O professor e a ideia de profissionalismo

por Nelson Niero Neto - publicado 01/08/2019 18:05 - última modificação 20/08/2019 14:56

A docência vai além do conhecimento técnico: o profissionalismo exige, antes de tudo, compromisso com um projeto coletivo
Pontos-chave
1. A ideia de profissionalismo vai além da ideia de capacitação técnica, do recebimento de salário ou do pertencimento a uma corporação – é preciso haver compromisso com a sociedade.
2. Há quatro desvios do profissionalismo: tecnicismo, amadorismo, mercenarismo e corporativismo.
3. O compromisso público só é selado, de fato, com a ajuda de institutos reguladores, que definem regras e valores coletivos.
4. Não é possível haver compromisso se não há um projeto comum.

Por Rodrigo Ratier e equipe

O que significa ser um profissional: Ter estudado e adquirido conhecimento específico? Trabalhar regularmente em um emprego? Fazer algo que traga prazer? Todos esses aspectos fazem parte da vida de um profissional. Mas a ideia de profissão vai além – e adquire contornos ainda mais complexos na docência. Essa foi a tese defendida pelo professor Nilson José Machado na palestra “O professor e a ideia de profissionalismo” – parte do primeiro encontro do Ciclo Ação e Formação do Professor, organizado pela Cátedra de Educação Básica da USP.

Para Nilson, a ideia que temos de profissão hoje está desfocada. O senso comum tende a reduzir esse conceito apenas à sua dimensão técnica, que pode ser associada a cursos que oferecem uma capacitação específica ou uma competência aprofundada, quando se exige uma certificação. Trata-se, porém, de concepção limitada para profissões como a docência. O magistério estaria nesse conjunto de atividades profissionais que que, pelo seu significado, importância e natureza, não funcionam se forem inteiramente reguladas pelo mercado, ou pelo governo. "Temos que ir mais fundo e refletir sobre outra acepção, refletir sobre a ideia de profissão em seu sentido mais amplo", diz Nilson.

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“Mais do que a competência técnica e a obtenção de um diploma, o que marca a atuação de um profissional é o compromisso público. É colocar essa competência específica fundamental à disposição da sociedade”, defende Nilson. No momento em que se assume essa responsabilidade, a ideia de profissionalismo se completa, ancorada em valores socialmente acordados: cidadania, pessoalidade, profissionalismo, responsabilidade, tolerância, integridade e civilidade.

Profissionalismo e compromisso

O professor ou a professora têm, portanto, uma “competência comprometida”. Possuem uma função tão importante que não pode ser regulada exclusivamente pelo mercado nem exclusivamente pelo governo. Por isso, para se manter e funcionar, esse compromisso necessita do auxílio de mecanismos e instituições de autorregulação.

A autorregulação é a forma de uma corporação assumir publicamente sua responsabilidade na realização de um projeto profissional. É uma maneira de formalizar os valores e os objetivos comuns, para que aquele grupo de trabalhadores saiba para onde está indo, para que todos vistam a mesma camisa.

As instituições que disciplinam o exercício de uma profissão devem, por exemplo, construir com a categoria o estabelecimento de códigos de ética e de conduta. "Nós precisamos ativar nossas instituições de autorregulação", defende Nilson. Essa função é hoje, teoricamente, exercida pelos Conselhos [conselho nacional de educação, conselhos estaduais, conselhos municipais]. Mas, como funcionam dentro da Secretaria de Educação, costumamos pensar neles como órgãos do governo, quando, na verdade, o Conselho deveria ser maior que a Secretaria."

Nilson defende que a autorregulação é tão importante para o profissional quanto a autonomia é para o indivíduo. "Para viver em sociedade, uma pessoa deve conhecer seus direitos e seus deveres. Assim como o cidadão é a articulação entre o individual e o coletivo, o profissional nasce da articulação entre o público e o privado", compara.

Quatro desvios da ideia

A distância entre o que se deseja alcançar na atuação profissional e a realidade, no entanto, é grande. Na prática, a ideia de profissionalismo costuma esbarrar em quatro desvios, tornando-se distorcida.

