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Walter Neves e Eliane Rapchan promovem ciclo para tratar do diálogo entre a antropologia e a biologia

por Fernanda Rezende - publicado 20/12/2018 15:05 - última modificação 02/01/2019 13:42

O ciclo "A Virada Ontológica na Antropologia: Diálogos Possíveis entre a Antropologia" e a Biologia, que se inicia no dia 26 de fevereiro de 2019 no IEA, terá uma atividade a cada duas semanas, sempre às terças-feiras

Evolução humanaAs tendências do movimento conhecido como “giro” ou “virada” da Antropologia serão o tema de uma série de oito encontros com coordenação e exposição do biólogo Walter Neves, professor sênior do IEA, e da cientista social Eliane Sebeika Rapchan, pesquisadora do Laboratório de Arqueologia, Antropologia Ambiental e Evolutiva (LAAAE) do IB-USP.

O ciclo A Virada Ontológica na Antropologia: Diálogos Possíveis entre a Antropologia e a Biologia, que se inicia no dia 26 de fevereiro de 2019 no IEA, terá uma atividade de duas horas a cada duas semanas, sempre às terças-feiras, das 14h às 16h (veja cronograma e detalhes abaixo). O ciclo destina-se a público acadêmico interessado no assunto, em particular, alunos de graduação, de pós-graduação, pesquisadores e profissionais de todas as áreas de conhecimento. Para participar é preciso realizar inscrição prévia para todo o ciclo (limitado a 70 vagas). Quem comparecer a, no mínimo, seis encontros, receberá certificado. Não haverá transmissão pela web.

De acordo com os coordenadores, apesar do tema do ciclo ter começado a ganhar consistência a partir de 1970, com o francês Bruno Latour, somente ao final do século 20 o movimento em questão tornou-se uma proposição de pesquisa antropológica que conseguiu impor-se às correntes pós-modernas.

Cada encontro terá um tema distinto, subsidiado por uma seleção de textos previamente propostos. O objetivo é contemplar diversas facetas e críticos da temática, a fim de explorar o potencial de diálogo entre essas proposições e as abordagens das biociências. Serão abordados, dentre outras, a Antropologia Política, o Perspectivismo, a Teoria Ator-Rede, as Novas Ontologias e a Ontogenia.

Sobre os coordenadores

Recentemente aposentado do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva do Instituto de Biociências (IB) da USP, Neves foi o responsável pelos estudos de "Luzia", o esqueleto humano mais antigo já encontrado nas Américas. No IB, fundou e coordenou o Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos (LEEH-IB-USP), único do gênero da América Latina.

Além de atuar como pesquisadora no IB, Eliane Sebeika Rapchan é professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Fez pós-doutorado no LEEH-IB-USP sob supervisão de Neves (2010-12) e no Instituto de Psicologia (IP) da USP, supervisionada por César Ades. Esses projetos abordaram os debates acerca das definições de humanidade e animalidade. É membro da Associação Brasileira de Antropologia (ABA) e do Grupo de Estudos de Antropologia da Ciência e da Tecnologia (GEACT).

Foto: Biswarup Ganguly [GFDL (http://www.gnu.org/copyleft/fdl.html), CC BY 3.0 (https://creativecommons.org/licenses/by/3.0)

Programação

26 de fevereiro

E1: Humanos e Outros Animais sob Perspectivas Antropológicas

Esse primeiro encontro visa apresentar e tratar de uma bibliografia antropológica que problematiza concepções tais como as de animal, humano, humanidade, animalidade e corpo a fim de analisá-las como produtos de dinâmicas históricas dos processos de produção de áreas distintas do conhecimento, em especial as biociências e as ciências humanas. Ao mesmo tempo, pretende-se explorar os paradoxos inerentes aos aspectos antagônicos das concepções de humano e de animal que se baseiam em negações mútuas.

Bibliografia

HARRIS, O.J.; ROBB, J. Multiple Ontologies and the Problem of the Body in History, American Anthropologist 114(4), p. 668-679, 2012.

INGOLD, Tim. Humanity and Animality. In INGOLD, Tim (Ed.). Companion Encyclopedia of Anthropology, London: Routledge, p. 14-34, 1994a.

SEGATA, J. Cap. 11. Quando é gente? A humanidade dos animais de estimação e seus custos. In BEVILAQUA, C.B.; VELDEN, F.V. (Orgs.). Parentes, vítimas, sujeitos: perspectivas antropológicas sobre relações entre humanos e animais. São Carlos/Curitiba: EdUFSCar/Ed.UFPR, 2016, p. 241-263.

SILVEIRA, F.L.A. Cap. 13. As relações humanas e não-humanos na metrópole amazônica. Estudo etnográfico no Bosque Rodrigues Alves, Belém (PA). In BEVILAQUA, C.B.; VELDEN, F.V. (Orgs.). Parentes, vítimas, sujeitos: perspectivas antropológicas sobre relações entre humanos e animais. São Carlos/Curitiba: EdUFSCar/Ed.UFPR, 2016, p. 285-314.

