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A inovação como promotora da sustentabilidade das cidades

por Mauro Bellesa - publicado 28/08/2018 10:45 - última modificação 30/08/2018 17:54

O segundo encontro do ciclo UrbanSus - Sustentabilidade Urbana teve por tema "Inovação, Sustentabilidade e Ação Sistêmica nas Cidades" e foi realizado no dia 22 de agosto, no IEA
Arlindo Philippi Jr., Marcos Buckridge, Cláudia Kniess e Mauro Ruiz - 22/8/
Arlindo Philippi Jr., Marcos Buckridge, Claudia Kniess e Mauro Ruiz

O segundo seminário do ciclo UrbanSus - Sustentabilidade Urbana, no dia 22 de agosto, discutiu a ênfase a ser dada a soluções inovadores que contribuam com a sustentabilidade das cidades. Com o tema "Inovação, Sustentabilidade e Ação Sistêmica nas Cidades", o encontro teve quatro painéis: "Cidades Sustentáveis", "Cidades Inteligentes", "Inovação em Cidades" e "Recursos Humanos, Inteligência, Planejamento Estratégico e Gestão Urbana Sustentável". Os expositores foram pesquisadores da USP, Uninove e UFPE e integrantes de governos municipais, iniciativa privada e organizações não-governamentais.

Para a discussão geral sobre “Cidades Sustentáveis”, o seminário reuniu Jorge Abrahão, da Rede Nossa São Paulo, Fernando Estima, da Secretaria de Desenvolvimento, Turismo e Inovação de Pelotas (RS), e Cezar Capacle, da prefeitura de Campinas (SP) e da Anamma (Associação Nacional de Órgãos Municipais de Meio Ambiente).

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    Ciclo UrbanSus - Sustentabilidade Urbana

    Organizado pelo Programa USP Cidades Globais, sediado no IEA, em parceria com a Faculdade de Saúde Pública (FSP) e o Instituto de Biociências (IB), ambos também da USP, o ciclo é dedicado à reflexão sobre o papel das cidades no cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU.

    Outra motivação é estimular boas práticas de compartilhamento de soluções sustentáveis urbanas por meio de tecnologias sociais, ambientais e urbanas inovadoras. Com isso, os organizadores esperam contribuir para maior compreensão e propagação da temática da sustentabilidade entre academia, sociedade e setor público.

    O encontro do dia 22 de agosto teve como organizadores adicionais dois programas de pós-graduação da Uninove - o dedicado à area de Cidades Inteligentes e Sustentáveis e o de mestrado profissional em Gestão Ambiental e Sustentabilidade.

    A iniciativa contou com o apoio do  Programa de Pós-GraduaçãoAmbiente, Saúde e Sustentabilidade e da Comissão de Cultura e Extensão Universitária,ambos da FSP-USP, e do Programa de Pós-Graduação Gestão de Políticas Púbicas (PPG GPP) da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (Each) da USP.

    Abrahão explicou que o objetivo central da Rede Nossa São Paulo é colaborar na “melhoria da qualidade de vida dos paulistanos e contribuir para que as cidades brasileiras sejam mais justas, democráticas e sustentáveis”. Para atingir isso, as diretrizes são os processos para o aprimoramento da democracia e o enfrentamento da desigualdade.

    Plano de metas

    Como exemplo da preocupação com a melhoria da democracia, Abrahão citou o esforço da rede há dez anos para que os prefeitos de São Paulo fossem obrigados a cumprir um plano de metas debatido com a população e coerente com suas promessas de campanha.

    A obrigatoriedade de elaboração do plano foi estabelecida em lei e a cidade conta com esse recurso para monitoramento das ações municipais desde a gestão 2009-12. Inspiradas na iniciativa de São Paulo, 51 municípios do país já adotaram planos de metas.

    Em relação à desigualdade, ele explicou que a rede procurar combinar os indicadores de todos os distritos com a visão da população sobre os problemas. “Isso gera ferramentas excelentes para o avanço em políticas públicas.”

    Para Abrahão, o modo de governar a cidade é atrasado e centralizado: "Se não houver sintonia com as necessidades, a cidade não vai melhorar, por mais tecnologia que tenhamos.”

    Transparência

    Estima acredita que os processos digitais podem reformar o governo, "além de possibilitar maior transparência e melhor comunicação com a sociedade".

    Como exemplo de iniciativas de sucesso, ele mencionou o Pacto Pelotas pela Paz, que atua na prevenção social da criminalidade com o mapeamento de ocorrências, mutirões de decisões e acompanhamento dos ambientes escolar e familiar; a ferramenta Proges, para o acompanhamento público online do andamento dos projetos da gestão; e o reposicionamento urbanístico, que prevê o planejamento de novos bairros com a observância de requisitos de sustentabilidade.

    “A sustentabilidade não pode ser tratada como um setor, como uma lente para que se observe toda a ambiental de uma cidade. É preciso que ela contamine toda a gestão”, segundo Capacle. A primeira coisa para isso acontecer é o gestor se comprometer com mestas de sustentabilidade.

