Revista Estudos Avançados analisa as transformações político-eleitorais no Brasil
Às vésperas do início da propaganda eleitoral deste ano no Brasil, o número 117 da revista Estudos Avançados aborda várias questões de interesse tanto de cientistas sociais quanto do eleitorado. Os seis artigos do dossiê “Eleições 2026” tratam tanto de características consolidadas quanto de mudanças ocorridas no panorama político-eleitoral nas últimas décadas.
Para o editor da publicação, o sociólogo Sergio Adorno, as mudanças acontecem num contexto de “frágil equilíbrio entre estabilidade partidária e representação democrática no Brasil”. Os estudos atuais têm destacado o papel desempenhado pelo crescimento da direita, pelos efeitos das reformas institucionais e pela hegemonia do Partido dos Trabalhadores PT) nas eleições presidenciais no campo da esquerda, afirma.
Essa questão é tema do artigo que abre o dossiê: “Eleições em Tempos de Incerteza: A Reconfiguração do Sistema Partidário Brasileiro e o Papel da Disputa de 2026”, do cientista político Glauco Peres da Silva, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.
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Para ele, as eleições deste ano oferecerão um ponto de observação privilegiado da trajetória recente do sistema partidário brasileiro, “tornando visíveis os limites e os espaços de reorganização partidária em democracias de baixa institucionalização”.
Silva explica que depois da desestruturação da coordenação do sistema partidário do país que prevaleceu até 2014, as eleições deste ano têm condições de servir como as primeiras na retomada de uma lógica em que a disputa presidencial dita os acordos estaduais, como foi a de 1994.
O dossiê aponta que as mudanças desenham cenários de distribuição cada vez mais fragmentada do poder, segundo o editor da revista. Esses cenários são alimentados, desde 2015, pelo controle crescente do Congresso Nacional de recursos orçamentários, o que fortalece as disputas eleitorais para o Legislativo, mas enfraquece a influência presidencial e confere maior relevância às disputas estaduais, observa.
Essa fragmentação e suas consequências são analisadas no trabalho “O Caleidoscópio Eleitoral de 2026: Eleições Congressuais, Federalismo e Disputa Presidencial”, de três professores do Departamento de Gestão Pública da FGV-SP: Cláudio Gonçalves Couto, Fernando Luiz Abrucio e Marco Antonio Carvalho Teixeira.
Para eles, é necessário relacionar as dinâmicas eleitorais à governabilidade futura, uma vez que a autoridade presidencial depende agora de forma mais acentuada da negociação com o Congresso, das relações com o Supremo Tribunal Federal e da coordenação com os governadores. “O Brasil deixou para trás o contexto em que a Presidência concentrava de forma quase exclusiva a capacidade de coordenação política e definição dos rumos governamentais.”
Por outro lado, é preciso analisar como o Brasil se insere no quadro internacional de deterioração das democracias representativas, assunto do artigo “Retrocesso Democrático e o Avanço da Direita: Perspectivas Políticas”, da cientista política Rachel Meneguello, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp.
Na análise, Meneguello trata do caso brasileiro a partir da análise das percepções públicas sobre o funcionamento do regime, da confiança nas instituições e da notável capacidade de organização dos partidos de direita no país.
Entre outras questões discutidas no dossiê, Adorno ressalta a situação do caso brasileiro no quadro internacional de retrocesso das democracias representativas. “As percepções públicas sobre o fundamento do regime político, desconfianças institucionais e a capacidade de organização dos partidos de direita têm forte influência nos rumos da democracia representativa no país”.
Mas quais são as bases sociais que sustentam partidos de esquerda e de direita no Brasil? A questão também é objeto de investigação no dossiê. “A despeito das limitações das fontes de dados e das controvérsias presentes na literatura especializada, é possível identificar o perfil padrão dos eleitores do PT e do bolsonarismo”, aponta o sociólogo, citando o trabalho “Bases Sociais do PT e do Bolsonarismo”, de cientista político Sérgio Simoni Junior, da FFLCH-USP.
O autor observa que, ao contrário do diagnóstico de as eleições de 2018 e 2022 refletiriam a recente polarização política no país, espelhando o fenômeno mundial de emergência da direita radical, a literatura especializada apresenta interpretações variadas para a questão, além de indicar limitações metodológicas e lacunas, especialmente quanto às mudanças entre os dois pleitos.
Ele comenta que a relação entre base social e partidos no nível presidencial se consolidou mais fortemente nos anos recentes, com o PT construindo forte base entre os mais pobres. No entanto, o partido “estava no poder quando forte crise econômica adveio que, dentre outros fatores, levou à eleição de um dos principais representantes da direita radical mundial, constituindo a polarização entre lulismo e bolsonarismo”.
Utilizando modelos baseados em dados eleitorais e educacionais desagregados no nível das urnas e com informações sobre os municípios em que foram coletados, Simoni Junior identificou que a base eleitoral do bolsonarismo é composta principalmente por eleitores de alto perfil social moradores de regiões ricas. Houve movimentações em 2022, mas o padrão não se alterou, “mostrando a importância de contornos sociais de longo prazo da disputa partidário-eleitoral brasileira”.
As eleições de 2018 e 2022 também são comparadas sob o ponto de vista geográfico. Adorno informa que levantamento do cientista político Jairo Nicolau, do CPDOC-FGV, levou em consideração o papel das metrópoles, o tamanho dos municípios, a distribuição regional e o resultado agregado dos votos nas duas eleições e concluiu que “é possível afirmar que o domínio do PT ocorreu no Nordeste e nas cidades menores, enquanto a direita teve êxito nas metrópoles e nas regiões Sul e Sudeste”.