 

12 de março

E2: Animais, Emoções e Sentimentos

A proposta desse encontro é tratar tanto das dimensões evolutivas, físicas e simbólicas relacionadas às expressões de emoções e de sentimentos, quanto discutir certos aspectos afetivos, biológicos, culturais e sociais de alguns tipos de relações entre humanos e não-humanos que se baseiam em vínculos de convivência, de troca e de proximidade.

Bibliografia

DESCOLA, P. A Estrutura do sentimento. A relação com o animal na Amazônia, Mana 4 (1), p. 23-46, 1998.

DURHAM, E. R. Chimpanzés também amam: a linguagem das emoções na ordem dos primatas, Revista de Antropologia 46(1), 2003.

OSÓRIO, A. Cap. 2. Mãe de gato? Reflexões sobre o parentesco entre humanos e animais de estimação. In BEVILAQUA, C.B.; VELDEN, F.V. (Orgs.). Parentes, vítimas, sujeitos: perspectivas antropológicas sobre relações entre humanos e animais. São Carlos/Curitiba: EdUFSCar/Ed.UFPR, 2016. p. 53-75.

RAPCHAN, E. S.; NEVES, W. A. “Chimpanzés não amam! Em defesa do significado”, Revista de Antropologia 48(2): 649-698, 2005.

SHIR-VERTESH, D. “Flexible Personhood”: Loving Animals as Family Members in Israel, American Anthropologist  114(3), p. 420–432, 2012.

 

26 de março

E3: Animais, Máquinas e Mulheres: Continuidades e Partilhas

Esse encontro visa oferecer a oportunidade de analisar e problematizar concepções que  assemelham ou distinguem mulheres, animais e máquinas a partir de premissas fundadas  em características ou habilidades que seriam decorrentes da condição animal, da irracionalidade ou da funcionalidade. Além disso, pretende-se discutir se aspectos como empatia, emoções, senciência e gênero afetam as condições de realização de pesquisa sobre animais as quais, como sabemos, são fortemente influenciadas pelos princípios das ciências modernas tais como objetividade, imparcialidade e racionalidade.

Bibliografia

HARAWAY, D. A partilha do sofrimento: relações instrumentais entre animais de laboratório e sua gente, Horizontes Antropológicos, v. 17, n. 35, p. 27-64, jan./jun. 2011.

LESTEL, D. A animalidade, o humano e as “comunidades híbridas”. In MACIEL, M.E.(org.). pensar/escrever o animal. Ensaios de zoopoética e biopolítica. Florianópolis: Ed. UFSC, 2011, p. 24-47.

LATOUR, Bruno. A well-articulated primatology.Reflexions of a fellow-traveller. In STRUM, Shirley; FEDIGAN, Linda (Eds.), Primate Encounters, Chicago: University of Chicago Press, p. 358-381, 2000.

FEDIGAN, L. M. Chapter 3: The Paradox of Feminist Primatology: The Goddess’s Discipline? In CREAGER, A.H.; LUNBECK, E.; SCHIEBINGER, L. (eds.). Feminism in Twentieth Century. Science, Technologie + Medicine. University of Chicago Press, 2001.

 

9 de abril

E4: O Perspectivismo Ameríndio e Algumas Perspectivas Não-Humanas a Partir das Biociências

O objetivo desse encontro é exercitar reflexões sobre o Perspectivismo Ameríndio, uma proposição contemporânea de um certo grupo de antropólogos brasileiros e frequentemente associada à “virada” ontológica da antropologia, de significativa influência interna e internacional, e que se baseia, entre outras coisas, na descrição de ontologias que incluem os não-humanos nas abordagens etnográficas fundadas em trabalho de campo. A partir da proposta do Perspectivismo Ameríndio, a discussão será encaminhada para a verificação da existência, ou não, de ferramentas antropológicas ou biológicas que permitam, de algum modo, o acesso e a análise de um ponto de vista não-humano.

Bibliografia

BOESCH, C. Chapter 31: From Material to Symbolic Cultures: Culture in Primates. The Oxford Handbook of Culture and Psychology, p. 677-692.

BROSNAN, S.F.; DE WAAL, F.B. Monkeys reject unequal pay. Nature 425(6955), 2003 Sep. 18, p. 297-299.

CASTRO, E. V. Os pronomes cosmológicos e o perspectivismo ameríndio, Mana 2(2), p.115-144, 1996.

CASTRO, E. V. Cap. 5. O conceito de sociedade em antropologia. A inconstância da alma selvagem e outros ensaios de antropologia. São Paulo:Cosac-Naif, 2002.

LIMA, T.S. Por uma cartografia do poder e da diferença nas cosmopolíticas ameríndias, Revista de Antropologia 54(2), p. 601-646, 2011.

