Estudo aponta potencial bioeconômico de espécies nativas da Mata Atlântica
- Cacho de frutos (coquinhos) de jerivá; palmeira é um dos exemplos de como as espécies nativas melhoram sinergicamente o fornecimento de recursos da restauração florestal para a indústria de biotecnologia
O aproveitamento de produtos não madeireiros de espécies nativas da Mata Atlântica é uma prática bioeconômica socialmente justa para superar os desafios enfrentados pela restauração florestal, sobretudo o alto preço das terras disponíveis e o retorno demorado dos serviços ambientais e da produção de madeira.
A recomendação está em estudo realizado por 17 pesquisadores de várias instituições publicado no início de setembro no site da revista Ambio, da Academia Real Sueca de Ciência. O líder da pesquisa, Pedro Krainovic, e outros três autores fazem parte do Núcleo de Análise e Síntese de Soluções Baseadas na Natureza (Biota Síntese), sediado no IEA.
A pesquisa analisou 46 lotes (cada um com 900m2) em fragmentos florestais na parte paulista do Vale do Paraíba do Sul. O inventário das áreas revelou a presença de 5.181 árvores de 329 espécies. O estudo também fez uma revisão de 603 artigos, que apontaram 167 dessas espécies (59%) como de potencial bioeconômico para a produção de fármacos, cosméticos e alimentos (58%, 12% e 5% das 167, respectivamente). As folhas são a parte das árvores mais utilizável para esses usos. Os artigos relatam principalmente achados iniciais baseados em estudos in vitro, in vivo e análises químicas.
Além dos artigos, os pesquisadores examinaram 2.520 patentes de 78 espécies registradas em 61 países, com 8% delas concedidas no Brasil. Apesar do elevado número de patentes, apenas 13% dos estudos atingiram o estágio de produto final.
Os dados sobre usos de espécies abundantes e sobre as patentes podem orientar o planejamento de restauração florestal bioeconômica, afirmam. Outra conclusão relevante é que o manejo não destrutivo é viável para florestas restauradas multifuncionais.
Para os eles, as palmeiras jerivá (Syagrus romanzoffiana) e juçara (Euterpe edulis) e o pinheiro-do-paraná (Araucaria angustifolia) exemplificam como as espécies nativas melhoram de forma sinergética o fornecimento de recursos de restauração para a indústria de biotecnologia.
- Mapa da parte paulista do Vale do Paraíba do Sul e indicações de áreas florestais e de pasto e dos lotes inventariados na pesquisa
Gargalos
De acordo com os pesquisadores, há uma série de limitações que dificultam o desenvolvimento da restauração florestal multifuncional. O conhecimento ainda é limitado tanto sobre possíveis produtos finais — uma vez que os estudos ainda enfatizam as fases iniciais de triagem — quanto sobre a produção e o manejo de espécies nativas.
Além disso, a maior disponibilidade de recursos e infraestrutura faz com que as patentes estejam concentradas em países industrializados. Eles também observam que produtos resultantes de restauração florestal requerem certificações e incentivos para se tornarem comercialmente competitivos.
O artigo ressalta a importância de que os vínculos entre a indústria e as comunidades incorporem o conhecimento tradicional e que sejam apoiadas a pesquisa e a inovação locais com aplicações práticas. Os autores acrescentam que é fundamental que os esforços para explorar os potenciais das espécies nativas reconheçam os direitos de povos indígenas e comunidades locais e repartam os benefícios com eles.
Em defesa da restauração multifuncional, o artigo elenca os pontos negativos do reflorestamento com fins específicos. No caso da monocultura extensiva industrial, há uma homogeneização da floresta, geralmente com espécies exóticas e benefícios mínimos em termos de biodiversidade. O uso de espécies nativas para a produção de madeira, por sua vez, enfrenta alto custo, ciclos longos, pouco conhecimento silvicultural e risco de prejudicar a restauração da vegetação. Se o objetivo da utilização de espécies nativas for o mercado de carbono, além do alto custo, há o baixo preço dos créditos de carbono, o que inviabiliza financeiramente o empreendimento.
Se o objetivo da restauração for receber pagamentos por serviços ambientais quanto ao provisionamento de água, isso vai depender de fundos públicos e contratos de curto prazo. Caso a restauração ocorra em áreas produtivas, as terras terão preço elevado e haverá efeitos na segurança alimentar, restando apenas áreas marginais como possibilidade, o que resulta em baixa atratividade e escalabilidade.
De acordo com os pesquisadores, a restauração florestal multifuncional é a melhor opção, pois apresenta potencial para os seguintes benefícios:
- prestação de serviços ecossistémicos (recuperação da biodiversidade, polinização, proteção do solo, regulação da água) e produtos florestais com valor agregado;
- benefícios socioambientais como criação de empregos e geração de renda;
- redução do prazo de retorno do investimento em restauração;
- manejo não destrutivo gerando produtos como folhas e galhos sem corte de árvores;
- fluxos de receita diversificados, atraindo partes interessadas, especialmente proprietários de terras;
- intensificação do apelo para acordos globais de restauração florestal.
Nas conclusões do artigo, os pesquisadores destacam o potencial biotecnológico das espécies nativas da Mata Atlântica e sua importância para o desenvolvimento econômico sustentável, mas alertam que é preciso adotar um manejo específico para cada espécie. Isso se torna necessário diante do grande número de espécies e de sua abundância em vários tipos de florestas. Eles afirmam que as limitações conhecidas revelam oportunidades para inovação e manejo customizado, abrindo caminhos inexplorados para liberar os benefícios da restauração de florestas tropicais.