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Programa Ano Sabático escolhe sete pesquisadores para 2019

por Mauro Bellesa - publicado 09/10/2018 11:40 - última modificação 11/10/2018 12:18

O Conselho Deliberativo (CD) do IEA selecionou sete professores da USP para a edição de 2019 do Programa Ano Sabático. Provenientes da engenharia, ciência política, psicologia, ciências sociais, educação, comunicação e sociologia, eles realizarão pesquisas específicas durante o período de estada no Instituto (cinco deles atuarão no programa por um ano e dois serão sabáticos por seis meses). Leia abaixo sobre os selecionados e seus projetos.

Arturo Former Cordero

Artur Forner Cordero

Cordero é professor do Departamento de Engenharia Mecatrônica e Sistemas Mecânicos da Poli, onde passou a lecionar em 2002. Graduou-se em engenharia pela Universidade Politécnica de Valência, Espanha, e obteve o título de doutor em biomecânica na Universidade de Twente, Holanda. Depois, tornou-se mestre em neurociências e biologia do comportamento pela Universidade Pablo de Olavide, também da Espanha. Realizou pesquisa de pós-doutorado na Universidade Católica de Leuven, Bélgica.

MODELAGEM DO CONTROLE MOTOR BIOLÓGICO

Livre docente da Escola Politécnica (Poli), Arturo Forner Cordero desenvolverá, durante seis meses, o projeto “Modelagem do Sistema de Controle Motor Biológico a partir da Engenharia”.

Cordero explica que houve grandes avanços no estudo do controle do movimento biológico graças aos estudos a partir dos pontos de vista da biologia, medicina e psicologia, com a adição de enfoques matemáticos e de engenharia. Seu projeto parte de uma pergunta geral: como o sistema nervoso humano planeja, codifica e controla o movimento? A intenção é esclarecer os princípios do controle motor e propor modelos que considerem aspectos importantes do movimento biológico, como variabilidade, aprendizado, adaptabilidade e robustez, explica.

“Os modelos atuais de controle motor, no entanto, ainda apresentam algumas limitações, tanto na capacidade para explicar os fenômenos biológicos, quanto nas possíveis aplicações em robótica ou reabilitação”, afirma o pesquisador.

Ele acredita que a modelagem prevista em seu estudo possa ter aplicações em diferentes disciplinas. Uma delas seria ajudar na avaliação, diagnóstico e predição da evolução de doenças neuromusculares, permitindo a escolha de terapias mais eficientes. Outra possibilidade de uso terapêutico seria na área de robótica de reabilitação e otimização de mecanismos auxiliares de assistência a portadores de deficiência.

A engenharia de controle e robótica baseadas no design biomimético também pode se beneficiar do estudo por meio da incorporação da robustez e adaptabilidade do controle motor biológico, segundo Cordero.

 Rogério Bastos Arantes
Rogério Bastos Arantes

Arantes é professor do Departamento de Ciência Política da FFLCH desde 2008. Graduou-se em ciências sociais e tornou-se mestre e doutor em ciência política na mesma faculdade. Dedica-se ao estudo das instituições políticas, com ênfase em: constitucionalismo e democracia em perspectiva comparada; direito e justiça; sistema político brasileiro; instituições de justiça (Judiciário, Ministério Público e Polícia Federal). Foi professor da PUC-SP, pesquisador do Instituto de Estudos Econômicos, Sociais e Políticos de São Paulo (Idesp) e coordenador da Pós-Graduação em Ciência Política da USP. É autor de “Judiciário e Política no Brasil” (1997) e “Ministério Público e Política no Brasil” (2002).

CORRUPÇÃO POLÍTICA E CRIME ORGANIZADO

O projeto para o ano sabático do cientista político Rogério Bastos Arantes, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) é “Corrupção Política e Crime Organizado no Brasil”.

