Você está aqui: Página Inicial / NOTÍCIAS / Pesquisa aponta a coexistência de duas novas espécies do gênero Homo em Dmanisi, na República da Georgia

Pesquisa aponta a coexistência de duas novas espécies do gênero Homo em Dmanisi, na República da Georgia

por Fernanda Rezende - publicado 08/12/2025 11:30 - última modificação 08/12/2025 11:40

Hipótese vem sendo defendida desde 2011 por Walter Neves, um dos autores do novo estudo.
Leia também
Jornal da USP:


Análise contesta consenso e propõe duas espécies humanas convivendo em Dmanisi

Folha de S.Paulo:

Brasileiros estudam dentes para desvendar ancestrais misteriosos

Uma análise inédita da área da coroa dentária de mais de 500 dentes de hominínios fósseis de toda a linhagem humana revela a coexistência de duas espécies do gênero Homo – Homo caucasi e Homo georgicus – em Dmanisi, sítio arqueológico mais antigo da Europa, localizado na atual República da Geórgia.

O estudo, conduzido por Victor Nery e assinado também por Walter Neves, Letícia Valota e Mark Hubbe, todos associados ao Núcleo de Pesquisa e Disseminação em Evolução Humana (NPDEH) do Instituto de Estudos Avançados da USP, reforça hipóteses já propostas por Neves em 2011 e 2024, e lança novas cores à discussão sobre qual espécie humana primeiro deixou a África. O novo artigo, “Testing the taxonomy of Dmanisi hominin fossils through dental crown area”, foi publicado na revista PLOS One no dia 3 de dezembro.

Resultado do esforço coletivo do grupo, o trabalho teve início há três anos, quando os pesquisadores passaram a formar grandes bases de dados com métricas dentárias. Tradicionalmente, utilizam-se análises craniométricas para avaliações taxonômicas dos hominínios pleistocênicos da Geórgia, como fez Walter para formular sua hipótese em 2011.

Com base no formato dos crânios, os hominínios encontrados em Dmanisi vêm sendo classificados pela comunidade internacional como Homo erectus. Porém, neste novo artigo, os autores identificaram diferenças expressivas no tamanho dos dentes quando comparadas às dos erectus, tão marcantes que dizem não ser possível agrupar todos esses fósseis dentro de uma única espécie. “Há grandes semelhanças dentárias entre um dos indivíduos estudados e espécies mais antigas, como os Australopithecus – os ‘primos’ da famosa Lucy – e outros três com o Homo habilis, considerado o primeiro representante do nosso gênero”, explica Nery.

Para os pesquisadores, a descoberta de fósseis que não pertencem à espécie erectus abre espaço para um novo cenário evolutivo, em que outra espécie humana teria protagonizado a primeira dispersão para fora do grande continente.

Os autores não afirmam que Homo caucasi e Homo georgicus tenham saído da África. Pelo contrário: reforçam que o pioneiro foi o Homo habilis, hipótese já amplamente discutida na literatura. Para eles, após deixar a África, o habilis teria se diferenciado ao ocupar a região de Dmanisi, há cerca de 2 milhões de anos, dando origem às espécies ali identificadas. Posteriormente, essas linhagens teriam migrado para a Ásia, se diversificado novamente e, apenas depois, retornado ao continente africano como Homo erectus.

Em 2019, Walter Neves, Fábio Parenti, Giancarlo Scardia e Astolfo Araújo publicaram artigo em que atribuíram ao Homo habilis centenas de ferramentas de pedra que encontram na Jordânia, em mais uma evidência de que teria sido essa espécie a deixar a África, e não o Homo erectus. Com 1,9 milhão a 2,5 milhões de anos de idade, essas ferramentas não poderiam ser atribuídas ao Homo erectus, que existiu há 1,8 milhão de anos, ou seja, bem depois da idade constatada para as ferramentas.


Informações para a imprensa:

Fernanda Cunha Rezende - ferezende@usp.br ou 3091-1681