No texto “Ascensão Urbana e Recuo Metropolitano: A Geografia Eleitoral de Jair Bolsonaro em 2018 e 2022”, afirma que os resultados diferentes nas duas eleições ocorreram por variação das margens, não por reconfiguração do mapa eleitoral. “Em 2018, Bolsonaro acumulou vantagens suficientes nas grandes cidades do Sudeste para superar a vantagem petista nas pequenas cidades nordestinas; em 2022, essas margens se contraíram, invertendo a equação”. Diante disso, argumenta que a eleição presidencial brasileira passou a ser decidida nos grandes centros urbanos, sobretudo nas metrópoles do Sudeste.
No artigo “Quem Estrutura a Disputa? Perenidade e Poder nos Sistemas Partidários Subnacionais (1982-2024)”, que conclui o dossiê, o cientista político Bruno Wilhelm Speck, da FFLCH-USP, apresenta os resultados de estudo para a identificação dos partidos estruturantes na disputa eleitoral a partir da análise da apresentação de candidaturas para os cargos de governador, senador e prefeito das capitais.
Segundo ele, a pesquisa indica uma tendência geral de enfraquecimento da estruturação perene da competição eleitoral por partidos estáveis no nível subnacional. “Esse movimento está parcialmente associado ao aumento da fragmentação partidária, mas também pode ser influenciado por processos mais recentes de reconfiguração e eventual reconcentração do sistema partidário.”
No entanto, Speck aponta que a análise poderá ser aprimorada em futuras pesquisas, incorporando fatores não levados em conta no estudo. Entre eles, cita o papel das lideranças políticas para que os partidos mantenham posição estruturante, a formação de alianças eleitorais e adoção de pesos diferenciados para as vitórias eleitorais em função de maior acesso a recursos e visibilidade proporcionada por elas, além da inclusão de cargos originados em disputas proporcionais.
Novos tratamentos do câncer
O segundo dossiê da edição trata de pesquisas atuais sobre o câncer, entre as quais descobertas no sentido da identificação de alvos moleculares específicos e o surgimento de terapias alvo-dirigidas. Um panorama sobre esses avanços é apresentado pelo oncologista Roger Chammas, da Faculdade de Medicina (FM) da USP, no ensaio “Novas Terapias e o Tratamento Personalizado contra o Câncer”.
Apesar de o momento ser “especialmente prolífico em termos de novas tecnologias, todas portadoras de futuro”, é preciso avaliar com clareza os custos de sua implantação no Sistema Único de Saúde, para que a própria saúde do sistema não seja comprometida, adverte Chammas.
Diana Noronha Nunes e Emmanuel Dias-Neto, cientistas visitantes do Instituto do Câncer da Universidade de Rutgers, EUA, contribuem com o artigo “O Impacto da Microbiota no Tratamento Oncológico”. Constituída de trilhões de micro-organismos, entre os quais bactérias, vírus e fungos, a microbiota humana pode ser afetada por vários fatores e levada a um desequilíbrio que tem sido associado a várias doenças, inclusive o câncer.
No entanto, “a microbiota humana, e de modo especial a intestinal, desempenha funções essenciais no organismo, atuando na imunidade, no metabolismo, na proteção da barreira intestinal e prevenindo a sua colonização por bactérias patogênicas”.
Além disso, a microbiota pode ser facilmente transplantada e a sua modulação, por meio de dieta, pode levar a melhor resposta terapêutica e, consequentemente, a uma sobrevida maior e com maior qualidade para os pacientes oncológicos, explicam os pesquisadores.
Outro procedimento benéfico tanto para a prevenção quanto para o tratamento do câncer é a prática de atividades e exercícios físicos. Nove professores e pesquisadores da Escola de Educação Física e Esporte e do Instituto de Ciências Biomédicas, ambos da USP, fazem uma revisão da literatura sobre o tema no trabalho “Exercício Físico como Intervenção Clínica em Oncologia: Evidências em Câncer de Mama e Câncer Colorretal”.
O objetivo do estudo é apresentar o contexto atual da prática física em dois dos tipos mais incidentes e letais da doença, destacando as bases conceituais, o papel das atividades e exercícios físicos na prevenção, controle e tratamento do câncer e na sobrevivência a ele. O texto aborda também as diretrizes recentes e programas de extensão universitária para a população atingida pela doença.
Outros temas
A edição conta ainda com uma seção sobre agricultura e outra sobre temas culturais. Os artigos da primeira tratam da compatibilidade entre aumento da produtividade e preservação da qualidade ambiental, inconsistências dos dados oficiais e conexões entre o ambiental, o social e o cultural, resume Adorno.
A seção “Cultura” encerra a edição com três textos: o relato de uma travessia de Berlim feita por nove pesquisadores brasileiros em 2023 com o objetivo de conhecer os principais marcos topográficos, históricos e culturais da capital alemã; uma reflexão sobre o projeto “Passagens”, ao qual Walter Benjamin (1892-1940) se dedicou por 13 anos; e uma nota histórica sobre a Revista de Psicologia Empírica, fundada no século 18 e a primeira publicação alemã dedicada à disciplina.
Com temas que vão das eleições de 2026 aos avanços da oncologia, passando por agricultura e cultura, o número 117 oferece um amplo panorama de questões centrais para o debate científico e público contemporâneo.
Fotos (a partir do alto): Edson Rodrigues/Agência Senado; imagem artificial/ChatGPT
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