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Geopolítica em transformação desafia Brasil a definir seu papel na nova ordem internacional

por Mauro Bellesa - publicado 27/08/2026 16:55 - última modificação 31/08/2026 16:54

Em encontro sobre seu livro, o diplomata Braz Baracuhy analisou
a transição da ordem unipolar para a competição entre Estados Unidos
e China; debate abordou os desafios e oportunidades para o Brasil

O Brasil diante da nova polarização geopolíticaA transição de um mundo unipolar, organizado em torno da predominância dos Estados Unidos após o fim da Guerra Fria, para uma configuração marcada pela competição dos EUA com a China está redesenhando as relações internacionais e criando desafios para países como o Brasil. O tema esteve no centro de encontro realizado no IEA, que teve como centro a apresentação do livro “Geopolítica Global: O Mapa Estratégico do Mundo Contemporâneo”, do diplomata Braz Baracuhy .

A atividade reuniu pesquisadores, diplomatas, representantes das Forças Armadas e outros especialistas. Alguns dos tópicos das discussões foram a reorganização das cadeias globais de produção, segurança econômica, inteligência artificial, transição energética, mudanças climáticas, minerais críticos e rotas oceânicas, inclusive no Ártico.

Na abertura do evento, o vice-diretor do IEA, Marcos Buckeridge, destacou a retomada dos estudos de geopolítica pelo Instituto. Proposto por ele, o Grupo de Estudos de Geopolítica surgiu a partir de discussões sobre uma questão central: qual é o papel do Brasil no novo contexto geopolítico internacional? A partir dessa pergunta, os pesquisadores buscam relacionar as transformações da ordem mundial às escolhas políticas do país.

O especialista em relações internacionais Alberto Pfeifer, coordenador do evento, ressaltou que o novo grupo pretende recuperar a consistência conceitual da geopolítica, campo dedicado à análise das relações de poder projetadas no espaço e que, após perder espaço no debate científico e público, voltou à cena, mas de maneira ainda marcada por certa vulgarização do conceito. Para ele, a discussão necessariamente envolve temas como estratégia e segurança, centrais para compreender a posição dos Estados no cenário internacional.

Capa do livro "Geopolítica Global"

Um mundo em transformação

Palestrante no evento, Baracuhy foi representante do Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC), em Genebra (Suíça), entre 2022 e 2023, e encarregado de negócios na embaixada na Finlândia entre 2025 e 2026. Atualmente é ministro-conselheiro na representação brasileira em Helsinque. Também ocupou funções no Ministério das Relações Exteriores relacionadas a planejamento diplomático, agricultura e negociações comerciais.

Ao apresentar seu livro, ele disse que a obra é uma tentativa de resposta a uma pergunta simples: “O que está acontecendo?” Seu objetivo foi identificar as forças estruturais que estão transformando o sistema internacional, para além das crises e acontecimentos conjunturais.

O diplomata organizou seu diagnóstico em torno de três grandes transformações. Uma delas é a passagem de um mundo unipolar, centrado nos Estados Unidos e surgido no pós-Guerra Fria, para uma configuração bipolar, centrada na competição entre Estados Unidos e China.

Isso não significa que países como Índia, Rússia e as potências europeias tenham perdido relevância. Eles continuam dispondo de capacidades importantes em áreas específicas, segundo o diplomata. Nenhum deles, porém, reúne atualmente a combinação de recursos econômicos, militares, tecnológicos e políticos que permite a Estados Unidos e China exercer influência global comparável, afirmou.

Em decorrência disso, ocorre outra transformação, que ele chama de reordenamento bipolar da própria ordem internacional. Nessa reconfiguração, resquícios de instituições e regras construídas no pós-Segunda Guerra Mundial e ampliadas após o fim da Guerra Fria continuam existindo, mas convivem em novos arranjos regionais e plurilaterais e em novas coalizões geopolíticas, explicou.

Ele citou como exemplos desses arranjos as iniciativas dos EUA e da China para inteligência artificial: a estadunidense é a Pax Silica, lançada em dezembro de 2025 com o objetivo de garantir e proteger as cadeias de suprimentos globais de silício, semicondutores, minerais críticos e tecnologias voltadas para a IA; a equivalente chinesa é a Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (Waico, na sigla em inglês), lançada em julho deste ano. “Em todas as áreas que imaginarmos, teremos iniciativas de ordenamentos parciais lideradas por Estados Unidos e China.”