Pergunta da plateia

Código de ética não limita a autonomia?

A intenção de um código de ética regular – ou seja, limitar a atuação dentro de determinadas balizas, definir regras e valores. Mas isso não implica, necessariamente, em falta de liberdade e, sim, em um norte que deve guiar o trabalho de todos. Na sociedade consumista e individualista em que vivemos, em que se valoriza a liberdade no sentido de fazer tudo o que se quer, o pertencimento a um grupo que respeita regras pode parecer submissão. Mas essa é uma visão equivocada, que não aponta para a autonomia. “Temos que pensar em autonomia enquanto pertencimento e, ao mesmo tempo, responsabilidade”, diz o professor Lino de Macedo, membro da Cátedra. “A liberdade é a escolha da necessidade”, completa o professor Nilson Machado, apontando, ainda, o caráter dinâmico e sociohistórico dos códigos de ética. “Há sempre a possibilidade de trabalhar para mudar o que não parece justo”, conclui.

O primeiro deles é o tecnicismo. Esse problema, tão comum na carreira docente, ocorre quando se reduz a ideia de profissionalismo ao domínio sobre o conteúdo que se leciona – como se a formação técnica, isoladamente, fosse suficiente para caracterizar um bom profissional. "Ela é fundamental, mas se não for acompanhada pela ideia de compromisso público, não há profissionalismo", defende Nilson.

O amadorismo é outro desvio que costuma acometer o magistério. Gostar do que se faz é importante, mas ter compromisso é fundamental. De outra forma, o trabalho passa para um segundo plano no momento em que deixa de ser prazeroso. “O amadorismo não basta para pensar o profissional da educação”, explica.

Mercenarismo seria a terceira distorção. A qualidade do trabalho não deve estar vinculada, exclusivamente, ao pagamento de um salário justo e suficiente. "A briga por remuneração decente é importante, mas deve ser feita em outra esfera, a dos sindicatos". Nilson lembra da origem da palavra sabotagem, que vem de sabot, do francês “tamanco”. "Durante a Revolução Industrial, os operários descontentes jogavam intencionalmente seus tamancos nas engrenagens para travar as máquinas. Mas a um profissional, não cabe a ideia de sabotagem. Um médico, um professor, não podem sabotar", diz Nilson. O compromisso público e a luta salarial devem, portanto, caminhar juntos, mas de forma independente.

O quarto e último desvio é o corporativismo. Ele ocorre quando o compromisso com a corporação, com os colegas, se sobrepõe ao compromisso com o público: o exercício da profissão passa pela proteção da categoria em vez do serviço à sociedade.

A busca de um projeto coletivo

Diante disso, como trazer profissionalismo ao magistério? Nilson defende que, antes de qualquer coisa, é fundamental e urgente que se construa um projeto para a educação no Brasil. Para que todos os profissionais saibam o que perseguir, por onde caminhar. Um projeto comprometido com a sociedade, e não com governos ou governantes.

Quem é Nilson José Machado
Leciona na Universidade de São Paulo desde 1972. Começou trabalhando no Instituto de Matemática e Estatística, e, em 1984, passou a integrar o corpo docente da Faculdade de Educação, onde é professor titular. Além de matemático, é mestre e doutor em filosofia da educação e livre-docente na área de epistemologia e didática. Escreveu cerca de duas dezenas de livros para crianças e publica microensaios semanais em seu site pessoal.

A Constituição que está em vigor no Brasil estabelece que a educação é um direito de todos, que será promovida com a colaboração da sociedade, visando o pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.

Se a educação é um dever do Estado, da família e da sociedade, é preciso um grande mutirão para a construção desse projeto. Partir do discurso para chegar à ação, trazendo propostas, valorizando as boas histórias, somando esforços, ampliando a pluralidade de princípios e visões pedagógicas. O que vai unir os professores nesse compromisso público – fundamental para consolidar a ideia de profissionalismo – é a busca de um projeto coletivo e comum. “Essa é a grande urgência que existe no campo da educação: temos que discutir os valores que sustentarão nosso projeto. O compromisso com valores é que leva ao comprometimento na atuação do profissional."