Curso online discutirá os desafios da tradução literária entre Brasil e França
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De 17 a 31 de agosto 100 vagas no total |
De 21 de setembro a 19 de outubro, o IEA realizará o curso online “Tradução em Mão Dupla: Literatura Brasileira e Literaturas de Expressão Francesa”. A partir de casos particulares, as aulas tratarão dos desafios envolvidos na versão de obras brasileiras para a língua francesa e vice-versa [veja a programação abaixo].
“A tradução, a publicação e a recepção de uma obra em terras estrangeiras envolvem elementos ligados tanto ao horizonte histórico, geográfico e literário que irá acolhê-la quanto à singularidade do texto em questão”, explicam os organizadores.
O curso integra a programação da quinta edição das “Semanas Franco-Uspianas”. As aulas serão sempre às segundas e quartas, das 14h30 às 16h. Os interessados devem se inscrever de 17 a 31 de agosto via Sistema Apolo da USP. A confirmação das matrículas ocorre a partir do dia 1º de setembro. Para obtenção do certificado, os alunos deverão apresentar frequência mínima de 75%. As aulas serão ministradas por meio da plataforma Zoom
A organização é do Grupo de Pesquisas Brasil França (Grupebraf) do IEA, que busca divulgar os laços que unem a literatura brasileira às literaturas de expressão francesa e os desafios envolvidos na versão da poética singular de um escritor para uma língua estrangeira.
21/9 (segunda-feira) | 14h30 - 16h | “O Burrinho Pedrês e Grande Sertão: Veredas”: O Desafio de Traduzir a Poética Roseana em Língua Francesa
Márcia Valéria Martinez de Aguiar (Unifesp e Grupebraf)
Desde a publicação de “Sagarana”, em 1946, os críticos brasileiros apontam a novidade de uma escrita que constrói um mundo em que realidade e ficção, físico e metafísico constituem um único corpo. Dez anos depois, com a publicação de “Grande Sertão: Veredas” e “Corpo de Baile”, essa poética encantou tradutores e editores estrangeiros que aceitaram o desafio de vertê-la para as suas línguas. Nesta aula, serão comentadas, a partir da correspondência de Guimarães Rosa com os seus tradutores, algumas passagens das traduções de “O Burrinho Pedrês” e de “Grande Sertão: Veredas” para a língua francesa.
23/9 (quarta-feira) | 14h30 - 16h | Obras Literárias Brasileiras em Francês: Rubem Fonseca e seu Tradutor Philippe Billé
Maria Cláudia Rodrigues Alves (Unesp e Grupebraf)
Quando disponíveis, cartas trocadas entre escritores e seus respectivos tradutores são material preponderante para que os estudiosos da tradução compreendam os processos envolvidos no ato tradutório de uma obra. O texto epistolar revela entraves, fronteiras sociolinguísticas e culturais, dilemas de escolhas, mas também soluções a esses impasses. Rubem Fonseca manteve profícua correspondência com seu mais regular tradutor para o francês, Philippe Billé. O foco da aula será a apresentação e análise de parte dessa correspondência.
28/9 (segunda-feira) | 14h30 - 16h | A Tradução, a Recepção e a Circulação da Obra de Lygia Fagundes Telles na França
Angela das Neves (Grupebraf)
As traduções da obra de Lygia Fagundes Telles foram feitas especialmente em quatro momentos: 1) logo após sua divulgação no Brasil, por estrangeiros; 2) por professoras brasileiras na França, quando despertou interesse nas universidades estrangeiras; 3) quando sua obra, já consolidada, foi divulgada nas grandes feiras internacionais; 4) nos anos 2000 em diante, com a reedição dessas traduções. Esta aula tem por objetivo propor uma leitura desses momentos da internacionalização da obra lygiana.
30/9 (quarta-feira) | 14h30 - 16h | Tradução de Poesia de Língua Francesa: Ritmo, Significância e Projeto Tradutório em Marceline Desbordes-Valmore, Renée Vivien e Suzanne Dracius
Valter Cesar Pinheiro (UFS e Grupebraf)
Este encontro propõe uma reflexão sobre a tradução poética a partir de poemas de Marceline Desbordes-Valmore, ligada ao romantismo francês do século 19; Renée Vivien, associada ao simbolismo e à literatura decadentista da Belle Époque; e Suzanne Dracius, autora contemporânea cuja obra dialoga com questões identitárias e pós-coloniais do Caribe francófono. Serão discutidos aspectos do projeto tradutório e soluções relacionadas ao ritmo, à sonoridade e à imagem poética, em diálogo com reflexões teóricas de Henri Meschonnic, Anthony Pym e Mário Laranjeira acerca da tradução poética e da significância.
