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Grupo lança curso para sistematizar captação de recursos na USP

por Mauro Bellesa - publicado 30/07/2026 17:00 - última modificação 06/08/2026 10:09

Objetivo é capacitar profissionais para uma política permanente
de mobilização de recursos adicionais para a Universidade

Logo do Gema FilantropiaO IEA dá início em 3 de agosto a um curso inédito para profissionalizar servidores técnicos e administrativos na captação de recursos para pesquisa, inovação e extensão. Com isso, a USP poderá ampliar sua capacidade de obter financiamento complementar por meio de filantropia, parcerias e editais, em um contexto de crescente pressão sobre os recursos públicos para ciência e educação superior.

Concebido como um projeto-piloto, o curso "Mobilização de Recursos para a Universidade e Desenvolvimento de Relações Institucionais" terá 15 encontros, de 3 de agosto a 2 de outubro. Os 45 alunos selecionados atuam em áreas relacionadas à elaboração de projetos para editais, gestão de convênios, campanhas de doação, relacionamento com financiadores e articulação entre a Universidade, setor público, empresas e organizações da sociedade civil.

A iniciativa é uma realização do Grupo de Estudos de Modelos de Apoio à Ciência (Gema Filantropia), que é apoiado pela Fundação José Luiz Setúbal, em parceria com a Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR).

O curso conta com o apoio da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária (PRCEU) da USP, da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP e do Grupo de Trabalho de Filantropia da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Os oito professores são Andréa Martini Pineda, Eduardo SzaziFernando do Amaral Nogueira, Gerson Damiani, Guilherme Ary Plonski, Marcos Kisil, Maria Dolores Montoya DiazPaula Fabiani, pesquisadores e profissionais com ampla experiência em gestão universitária, patrocínio, doações e terceiro setor.

Captação como estratégia institucional

A proposta parte do reconhecimento de que a captação de verbas deixou de ser uma atividade eventual para tornar-se uma necessidade permanente. Mais do que buscar financiamento para projetos específicos, o objetivo é desenvolver uma cultura organizacional baseada no planejamento estratégico, na construção de relacionamentos duradouros com financiadores e na adoção de práticas éticas e transparentes de fortalecimento institucional de universidades.

Segundo os organizadores, há uma demanda reprimida por profissionais especializados nessa área no Brasil. Enquanto universidades de referência no exterior mantêm estruturas permanentes dedicadas ao fortalecimento institucional e à mobilização de recursos, com equipes altamente qualificadas, muitas instituições brasileiras ainda dependem de ações isoladas, sem padronização de processos ou formação específica, apontam os pesquisadores.

A iniciativa também procura reforçar uma visão cada vez mais presente nas universidades de excelência: a autonomia universitária não depende apenas da garantia do financiamento público, mas também da capacidade de captar recursos complementares. Esse acréscimo financeiro amplia as possibilidades de investimento, especialmente em pesquisas de alto risco, caráter interdisciplinar ou maturação prolongada, que frequentemente encontram maior dificuldade de custeio pelos mecanismos tradicionais.

O coordenador do Gema Filantropia, Guilherme Ary Plonski, ex-diretor e professor sênior do IEA e da FEA-USP, ressaltou que a USP tem uma tradição de busca ativa de verbas complementares àquelas destinados pelo Tesouro estadual. "Em 2024, por exemplo, 30% das receitas totais provieram de recursos das agências de fomento, fundações de apoio à Universidade, receita própria e convênios."

Apoio financeiro à pesquisa acadêmica

No entanto, diferentemente de outros países, no Brasil ainda não existe uma tradição consolidada de filantropia voltada à pesquisa científica em todas as áreas do conhecimento, disse Plonski. "Os recursos de caráter filantrópico favorecem pesquisas de alto risco e longo prazo. E podem contribuir para atenuar as oscilações recorrentes das fontes públicas de financiamento, tensionadas por outras demandas legítimas e sujeitas aos humores dos governantes."

Ele destacou que é particularmente oportuna a realização da primeira edição do curso "num momento delicado da trajetória das universidades públicas paulistas, quando o modelo exitoso de autonomia financeira, vigente desde 1989, está em fase de reformulação, à luz da reforma tributária nacional". Mas o interesse pela temática ultrapassa o âmbito paulista, por isso o Gema Filantropia está alinhado com a SBPC para, a partir dos aprendizados resultantes da primeira edição, elaborar um programa de capacitação de caráter nacional, afirmou.

Um dos diferenciais do curso é aproximar a comunidade universitária dos principais atores brasileiros especializados em investimento social privado voltado ao interesse público. Nesse sentido, além de pesquisadores da USP, participam da iniciativa especialistas ligados à ABCR, ao Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social e ao Grupo de Institutos, Fundações e Empresas, organizações que atuam na profissionalização da obtenção de verbas e na promoção da cultura filantrópica no país.

Essa aproximação pretende facilitar futuras parcerias entre a Universidade e organizações filantrópicas, além de ampliar o conhecimento sobre oportunidades de financiamento e sobre as boas práticas adotadas internacionalmente.

Outro objetivo é reduzir a fragmentação das iniciativas atualmente existentes em diferentes unidades da USP. Para isso, o programa prevê o desenvolvimento de subsídios para a criação de um banco de dados colaborativo destinado à mobilização de recursos, permitindo compartilhar informações, experiências e potenciais financiadores.

Ao longo do curso, os participantes terão contato com conceitos fundamentais de filantropia aplicada à ciência, técnicas de prospecção de doadores, elaboração de propostas para financiadores públicos e privados, gestão do relacionamento com parceiros e demonstrações de como estruturar casos de apoio financeiro.

Também serão abordados aspectos jurídicos e contábeis relacionados a doações, patrocínios e convênios, tema considerado essencial para garantir segurança institucional e transparência na aplicação dos valores captados.

Metodologia privilegia atividades práticas

Com carga horária de 60 horas, o curso foi estruturado em dois encontros presenciais e 13 online. A proposta pedagógica combina aulas expositivas, estudos de caso, palestras com especialistas e atividades práticas voltadas à aplicação imediata dos conhecimentos.

O eixo central da formação será a elaboração de um trabalho final propositivo na forma de um Plano Estratégico de Captação de Recursos para uma instituição real, de preferência a própria unidade do participante ou uma organização parceira. O trabalho será desenvolvido ao longo do programa com acompanhamento de monitores e orientação especializada.

Para aprovação, os participantes deverão ter frequência mínima de 75% e apresentar um plano estratégico compatível com os critérios definidos pela coordenação.

A metodologia inclui ainda exercícios e simulações de negociações com potenciais doadores e de elaboração de editais, buscando reproduzir situações enfrentadas por profissionais que atuam na área.

Ferramentas digitais também fazem parte das atividades. Os participantes utilizarão plataformas de gestão de relacionamento com financiadores, estratégias de marketing digital, campanhas de crowdfunding e ambientes virtuais colaborativos, aproximando a capacitação das práticas contemporâneas de desenvolvimento de instituições.