    Fernando Estima, Ricardo Young, Jorge Abrahão e César Capacle - 22/8/2018
    O primeiro painel teve a participação de (a partir da esq.) Fernando Estima, Ricardo Young (moderador), Jorge Abrahão e Cezar Capacle

    É preciso também fortalecer o órgão gestor da política ambiental da cidade: "Em Campinas, passou de um setor a uma secretaria, criada por decreto. Houve também a ampliação do quadro técnico, a reestruturação do Fundo Municipal de Meio Ambiente e o fomento da transparência das informações, com a reformulação dos sites institucionais e implantação de novas ferramentas de diálogo."

    Segundo ele, em quatro anos foram elaborados planos municipais para o saneamento básico, verde, recursos hídricos e educação ambiental, que geraram a política de meio ambiente da cidade.

    Cidades inteligentes

    A discussão sobre "Cidades Inteligentes"  teve exposições de dois representantes de instituições privadas envolvidas na produção de soluções digitais e a visão crítica de um acadêmico envolvido com essas ferramentas.

    Guilherme Calheiros apresentou as origens, evolução, perfil atual e perspectivas do Porto Digital, do qual é diretor de Competitividade e Inovação. Criado em 2000 no Bairro do Recife, parte histórica da capital pernambucana, e já com uma extensão em Caruaru, o porto é considerado o mais importante parque tecnológico urbano do Brasil, com 306 empresas instaladas (ramificações de empresas nacionais e multinacionais, centros de inovação e startups), com 800 empreendedores, 9 mil colaboradores e faturamento anual (2017) de R$ 1,7 bilhão.

    Calheiros afirmou que o porto é uma iniciativa mais complexa do que um parque tecnológico, tendo sido criado para reter o capital humano formado pela UFPE, o qual costumava migrar para o sul do país devido à falta de oportunidades locais. "O porto surgiu com dois propósitos: ser um cluster de tecnologia e possibilitar a renovação urbana da região onde foi instalado."

    Em sua opinião, o desafio de um parque tecnológico "é ser capturado pela sociedade". O porto, "por ter também o papel de intervir na estrutura urbana, tem o reconhecimento da sociedade".

    Além de gerir a área onde está instalado, que já se estendeu a bairros adjacentes, o porto também tem a função de gerar soluções para a cidade. Algumas das iniciativas para isso são o projeto Portoleve, um laboratório de teste para soluções tecnológicas em áreas como segurança, compartilhamento de veículos e monitoramento por câmeras, um projeto para espaços urbanos compartilhados e outro para restauração e requalificação de imóveis históricos.

    Rodolfo Fiori, Tatiana Cortese, Caio Vassão e Guilherme Calheiros - 22/8/2018
    Rodolfo Fiori (à esq.), Tatiana Cortese (moderadora), Caio Vassão e Guilherme Calheiros, os componentes do segundo painel.

    Problemas complexos

    Para Rodolfo Fiori, diretor executivo da Muove Brasil, os problemas de resolução complexa dos municípios tem esse perfil por questões políticas e requerem uma articulação entre os governos municipal, estadual e federal.

    A Muove Brasil atende a organizações em projetos de investimento social privado e a governos municipais no planejamento de políticas públicas. Antes de criá-la, os fundadores da empresa pesquisaram quais eram as dificuldades dos municípios. "Há soluções simples que muitas cidades desconhecem, como 'vender' a folha de pagamentos dos funcionários a um banco." Um dos serviços prestados pela empresa é uma plataforma dedicada a finanças onde os municípios identificam problemas por meio de algoritmos específicos. Ela possibilita uma melhoria de 3 a 5% na área fiscal, de acordo com Fiori.

    Coube ao pesquisador da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP Caio Vassão discutir a interação tecnologia-urbanismo do ponto de vista conceitual. Ele coordena o Grupo de Estudos Cenários Urbanos Futuros e se dedica especialmente à relação entre alta tecnologia e cultura contemporânea.

    “As mudanças no habitat humano convidam a uma mudança epistemológica”, afirmou. Essas transformações não foram planejadas diretamente, mas induzidas quando do planejamento de objetos e tecnologias, segundo ele. "A urbanista americana Jane Jacobs já dizia no início dos anos 60 que planejar um bairro e depois convidar as pessoas a morar nele é começar do jeito errado. O melhor é promover interações entre pessoas. Isso vai gerar o ambiente urbano.”

    Transições

    Há várias transições em curso, afirmou Vassão: da comercialização de produtos para a de serviços ("com o produto embutido no serviço"), da posse de bens ao acesso a eles, do produto pronto à participação na produção, do objeto para o processo.

    No entanto, "a adaptação a essas mudanças é dificultada por uma série de ciladas criadas por nós mesmos; e agora não conseguimos pensar fora delas", disse o pesquisador. "Isso já aconteceu na empresa privada em relação à inovação. Para difundir as novas práticas é preciso um processo de educação de base que capacite as pessoas a colaborar".

