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Mudanças climáticas e a pandemia de covid-19 são crises convergentes, afirmam pesquisadores

por Letícia Martins Tanaka - publicado 15/12/2020 18:30 - última modificação 23/12/2020 14:45

Estudos mostram que as alterações no clima já causam impactos na saúde e podem gerar novas pandemias

Incêndio no Pantanal
Fogo consome vegetação no Mato Grosso

Quando o Pantanal passou por fortes queimadas em setembro deste ano, verificou-se que o rato selvagem estava saindo das zonas desmatadas em busca de alimento nas cidades, invadindo residências e expondo as pessoas ao Hantavírus, causador de uma doença ainda mais perigosa que a covid-19. Em uma situação ainda mais cotidiana, o brasileiro tem enfrentado a proliferação de mosquitos como o Aedes Aegypti, transmissor de pelo menos três doenças graves, devido ao aumento das temperaturas.

Esses dois exemplos foram apresentados no seminário Mudanças Climáticas e a Pandemia: Quais Decisões Devemos Tomar Agora para o Futuro?, realizado no dia 4 de dezembro, para mostrar a estreita relação entre a saúde humana e os problemas com o clima. O evento, que repercutiu o relatório The Lancet Countdown de 2020, lançado no dia anterior, foi organizado pelo Grupo de Estudos Saúde Planetária do IEA.

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Relatório Lancet Countdown 2020

A publicação é resultado de uma colaboração de pesquisas internacionais que fornece uma visão global da relação entre as mudanças climáticas e saúde pública, com dados e recomendações de políticas para mitigar as consequências do aquecimento global. Alice McGushin, representante da revista The Lancet no evento, alertou: “Governos do mundo todo preparam sua recuperação econômica [após a covid-19], mas se as medidas não forem alinhadas também ao desafio das mudanças climáticas, vão falhar”.

Sandra Hacon, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), concorda. “Não resta a menor dúvida que as mudanças climáticas causam riscos à saúde, sejam eles direta ou indiretamente”, disse. O relatório trouxe dados de que as mortes por ondas de calor aumentaram 53,7% em idosos com mais de 65 anos, entre 2000 e 2018. O aumento da temperatura também causou a perda de 100 bilhões de horas de trabalho no mundo todo, em relação às horas trabalhadas nos anos 2000. Só no Brasil foram mais de 4 bilhões de horas potenciais não trabalhadas em 2019. “Na Europa, devido à baixa adaptabilidade da população, os efeitos à saúde das ondas de calor são mais evidentes, sendo o principal a mortalidade”, comentou Sandra.

Mudanças Climáticas e a Pandemia - 2
Da esquerda para direita, de cima para baixo:Daniela Vianna (Procam/USP); Paulo Saldiva (IEA-USP), Mayara Floss (SBMFC) e Alice McGushin (The Lancet)

Ela também chama atenção para os elementos que tornam a saúde humana vulnerável. “O ser humano possui vulnerabilidades naturais, por exemplo, idade e gênero. No entanto, há as vulnerabilidades sociais, como a qualidade e o acesso aos serviços de saúde, as desigualdades, as infraestruturas da saúde pública, a intensa mobilidade e os conflitos existentes”. O aumento das doenças mentais, da desnutrição causada pelo excesso de carne vermelha e doenças não transmissíveis, como cardiovasculares, respiratórias e alergias, são consequências das mudanças climáticas, segundo Sandra.

Outro grande alerta do Lancet Countdown é o aumento da capacidade de transmissão vetorial de doenças por mosquitos. O relatório mostra que as altas temperaturas permitiram a adaptação climática da transmissão da dengue. O médico Paulo Saldiva, ex-diretor do IEA, acredita que esse processo já esteja acontecendo. “Nós já estamos mudando a geografia das febres transmitidas por vetores. Antes era preciso tomar a vacina da febre amarela para ir às regiões norte e centro-oeste. Em 2017, tomava-se para ir à região norte da cidade de São Paulo, porque era perto do Horto Florestal. A febre amarela só não se tornou uma febre urbana devido ao cinturão vacinal feito pela vigilância epidemiológica e campanhas de vacinação”, disse Saldiva.

O desmatamento das florestas, somado à elevação das temperaturas, preocupa os pesquisadores da saúde também por causa dos seus impactos na transmissão de doenças patogênicas. “70% das doenças infecciosas circulam entre animais e humanos (zoonoses). Dentro disso, 72% são causados por patógenos na vida silvestre. Então, quando os ecossistemas são abalados, apresentam maior risco de transmissão de patógenos para humanos”, afirmou Sandra. Dessa forma, os incêndios florestais do Pantanal e o intenso desmatamento da Amazônia representam um perigo para o surgimento de novas doenças.

Para o pesquisador colaborador do IEA Carlos Nobre, “todos os elementos para uma nova pandemia estão na Amazônia”, pois a floresta apresenta a maior biodiversidade do mundo, com a maior parte das espécies de vetores e agentes de doenças infecciosas desconhecidos. Além disso, seu ecossistema tem sido alvo de constantes perturbações por causa da ação humana.

Segundo Nobre, seis novos vírus já foram encontrados na floresta amazônica e dois deles são transmissível entre humanos. Um deles é o Hantavirus, organismo transmitido por roedores selvagens e, de acordo com o pesquisador, mais perigoso que a covid-19. A doença causou mortes na Bolívia este ano e é uma ameaça aos brasileiros.

Na tentativa de resolver as questões climáticas e de saúde, Mayara Floss, médica e colaboradora do The Lancet Countdown, afirmou que “as medidas de mitigação e adaptação precisam ter a questão da saúde como central”. As recomendações feitas pela Lancet Countdown foram a transição para uma economia de baixa emissão de carbono, a criação de uma vigilância epidemiológica nacional que também acompanhe as doenças provocadas pelo calor, desenvolver projetos urbanos mais adaptados a altas temperaturas, recuperar as áreas desflorestadas, zerar as queimadas e o desmatamento, assim como a redução da emissão de carbono .

“É importante perceber que as mudanças climáticas já estão ameaçando a saúde pública e precisamos agir agora. Não só temos que diminuir a emissão de gases estufas drasticamente e imediatamente, como também precisamos pensar em medidas adaptativas e resilientes para fortalecer nossos sistemas de saúde”, afirmou Alice.


Imagem: Mayke Toscano/Secom-MT