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Uma reflexão sobre o ideário da extrema direita do passado e de agora

por Mauro Bellesa - publicado 14/11/2018 10:30 - última modificação 14/12/2018 15:57

O seminário "Memória, Democracia e Resistência: Reflexões sobre o Nazifascismo na Alemanha", realizado no dia 8 de novembro, foi uma iniciativa do Grupo de Pesquisa Qualidade da Democracia e pela Cátedra Martius de Estudos Alemães e Europeus.
Márcio Seligmann-Silva, Juliana Perez e Brigitte Weiffel - 8/11/18
Seminário com exposições e debate marcou os 80 anos da "Noite dos Cristais"

A discussão teórica sobre o fascismo, a resistência pacífica (mas com risco de vida) ao nazismo na própria Alemanha durante a Segunda Guerra e o ideário dos partidos de extrema direita e do populismo de direita surgidos nas últimas décadas, principalmente na Europa, foram debatidos no dia 8 de novembro, em seminário com a participação de cientistas políticos e especialistas em estudos alemães.

Organizado pelo Grupo de Pesquisa Qualidade da Democracia do IEA e pela Cátedra Martius de Estudos Alemães e Europeus, o encontro Memória, Democracia e Resistência: Reflexões sobre o Nazifascismo na Alemanha marcou os 80 anos da "Noite dos Cristais", ocorrida na noite de 9 para 10 de novembro de 1938, quando milícias paramilitares nazistas e outros grupos simpatizantes do regime assassinaram dezenas de judeus, depredando sinagogas, casas e lojas da comunidade judaica em vários pontos da Alemanha.

A discussão sobre as principais teorias a respeito do fascismo, sobretudo do ponto de vista psicanalítico, foi empreendida pelo  Márcio Seligmann-Silva, do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp e membro do Grupo de Pesquisa Direitos Humanos, Democracia, Política e Memória do IEA. A resistência pacífica de grupos alemães contra ao nazismo foi o tema de Juliana Perez, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. A cientista política alemã Brigitte Weiffen, titular da Cátedra Martius de Estudos Alemães e Europeus moderou o encontro e também teceu comentários sobre a a apresentação enviada por sua colega Barbara Laubenthal, da Universidade do Texas, EUA.

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Teorias

De acordo com Seligmann-Silva, algumas teorias sobre o fascismo foram “fruto da experiência histórica do nazifascismo e suas ideias são surpreendentemente atuais”. Ele tomou como referência inicial a análise feita por Sigmund Freud em 1921 no ensaio “Psicologia das Massas e Análise do Eu”. Para ele, Freud se apropriou da tese expressa por Gustave Le Bon no livro “Psicologia das Massas”, de 1895 – "louvado por Mussolini e Hitler" – para desmontá-la. “Se Le Bon estava preocupado em como podemos domar as massas cegas e manipuláveis, Freud vai mostrar que por detrás dessa concepção política aninha-se um pensamento autoritário.”

Para o expositor, o texto de Freud é um tratado acerca dos totalitarismos do século 20, “antes mesmo que se pudesse vislumbrar que esses regimes mudariam a face do século”. O ensaio “também nos ajuda a pensar criticamente a atual ascensão do fascismo aqui e no mundo”, acrescentou.

Outro aspecto da análise de Le Bon que interessou a Freud é o prestígio que é projetado em seu líder, seja por um encanto magnético ou calcado em um nome, bens e reputação, explicou o expositor. “Freud também fez uma análise crítica das ideias de William MacDougall e de seu livro “The Group Mind”, de 1920. Para ele, a massa seria o fruto do ‘princípio de indução direta da emoção por meio da resposta simpática primitiva’."

Márcio Seligmann-Silva - 8/11/18
Márcio Seligmann-Silva: "Todos os ditadores fascistas são oriundos do ambiente reacionário do ‘Zé Ninguém’"

Seligmann-Silva disse que Freud via tanto em Le Bon quanto em MacDougall uma falsa explicação do fenômeno de massa baseada em uma noção equivocada de sugestão. Freud apresenta a hipótese de que por trás da alma coletiva atuam as relações de amor: “Como para Platão, também para Freud é o amor, Eros, que mantem a massa unida”. Mas os de fora, os estranhos “não são dignos de amor ou compaixão”. Ele cita Freud, para quem “o sentimento social repousa [...] na inversão de um sentimento hostil em um laço de tom positivo”, e tal inversão “parece ocorrer sob a influência de um laço afetuoso comum a uma pessoa que está fora da massa”: o líder.

