O Programa

por Fernanda Rezende - publicado 01/07/2016 12:00 - última modificação 22/06/2017 11:21

Como viver melhor nas cidades?

Mobilidade urbana

O mundo está cada vez mais urbanizado e nada indica reversão desta tendência. Na América Latina a população urbana chega a 82% e no Brasil, a 84%. Paralelamente, estamos vivendo a era do Antropoceno, onde a influência do homem na biosfera vem provocando mudanças climáticas em nível global que não só deterioram o meio ambiente, mas influenciam a qualidade de vida nas cidades.

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Ainda que a vida na cidade diminua custos coletivos e centralize serviços que facilitam a vida das populações, a aglomeração em grandes cidades gera uma mescla de efeitos positivos e negativos. Por exemplo, os seres humanos vivendo em grandes cidades podem ficar mais próximos aos serviços de saúde, melhorando a prevenção e assim estendendo a esperança de vida da população. Por outro lado, estas mesmas populações sofrem os efeitos da poluição, o que tende a deteriorar a saúde em geral.

Um dos maiores desafios dos grandes centros urbanos contemporâneos é a mobilidade. Muitas vezes a cidade é um obstáculo entre o morador urbano e seu destino, seja ele o trabalho, o lazer, ou o acesso a um serviço como educação e saúde. O custo anual das dificuldades com mobilidade no município de São Paulo foi estimado em 40 bilhões de reais, valor equivalente a 1% do PIB brasileiro. Quanto mais  tempo uma pessoa gasta para se deslocar, menor será o tempo disponível para que ela cuide de si (alimente-se de forma saudável, descanse, estude, divirta-se, fique com a família, entre outros), com prejuízos que vão além da saúde física.

O transporte, por sua vez, aumenta a demanda por energia, o que pressiona negativamente o ambiente, formando um círculo vicioso que afeta todo o bem-estar das populações em metrópoles. Assim, diminuir as emissões de gases de efeito estufa na América Latina passa necessariamente por profundas mudanças no setor de transporte, visto que este segmento lidera as emissões de CO2 por queima de combustíveis fósseis. Carros elétricos, bolsões públicos de estacionamento, ciclovias, metrô, corredores de ônibus estão entre as possíveis respostas para reduzir as emissões de gases de efeito estufa do setor de transporte.

A qualidade de vida nas cidades de hoje pode constituir um bom índice para balizar a priorização e combinação dessas estratégias.

No entanto, se, por exemplo, os engenheiros de tráfego trabalharem sozinhos na busca de soluções viáveis para melhorar a mobilidade urbana, possivelmente a resposta excluirá aspectos importantes para a saúde humana e do meio ambiente. O mesmo vale para outros temas cruciais para vida nas metrópoles, como água, energia, alimentos, áreas verdes, turismo, cultura, inovação e convivência/resiliência. O ponto aqui é que não há como discutirmos os problemas das metrópoles usando uma lente única. Em outra palavras, temos que adotar abordagens transdisciplinares, que são aquelas em que a resposta aos problemas da sociedade são dadas através da interação entre cientistas de diferentes áreas e não por um pequeno grupo de especialistas de uma mesma área.

São Paulo PoluídaAinda que atrativos como disponibilidade e qualidade de emprego, cultura, educação e outros serviços  continuem mantendo e atraindo  muitas pessoas para os centros urbanos, a rede de interações coloca as populações de grandes centros urbanos em um dilema: viver em grandes cidades é bom ou ruim? Hoje, a propriedade emergente gerada a partir desta rede de interações relacionada às grandes metrópoles é de que viver em grandes cidades é ruim. Mais do que isto, as grandes metrópoles têm sido frequentemente vistas como um caminho sem solução para o caos e o mal-estar. Este cenário levanta duas perguntas importantes: 1) Será que viver na cidade precisa envolver componentes tão ruins? 2) Haveria meios de viver em uma grande metrópole e ao mesmo tempo desfrutar de mais saúde e maior longevidade, menores custos de vida, maior equilíbrio ambiental e, assim, um nível de conforto que permita caminhar na rota do bem-estar?

Para buscar as respostas a estas perguntas é preciso conhecer melhor o sistema da metrópole e como interagem seus subsistemas, que são extremamente complexos e nos quais coexistem seres humanos, biodiversidade e clima. Em outras palavras, é preciso compreender as metrópoles como sistemas complexos, através de uma abordagem interdisciplinar que possa trazer respostas plausíveis e factíveis às duas perguntas acima.

Mobilidade urbana

As metrópoles são de fato sistemas de altíssima complexidade e como tais têm que ser abordadas como redes complexas, que constituem uma série de sub-redes que necessitam de abordagens de diferentes áreas do conhecimento. Quando tais redes são colocadas em perspectiva tomando o seu conjunto suas propriedades emergentes apontam indicadores que as redes isoladas não conseguem captar.

