Morre o historiador Carlos Guilherme Mota, primeiro diretor do IEA
- Carlos Guilherme Mota em 1986, quando da adaptação do espaço para a instalação da primeira sede do Instituto
Ao longo de sua trajetória acadêmica, destacou-se como um dos mais importantes intérpretes da formação histórica, política e cultural do Brasil, deixando contribuição fundamental para as ciências humanas no país.
Graduado em história pela FFLCH em 1963, Mota obteve nela os títulos de mestre (1967), doutor (1970) e livre-docente em história moderna e contemporânea (1975). Sua pesquisa de pós-doutorado se deu na Universidade Stanford, nos EUA (1996-1997). Foi professor titular da FFLCH, do Instituto de Filosofia e Ciências da Unicamp e da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade Presbiteriana Mackenzie, que também lhe concedeu o título de professor emérito. Também lecionou na lecionou na FGV-SP. Lecionou em cursos de pós-graduação e onde orientou 29 teses de doutorado e 49 dissertações de mestrado.
Mota foi professor visitante nas Universidades de Salamanca (Espanha), Londres (Reino Unido) e Texas (EUA). Além disso, integrou o Conselho do Programa de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Princeton (EUA) e foi diretor de estudos da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS, na sigla em francês), em Paris (França).
Autor ou coautor de cerca de 35 livros, mais de 30 capítulos de livros e quase 60 artigos, Mota produziu obras fundamentais para a compreensão da história e da cultura brasileiras, entre as quais “Ideologia da Cultura Brasileira: 1933-1974” (1977), “Ideia de Revolução no Brasil: : 1789-1801” (1996) e “História do Brasil – Uma Interpretação” (2008), com Adriana Lopez (Prêmio Jabuti de Ciências Humanas de 2009). Em 2011, recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra. Outra honraria com a qual foi agraciado foi a Medalha da Cidade de Paris, concedida pelo prefeito da capital francesa em 1998.
No IEA, teve participação central desde a fundação do Instituto. Como primeiro diretor, contribuiu para definir o caráter interdisciplinar e inovador do Instituto, estimulando o diálogo entre diferentes áreas do conhecimento e aproximando a universidade dos grandes debates nacionais e internacionais. Além da atuação institucional, coordenou a Área de História das Ideologias e Mentalidades, colaborou intensamente com a revista Estudos Avançados, contribuiu com a criação de vários grupos de pesquisa e estudo e participou como conferencista ou debatedor em diversos eventos acadêmicos [leia sobre sua última conferência no Instituto, ocorrida em 12 de junho de 2017]. Em reconhecimento às suas contribuições à ciência, ao Instituto e à USP, recebeu em 1994 o título de professor honorário do IEA.
Entre os textos publicados por Mota em Estudos Avançados estão reflexões sobre a formação histórica brasileira, a cultura política nacional e os desafios da universidade contemporânea. Em artigos como “Cultura Brasileira ou Cultura Republicana?”, o historiador analisou criticamente as relações entre Estado, sociedade e produção intelectual, temas centrais de sua obra e de sua atuação pública. Sua colaboração constante com a revista ajudou a consolidá-la como um dos principais espaços de reflexão interdisciplinar do país.
Sua trajetória foi marcada ainda pela atuação em importantes instituições culturais e de pesquisa. Foi um dos elaboradores do projeto do Memorial da América Latina, a pedido de Darcy Ribeiro, e dirigiu a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP e o Arquivo do Estado de São Paulo.
"O legado de Carlos Guilherme Mota permanece profundamente ligado à história do IEA e ao pensamento crítico brasileiro. Sua atuação ajudou a consolidar o Instituto como um espaço de reflexão plural, interdisciplinar e comprometido com os grandes desafios da sociedade contemporânea", comentou Roseli de Deus Lopes, diretora do IEA.
Marcos Buckeridge, vice-diretor do Instituto, diz que Mota foi um ser especial. "Para ele, a cultura não era apenas um reflexo da sociedade, mas também uma força estruturante da própria história. Ao fundar o IEA, ajudou a criar um espaço em que a universidade pudesse pensar o Brasil sob uma perspectiva de longo prazo, integrando ciência, humanidades e uma visão civilizatória. E aqui estamos, 40 anos depois, cumprindo esse legado", afirmou.
"Carlos Guilherme Mota foi a escolha ideal para implementar o IEA, num momento decisivo de transformação do Brasil", segundo Ary Plonski, diretor do IEA entre 2020 e 2024. "Como indicado na obra que relata a trajetória do primeiro instituto de estudos avançados da América Latina, ele imprimiu o caráter inventivo ao projeto, frente à rotina universitária, tornando-o uma referência das promessas civilizatórias do momento", acrescentou.
Para Martin Grossmann, que dirigiu o Instituto de 2012 a 2016, Mota soube escutar, reunir e sintetizar todas as ideias, desejos e vontades de uma coletividade de intelectuais, considerando o espírito da época, ao modelar as principais características do IEA e colocar em prática "essa plataforma singular de crítica, conhecimento, ação acadêmica e cultural". "Isso não é trivial, diz muito. Ele foi um intelectual engajado e controverso, seja por meio de sua pesquisa, pelas obras e postura sempre críticas, principalmente diante do papel e legado da intelectualidade na constituição desse Brasil", disse.
O médico e professor Paulo Saldiva, diretor do IEA de 2016 a 2020, lembrou o dia em que conheceu Mota. "Numa certa manhã, entrou em minha sala [da direção do IEA] o professor Carlos Guilherme Mota. Eu ignorava, até então, a dimensão de sua obra, a profundidade de seus pensamentos e a senda intelectual que abrira para a compreensão da cultura brasileira. O professor Mota tampouco colaborava para desfazer tal ignorância, pois, ao invés de ostentar um saber que poucos possuíam, fazia precisamente o contrário: dissimulava o quão sábio era. Emissão quase nula de energia ególica — raridade preciosa no meio acadêmico", escreveu.
No texto enviado à Comunicação do IEA [leia a íntegra], Saldiva contou ainda que, com discrição e delicadeza, Mota ajudou-o a compreender o que era o Instituto e a "intrincada complexidade daquele espaço singular". "Fez isso compartilhando generosamente seu conhecimento, mas sobretudo por meio de sua postura intelectual e humana. Ele, ao lado de Alfredo Bosi e Martin Grossmann, foi meu guia durante a gestão no IEA — certamente o lugar mais estimulante e generoso em que trabalhei em toda a minha vida."