Por meio da análise das operações conduzidas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público de 2003 a 2017, Arantes pretende alcançar dois objetivos principais. Um deles é realizar um mapeamento da corrupção política e do crime organizado no Brasil a partir dos elementos fornecidos pelas mais de três mil operações desencadeadas no período. “Tal mapeamento poderá resultar numa nova tipologia empírica das atividades  mais sujeitas à corrupção política e ao crime organizado no país.”

Outra meta é analisar o desempenho das principais instituições envolvidas no combate a essas atividades criminosas, especialmente o Ministério Público, a Polícia Federal e a Justiça Federal. “Como polos constitutivos do sistema penal responsável pela investigação, acusação e julgamento de crimes, tais instituições e o sistema que integram passaram por deslocamentos significativos, que remodelaram a jurisdição criminal relacionada à corrupção política e ao crime organizado", de acordo com Arantes.

O primeiro objetivo resultará "no quadro mais extenso e abrangente que se tem notícia das atividades criminosas organizadas no país, especialmente a corrupção política", avalia o pesquisador. O segundo propiciará o conhecimento sobre as bases institucionais e organizacionais de atuação dos órgãos de controle e de justiça, acrescenta. “No conjunto, a pesquisa exigirá uma abordagem interdisciplinar, mobilizando as áreas da ciência política e do direito”, afirma Arantes.

Eduardo Benedicto Ottoni
Eduardo Benedicto Ottoni

Professor titular do Departamento de Psicologia Experimental do IP, Ottoni graduou-se em ciências biológicas e tornou-se mestre, doutor e livre-docente em psicologia experimental também pela USP. Foi professor visitante da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Universidade de Kyoto, Japão. É autor 58 artigos em revistas especializadas e de capítulos em oito livros. Orientou nove teses de doutorado e 15 dissertações de mestrado.

EVOLUCIONISMO E CULTURA

“Abordagens Evolucionistas da Cultura” é o tema do projeto de Eduardo Benedicto Ottoni, do Instituto de Psicologia (IP), em sua estada no IEA por um ano.

Em estudos sobre o uso de ferramentas por macacos-prego, Ottoni tem investigado o papel das influências sociais nas escolhas de conjuntos de ferramentas por diferentes grupos desses primatas.

Segundo ele, em alguns casos, as escolhas são “difíceis de explicar em termos de diferenças entre os habitats ou de natureza genética”.

Essa perspectiva de entender como “culturais” os repertórios comportamentais peculiares de cada população se insere, de acordo com Ottoni, num cenário que envolve, entre outras questões, “uma proposta de reconsideração do lugar da cultura na teoria evolucionista”.

Ele ressalta que nos últimos anos tem ganhado consistência, visibilidade e relevância crescentes o debate para superar as barreiras epistemológicas entre um modelo evolucionista que relega os fenômenos culturais a um “papel proximal (‘fenótipo estendido’)” e visões da cultura enquanto “processo exclusivamente humano e relativamente desconectado da biologia evolutiva da espécie".

José Renato de Campos Araújo
José Renato de Campos Araújo

Além de docente do Curso de  Gestão de Políticas públicas da Each, Araújo é pesquisador do Observatório Interdisciplinar de Políticas Públicas da mesma unidade, onde desenvolve o projeto tema de seu período sabático no IEA. Ocupou a Cátedra Sérgio Buarque de Holanda no Instituto de Investigações Doutor José Maria Luis Mora, na Cidade do México, e foi pesquisador do Instituto de Estudos Econômicos, Sociais e Políticos de São Paulo (Idesp) e do Núcleo de Estudos de População (Nepo) da Unicamp. É mestre em sociologia e doutor em ciências sociais pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp.

MIGRAÇÕES NO BRASIL

Durante seu ano sabático no IEA, José Renato de Campos Araújo, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (Each), vai tratar do tema “Brasil Migrante: Fluxos Populacionais, Políticas Públicas e Estruturas Estatais”.