Para podemos ter acesso à complexidade de uma cidade como São Paulo, não há outra opção senão a de estudá-la intensamente, intercruzando dados existentes e propondo teorias interdisciplinares de funcionamento do sistema metrópole que auxiliem a governabilidade e a gestão. Nesse sentido, uma abordagem sistêmica nos permitirá sugerir políticas públicas mais precisas e eficientes, de forma a aumentarmos o bem-estar das pessoas que vivem em tal sistema.

Diversas unidades da USP possuem programas independentes, mas que têm objetivos muito similares e de certa forma visam a obter uma parte das respostas. Embora todas abordem de algum modo o bem-estar, nem todas o tem como valor orientador ou objetivo final.

Em todo o mundo, universidades têm criado mecanismos para que o conhecimento por elas produzido seja transformado em melhorias para a sociedade, partindo de projetos voltados para suas cidades-sede. De fato, a sociedade civil tem cobrado cada vez mais contribuições efetivas das universidades no seu dia-a-dia.

A Universidade de Harvard repensou a contribuição do design e planejamento urbano para cidades mais sustentáveis a partir de sua Escola de Design, através do Urbanismo Ecológico. Outros centros, como a London’s Global University, focaram em tecnologia e informática para cidades inteligentes, ou smart cities, como são conhecidas pelo termo em inglês. Muitas outras universidades possuem projetos similares, mas nenhuma delas tem a qualidade de vida do ser humano como foco central de suas finalidades.

Esta é a ideia por traz da iniciativa urbanidade e qualidade de vida do IEA-USP. Através do estabelecimento de um Programa de Pesquisas que contará com o apoio da Reitoria da Universidade de São Paulo, o IEA pretende criar um espaço de diálogo e convergência intelectual de todos os grupos em atividade na USP que possuam proposições de estudos científicos (ou estudos já em andamento), bem como de propostas voltadas para a melhoria da qualidade de vida dos habitantes de regiões metropolitanas.

Trânsito em São Paulo Com cerca de 20 milhões de moradores, distribuídos em 8.051 km², a Região Metropolitana de São Paulo é um laboratório natural em que o sistema metrópole pode servir de foco inicial de estudos dos problemas e proposições de soluções cientificamente embasadas, que impactem positivamente a qualidade de vida dos moradores da Região Metropolitana de São Paulo. Isto permitirá que um enorme número de pessoas que vivem e trabalham juntas possam enfrentar, ao mesmo tempo e em melhor situação, os impactos das mudanças climáticas globais de um período de urbanização planetária sem precedentes.

Sabemos que a qualidade de vida na região está longe do ideal, independente da definição ou indicador utilizado para avaliá-la. Por isto, a ação do projeto USP CIDADES GLOBAIS visa a articular o conhecimento existente na comunidade USP e de colaboradores do Brasil e do exterior para agir de forma transdisciplinar em direção ao conhecimento necessário para embasar a criação de um modelo de metrópole que atenda aos anseios por uma melhor qualidade de vida de sua população da forma mais plena possível.

Neste contexto, o programa pretende responder a pergunta: “O que pode ser feito para melhorar a vida na região metropolitana de São Paulo?”.

Objetivos imediatos:

  1. Reunir grupos de especialistas e gerar dossiês que discutam integradamente os conhecimentos existentes, tendo como referência a pergunta central: como viver melhor nas grandes cidades?;
  2. Gerar temas para dossiês escritos que possam compor fascículos especiais da revista Estudos Avançados, a qual tem bom impacto na comunidade brasileira que formula políticas públicas;
  3. Geração de um projeto para um documento completo (transdisciplinar) sobre as políticas públicas prioritárias, norteadas pelo bem-estar da população, com maior probabilidade de terem sucesso na metrópole paulistana.


Metodologia:

  1. Reuniões com grupos de especialistas no IEA em que todos expõem rapidamente suas ideias e uma discussão em forma de brainstorming;
  2. As discussões são registradas e os temas mais importantes são agrupados em subtemas que serão foco de discussões posteriores pelos especialistas;
  3. Os especialistas relacionados aos diferentes temas retornarão à discussão, revisitando em conjunto a pergunta central, mas agora com respostas mais sólidas, sobre o funcionamento dos subsistemas relacionados aos temas inicialmente gerados;
  4. Avaliação do status do conhecimento em perspectiva até este momento e a proposição ou não da composição de um documento com propostas de políticas públicas que tenham maiores probabilidades de funcionar dentro de um sistema complexo.
  5. Reuniões conjuntas com os outros programas do IEA.


Objetivos a longo prazo:

  1. Organizar, sob um mesmo programa da universidade, iniciativas de grupos de pesquisa ou individuais que tenham como foco comum (principal ou secundário) alguma questão relevante da vida das comunidades urbanas, em especial nas grandes metrópoles, e que estejam dispostos a olhar para seu trabalho tendo a qualidade de vida como um valor;
  2. Se este projeto obtiver sucesso, poder-se-á criar um Centro USP de Cidades Globais que se torne independente e permanente, auxiliando as metrópoles mundiais a melhorarem a qualidade de vida de seus habitantes.