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Projeto fará análise política das reações do Brasil aos desafios da globalização

por Mauro Bellesa - publicado 14/12/2020 17:30 - última modificação 17/12/2020 13:43

Projeto “Brasil como uma Variedade de Democracia de Mercado Emergente: Entre a Agenda da Globalização e a Agenda Democrática” começou em agosto de 2020.

Lourdes Sola e Eduardo Viola

Lourdes Sola e Eduardo Viola
são os novos integrantes do IEA

A cientista política Lourdes Sola, professora associada aposentada do Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, e o também cientista político Eduardo Viola, professor titular aposentado do Instituto de Relações Internacionais da UnB, agora integram o corpo de pesquisadores do IEA.

A participação de Sola como professora sênior do Instituto foi aprovada pelo Conselho Deliberativo (CD) em reunião no dia 15 de dezembro. Em 2 de outubro, o CD aprovou o ingresso de Viola como pesquisador colaborador.

A principal atividade dos dois no IEA é a coordenação do projeto “Brasil como uma Variedade de Democracia de Mercado Emergente: Entre a Agenda da Globalização e a Agenda Democrática”.

No final dos anos 80 e início dos anos 90, Sola participou do IEA como coordenadora do Grupo de Trabalho em Economia Política e professora visitante com bolsa concedida pela Fundação Ford do Brasil. Ela e Viola também participaram de diversos debates e seminários promovidos pelo Instituto nas últimas décadas.

Leia entrevista de Lourdes Sola à edição deste mês (dez./2020) da revista “Pesquisa Fapesp”. Ela fala de sua formação, trajetória, definição de economia política e de conceitos presentes no projeto em desenvolvimento no IEA, como o de conjuntura crítica.

Economia política

Sola graduou-se em ciências sociais pela FFLCH-USP, onde também obteve o título de mestre em 1966, tornando-se professora assistente do sociólogo Florestan Fernandes até 1969, quando deixou o país devido às perseguições da ditadura militar.

No Chile, lecionou na Faculdade Latino-Americana de Sociologia (Flacso) e obteve o título de mestre em economia pela Escola Latino-Americana para Graduados em Economia.

No Reino Unido, depois de realizar pesquisa na Universidade de Cambridge, fez o doutorado na Universidade de Oxford, onde defendeu em 1982 a tese "Political and Ideological Constraints to Economic Management in Brazil – 1945/1964”.

De volta ao Brasil, lecionou no Departamento de Sociologia da Unicamp e foi reintegrada à USP, no Departamento de Ciência Política. Tornou-se livre-docente pela USP em 1993, com a tese “Economia Política do Ajustamento Estrutural na América Latina”. Foi presidente da Associação Internacional de Ciência Política e da Associação Brasileira de Ciência Política.

Seus principais temas de pesquisa são: democratização e processos globais de transformação política e econômica; construção política da ordem financeira e monetária em jovens democracias; crise financeira global e o papel das democracias emergentes na reconfiguração da ordem global.

Entre suas publicações mais recentes estão o artigo "Qual Estado para Qual Democracia? Os Lugares da Política" ("Interesse Nacional", 2016), e os livros "Democracia, Mercado e Estado. O B. de Brics" (2011), organizado com Maria Rita Loureiro, e "Statecrafting Monetary Authority. Democracy and Financial Order in Brazil" (2005), escrito com Laurence Whitehead.

Política climático-ambiental

Professor titular do Instituto de Relações Internacionais da UnB de1993 a 2018, Viola continua atuando como docente do programa de pós-graduação do instituto.

Doutor em ciência política pela FFLCH-USP, ele realizou pesquisa de pós-doutorado em economia política internacional na Universidade do Colorado, EUA.

Foi professor adjunto da UFSC e professor visitante da UFRGS, Unicamp e das universidades: Notre Dame, Colorado e Stanford, nos EUA; Amsterdã, Holanda; e San Martin, Argentina. Foi também pesquisador associado sênior da Universidade do Texas e da Universidade de Lisboa.

As temáticas com que trabalha são: política internacional, política comparada, economia política internacional da energia e da mudança climática, política ambiental internacional, relações Internacionais no Antropoceno, globalização e governabilidade, política externa do Brasil, regimes políticos, transições democráticas no Brasil e na Argentina e segurança internacional.

Viola é autor de 90 artigos em periódicos internacionais e nacionais, quatro livros, 89 capítulos de livros nacionais e internacionais e organizador de quatro coletâneas. Seu mais recente livro, escrito com Matias Franchini, é “Brazil and Climate Change. Beyond the Amazon”. Em 2019 editou número especial da "Revista Brasileira de Política Internacional" intitulado "Brazil Ups and downs in Global Environmental Governance in the 21st Century“.

Desenvolver uma análise política das respostas do Brasil à globalização de forma a situar e interpretar as opções de políticas públicas do país é o objetivo central do projeto “Brasil como uma Variedade de Democracia de Mercado Emergente: Entre a Agenda da Globalização e a Agenda Democrática”, iniciado em agosto no IEA e com duração prevista de cinco anos. A coordenação é dos cientistas políticos Lourdes Sola e Eduardo Viola [leia ao lado].