Complementa esse quadro de reconfiguração geopolítica a mudança econômica. Baracuhy identificou o surgimento de uma “biglobalização geoeconômica”, caracterizada pela crescente fragmentação da economia mundial e pela incorporação de considerações geopolíticas às decisões econômicas. Comércio, investimentos, cadeias de suprimentos, energia, minerais críticos e tecnologia passaram a ser considerados também sob a ótica da segurança nacional, afirmou. Dessa forma, a economia mundial, estruturada durante décadas em ambiente relativamente favorável à integração, passou a ser afetada diretamente pela competição estratégica entre Estados Unidos e China, acrescentou o diplomata.

A disputa pelo espaço

Baracuhy mostrou como a competição atual recupera elementos da geopolítica clássica. Segundo ele, as estratégias dos EUA e da China possuem raízes que remontam ao fim do século 19 e início do século 20, quando autores como o britânico Halford Mackinder (1861-1947) e o neerlando-estadunidense Nicholas Spykman (1893-1943) procuraram explicar a relação entre território, poder e projeção internacional.

Braz Baracuhy - 12/8/26
O diplomata Braz Baracuhy durante a apresentação de seu livro ''Geopolítica Global'' em seminário no IEA

No caso dos Estados Unidos, ele destacou a importância que o país atribui à sua influência histórica nas Américas e no Caribe e o interesse em que a Eurásia continue dividida e num equilíbrio entre blocos de poder regionais favoráveis aos EUA. A estratégia estadunidense procura evitar que uma única potência consiga dominar a grande massa continental eurasiática, disse. Europa, Oriente Médio e Leste Asiático, portanto, continuam sendo espaços fundamentais para a projeção do poder dos Estados Unidos, afirmou.

“O contraponto disso é a grande estratégia chinesa, com a visão de uma Eurásia integrada e consolidada”, comentou o expositor. A estratégia da China procura ampliar a integração econômica e política da Eurásia, ao mesmo tempo em que fortalece sua posição no entorno asiático, afirmou. Nesse ponto, Baracuhy recuperou a concepção de Mackinder sobre o Heartland, o coração continental da Eurásia. De acordo com o britânico, a capacidade de controlar ou influenciar essa grande massa territorial produziria condições materiais para a projeção de poder em escala global.

A Nova Rota da Seda, a aproximação com a Rússia e os movimentos chineses no entorno marítimo asiático são elementos que podem ser interpretados à luz dessa longa tradição de pensamento geopolítico, de acordo com o diplomata.

Além de traçar um panorama do quadro geopolítico internacional, Baracuhy procura traçar alguns cenários futuros no livro. “Há questões importantes relativas a, por exemplo, a ascensão da Índia e ao papel de outros países na Eurásia. Mas, no fundo, minha preocupação central é formular um diagnóstico que, apesar de modesto, seja uma tentativa de contribuir com o debate no Brasil sobre o que está acontecendo no mundo.”


 

Debate discute limites da bipolaridade
e oportunidades para o Brasil

Para embaixador do Brasil no Marrocos, Alexandre Parola, havia uma ordem internacional suficientemente estruturada para que regras e instituições multilaterais funcionassem como amortecedores das disputas entre as grandes potências, situação que se desfez gradualmente. Isso fez com que a geopolítica perdesse centralidade no discurso público, afirmou.

Na sua opinião, o que ocorre agora não é uma turbulência passageira, mas uma transformação estrutural. Ao mesmo tempo, questionou a conclusão frequentemente expressada de que o declínio dos Estados Unidos é inevitável.

Parola lembrou que diagnósticos de declínio estadunidense aparecem repetidamente na história, desde a independência do país até diferentes momentos de crise interna e internacional. No entanto, a história registrou sucessivas recuperações dos EUA, disse.

A produtividade dos Estados Unidos, argumentou, continua sendo uma variável decisiva e precisa ser considerada antes de se concluir que a China inevitavelmente substituirá os Estados Unidos como potência dominante.

Parola propôs uma mudança de perspectiva: em vez de apenas perguntar como o Brasil interpreta Estados Unidos, China e Índia, seria necessário perguntar como esses países enxergam o Brasil. Essa inversão de olhar é fundamental, segundo ele, pois o espaço de possibilidades de uma estratégia brasileira não depende apenas da percepção que o país tem do mundo.

No caso dos Estados Unidos, Parola chamou atenção para o que considerou o fim de uma fase de “negligência benigna” em relação ao Hemisfério Ocidental. Para ele, a região nunca deixou de ser importante para os EUA, mas durante a Guerra Fria outras prioridades absorveram parte significativa da atenção estratégica do país. O novo cenário recoloca as Américas no centro do cálculo dos Estados Unidos, disse.

