Gestão de desastres ambientais exige planejamento e comunicação eficazes, apontam especialistas
Um dos principais desafios relacionados à gestão eficaz de desastres ambientais é manter os moradores longe de suas casas após eventos extremos. Mesmo sob risco, boa parte prefere voltar ou permanecer em suas moradias devido aos vínculos criados com o território. Entraves como esse, somados à falta de integração administrativa entre as unidades federativas e à burocracia, foram identificados pelo Programa RUA - Resiliência Urbana em Ação como fatores cruciais para a gestão de desastres ambientais.
Entre 2024 e 2025, tomando como base o desabamento de terra no litoral norte de São Paulo em 2023, que deixou 64 mortos e um desaparecido, o RUA avaliou as principais dificuldades para evitar tragédias em áreas de risco. Os dados foram o ponto de partida para o seminário “Gestão de Desastres Ambientais e Clima: Coordenação, Comunicação e Desafios Estruturais”, realizado em 11 de setembro no IEA, que buscou debater alternativas para mitigar os impactos dos eventos climáticos extremos, especialmente nas populações vulneráveis. “Para muitos, perder bens materiais também é um luto, uma perda de memória e identidade”, afirmou Tatiana Tucunduva, coordenadora do RUA, pesquisadora colaboradora do IEA e professora da Universidade Nove de Julho (Uninove).
Desafios estruturais e planejamento
De acordo com os integrantes do RUA, a tragédia em São Sebastião evidenciou o papel estratégico da Defesa Civil e do Corpo de Bombeiros na resposta imediata, mas também revelou falhas na prevenção e no planejamento urbano. “Infelizmente, a cada novo ciclo eleitoral, com a chegada de um novo grupo político no poder leva a descontinuidade de políticas públicas, indo na contramão de uma cultura de planejamento”, afirmou Débora Sotto, pesquisadora colaboradora do IEA, membro do RUA e procuradora do Município de São Paulo.
Levantamento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) realizado em 2018 com 957 municípios revelou que nove milhões de brasileiros viviam em áreas de médio risco e dois milhões, em áreas de altíssimo risco. De acordo com Victor Marchezini, sociólogo do Cemaden, a nova versão do estudo, em andamento e que agora contempla dois mil municípios, estima que o número de pessoas em áreas de altíssimo risco pode dobrar, chegando a quatro milhões.
Em São Sebastião, por exemplo, à época do evento extremo na Vila Sahy, havia mais de 100 núcleos de crescimento desordenado, onde 30% da população morava em áreas de risco. Antes da tragédia, o Instituto de Pesquisa Tecnológica (IPT) já havia alertado as autoridades sobre o risco de desmoronamento no bairro. Mas, segundo Fernanda Carbonelli, do Instituto de Conservação Costeira (IGC), esse alerta foi ignorado.
A advogada, que atuou no pós-desastre da Vila Sahy, afirmou que o poder público falhou em não realocar os moradores de áreas instáveis, mesmo após todos os avisos. “Todas as tragédias do Brasil foram anunciadas, precedidas de estudos, ofícios e comunicação”, disse Carbonelli.
A dificuldade em tirar pessoas de suas casas pode estar na falta de estrutura das equipes responsáveis. Dados do Projeto Elos, parceria entre o Cemaden, a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), revelam que 72% das defesas civis municipais do país não recebem o orçamento necessário, enquanto 59% das equipes contam com dois ou três funcionários para atender emergências. “Muitas vezes a população fica dependente de poucas pessoas para tentar organizar toda a implementação da Defesa Civil do município”, pontuou Marchezini.
Cidades resilientes por meio da comunicação
Diante desses desafios, o projeto RUA propôs, durante o evento no IEA, a criação de planos municipais de resiliência, integrados ao Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil. Essa iniciativa busca fortalecer a capacidade das cidades de resistir e se adaptar a desastres naturais. Um exemplo prático foi o projeto "Escolas Seguras", do Instituto Guarda Costeira, que desde 2024 atua no pós-desastre em São Sebastião. A iniciativa já impactou 3,5 mil pessoas, com a metodologia Cemaden Educação, e tem como objetivo ensinar crianças e jovens sobre autossalvamento.
A comunicação emergencial também foi apontada pelos participantes do seminário como uma ferramenta fundamental. Desde 2024, a Defesa Civil envia alertas de risco diretamente para os celulares, uma medida que o meteorologista e pesquisador Carlos Nobre havia proposto em um projeto-piloto há mais de uma década. “Quando nós criamos o Cemaden, em 2011, eu fui até Brasília e discuti com a Defesa Civil sobre fazer como nos Estados Unidos e no Japão, enviando um alerta para o celular das pessoas. Mas isso não foi para frente”, afirmou o meteorologista.
O relatório do Projeto Elos mostrou ainda que 56% dos comunicados das defesas civis são feitos em redes sociais, mas os servidores não estão preparados para lidar com a desinformação. Sobre este aspecto, Tatiana Rocha, major da Defesa Civil de São Paulo, informou que os profissionais do órgão estão passando por capacitações para melhorar a comunicação com a população. “Nosso objetivo é fazer com que a comunicação seja eficiente o suficiente para que não tenhamos mais nenhuma perda de vida”, disse.
O evento foi organizado pela Cátedra Clima e Sustentabilidade do IEA, pelo programa Eixos Temáticos da USP, pelo RUA, pela Uninove e pelo IPT e está disponível na íntegra no canal do IEA no Youtube e as foto neste álbum.