IEAs dos 5 continentes discutem estratégias de cooperação e maior influência na pesquisa internacional
Encontro de Diretores dos institutos integrantes da rede University-Based Institutes for Advanced Study (Ubias) foi realizada na Universidade de Gana de 4 a 6 de novembro
- A diretora do IEA-USP, Roseli de Deus Lopes (1ª à esq.), foi expositora em uma das sessão do encontro
O papel dos institutos de estudos avançados nas universidades, a preservação de sua autonomia acadêmica, a garantia de financiamento e incremento de sua influência na agenda científica mundial foram os principais temas debatidos no Encontro de Diretores de IEAs da rede internacional Ubias (University-Based Institutes for Advanced Study), realizado de 4 a 6 de novembro no Instituto Merian de Estudos Avançados (Miasa) da Universidade de Gana, em Acra, capital do país africano.
Pelo IEA-USP, estiveram presentes a diretora, Roseli de Deus Lopes, e o diretor anterior, Guilherme Ary Plonski, professor sênior do Instituto. O encontro marcou o 15º aniversário da Ubias, criada em reunião promovida pelo IEA da Universidade de Freiburg, Alemanha, em outubro de 2010. O IEA-USP é um dos membros fundadores da rede.
Relevância
Plonski, que durante três anos foi um dos coordenadores do Comitê Diretivo da Ubias, considerou o encontro em Acra muito bem-organizado e relevante por três razões principais:
Agenda da UbiasOs próximos Encontros de Diretores de IEAs integrantes da Ubias estão previstos para ocorrer de forma online em maio e novembro de 2026 e em maio de 2027. Em novembro de 2027 será realizada uma Conferência Global presencial. Intercontinental Academia A quinta edição da Intercontinental Academia (ICA) será realizada pelo Instituto de Estudos Avançados Transdisciplinares (Ieat) da UFMG e pelo Colégio Max Weber de Cultura da Universidade de Erfurt, Alemanha. O tema desta vez será "Ressonância: Nossa relação com o Mundo como Solução para Expansão e Aceleração". Os períodos de reunião dos pesquisadores envolvidos serão em junho de 2026 no instituto alemão e em março de 2027 no Ieat. O tema da edição se refere a proposta teórica do sociólogo Hartmut Rosa, diretor do Colégio Max Weber de Cultura. Ao elaborar uma teoria sobre o "bom", ele define "ressonância" como uma relação de influência mútua entre o sujeito e o mundo, onde ambos são transformados por meio de um encontro baseado em afeto, emoção e autoeficácia percebida. A primeira edição da ICA foi realizada pelo IEA-USP e pelo Instituto de Pesquisa Avançada da Universidade de Nagoya, Japão, e teve como tema o "Tempo". Os períodos de imersão foram em abril de 2015, em São Paulo, e em março de 2016, em Nagoya. |
• foi o primeiro evento realizado em África, reforçando o caráter global da rede (o primeiro nas Américas foi no IEA-USP, em 2018; o primeiro na Oceania será em 2027, completando a cobertura dos cinco continentes);
• nos dois primeiros dias foi possível aprofundar temas cruciais num mundo em acelerada transição, tais como a produção de conhecimento no chamado Sul Global (com destaque para a participação da diretora do IEA-USP) e o desafio de avançar os institutos de estudos avançados, acrescentando à característica básica de estudos e pesquisa interdisciplinares também a intersetorialidade; neste tema, foi apresentado o relatório do grupo de trabalho do qual o IEA-USP participou;
• a qualidade das interações entre dirigentes dos IEAs permitiu reforçar laços que estimulam ações colaborativas entre institutos diversos ao longo dos próximos dois anos.
Sul Global
O tema da primeira sessão do encontro em Acra foi “Produção de Conhecimento no Sul Global: O Papel dos IEAs na Definição das Agendas de Pesquisa Regionais e Global”. Para Roseli, uma das expositoras, a relevância dos IEAs reside no fato de serem espaços de pesquisa independente, interdisciplinar e tolerante a riscos, com tempo e liberdade para cruzar fronteiras científicas.
No entanto, ela observou que transpor a divisão socioeconômica entre o Norte e o Sul Global para o contexto da produção de conhecimento pode levar a distorções na avaliação da contribuição científica dos países em desenvolvimento. Correntes intelectuais feministas e decoloniais consideram que isso resulta em marginalização das perspectivas científicas do Sul Global, o que tem sido chamado de injustiça epistêmica, com as teorias do Norte sendo vistas como universais.
Roseli citou alguns elementos que inviabilizam uma participação justa dos países em desenvolvimento nas referências epistemológicas internacionais: a vantagem dos países com inglês como língua materna, o alto custo para publicar nos periódicos de maior impacto, critérios restritivos de mensuração do impacto, barreiras decorrentes de exigências de conformidade na colaboração Sul-Sul, e acesso desigual a propriedade intelectual e dados.
Diante dessas barreiras, ela recomendou três ações aos IEAs: compartilhamento de modelos legais, governança ética de dados e microfinanciamento prévio à concessão de bolsas de pesquisa para colaboração Sul-Sul e Sul-Norte.
Não basta que os pesquisadores do Sul Global participem do sistema internacional de pesquisa; é preciso que eles também atuem no estabelecimento das agendas desse sistema: sejam proponentes de questões e métodos, afirmou Roseli. Outra necessidade é a redefinição de critérios cientométricos para avaliar resultados preliminares, multilíngues e politicamente relevantes, acrescentou.
