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A vida urbana nos espaços semi-públicos pós-pandemia na cidade de São Paulo

por Fernanda Rezende - publicado 08/06/2020 13:06 - última modificação 08/06/2020 13:06

por Deize Sbarai Sanches Ximenes e Ivan Carlos Maglio

por Deize Sbarai Sanches Ximenes - Instituto Estudos Avançados – USP (deizesanches@usp.br); Ivan Carlos Maglio - Instituto Estudos Avançados – USP (ivmaglio@usp.br)


A pandemia da COVID-19 transformou os espaços semi públicos em espaços ausentes de uso e de relações sociais e culturais. Com as flexibilizações graduais para o retorno ao uso desses espaços após o perìodo de isolamento social,  estas transformações trarão novos hábitos e comportamentos às pessoas e uma ressignificação da vida urbana nos ambientes fechados, como shoppings, bibliotecas, mercados, teatros, entre outros locais de convivência. É necessária uma profunda reflexão sobre a forma como serão apropriados esses espaços na cidade de São Paulo de forma segura, inclusiva e com qualidade de vida no pós pandemia.

Os espaços semi públicos, ou semi privados, são espaços que apresentam a função de abrigar a vida coletiva urbana, em tese são considerados irrestritos ao público, localizados no interior de áreas comerciais (shopping centers, casa de recepções) ou mesmo residenciais (condomínios horizontais ou verticais), tornando-se palco de grandes eventos profissionais e familiares (FERREIRA; MARQUES, 2000). São espaços que podem ter apropriações públicas, e representam importante espaço de [1]sociabilidade pública (ARANTES, 2017). Como exemplos pode-se destacar shopping centers, centros culturais, cinemas, teatros, e galerias, e o caso do elogiado e modelar projeto  do Conjunto Nacional, de  David Libeskind em São Paulo.

Os espaços semi públicos assumem a função de abrigo da vida urbana coletiva , e os shopping centers, desde a década de 1970, assumem uma grande parcela deste papel na cidade de São Paulo, atraindo a população para seus espaços de comércio, consumo e lazer.

Em tempos de pandemia, espaços fechado, confinados ou que proporcionem aglomeração de pessoa, apresentam alta suscetibilidade aos riscos de transmissão do vírus, foram em muitos países de imediatos considerados impróprios para uso da população, e interditados..

A preocupação central deste trabalho é repensar o uso adequado dos espaços semi públicos pós pandemia, proporcionando fruição pública, e permanência e convívio social de forma segura. Para tal, os usuários e funcionários deverão respeitar protocolos de segurança sanitária, tais como: limitações de acesso, limitação do número de pessoas por área dos espaços públicos, manutenção de distâncias de segurança, uso de máscaras, manutenção diferenciada de sanitários, entre outras medidas.

A conveniência da disposição de uma gama de produtos e serviços variados de diversão, alimentação, e compras básicas - alimentos, remédios, vestimentas; em um mesmo lugar, torna o shopping center um espaço de convivência social; com momentos de prazer e entretenimento. De acordo com Vargas (1992), o shopping center assumiu a condição de mercadoria, como produto de consumo, e tende a acompanhar as demandas oriundas dos novos modos de produção e consumo no final do século XX, que incluem o consumo de sensações, experiências e lugares.

Por outro lado, essa mesmas facilidades, ampliam em muito os riscos gerados pela contágio, em função do manuseio e uso intenso desses espaços fechados, trazendo a sensação de segurança maior em espaços abertos e próximos aos seus bairros, onde não ocorra aglomeração de pessoas; ou em espaços que propiciem de forma segura o lazer, alimentação e as compras.

O comportamento das pessoas após a pandemia irá se transformar, e os cuidados com a saúde e o bem-estar irão se intensificar, trazendo novas formas de uso e de escolhas de espaços de convivência, podendo optar por espaços semi públicos, como shoppings, museus, galerias, entre outros, necessitando que nessas situações, as atividades possam ser reiniciadas de forma segura, com o uso adequado da população e evitando aglomeração inadequada aos novos padrões de saúde pública.

Nesse, sentido, o objetivo deste ensaio é recomendar diretrizes de convivência e de uso adequado para os espaços semi públicos pós pandemia, compatíveis com as exigências da saúde pública definidas, como novos hábitos e comportamentos, até que se tenha uma vacina eficiente para a doença e afastados os riscos de sua propagação ampliados pela concentração de pessoas. Dentre elas:

- Ampliar as disponibilidades de espaços com  a potencialização do uso dos equipamentos como os CEUS e Escolas Municipais Públicas abertas à comunidade para as práticas de esporte e cultura dentro dessas novas regras, ou mesmo emergencialmente para o alojamento de pessoas das comunidades com casos leves de COVI - 19 conforme já colocado em prática pelo poder público municipal.

- Ampliar o uso dos espaços semi públicos numa faixa das calçadas em frente ao comércio ou serviço, como bancas de jornal, padarias, frutarias, entre outros; poderá incentivar as conexões sociais - nestes espaços híbridos, onde os comerciantes poderão colocar mesas e bancos para se reconectar socialmente com seus clientes, nas áreas externas de padarias e lanchonetes para um café ou lanche com a família.

- Implementar medidas rígidas de regulamento de funcionamento e fiscalização para evitar aglomerações nos espaços internos aos shoppings, mercados, centros culturais: capacitação dos funcionários para orientações quanto ao distanciamento físico, realização de demarcações para distanciamento físico dos usuários, avaliação da capacidade de suporte - definindo e controlando o número de pessoas por ambiente.