A intenção é mapear quais são as estruturas burocrático-administrativas existentes no governo federal relacionadas com os fluxos migratórios no Brasil – tanto a emigração de brasileiros quanto a imigração de estrangeiros – bem como as principais características das ações dessas estruturas.

Araújo destaca a relevância da temática nas ciências sociais, com os pesquisadores brasileiros tendo produzido “um número razoável de estudos e projetos na área há pelo menos duas décadas”.

Em sua opinião, isso se deve aos próprios movimentos migratórios, que passaram por importantes transformações nas últimas quatro décadas.

“Nesse período, ao mesmo tempo que novos imigrantes chegam ao Brasil – como latino-americanos, africanos, chineses, coreanos e de outras origens que ainda não compunham o mosaico de etnias que marca a população do pais –, passamos a ser uma importante fonte de emigrantes no cenário internacional.”

A partir dos estudos que realiza na Each e do trabalho a ser feito no IEA, Araújo pretende criar uma série de ações de pesquisa para entender o ciclo completo (formulação, implementação e avaliação) das políticas públicas relativas ao fenômeno migratório no Brasil. "Em certa medida, o objetivo é responder se existe ou não no país, nas últimas décadas, uma política migratória ou somente ações estatais ad hoc que enfrentam problemas conjunturais."

Mauricio Pietrocola Pinto de Oliveira
Mauricio Pietrocola Pinto de Oliveira

Professor titular do Departamento de Metodologia do Ensino e Educação Comparada da Faculdade de FE desde 2010, Oliveira iniciou sua carreira docente no mesmo departamento em 2002. Licenciado em física pela USP, especializou-se em história e epistemologia das ciências na Universidade Paris Diderot, França. Tornou-se mestre em ensino de ciências pela USP e doutor em epistemologia e história das ciências pela Universidade de Paris Diderot. Foi docente na UFSC e no Colégio Visconde de Porto Seguro. Participa do projeto de pesquisa internacional Hope – Horizon 2020 in Physic Education, financiado pela União Europeia.

EDUCAÇÃO CIENTÍFICA NA SOCIEDADE DE RISCO

Mauricio Pietrocola Pinto de Oliveira, da Faculdade de Educação (FE) vai analisar a “Educação Científica na Sociedade de Risco”.

Para Oliveira, um dos impactos mais sensíveis da globalização na vida social é uma percepção difusa por parte dos indivíduos sobre o papel da ciência e da tecnologia nos dias de hoje. “A despeito dos benefícios que foram desenvolvidos a partir da ciência e da tecnologia para a sociedade – ao menos para as pessoas que vivem em regiões ricas e industrializadas –, tais como o aumento na expectativa de vida, água potável e saneamento básico, a modernidade tardia testemunhou um aumento da ansiedade pública e da frágil confiança nas ciências.”

De acordo com Oliveira, o sociólogo alemão Ulrich Beck afirma, em seu livro "Sociedade de Risco: Rumo a uma Nova Modernidade”, de 1986, que a vida social moderna se defronta com novas formas de riscos produzidas por ela mesma e que desafiam a humanidade. “Isso implica que viver em uma ‘sociedade de risco’ seria assumir uma atitude calculista em relação às possibilidades de ação, positivas e negativas, com que somos continuamente confrontados.” Esse confronto impacta tanto a existência em nível individual quanto em nível global, afirma o pesquisador.

Em sua pesquisa durante ano sabático no IEA, Oliveira pretende abordar de que forma essa avaliação da nova modernidade impacta o projeto educacional em geral e da educação científica em particular. A ideia é colocar “em suspensão as perspectivas contidas nas abordagens CTS [ciência, tecnologia e sociedade] e da alfabetização científica e avançar na discussão sobre os desafios da educação científica na contemporaneidade”.

Dennis de Oliveira
Dennis de Oliveira

Oliveira é chefe do Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA, onde ingressou como docente do Curso de Jornalismo em 2003. Obteve seus títulos acadêmicos, da graduação à livre-docência, na ECA. Atua também como docente e orientador no Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina (ECA) e no Programa de Pós-Graduação em Mudança Social e Participação Política (Each). Lecionou também na Universidade Metodista de Piracicaba, no Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos, na Universidade Anhembi-Morumbi, Universidade de Mogi das Cruzes e Faculdade de Valinhos.

