente, manifestações, aumento da violência urbana no Rio de Janeiro e estádios, ginásios e arenas esportivas com pouco público, além problemas de alojamento de atletas, de mobilidade e poluição da Baia da Guanabara e de piscinas do complexo aquático.

Com isso, a cobertura inicialmente positiva da mídia estrangeira em relação aos jogos, principalmente em função do sucesso obtido pelo país dois anos antes, na realização da Copa do Mundo, tornou-se crítica, afirmou Bettine.

As críticas não se restringiram à falta de interesse dos brasileiros em esportes que não o futebol, à problemas organizativos (deficiências nos alojamento de atletas) e poluição das águas, Houve questionamentos da falta de acesso da população de baixa renda à festa de abertura e às disputas, à desigualdade do país, à falta de respeito à diversidade - dados os níveis alarmantes de violência sexual, feminicídio, ataques a homossexuais - e até ao desmatamento da Amazônia, de acordo com o levantamento.

Um caso específico acabou dominando o noticiário internacional na parte final dos jogos, segundo Bettine: o do nadador americano Ryan Lochte, que disse ter sido assaltado, na companhia de outros três nadadores americanos, ao voltar para a Vila Olímpica. A denúncia motivou muitas críticas ao país, mas depois verificou-se que na verdade eles depredaram o banheiro de um posto de gasolina e brigaram com os funcionários do local.

Segundo Bettine, a pesquisa deu margem a considerações em cinco aspectos sobre a cobertura da mídia internacional: cultura, instituições, desinteresse, características e magnitude na reação sobre o país e os dois megaeventos.

Do ponto de vista da cultura, a indicação foi de que o Brasil "é um país de futebol, com grande interesse pela Copa do Mundo e um sentimento coletivo de testemunhar a história em formação", mesmo que isso significasse assistir a apenas jogos de seleções menos importantes. "Nas Olimpíadas, por outro lado, não houve uma compreensão real do espírito olímpico e aconteceu uma falta de interesse, especialmente com modalidades menos populares o Brasil."

Na área institucional, durante a Copa do Mundo, "apesar da turbulência, ainda havia alguma estabilidade, mas nas Olimpíadas a crise se agravou com o processo de derrubada de uma presidente eleita", afirmou o pesquisador.

No aspecto magnitude, influiu o tamanho do país: durante a Copa do Mundo, os jornalistas viajaram por várias partes do Brasil e a mídia publicou seções sobre cada local onde as seleções de seus países jogariam. "Escreveram sobre a cultura local, como as seleções foram recebidas, atrativos naturais. Havia uma agenda potencialmente positiva, já que as cidades-sede eram extremamente charmosas. Nos Jogos Olímpicos, por sua vez, todos os meios de comunicação e seus correspondentes permaneceram no mesmo local por cerca de um mês, em contato com os problemas da população e a desigualdade altamente visíveis."

No que tange as características da cobertura, o normal foi que assim que a equipe de um país era eliminada na Copa do Mundo, sua mídia também ficava reduzida, "passando automaticamente a utilizar o material produzido por agências de notícias para comentar o torneio". Ao contrário, nas Olimpíadas, "os correspondentes permaneceram até o último dia no Rio de Janeiro".

No caso do desinteresse pelas Jogos Olímpicos, Bettine disse que o flerte das grandes potências com o Brasil acabara e as grandes corporações tinham perdido o interesse pelo país: "A mídia seguiu esses humores. Diferentemente da Copa da Fifa, não houve pressão para o evento parecer grande e sem problemas"

Foto: Leonor Calasans/IEA-USP