Do ponto de vista da estrutura de inserção de pesquisadores e instituições de pesquisa dos países do Sul Global, Roseli vê três níveis a serem considerados: 1) agendas baseadas em questões regionais, mas referenciais em termos globais; 2) epistemologias plurais e conhecimento multilíngue; 3) infraestruturas para reconhecimento e ampliação da escala.
Alguns exemplos para o nível 1 são: resiliência das megacidades tropicais, bioeconomia e biodiversidade, e plataformas de economia informal. Para o nível 2, Roseli indica questões como integração do conhecimento de povos indígenas/comunidades tradicionais aos métodos acadêmicos e considerar o trabalho de versão dos resultados para várias línguas como parte da atividade acadêmica. Acesso livre a conjuntos de dados produzidos no Sul Global e avaliação justa de laboratórios de políticas públicas, protótipos e resultados multilíngues são exemplos que se aplicam ao nível 3.
- Sede do Instituto Merian de Estudos Avançados da Universidadse de Gana, local do encontro
Contribuição dos IEAs
Roseli disse que há características e funções que só os IEAs podem fornecer a essa estrutura de incentivo à inserção na agenda internacional: tempo e ambiente interdisciplinar para a experimentação de pesquisadores e pequenos grupos de pesquisa; e atuação como ponte múltipla conectando universidade, setor público, sociedade civil e setor empresarial.
Durante o encontro, Roseli e os diretores de outros quatro IEAs foram escolhidos para compor a Equipe de Coordenação da Ubias. As propostas concretas para a rede que ela apresentou na primeira sessão de alguma forma já compõem parte de sua futura atuação na equipe. As propostas são: criação de um circuito de estadias copatrocinadas de pesquisadores em IEAs do Sul Global, implantação de uma plataforma multilingue de acesso livre a resumos e metodologias, laboratórios de políticas públicas como resultados de pesquisa, programas de mobilidade e microfinanciamento, e um sistema de registro de metodologias livres e protótipos.
Intersetorialidade
A sexta sessão do encontro teve como tema "Avançando os Institutos Avançados: Práticas Intersetoriais ao redor do Mundo". A intersetorialidade foi explorada como um caminho-chave para o crescimento no complexo contexto social. Segundo os organizadores, os IEAs ocupam uma posição delicada, oscilando entre a busca de conhecimento e o papel de ponte entre a universidade e o amplo mundo em que ela está inserida.
Em sua participação na sessão, Plonski apresentou duas iniciativas do IEA-USP que envolveram povos indígenas brasileiros, numa demonstração de que a intersetorialidade é uma prática regular do Instituto. Uma iniciativa foi a titularidades das líderes indígenas Arissana Pataxó, Francy Baniwa e Sandra Benites em 2024 na Cátedra Olavo Setubal - Transversalidades: Arte, Cultura, Ciência e Educação. Elas desenvolveram o programa "Caminho da Cutia: Território e Saberes das Mulheres Indígenas". O cientista da computação Claudio Pinhanez, professor visitante do IEA de maio/2023 a maio/2025, deu continuidade a seus projetos de aplicação de tecnologias digitais e inteligência artificial na produção de ferramentas para uso das línguas guarani e nheengatu no ambiente digital pelos povos que as falam.
Além das sessões em que Roseli e Plonski foram expositores, ocorreram outras quatro, com os seguintes temas:
• Inteligência Artificial e o Futuro da Produção de Conhecimento;
• IEAs Vinculados a Universidades, Autonomia Institucional e Liberdade Acadêmica;
• Impacto dos IEAs
• Financiamento dos Institutos de Estudos Avançados.
Trajetória do IEA-USP
Durante o encontro, ocorreu o lançamento do livro "Advanced in What? The Pioneering Trajectory of the Institute of Advanced Studies of the University of São Paulo", versão em inglês da obra que narra a trajetória do IEA-USP desde sua criação até 2023. A publicação foi apresentada por Plonski e Roseli, que levaram exemplares para todos os participantes do encontro. "Foram expostas a motivação e o processo da produção do livro, bem como sua estrutura. O livro lançado pelo IEA é o pioneiro entre as publicações associadas aos 15 anos da rede Ubias, um momento propício para fazer um balanço do passado e repensar estrategicamente a continuidade da rede", comentou Plonski.
Agenda da Ubias
Os próximos Encontros de Diretores de IEAs integrantes da Ubias estão previstos para ocorrer de forma online em maio e novembro de 2026 e em maio de 2027. Em novembro de 2027 será realizada uma Conferência Global presencial.
Intercontinental Academia
A quinta edição da Intercontinental Academia (ICA) será realizada pelo Instituto de Estudos Avançados Transdisciplinares (Ieat) da UFMG e pelo Colégio Max Weber de Cultura da Universidade de Erfurt, Alemanha. O tema desta vez será "Ressonância: Nossa relação com o Mundo como Solução para Expansão e Aceleração". Os períodos de reunião dos pesquisadores envolvidos serão em junho de 2026 no instituto alemão e em março de 2027 no Ieat. O tema da edição se refere a proposta teórica do sociólogo Hartmut Rosa, diretor do Colégio Max Weber de Cultura. Ao elaborar uma teoria sobre o "bom", ele define "ressonância" como uma relação de influência mútua entre o sujeito e o mundo, onde ambos são transformados por meio de um encontro baseado em afeto, emoção e autoeficácia percebida.
A primeira edição da ICA foi realizada pelo IEA-USP e pelo Instituto de Pesquisa Avançada da Universidade de Nagoya, Japão, e teve como tema o "Tempo". Os períodos de imersão foram em abril de 2015, em São Paulo, e em março de 2016, em Nagoya.
Foto: Guilherme Ary Plonski/IEA-USP