(Ex: revisão de número de pessoas em auditório, sessões de cinema, etc), monitoramento dos acessos com o uso de ingressos via internet e uso de tecnologias de acordo com a capacidade de suporte desses espaços, entre outras medidas. As próprias pessoas deverão receber orientações especiais para manter o distanciamento social seguro (raio mínimo de 2 metros).

- Implementar medidas de uso adequado dos espaços fechados (Ex: Shoppings): proibir o uso de provadores, oferecer bancos com separação de espaços, ampliar os períodos de limpeza e desinfecção de banheiros, controlar o uso de elevadores e escadas rolantes, fornecer máscaras e álcool gel, instalar locais para medição de temperatura.

- Instalar medidas de conforto e segurança na mobilidade urbana: medidas educativas de estímulo ao acesso por transporte público, maior oferta de bicicletários, redução dos estacionamentos descobertos com a criação de pequenas ilhas com bancos e plantas e solarium, recomendação para grupos máximos de 6 pessoas, para evitar a formação de filas e ampliar as opções de uso.

- Repensar e ampliar o convívio da população de forma segura, como o deslocamento das atividades culturais, concertos, exposições artísticas e peças teatrais, para ambientes ao ar livre, e criar áreas de drive-in em espaços públicos para projeção de filmes.

- Estimular a prática das compras via internet também será importante para evitar deslocamentos desnecessários e prejudiciais ao meio ambiente e a segurança sanitária, e criar horários alternativos para compras presenciais.

A maior parte das recomendações acima sugeridas coloca como elemento chave, a necessidade de replanejar e ressignificar a vida urbana como um novo paradigma para as cidades, como o caso de  São Paulo. Novas medidas de segurança a si e aos demais deverão ser implantadas de acordo com a redução do  confinamento e reabertura gradual dos espaços públicos ou semipúblicos. Elas irão trazer benefícios às pessoas face às necessidades diárias de retomada das atividades de comércio e serviços,  e a garantia da proteção e cuidados com a salvaguarda das pessoas e a saúde pública.

Os ambientes fechados, como o transporte público (ônibus, metrô, trem), comércios, mercados, shoppings deverão ter regras mais rígidas de controle sanitário e de cuidados na convivência mútua, enquanto os espaços abertos - praças, parques e áreas verdes poderão acomodar as pessoas de forma mais confortável e com menor risco de aglomerações.

De acordo com o panorama global de enfrentamento a  COVID-19, nos debruçamos nessas reflexões e recomendações, de quais estratégias serão viáveis e necessárias, no momento pós pandemia, para proporcionar ambientes saudáveis e seguros, assim como,  comportamentos e hábitos de convivência em espaços semi públicos na cidade de São Paulo.

A reconexão das pessoas às atividades básicas nos espaços semi públicos deverão seguir procedimentos de saúde e segurança, de forma gradativa, ao longo dos próximos meses, pois a insegurança e o medo já fazem parte da vida da comunidade, neste momento.

No dia 27 de abril de 2020, foi lançado o plano de flexibilização do isolamento social para o estado de São Paulo, seguindo critérios médicos e epidemiológicos para manter o sistema de saúde estável, e considerando os índices de ocupação hospitalar de UTIs e de evolução de casos nas 17 regiões do estado. Este plano foi elaborado em 5 fases de retomada da economia: do nível máximo de restrição de atividades não essenciais a etapas identificadas como controle, flexibilização, abertura parcial e normal controlado. Analisando as diretrizes de distanciamento estabelecidas para o setor do comércio, e consequentemente, para alguns importantes espaços semi públicos - lojas, shoppings centers, entre outros; não foi apresentado os protocolos e detalhamentos necessários para uma flexibilização eficaz e segura.

É grande a responsabilidade dos órgãos públicos em criar medidas de apoio social, cultural e econômico à comunidade e às empresas privadas, para superarem a crise imposta pela pandemia, e orientações e protocolos para retomarem suas atividades.

Em especial, deverão ser implantadas políticas públicas inclusivas com o objetivo de colaborar com a retomada econômica e social, propondo novas formas de sanar com as dificuldades pós pandemia de diversas classes de profissionais; como autônomos, ambulantes, pequenos comerciantes, entre outros, abalados profundamente com a crise, e que não contam com as estruturas administrativas dos grandes espaços semi-públicos. Acomodar, orientar e criar oportunidades de trabalho seguro para esses profissionais é fundamental para o enfrentamento da crise econômica, causada pela paralisação de suas atividades.

Novos valores deverão ser priorizados no modo de vida urbana, priorizando a reorganização dos espaços semipúblicos, a solidariedade, o pertencimento, e o senso de comunidade, uma vez que estamos todos conectados no enfrentamento dessa pandemia.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ARANTES, Rafael de Aguiar. A662 O(s) espaço(s) público(s) numa cidade desigual e segregada / Rafael de Aguiar Arantes. Salvador. 2017

VARGAS, Heliana Comin; BRUNA, Gilda C.. The Shopping Center shaping the ... ou estratégia na localização? Tese de doutorado. São Paulo: FAUUSP. 1992.

FERREIRA, Angela Lúcia de Araújo. MARQUES, Sônia. Privado e público: inovação espacial ou social? Scripta Nova – Revista Electrónica de Geografia y Ciências Sociales. Universidad de Barcelona. Nº 69 (20). 2000.



[1] https://www.archdaily.com.br/br/777375/classicos-da-arquitetura-conjunto-nacional-david-libeskind