‘Ciência é um direito do cidadão’: Marcelo Viana encerra sua titularidade na Cátedra Otavio Frias Filho
- Marcelo Viana apresenta coletânea de palestras que ocorreram ao longo do Ciclo 2024-2025 da sua titularidade na Cátedra Otavio Frias Filho
“Qualquer nação que pretenda ser próspera precisa atentar para o avanço da matemática”. Em um mundo onde decisões fundamentais são tomadas por algoritmos, a falta de domínio da matemática torna-se uma forma de exclusão de poder. A defesa é de Marcelo Viana, para quem o conhecimento das exatas é "empoderamento". Sem ele, acredita, o brasileiro perde o controle sobre as ferramentas que definem sua vida social e econômica.
O titular da Cátedra Otavio Frias Filho de Estudos em Comunicação, Democracia e Diversidade apresentou suas ideias em conferência no dia 25 de fevereiro, na sede do IEA-USP. O evento marcou o encerramento do Ciclo 2024-2025, com atividades voltadas à Comunicação, Democracia e Diversidade. A cátedra é uma parceria do IEA com o jornal Folha de S.Paulo.
Durante a apresentação "Matemática, Ciência e Sociedade", o matemático fez uma retrospectiva das principais palestras do ciclo, focadas no papel fundamental da ciência como motor de desenvolvimento econômico e social do Brasil.
Entrevista com Marcelo VianaO matemático explica que a ciência dos números pode parecer assustadora à primeira vista, mas essa trilha não é um caminho sem saída. Autor de títulos que levam a matemática aos leitores mais refratários, Marcelo busca descomplicar e adaptar o conhecimento de forma simples e até mesmo lúdica. Confira a entrevista concedida por Marcelo Viana ao IEA. Existe um certo estigma sobre a matemática ser uma disciplina muito rejeitada pelos alunos. Por que isso acontece? A matemática já é uma disciplina complicada em outros países. No nosso país é mais sério porque os problemas gerais se acoplam com questões de subdesenvolvimento econômico, cultural. É uma disciplina difícil de ensinar, porque é o limite dos conhecimentos abstratos. É muito importante que o professor seja capaz de relacionar aquilo que é ensinado na aula de matemática com algo que a criança possa entender mais à sua espera, da sua experiência, da sua vivência. E isso não é impossível, mas é difícil. Eu considero a profissão do professor de matemática mais difícil do mundo, mas ao mesmo tempo está ligado com nós. Como vemos o gosto pelo amor, pela matemática e pela ciência fora da sala de aula por meio dos veículos de comunicação, por meio de ações como essa que a cátedra proporciona Se o sr. tivesse a caneta na mão para melhorar o ensino da matemática no Brasil, o que faria? A resolução desse e desse quadro passa por políticas públicas, passa por investimentos em infra políticas públicas, passa por definir prioridades e passa por, de alguma forma, engajar a sociedade, convencer a sociedade de que isso é uma missão, uma prioridade estratégica de país, pelos impactos que tem em termos de desenvolvimento, mas também em termos de completar o exercício da cidadania. Matemática é uma condição de cidadania. E nós temos todos a capacidade de ter o acesso ao conhecimento matemático. É importante e ainda mais importante nos dias de hoje, em que a matemática está literalmente tomando decisões por todos nós. Como encontramos esse tratamento à matemática nas suas obras? Eu comecei a escrever na Folha de S.Paulo com um objetivo e continuo escrevendo com o objetivo de ajudar a facilitar melhorar a relação que as pessoas têm com a matemática. Aquela pessoa que acha que detesta, pessoas que têm uma má experiência escolar ou na família, tentar mostrar para essa pessoa que vale a pena dar uma segunda chance à matemática. Porque não é esse bicho de sete cabeças. E também não tento ensinar matemática, não é objetivo, não é educacional. O objetivo é de ajudar a facilitar o relacionamento. E eu acho que isso é muito importante e funciona e funciona nas pessoas. Quando dão uma segunda chance à matemática, elas respondem bem. |
Ele defendeu que a matemática não se resume a fórmulas e números, mas é um exercício de cidadania e empoderamento, uma vez que decisões fundamentais da vida moderna são tomadas por algoritmos. “Matemática é poder. Se você dispõe desse conhecimento, você controla. Se você não dispõe desse poder, é usado contra você".
Viana comentou sobre a relação entre a matemática e seu retorno econômico. Segundo o relatório “Contribuição dos trabalhos intensivos em Matemática para a economia brasileira” (Fundação Itaú, 2024), as atividades ligadas à matemática foram responsáveis por 4,6% do PIB brasileiro em 2022. Mesmo assim, na sua visão, essa marca ainda é baixa, quando comparada a outros países – como França, cuja participação da Matemática no PIB 2019 foi de 18%, contra apenas 4,8% no Brasil no mesmo ano.
Esse retorno é quantificado com base em rendimentos efetivos do trabalho, ou seja, quanto melhor a capacitação e desempenho de quem trabalha com matemática, maior será esse retorno à economia brasileira. Porém, quanto à formação do profissional brasileiro e seu impacto no desenvolvimento do país, Marcelo chama atenção para a baixa concentração de estudantes das áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, na sigla em inglês), quando comparada a países em forte crescimento, como a China. “Temos uma estrutura completamente diferente de um país que está dando muito certo”.
Segundo dados do IBGE apresentados na tarde, as matrículas em STEM no Brasil representam apenas 13%. Já a China possui a metade de seus estudantes universitários na área e forma 1,3 milhão de engenheiros por ano – pouco mais do que o Brasil tem em números absolutos: 1,2 milhão. “Eles estão produzindo um Brasil [de engenheiros] por ano”.
Uma forma de aliviar este cenário seria a familiarização do ensino das exatas a aqueles que fogem da matemática. Segundo Viana, iniciativas como as olimpíadas de conhecimento se mostram diferenciais para engajar o público mais jovem, servindo como iniciação à área.
Além da matemática, segundo Marcelo, essa transformação pode passar por outras áreas do conhecimento, unidas em prol do desenvolvimento econômico e social brasileiro. Por isso, o ciclo trouxe discussões estratégicas sobre inteligência artificial, gestão hídrica, inovação industrial e transição energética.
O evento
Participaram representantes do jornalismo, atuantes em diversos setores da profissão, como no noticiário diário, pesquisa e ensino. Também estiveram presentes autoridades representantes da USP, como a vice-reitora Liedi Légi Bariani Bernucci, e Roseli de Deus Lopes, diretora do IEA.
O projeto é fruto de uma parceria entre o IEA e a Folha, inaugurado em 2021, no centenário do jornal. A secretária de redação da Folha, Ana Estela de Sousa Pinto, e o editor-executivo, Vinicius Mota, também acompanharam o evento.
Vinicius foi coordenador durante o período de trabalhos da cátedra. Ao IEA, Mota avalia que a participação na cátedra atingiu as expectativas. “Para nós, foi uma experiência muito valorosa”, afirma.
André Chaves de Melo Silva, professor livre-docente da USP e coordenador da cátedra, também esteve presente no evento. Chaves destacou a importância da contribuição de Viana. “Pudemos aprender muito ao longo deste período, bem como com os conferencistas que colaboraram conosco dividindo seus conhecimentos e trazendo questões fundamentais para as nossas reflexões e pesquisas".
Foto: Jônatas Fuentes/IEA-USP