    O painel sobre "Inovação em Cidades" debateu desde o campo de oportunidades para startups voltadas à criação de soluções tecnológicas até as dificuldades de infraestrutura e pessoal de muitos municípios para adotar soluções com tecnologias sofisticadas.

    A ênfase em transformar municípios em cidades inteligentes tem sido uma forma de aproximação entre empresas, universidades e o ecossistema de inovação, destacou Rodolfo Ribeiro, da empresa Spinafre. Ele considera que são muitas as oportunidades para a criação de startups no Brasil. Exemplificou com a atuação do BNDES, que está com edital aberto até 31 de agosto para projetos sobre cidades inteligentes, indústria 4.0 e saúde.

    Marcos Mazieri, Claudia Kniess, Germano Guimarães e Rodolfo Ribeiro - 22/8/2018
    A partir da esq., Marcos Mazieri, Claudia Kniess (moderadora), Germano Guimarães e Rodolfo Ribeiro durante o terceiro painel

    Inovação frugal

    A importância do conceito de inovação frugal foi o tema central de Marcos Mazieri, da pós-graduação da Uninove. "Trata-se de um processo já usual no interior da Índia e na Rússia no qual são utilizados recursos que seriam considerados insuficientes num modelo tradicional de P&D.”

    No caso das cidades, a ideia é transferir inovações já desenvolvidas e em domínio público. “Há um deslocamento da aplicação de soluções de alta tecnologia para aquelas de nível tecnológico simples.”  Para ele, capacitar a sociedade em fluência computacional pode ter como alternativa o aprendizado orientado a projetos. “Sobre a camada física, deve ser sobreposta uma camada de telecomunicações e dentro desta inserir ambientes computacionais.

    No entanto, apesar de o capital físico – infraestrutura, acesso – ser muito importante, há ainda a barreira do capital social, ainda não bem compreendida, afirmou: “Questões de distância étnica, por exemplo, ainda não foram discutidas de forma detalhada.”

    Aspectos a serem enfrentados são, segundo ele, o avanço da informalidade, políticas que não alcançam certas regiões, falta de fluência computacional, prevalência de interesses em curto prazo, propostas pré-formatadas de soluções e baixo aproveitamento da força de trabalho.

    Germano Guimarães, do Instituto Tellus, especializado em inovação e design em serviços públicos,  apresentou três projetos desenvolvidos pela empresas. Um deles foi a Escola das Mães, na prefeitura de Santos (SP). “A cidade tinha uma taxa de 13,6 de mortalidade infantil  [número de mortes de crianças de até um ano por mil nascimentos vivos]. A taxa tinha crescido mesmo com a melhoria do Índice de Desenvolvimento Humano. Depois de visitas, entrevistas e oficinas, verificamos que as principais causas dessa elevada mortalidade estavam ligadas à educação da gestante." A escola ministra vários cursos às gestantes, de forma a complementar as consultas de pré-natal. O resultado das medidas adotadas pela prefeitura foi a redução da taxa de mortalidade infantil para 13,6 em 2017.

    Os outros dois projetos foram implantados na prefeitura de Pelotas (RS): o Clique Saúde, um buscador que permite ao usuário do SUS identificar a unidade de saúde adequada para sua necessidade e até mesmo onde encontrar o remédio que precisa; a Rede Bem Cuidar, que envolve usuários, servidores e gestores públicos nos processos de cocriação das melhorias a serem implantadas nas unidades de saúde.

    Jarcilene Cortez, Emerson Maccari e Renata Bichir - 22/8/18
    Jarcilene Cortez (à esq.), Emerson Maccari e Renata Bichir foram os expositores do quarto painel

    Academia

    Em complementação aos debates sobre inovação para sustentabilidade das cidades, o seminário teve um painel sobre “Recursos Humanos, Inteligência, Planejamento Estratégico e Gestão Urbana Sustentável”. As exposições deram ênfase à formação de especialistas na área ambiental e à metodologia acadêmica para formulação de políticas públicas.

    Renata Bichir, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP), tratou dos desafios para a formulação de políticas públicas para as cidades e como a produção acadêmica consegue colaborar para o obtenção de melhores propostas.

    Ela frisou que a agenda pública é um processo competitivo, condicionado pelas dimensões política, cognitiva, administrativa e financeira, e elencou os componentes a serem analisados para a sucesso na elaboração de uma política: definição de objetivos; construção da adesão dos atores pertinentes; aspectos organizacionais e de gestão; dimensões cognitivas, valores e percepções sobre o problema; dimensões políticas; definição de arranjos de coordenação; instrumentos de coordenação; e diferentes tipos e formatos de redes.

    Jarcilene Cortez, professora da UFPE e coordenadora dos programadas acadêmicos da área de meio ambiente da Capes, apresentou dados sobre a distribuição dos 147 programas de pós-graduação no Brasil e sua avaliação. Emerson Maccari, do Programa de Pós-Graduação em Administração da Uninove, falou sobre como organizar, na perspectiva da Capes, um programa mestrado e doutorado para temas como gestão ambiental, cidades sustentáveis ou cidades inteligentes.

    Fotos: Leonor Calasans/IEA-USP