De acordo com o expositor, Freud retomou no ensaio sua tese de horda primeva que ele desenvolvera em “Totem e Tabu”.  O pai todo poderoso dessa horda seria uma figura absolutamente narcísica, que só amava a si mesmo, disse Seligmann-Silva. “Em compensação, os filhos que viviam na abstinência sexual, por imposição do pai, criaram laços entre si. A psicologia da massa, quer dizer, os laços afetivos que ligavam esses irmãos, teve origem nos ciúmes sexuais.”

Dez anos depois do ensaio do pai da psicanálise, Wilhelm Reich, publicou o ensaio “Psicologia de Massas do Fascismo”.  Seligmann-Silva comentou que, para o “discípulo rebelde” de Freud, o fascismo nada mais é do que a expressão politicamente organizada da estrutura de caráter do homem médio. O regime é, nas palavras de Reich, “a atitude emocional básica do homem oprimido pela civilização autoritária da máquina, com sua maneira mística e mecanicista de encarar a vida”.

Outro ponto destacado pelo expositor é que para Reich a teoria racial não é um produto do fascismo: ao contrário, o fascismo é um produto do ódio racial e a sua expressão politicamente organizada.

Seligmann-Silva citou também trecho de texto de 1942 de Reich: “A mentalidade fascista é a mentalidade do ‘Zé Ninguém’, que é subjugado, sedento de autoridade e, ao mesmo tempo, revoltado. Não é por acaso que todos os ditadores fascistas são oriundos do ambiente reacionário do ‘Zé Ninguém’”.

Ele explicou que Reich associa a necessidade da repressão sexual às divisões de classe e ao surgimento do patriarcado. “Políticas sexuais respondem a interesses de uma minoria instituindo a família e o casamento patriarcais. A reprodução da sociedade está associada à sua estrutura socioeconômica e sexual. A família é o núcleo desse construto. Daí nos fascismos presenciarmos sempre essa obsessão pela família. Ela é o microestado. Ela é base de toda ideologia.”

Para Reich, a igreja dá apenas continuidade ao trabalho formatador da família, “daí sua importância também nos estados fascistas”, acrescentou Seligmann-Silva.

Foi apenas com a crise de 1929-32 e com a eleição de 1933 na Alemanha que a classe média passou a ser estudada pelas esquerdas, comentou. “O nacional-socialismo é ante de mais nada um movimento de classe média, sendo que seu conservadorismo reacionário, detecta Reich, dificilmente se abre para uma política de oposição.”

No seu esforço para se diferenciar do trabalhador, o homem da classe média só pode apoiar-se na sua forma de vida familiar e sexual, de acordo com o psicanalista austríaco. “Suas privações econômicas têm de ser compensadas por meio do moralismo sexual”, escreveu Reich.

Seligmann-Silva complementou: “O moralismo (fruto da biopolítica de controle que torna os corpos dóceis) atua tanto nessa compensação material da classe média, que se vê empoderada por um moralismo autoritário, como serve ainda de técnica de dispersão da oposição para as manobras políticas e econômicas”.

Juliana Pasquarelli Perez - 8/11/18
Juliana Perez: "A plena consciência dos integrantes do Rosa Branca de que corriam risco de vida impossibilita qualquer banalização de seu movimento"

Resistência

Engana-se, no entanto, quem imagina não ter havido contestação do nazismo entre os alemães durante a própria vigência do regime. Em sua exposição, Juliana lembrou alguns dos principais movimentos de resistência. Ela detalhou a atuação do Rosa Branca, formado principalmente por estudantes da Universidade de Munique.

Juliana coordenou - com Tinka Heichmann, também da FFLCH-USP - a tradução do livro "A Rosa Branca", de Inge Scholl, lançada no Brasil em 2013. O livro apresenta cartas, trechos dos diários e fotografias dos seus irmãos Hans e Sophia, integrantes do movimento, além de transcrições dos panfletos produzidos pelo grupo e relatos sobre o julgamento e execução dos principais ativistas.