COLETIVOS DE CULTURA DA PERIFERIA

Nos seis meses de participação do programa, Dennis de Oliveira vai trabalhar na pesquisa “Projetos Insurgentes: Os Coletivos de Cultura e Comunicação nas Periferias da Cidade de São Paulo”.

Seu objetivo é refletir sobre as experiências dos coletivos de cultura e comunicação nos bairros periféricos da cidade de São Paulo, em particular aquelas financiadas por programas oficiais de fomento.

O arcabouço teórico do estudo é o de cultura das classes subalternas e mediações culturais desenvolvido por pesquisadores latino-americanos influenciados pelo filósofo marxista, político e jornalista italiano Antonio Gramsci (1891-1937).

A metodologia da pesquisa prevê um mapeamento de iniciativas culturais e a seleção de projetos para análise qualitativa.

O mapeamento de ações culturais será feito com ferramentas digitais e a utilização dos dados de projetos financiados pelos programas de fomento da Prefeitura de São Paulo, como o VAI (Valorização de Iniciativas Culturais) e a Lei de Fomento às Periferias.

Serão selecionados projetos de regiões distintas, preferencialmente, para a análise qualitativa. Neles, serão verificados os processos comunicativos utilizados para divulgação e articulação das comunidades e os dados socioeconômicos da região. Esse trabalho será complementado com entrevistas semiestruturadas com os líderes dos coletivos proponentes com o objetivo de "verificar os olhares construídos sobre o tema comunicação e cultura e sobre a região onde atua e o município".

Marco Antonio Bettine de Almeida
Marco Antonio Bettine de Almeida

Graduado em educação física pela Unicamp e em direito pela PUC-Campinas, Almeida tornou-se doutor em estudos do lazer também pela Unicamp e livre-docente pela Each. Realizou pesquisa de pós-doutorado em sociologia do esporte na Universidade do Porto, Portugal. Nos últimos seis anos, realizou quatro projetos de pesquisa: um sobre a relevância da Copa do Mundo de Futebol da Fifa em 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016 como instrumentos de soft power brasileiro; dois sobre a influência das principais ferrovias e do rio Tietê no desenvolvimento do futebol paulista; e um sobre a aplicabilidade no Brasil de programas para qualidade de vida e lazer desenvolvidos pela cidade do Porto.

COPA DO MUNDO E SOFT POWER

Marco Antonio Bettine de Almeida, também da Each, dará continuidade a seu projeto “Soft Power: Um olhar sobre a Utilização Estratégica dos Brics ao sediar a Copa do Mundo de Futebol da Fifa - Análise de África do Sul, Brasil e Rússia".

Almeida irá analisar a forma como África do Sul, Brasil e Rússia utilizaram a realização das copas para incrementar seu soft power. A referência serão as notícias sobre os eventos dos três países divulgadas pelos sites de três veículos de imprensa internacional: o jornal francês “Le Monde” , o jornal “El País” e a rede de rádio e televisão britânica BBC.

Nessa análise, ele tentará estabelecer as relações entre os discursos dos três países durantes os eventos em busca do aumento de seu soft power e o que foi de fato noticiado pela mídia internacional.

O estudo buscará também identificar a relação entre a escolha dos três países como sedes da copa pela Fifa e a importância dos Brics como novos atores nos megaeventos esportivos do século 21.

Almeida vai examinar as reportagens sob a enfoque da busca de incremento do soft power a partir das categorias de cultura, valores políticos e política internacional definidas pelos cientistas políticos americanos Joseph Nye e Robert Keohane.

 

Fotos (a partir do alto): Poli, FFLCH, IP, Leonor Calasans/IEA, FE, Leonor Calasans/IEA e Each