Colaboração internacional

A iniciativa é parte de projeto internacional do Comitê de Pesquisa em Economia Política Internacional da Associação Internacional de Ciência Política (Ipsa, na sigla em inglês) dedicado ao estudo comparativo de democracias de mercado emergente.

Criado em 2012 por Lourdes Sola e Laurence Whitehead, presidente do comitê de pesquisa e professor da Universidade de Oxford, Reino Unido. O projeto da Ipsa é constituído por uma rede global de acadêmicos que buscam lançar novas perspectivas sobre os processos de reconfiguração de poder no sistema internacional, com foco nas democracias de mercado emergente.

Graças à essa vinculação, o projeto em desenvolvimento no IEA terá a colaboração de Whitehead e de outros três integrantes do comitê de pesquisa da Ipsa: Leslie Eliott Armijo, da Universidade Simon Fraser, Canadá; Kathryn Hochstettler, da Escola de Economia e Ciência Política de Londres, Reino Unido; e Matthew Taylor, da Universidade Americana, EUA.

O projeto dará atenção especial às políticas econômicas e climático-ambientais implementadas desde o final dos anos 90. “Nosso ponto focal é a observação de conjunturas críticas nas quais novos desafios de governança democrática pautaram escolhas de políticas públicas decisivas em termos de seu impacto estratégico sobre os rumos do país e sua forma de inserção no cenário global”, afirmam os coordenadores.

Enfoque

A abordagem política será pautada pela fórmula sintetizada pelo cientista político americano Peter Gourevitch, da Universidade da Califórnia, ao analisar a resposta de diferentes países expostos ao impacto transformador das distintas conjunturas críticas internacionais desde o século 19. Segundo Gourevitch, a explicação política de uma política pública “deve identificar aqueles cujo apoio torna possível resolver disputas entre alternativas políticas em conflito”.

O estudo proposto ancora-se no princípio teorizado por Gourevitch e Etel Solingen, da Universidade da Califórnia, de que em tais conjunturas, "os conflitos distributivos latu sensu – por sobrevivência e eventual dominância política – refletem-se na reconfiguração de coalizões sociopolíticas competitivas entre si."

"Dessa perspectiva, o mapeamento e a interpretação das policy coalitions em disputa nas arenas decisórias domésticas pressupõe e requer a análise das clivagens e dos realinhamentos socioeconômicos associados a deslocamentos significativos no cenário internacional."

De acordo com os coordenadores, a investigação proposta será circunscrita à análise das conjunturas críticas domésticas que se situam no marco de duas macroconjunturas críticas internacionais: as que antecederam e sucederam a crise financeira global de 2008 e a pandemia do Covidd19.

Eles partem da suposição de que os desafios de governança político-econômica e climático-ambiental no marco da democracia brasileira "assumiram (e assumirão) novos contornos – crescentemente sistêmicos – ao longo desse período".

"Trata-se de observá-los de uma perspectiva dinâmica: no contexto instável e movediço de um capitalismo de Estado em vias de reinvenção no plano doméstico e da reconfiguração das assimetrias de poder na ordem internacional."

A agenda dos cincos anos do projeto envolve diversas atividades, incluindo revisões de literatura, detalhamento metodológico, entrevistas, produção de artigos e de livro, análise de conjunturas críticas, análise de surveys, um seminário nacional, um seminário internacional e produção do relatório final.

Atividades dos coordenadores

Lourdes Sola será responsável pela construção e supervisão do marco analítico do projeto e pela sua eventual revisão à luz dos resultados parciais da pesquisa. Deverá desenvolver a abordagem política das políticas macroeconômica e de comércio internacional, bem como a análise dos processos transformadores que respondem pelas mudanças na agenda democrática. Ela fará também a interação com os colaboradores internacionais que integram o Comitê de Pesquisa da Ipsa.

Além disso, ela e Eduardo Viola participarão da estruturação das entrevistas com formuladores de políticas públicas relevantes, bem como de CEOs do mercado financeiro, do agronegócio e da indústria. "O objetivo das entrevistas é identificar as formas de percepção que esses atores possuem sobre as transformações observadas na agenda democrática e suas relações com o processo de recapacitação do Estado brasileiro", explicam os coordenadores.

Viola coordenará as análises sobre as políticas que explicam as mudanças na inserção do Brasil no cenário global e regional, com destaque para as políticas climático-ambientais e para as transformações na agenda da globalização a partir de 2008. Ele coordenará também a revisão da literatura relevante sobre as transformações na agenda da globalização e as perspectivas em aberto pelas mudanças tecnológicas e no sistema de informação.

Além de Viola e Sola, atuarão no projeto: Janina Onuki, do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP; Cristiane Lucena, do IRI-USP; Vinicius Rodrigues Vieira, da Fundação Armando Álvares Penteado; Sergio Rodrigo Vale, da MB Associados; e Moisés Marques, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

Fotos: Leonor Calasans/IEA-USP; arquivo pessoal de Eduardo Viola