LIMA, T.S. O dois e seu múltiplo: reflexões sobre o perspectivismo em uma cosmologia tupi. Mana 2(2):21-47, 1996.

 

23 de abril

E5: As Relações Natureza/Cultura, o ‘Giro ou a Virada” Ontológica na Antropologia e Algumas Perspectivas das Biociências

O objetivo central desse encontro será discutir sobre a atualidade, ou não, dos debates relativos às interfaces entre natureza e cultura na antropologia, a partir do “giro” ou da “virada” antropológica, e de certas abordagens fundamentadas nas biociências.

Bibliografia

SCHIEBINGER, L. Why Mammals are Called Mammals: Gender Politics in Eighteenth-Century Natural History, The American Historical Review, Vol. 98, No. 2 (Apr., 1993), pp. 382-411.

GONZÁLEZ-ABRISKETA, O.; CARRO-RIPALDA, S. La apertura ontológica de la antropologia contemporânea. Revista de Dialectología Y Tradiciones Populares 71(1), 2016.

LESTEL, D. Epistemological interlude, Angelaki: Journal of Theoretical Humanities 19, 2014.

TOLA, F.C. “Giro ontológico” y la relación naturaleza/cultura. Reflexiones desde el Gran Chaco. Apuntes de Investigación del CECYP 27, p. 128-13, 2016.

VARELA, S.A.G. Antropología y el estudio de las ontologías a principios del siglo XXI: sus problemáticas y desafíos para el análisis  de la cultura, Estudios sobre las Culturas Contemporáneas XXI(42), p. 39-64, 2015.

 

7 de maio

E6: A Crítica da Crítica: Os Limites da “Virada” Ontológica na Antropologia Sociocultural

Esse encontro visa apresentar certas críticas à “virada” ontológica a partir da inclusão de problemas fundados em aspectos ambientais, históricos e políticos de populações indígenas.

Bibliografia

SÁEZ, Oscar Calavia. Do perspectivismo ameríndio ao índio real. Campos, Curitiba, n. 13, n. 2, 2011.

ESCOBAR, Arturo. O lugar da natureza e a natureza do lugar: globalização ou pós-desenvolvimento?. En libro: A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. Edgardo Lander (org). Colección Sur Sur, CLACSO, Ciudad Autónoma de Buenos Aires, Argentina. setembro 2005. pp.133-168.

 

21 de maio

E7: Sobre o Antropoceno

Esse encontro visa apresentar, para análise, algumas proposições que sugerem que o Antropoceno, ou seja, o conjunto de perspectivas científicas, filosóficas e técnicas que tomaram o humano como medida exclusiva para o planeta, está em crise. A intenção é reconhecer aspectos dessa crise e debater sobre suas consequências.

Bibliografia

CARRITHERS, M.; BRACKEN, L.J.; EMERY, S. Can a Species Be a Person? A Trope and Its Entanglements in the Anthropocene Era. Current Anthropology 52(5) , p. 661-685, 2011.

HARAWAY, D. Anthropocene, Capitalocene, Plantationocene, Chthulucene: Making Kin.  Environmental Humanities, vol. 6, 2015, pp. 159-165.

HARLTLEY, D. Anthropocene, Capitalocene, and the Problem of Culture. Anthropocene or Capitalocene? Nature, History, and the Crisis of Capitalism. Jason W. Moore (Ed.), Michigan: Thomson, 2016.

OLDFIELD, F.; BARNOSKY, A.D.; DEARING; FISCHER-KOWALSKI, M.; MCNEILL, J.; STEFFEN, W.; ZALASIEWICZ, J. The Anthropocene Review: Its significance, implications and the rationale for a new transdisciplinary journal, The Anthropocene Review 2014, Vol. 1(1) 3­-7.

 

4 de junho

E8: Entre a Virada Ontológica e a Ontogenia

A Ontologia e a Ontogenia oferecem distintas possibilidades para se pensar sobre a natureza, o humano e sobre o lugar do humano na natureza. Esse último encontro visa trazer  à tona aspectos do debate entre essas duas perspectivas que podem oferecer subsídios importantes para se projetar quais perspectivas a antropologia contemporânea tem a oferecer.

Bibliografia

INGOLD, T. A Naturalist Abroad in the Museum of Ontology: Philippe Descola's Beyond Nature and Culture, Anthropological Forum, 2016. DOI: 10.1080/00664677.2015.1136591

DESCOLA, P. Biolatry: A Surrender of Understanding (Response to Ingold’s ‘A Naturalist Abroad in the Museum of Ontology’), Anthropological Forum, 2016. DOI: 10.1080/00664677.2016.1212523

INGOLD, T. Rejoinder to Descola’s ‘Biolatry: a surrender of understanding’, Anthropological Forum, 2016, DOI: 10.1080/00664677.2016.1212532