Ele também questionou a chamada “armadilha de Tucídides”, expressão usada para descrever a tendência de uma potência emergente entrar em conflito com uma potência estabelecida. Para ele, a analogia entre Estados Unidos e China e a relação histórica entre Esparta e Atenas não deve ser tomada como destino inevitável.

Há uma diferença importante em relação à Guerra Fria, em sua opinião: Estados Unidos e China permanecem profundamente interdependentes economicamente, o que abre espaço para formas de acomodação que não existiam na confrontação com a União Soviética.

A inteligência artificial, contudo, acrescenta uma dimensão radicalmente nova à competição, afirmou o embaixador. Os avanços na IA podem alterar os fundamentos da dissuasão nuclear, argumentou, especialmente se sistemas tecnológicos forem capazes de interferir na capacidade de resposta de um adversário.

Clima, energia e regime político

O cientista político Eduardo Viola, pesquisador colaborador do IEA e professor sênior da UnB, afirmou que o livro “Geopolítica Global tem grande capacidade de provocar reflexão e destacou alguns dos principais méritos da obra.

A crítica à ideia de um mundo multipolar, caracterizando-a como uma espécie de “autoengano diplomático” é um deles. Para Viola, Baracuhy acerta ao mostrar que Estados Unidos e China ocupam um patamar de poder muito diferente daquele dos demais países.

A identificação de Estados Unidos e China como potências simultaneamente revisionistas, também foi valorizada pelo cientista político. A China procura modificar aspectos da ordem existente, mas os Estados Unidos também passaram a questionar e reformar em seu próprio favor instituições e regras que ajudaram a construir, afirmou.

Viola destacou o fato de o trabalho de Baracuhy ressaltar o trilema geoeconômico: a dificuldade de conciliar interdependência econômica global, competição geopolítica intensa e segurança nacional.

Ele também elogiou a concepção de ordem internacional apresentada pelo diplomata. Para Viola, o livro mostra que não existe simplesmente uma ordem baseada em regras, mas sim uma ordem sustentada por poder validado por regras, cuja estabilidade depende de uma distribuição relativamente estável de poder, de uma concepção compartilhada de legitimidade e de compromisso político de estadistas.

Mas Viola também apontou vulnerabilidades no trabalho de Baracuhy. A principal delas é a ausência de clima, energia e ecologia como elementos estruturantes da análise. A mudança climática não deveria aparecer apenas como tema setorial, pois ela está alterando a materialidade do sistema internacional, os padrões energéticos, as cadeias produtivas e a distribuição de recursos, argumentou.

Um exemplo disso é o setor de tecnologias de baixo carbono, segundo Viola, que vê uma assimetria estratégica que merece atenção: nos semicondutores avançados, os Estados Unidos e seus aliados controlam importantes pontos de estrangulamento, enquanto a China busca autonomia. Nas tecnologias limpas, ocorre algo próximo do inverso, com a China controlando segmentos importantes da produção e os países ocidentais procuram reconstruir capacidades, afirmou.

Viola também chamou atenção para a resposta chinesa ao chamado dilema de Malaca citado no livro. O dilema se refere a uma eventual vulnerabilidade da China em relação às rotas marítimas por onde passa grande parte de seu abastecimento energético. O debatedor destacou que na verdade a China está respondendo estruturalmente a esse dilema.

Baracuhy apontou os oleodutos vindos da Ásia Central e as rotas terrestres da Nova Rota da Seda como meios para superar parcialmente o problema. No entanto, Viola considera que o dilema será resolvido por meio da eletrificação e da substituição de combustíveis importados por energia produzida domesticamente.

Outra questão levantada por ele foi a dos minerais críticos. Não basta analisar onde estão as jazidas, pois o poder geoeconômico depende também do processamento e do refino, áreas em que a China ocupa posições importantes, afirmou.

Viola questionou a mensuração agregada da bipolaridade. Para ele, é preciso desagregar as diferentes dimensões do poder no âmbito dessa bipolaridade. Há países, disse, que ocupam espaços significativos nesse quadro, como a Índia e, em escalar menor, o Brasil.

O professor também criticou a comparação entre o investimento militar dos EUA e da China a partir de valores nominais. Ele considera essa comparação possível, mas defendeu que ela precisa ser complexificada a partir de uma comparação que considere a paridade de poder de compra do dólar. M termos nominais, o investimento em defesa da China é um terço do investimento dos EUA, mas se for considerada a paridade de poder de compra do dólar, o investimento chinês chega a 57% dos recursos empregados pelos Estados Unidos em sua defesa. “E nesse quadro, a Índia surge como um caso particularmente importante”, acrescentou.