5/10 (segunda-feira) | 14h30 - 16h | "O quê! Meu irmão, o turco? Meu Irmão, o chinês? O judeu?": “Tratado sobre a Tolerância”, de Voltaire
Ana Luiza Reis Bedê (Grupebraf)
O livro “Tratado sobre a Tolerância”, publicado em 1763 como parte da luta de Voltaire (1694–1778) no caso Calas, tornou-se rapidamente um apelo à fraternidade universal. Em sua correspondência, ao anunciar aos amigos o "livrinho", forma como se referia ao Tratado, então prestes a ser lançado, Voltaire destacava os trechos cômicos, as passagens dramáticas e os aspectos capazes de chocar ou comover o leitor. Para abordar uma questão política e filosófica fundamental, o autor recorreu aos mais variados recursos discursivos: carta, diálogo, prosopopeia, crônica política, memorial jurídico, prece, florilégio de citações, paralelo e exegese bíblica. Trata-se, portanto, de comentar e discutir alguns dos percalços enfrentados pelo tradutor ao lidar com um texto que alude, por meio de uma linguagem sutil e repleta de subentendidos, a polêmicas complexas e a fatos históricos.
7/10 (quarta-feira) | 14h30 - 16h | Notas sobre uma Poética da Tradução
Leila de Aguiar Costa (Unifesp)
Esta aula fará uma reflexão sobre os movimentos inscritos no trabalho da tradução. O objetivo será apontar, a partir de algumas observações teóricas enunciadas por Barbara Cassin e Paul Ricoeur, para a articulação entre o interior do texto a ser traduzido, o exterior do ato de ler que supõe certa interioridade do leitor e o exteriorizar-se em discurso do mundo-leitor sobre o texto. À guisa de conclusão, será apresentado um movimento tradutório: a tradução para a língua brasileira de “La Ballade du Calame” (A Balada do Cálamo), do franco-afegão Atiq Rahimi.
14/10 (quarta-feira) | 14h30 - 16h | A Crioulidade na Tradução de “Contos dos Sábios Crioulos”, de Patrick Chamoiseau
Raquel Camargo (Editora 34)
Fazendo jus à complexa realidade linguística e cultural caribenha e às bases orais da literatura antilhana em “Contos dos Sábios Crioulos”, Patrick Chamoiseau (re)constrói um mosaico de pequenas histórias situadas do período colonial das Antilhas, contadas à noite nas plantações pelos "velhos paroleiros". Coube à tradução encontrar agenciamentos possíveis para recriar a oralidade dessas narrativas, restituir intertextos relacionados à colonialidade e refazer jogos semânticos que tomavam por base o francês e os deslocamentos provocados nessa língua pelas marcas da crioulidade.
19/10 (segunda-feira) | 14h30 - 16h | Traduzir “O Dever de Violência”, de Yambo Ouologuem, no Brasil
Mirella do Carmo Botaro (Éducation nationale, França)
Publicado em 1968 em Paris, o romance “O Dever de Violência”, de Yambo Ouologuem, pretende apresentar séculos da história do continente africano, pontuando para tanto desde as práticas esclavagistas vigentes no período pré-colonial até a eclosão dos regimes ditatoriais no século 20. Com uma linguagem crua e extremamente violenta, Ouologuem revira a história da escravidão, ferida aberta que conecta o Brasil ao continente africano, mas, ao fazê-lo, descredita o mito da fraternidade negra largamente exaltado por escritores africanos de sua época. Como o projeto politicamente revolucionário de Ouologuem pode ser lido no Brasil? De que maneira sua linguagem virulenta, cínica e sem complacência pode impactar o debate racial em curso no país? Pretende-se analisar alguns exemplos da tradução junto ao original, a fim de identificar os possíveis efeitos de sua tradução no Brasil.