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Estudo aponta potencial bioeconômico de espécies nativas da Mata Atlântica

por Mauro Bellesa - publicado 25/09/2025 17:35 - última modificação 13/10/2025 11:49

Estudo com a participação de pesquisadores do Biota Síntese publicado na revista Ambio, da Academia Real Sueca de Ciências, destaca potencial de espécies vegetais nativas da Mata Atlântica para uso bioeconômico sustentável.

Frutos da palmeira Jerivá
Cacho de frutos (coquinhos) de jerivá; palmeira é um dos exemplos de como as espécies nativas melhoram sinergicamente o fornecimento de recursos da restauração florestal para a indústria de biotecnologia

O aproveitamento de produtos não madeireiros de espécies nativas da Mata Atlântica é uma prática bioeconômica socialmente justa para superar os desafios enfrentados pela restauração florestal, sobretudo o alto preço das terras disponíveis e o retorno demorado dos serviços ambientais e da produção de madeira.

A recomendação está em estudo realizado por 17 pesquisadores de várias instituições publicado no início de setembro no site da revista Ambio, da Academia Real Sueca de Ciência. O líder da pesquisa, Pedro Krainovic, e outros três autores fazem parte do Núcleo de Análise e Síntese de Soluções Baseadas na Natureza (Biota Síntese), sediado no IEA.

A pesquisa analisou 46 lotes (cada um com 900m2) em fragmentos florestais na parte paulista do Vale do Paraíba do Sul. O inventário das áreas revelou a presença de 5.181 árvores de 329 espécies. O estudo também fez uma revisão de 603 artigos, que apontaram 167 dessas espécies (59%) como de potencial bioeconômico para a produção de fármacos, cosméticos e alimentos (58%, 12% e 5% das 167, respectivamente). As folhas são a parte das árvores mais utilizável para esses usos. Os artigos relatam principalmente achados iniciais baseados em estudos in vitro, in vivo e análises químicas.

Além dos artigos, os pesquisadores examinaram 2.520 patentes de 78 espécies registradas em 61 países, com 8% delas concedidas no Brasil. Apesar do elevado número de patentes, apenas 13% dos estudos atingiram o estágio de produto final.

Os dados sobre usos de espécies abundantes e sobre as patentes podem orientar o planejamento de restauração florestal bioeconômica, afirmam. Outra conclusão relevante é que o manejo não destrutivo é viável para florestas restauradas multifuncionais.

Para os eles, as palmeiras jerivá (Syagrus romanzoffiana) e juçara (Euterpe edulis) e o pinheiro-do-paraná (Araucaria angustifolia) exemplificam como as espécies nativas melhoram de forma sinergética o fornecimento de recursos de restauração para a indústria de biotecnologia.

Mapa da bacia do rio Paraíba do Sul
Mapa da parte paulista do Vale do Paraíba do Sul e indicações de áreas florestais e de pasto e dos lotes inventariados na pesquisa

Gargalos

De acordo com os pesquisadores, há uma série de limitações que dificultam o desenvolvimento da restauração florestal multifuncional. O conhecimento ainda é limitado tanto sobre possíveis produtos finais — uma vez que os estudos ainda enfatizam as fases iniciais de triagem — quanto sobre a produção e o manejo de espécies nativas.

Além disso, a maior disponibilidade de recursos e infraestrutura faz com que as patentes estejam concentradas em países industrializados. Eles também observam que produtos resultantes de restauração florestal requerem certificações e incentivos para se tornarem comercialmente competitivos.

O artigo ressalta a importância de que os vínculos entre a indústria e as comunidades incorporem o conhecimento tradicional e que sejam apoiadas a pesquisa e a inovação locais com aplicações práticas. Os autores acrescentam que é fundamental que os esforços para explorar os potenciais das espécies nativas reconheçam os direitos de povos indígenas e comunidades locais e repartam os benefícios com eles.

Em defesa da restauração multifuncional, o artigo elenca os pontos negativos do reflorestamento com fins específicos. No caso da monocultura extensiva industrial, há uma homogeneização da floresta, geralmente com espécies exóticas e benefícios mínimos em termos de biodiversidade. O uso de espécies nativas para a produção de madeira, por sua vez, enfrenta alto custo, ciclos longos, pouco conhecimento silvicultural e risco de prejudicar a restauração da vegetação. Se o objetivo da utilização de espécies nativas for o mercado de carbono, além do alto custo, há o baixo preço dos créditos de carbono, o que inviabiliza financeiramente o empreendimento.

Se o objetivo da restauração for receber pagamentos por serviços ambientais quanto ao provisionamento de água, isso vai depender de fundos públicos e contratos de curto prazo. Caso a restauração ocorra em áreas produtivas, as terras terão preço elevado e haverá efeitos na segurança alimentar, restando apenas áreas marginais como possibilidade, o que resulta em baixa atratividade e escalabilidade.

De acordo com os pesquisadores, a restauração florestal multifuncional é a melhor opção, pois apresenta potencial para os seguintes benefícios:

  • prestação de serviços ecossistémicos (recuperação da biodiversidade, polinização, proteção do solo, regulação da água) e produtos florestais com valor agregado;
  • benefícios socioambientais como criação de empregos e geração de renda;
  • redução do prazo de retorno do investimento em restauração;
  • manejo não destrutivo gerando produtos como folhas e galhos sem corte de árvores;
  • fluxos de receita diversificados, atraindo partes interessadas, especialmente proprietários de terras;
  • intensificação do apelo para acordos globais de restauração florestal.

 

Nas conclusões do artigo, os pesquisadores destacam o potencial biotecnológico das espécies nativas da Mata Atlântica e sua importância para o desenvolvimento econômico sustentável, mas alertam que é preciso adotar um manejo específico para cada espécie. Isso se torna necessário diante do grande número de espécies e de sua abundância em vários tipos de florestas. Eles afirmam que as limitações conhecidas revelam oportunidades para inovação e manejo customizado, abrindo caminhos inexplorados para liberar os benefícios da restauração de florestas tropicais.