Viola finalizou chamando a atenção para o fato de o livro não fazer menção à questão do regime político. O poder dos EUA sempre teve a atratividade da democracia como um de seus componentes, disse. A erosão da democracia e da coesão social nos Estados Unidos pode afetar seu poder internacional, afirmou.

Seminário sobre o livro "Geopolítica Global" - 12/8/26
Participantes do debate (a partir da esq.): Lourival Sant'Anna, Marcos Buckeridge, Alexandre Parola, Braz Baracuhy, Eduardo Viola, Flávio Damico

A virada de 2008 e os trunfos brasileiros

O embaixador brasileiro no Equador, Flávio Damico, introduziu outro marco temporal no debate: 31 de agosto de 2008, data associada ao fracasso da Rodada Doha de negociações da Organização Mundial do Comércio. Em sua opinião, aquele momento simboliza uma inflexão importante. Estados Unidos e China não chegaram a um acordo sobre um conjunto de regras que poderia ter estruturado o comércio internacional por décadas, disse.

A situação brasileira é especialmente complexa porque o país está situado numa região historicamente vinculada aos Estados Unidos, mas seu dinamismo econômico e grande parte de suas oportunidades comerciais estão cada vez mais relacionados com a Ásia, ponderou Damico.

Ele defendeu que a resposta brasileira deveria partir dos próprios recursos e capacidades do país: produção agrícola, capacidade no setor energético e reservas minerais.

A segurança alimentar também ganha importância geopolítica, no seu entender. Países podem passar a tratar alimentos não apenas como mercadorias, mas como elementos de segurança e soberania nacional, disse. Essa tendência poderá modificar a estrutura dos mercados agrícolas e exigir do Brasil uma estratégia de longo prazo, segundo o embaixador.

Insegurança, oceanos e as duas economias

O jornalista e analista internacional Lourival Sant'Anna trouxe para o debate dados e interpretações voltados especialmente às dinâmicas internas de Estados Unidos e China.

Partindo da reflexão de Kant sobre a possibilidade de uma paz duradoura baseada em democracia e comércio, Sant'Anna perguntou qual processo estaria revertendo essa perspectiva. Sua resposta foi a insegurança.

A percepção de vulnerabilidade territorial, econômica e social pode fortalecer tendências nacionalistas, protecionistas e militaristas, afirmou. Nos Estados Unidos, Sant'Anna relacionou essa percepção às políticas anti-imigração e às preocupações com a segurança territorial.

Essa dinâmica interna dos EUA ajuda a compreender o rumo do protecionismo industrial e, consequentemente, o quão estrutural é essa interdependência com a China, segundo o jornalista.

O mesmo processo pode ser observado na China, embora por razões diferentes. A economia chinesa ainda depende significativamente do comércio exterior e, ao mesmo tempo, enfrenta o desafio de ampliar o consumo interno, disse o jornalista. “O consumo interno representa apenas 46% do PIB da China, ao passo que na OCDE é de 54% e nos Estados Unidos é de 64%”, apontou.

Sant'Anna destacou a necessidade de observar essas diferenças estruturais. Os Estados Unidos têm excesso de consumo e insuficiência de poupança; a China apresenta o problema inverso, com elevada poupança e consumo doméstico relativamente baixo, comentou. Essas condições internas ajudam a explicar decisões econômicas que, por sua vez, produzem consequências geopolíticas, afirmou.

O jornalista também discutiu o problema fiscal dos EUA e os efeitos da combinação entre dívida elevada, gastos de defesa e políticas de reindustrialização.

O papel dos oceanos foi mais um eixo da análise apontado por Sant'Anna. Em sua opinião, a exploração das rotas marítimas poderá alterar o equilíbrio entre Rússia, Estados Unidos, China e países europeus. A partir das concepções de Mackinder e Spykman, ele chamou a atenção para estreitos, rotas marítimas e a crescente importância do Ártico, que pode se transformar em uma nova área estratégica devido ao degelo em função das mudanças climáticas.

Sua conclusão foi que duas tendências podem determinar o futuro da competição: de um lado, uma possível redução relativa da capacidade estadunidense de projeção de poder resultante da queda da eficiência econômica combinada com o problema fiscal; de outro, a expansão da presença chinesa no Leste Asiático. O resultado desse choque não é predeterminado. Pode conduzir a uma acomodação ou a uma escalada de conflitos, afirmou.