O trabalho com a obra levou Juliana "a pensar no significado de resistir e como foi possível fazer isso no contexto nazista". Ela lembrou que o historiador britânico Ian Kershaw, especialista no nazismo, usa o termo dissensão para designar as formas menos espetaculares de resistências, mas destaca que "mesmo ações que, do ponto de vista atual, não seriam caracterizadas como resistência, eram combatidas como tais pela Gestapo e de maneira sempre mais ampla, numa crescente radicalização da violência”.

Juliana afirmou que é importante não idealizar os participantes dos vários movimentos de resistência surgidos durante o regime nazista. "Deles participavam conciliadores, herdeiros dos princípios da República de Weimar, membros da elite militar e pessoas que hoje seriam consideradas conservadoras. Há referências inclusive a um ideário patriótico semelhante ao do Partido Nacional Socialista."

No caso do Rosa Branca, os participantes tinham em torno de 24 aos e a "ingenuidade em apostar na liberdade humana e subjetividade do ser humano". O núcleo do grupo, executado em fevereiro de 1943, era constituído por quatro estudantes e um professor de filosofia.

O grupo publicou sete panfletos entre junho de 1942 e janeiro de 1943 com críticas ao regime nazista e apelos à consciência moral dos alemães. A linguagem das publicações foi determinada por três fatores: autoria múltipla, destinatários e circunstâncias exteriores. O sétimo panfleto não chegou a ser distribuído e foi utilizado como prova para a condenação à morte do núcleo do movimento.

"Esses estudantes assumiram total e completa responsabilidade por suas ações e por seu pais, foi um caminho de anos de reflexão, laços afetivos fortes, e experiencias determinantes, como a dos rapazes no front russo e a de enfermeira de Sophie. Sua consciência plena sobre o quanto estavam arriscando a própria vida impossibilita qualquer banalização de seu movimento."

Brigitte Weiffen
Brigitte Weiffen: "Nem sempre é fácil definir a fronteira entre o populismo e o extremismo"

Realidade atual

O tema da apresentação de Barbara Laubenthal, exposta por Brigitte com acréscimo de comentários pessoais, foi "O Populismo de Direita depois do Holocausto - O Alternativa para a Alemanha e o Papel do Passado nas Políticas de Asilo Alemãs".

De acordo com as duas pesquisadoras, o populismo de direita possuí três características principais:

  • antielitsmo: “classe política” (tida como corrupta), “elite” ou  “establishment” versus "o povo", cuja única autêntica voz  é do movimento/líder populista;
  • antipluralismo: atores populistas proclamam serem os representantes genuínos de uma população não-institucionalizada, homogênea, autêntica e, sobretudo, moral;
  • construção da imagem do inimigo: identidade e interesses do "povo" culturalmente homogêneo versus os "outros", geralmente minorias e imigrantes, que seriam favorecidos por elites "corruptas".

     

    A afirmação desses princípios se vale, segundo elas, das seguintes estratégias:

    • quebra de tabus no discurso, provocações calculadas, desrespeito a regras formais e informais (tendo como alvo o "politicamente correto") e insultos pessoais;
    • apelos emocionais e exagerações, alarmismo;
    • teorias conspiratórias;
    • biologismo ou metáforas violentas;
    • uso de generalizações, distinção rígidas entre "nós" e "eles";
    • simplificações;
    • demanda por soluções radicais.

     

    Brigitte ressaltou, no entanto, que é preciso distinguir entre o populismo e o extremismo: "Certas colocações populistas se enquadram nas liberdades democráticas, mas quando há uma desvalorização de minorias e imigrantes, quando há um chamado à violência, então o discurso está claramente atravessado pelo extremismo. É preciso ter sensibilidade, pois nem sempre é fácil definir a fronteira entre o populismo e o extremismo".

    A exposição também discutiu a presença do populismo de direita nos parlamentos e governos de vários países europeus, o perfil dos partidos de extrema direita do continente, com ênfase no ideário do Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla em alemão), que se vale, de acordo com Brigitte e Bárbara, de uma reinterpretação do período nazista e de distorções sobre ações nacional-socialistas para promover ideias anti-imigração e islamofóbicas.

    Fotos: Leonor Calasans/IEA-USP