O Brasil pode pensar como potência?

O vice-diretor do IEA entrou no debate para questionar uma possível leitura determinista da bipolaridade. A partir de sua experiência científica e de sua atuação em temas relacionados a energia, clima e sistemas complexos, Buckeridge comparou o desenrolar da situação internacional ao comportamento de sistemas dinâmicos estudados pela ciência (o clima, por exemplo).

Para ele, o mundo parece estar atravessando um período de transição, no qual pequenas decisões podem produzir consequências muito maiores do que aquelas observadas em períodos de relativa estabilidade.

Buckeridge também relatou uma experiência de 2010, quando recebeu o presidente da Academia de Ciências da China. Ao perguntar sobre o interesse chinês na bioenergia brasileira, ouviu que o interesse principal estava na infraestrutura que o país precisaria construir para desenvolver seus projetos.

A experiência, disse, ajudou-o posteriormente a compreender a importância do planejamento de longo prazo na estratégia chinesa. O professor defendeu que o Brasil precisa pensar com horizonte temporal semelhante. A capacidade chinesa de elaborar planos de longo prazo, revisar metas e alinhar políticas de ciência, tecnologia, indústria e agricultura representa um desafio para um país como o Brasil, que frequentemente trabalha com horizontes mais curtos, comentou.

Buckeridge também levantou uma provocação sobre a posição internacional do Brasil. “Se o país possui território, recursos naturais, agricultura altamente tecnológica, capacidade energética, biodiversidade, extensão marítima e uma posição geográfica relativamente favorável, por que não poderia aspirar a um papel de potência?” A questão, para ele, não é apenas se o Brasil possui recursos para isso, mas se existe vontade política para utilizá-los estrategicamente.

O professor relacionou essa pergunta com as eleições brasileiras. As escolhas políticas internas passam a ter consequências geopolíticas mais evidentes em um mundo marcado pela competição entre grandes potências, disse. Quanto maior a diversificação das relações econômicas brasileiras, argumentou, maior será a segurança do país diante das disputas entre os polos.

Buckeridge sua participação no debater defendendo maior investimento em ciência, tecnologia e defesa como elementos de uma estratégia nacional de longo prazo.

Bipolaridade não é inevitabilidade

Baracuhy iniciou sua resposta aos principais questionamentos dos debatedores tratando da possível interpretação da bipolaridade como algo inevitável. Ele disse ter resistência a análises que tratam o futuro como determinado.

A estrutura geopolítica cria constrangimentos, mas decisões políticas são tomadas por pessoas, disse. Personalidades podem acelerar ou retardar processos, embora não possam eliminar completamente as limitações impostas pela realidade geográfica, econômica e estratégica, completou.

Baracuhy reconheceu a importância das críticas de Viola sobre o pouco destaque dado ao clima, energia e ecologia em seu livro. Explicou que essas questões estão presentes como elementos subjacentes em vários argumentos do livro, mas admitiu que o formato de ensaio não permitiu explorar todas essas dimensões.

A discussão sobre o Ártico, segundo ele, demonstra justamente como a mudança climática pode produzir consequências geopolíticas. A abertura de novas rotas marítimas cria uma borda estratégica da Eurásia e pode alterar a importância relativa do norte da Europa, afirmou. O Brasil, portanto, também precisará incorporar essas transformações ao seu planejamento estratégico, disse.

Baracuhy concordou ainda com a importância dos regimes políticos, ressaltada por Viola, e com os argumentos de Damico sobre agricultura, energia e mineração como componentes fundamentais da inserção internacional brasileira.

Sobre a avaliação de Sant'Anna acerca de uma possível retração estadunidense, o diplomata fez uma ressalva importante: os Estados Unidos não estão simplesmente se retirando do resto do mundo para concentrar sua atuação no Hemisfério Ocidental.

A exposição de Baracuhy sobre seu livro e o debate que se seguiu, mais do que apontar um novo equilíbrio de poder entre Estados Unidos e China, colocou em questão a capacidade de países como o Brasil para formular estratégias próprias diante das transformações internacionais. Entre recursos naturais, energia, agricultura, ciência, tecnologia e posição geográfica, o país dispõe de ativos relevantes, mas sua conversão em poder dependerá de escolhas políticas e de planejamento de longo prazo.

Em um cenário marcado por competição, interdependência e mudanças rápidas, a principal questão para o Brasil, portanto, não é apenas compreender a nova ordem geopolítica, mas definir qual papel pretende desempenhar nela.

Ilustração: produzida por IA - Fotos: João Galante/IEA-USP