Em novo livro, Walter Neves apresenta um panorama de 45 anos de suas pesquisas
É algo bastante raro que o público brasileiro interessado na evolução da ciência tenha a oportunidade de conhecer a autobiografia científica de um pesquisador do país. Mais raro ainda é quando a obra se revela, ao mesmo tempo, instrutiva, cientificamente rigorosa e de leitura envolvente.
Mas não se poderia esperar menos do antropólogo e arqueólogo Walter Neves, professor sênior do IEA, um cientista sempre comprometido com a divulgação científica ao longo de sua carreira.
O resultado é seu novo livro, “Explorando o Passado Humano: Depoimentos e Aventuras do Arqueólogo que Revelou Luzia ao Mundo” (Fino Traço Editora, 168 páginas, R$ 58,50), lançado nesta sexta-feira, 6 de março.
Neves é popularmente conhecido como o “pai de Luzia”, por ter sido responsável pelo resgate (em 1995), estudo, datação e batismo do crânio humano de cerca de 11,5 mil anos que permanecia esquecido em um depósito do Museu Nacional, guardado em um simples saco de supermercado.
O fóssil havia sido descoberto em 1975 no sítio Lapa Vermelha IV, em Pedro Leopoldo (MG), pela arqueóloga francesa Annette Laming-Emperaire, sendo posteriormente encaminhado ao museu.
“Explorando o Passado Humano” preenche lacunas importantes ao apresentar ao público em geral outras pesquisas paleoantropológicas de grande relevância realizadas por Neves e por seus parceiros e colaboradores no Brasil e no exterior.
No prefácio, Neves afirma que a ideia foi contar “causos”. A partir do relato dos projetos nas áreas de arqueologia e antropologia que desenvolveu nos últimos 45 anos, procurou apresentar conhecimentos dessas áreas ao leitor. Os projetos servem para ilustrar diversos conceitos fundamentais e revelar um pouco dos bastidores da pesquisa, inclusive destacando personagens anônimos que participaram dos trabalhos, para que não se percam na história. O tratamento é temático, e não cronológico, embora haja certa lógica temporal dentro de cada tema.
A obra, porém, não se restringe aos “causos”. Conhecido também por sua defesa incisiva de melhores condições para o trabalho científico no país, Neves dedica os dois primeiros capítulos às dificuldades existentes nas universidades e à obtenção de verbas para pesquisa.
Ele aponta três problemas nas universidades. Um deles é o fato de que “as atividades-meio [funcionários administrativos] predominam sobre as atividades-fim [professores e pesquisadores]”, com uma burocracia ineficiente e, em sua opinião, marcada por desvios de conduta. Em relação ao trabalho docente, Neves questiona a isonomia salarial entre professores no mesmo nível da carreira, o que, segundo ele, beneficia docentes com baixa produtividade científica e de ensino. Também critica o fato de a progressão na carreira não ser acompanhada pela concessão de maior estrutura de apoio: “Sempre digo que, se eu dispusesse de apenas uma secretária ou um auxiliar administrativo, teria produzido duas vezes mais do que produzi.”
No capítulo dedicado ao financiamento da pesquisa, Neves afirma que, apesar de tudo, o Brasil dispõe, no nível federal, de um sistema de ciência e tecnologia relativamente avançado para um país emergente. No entanto, esse sistema é afetado pela inconstância dos recursos, que variam de acordo com a importância atribuída à ciência e com as prioridades de cada governo. Somam-se a isso os cortes orçamentários estabelecidos pelo Congresso e a redução do fluxo contínuo de financiamento (modalidade em que o pesquisador pode submeter projetos a qualquer momento), muitas vezes substituído por editais esporádicos.
Quanto ao financiamento concedido pela Fapesp, Neves destaca a garantia orçamentária da fundação (1% da arrecadação do ICMS do estado de São Paulo), os procedimentos rigorosos de avaliação dos projetos e os complementos à verba básica aprovada, como a reserva técnica para infraestrutura e benefícios adicionais destinados ao custeio de viagens, participação em congressos e estágios de curta duração no exterior.
Ele lamenta, contudo, que, assim como as agências federais, a Fapesp não conceda recursos para apoio administrativo, pois pressupõe que essa estrutura seja fornecida pela instituição do pesquisador, o que, segundo ele, raramente ocorre de forma adequada. Neves também questiona o fato de as universidades paulistas ficarem com 20% dos recursos obtidos pelos projetos, sob o argumento de custear a infraestrutura institucional oferecida ao pesquisador, o que considera uma falácia.
Ainda assim, graças ao apoio da Fapesp, ele afirma que “qualquer pesquisador minimamente arejado”, vinculado a uma instituição de ensino e pesquisa paulista, “pode trabalhar como se estivesse no mundo desenvolvido”.
Os “causos”
Não cabe aqui detalhar os “causos” relatados nos demais 11 capítulos do livro, mas apenas indicar os principais objetivos e resultados das pesquisas. O leitor não familiarizado com o trabalho de Neves terá o privilégio de conhecê-los diretamente por meio de sua narrativa viva, clara e entusiasmada, descobrindo tanto a satisfação proporcionada pelas descobertas quanto as dificuldades e bastidores do trabalho científico.
Neves inicia o relato de sua trajetória profissional falando de sua adolescência como empregado da Rolls-Royce em São Bernardo do Campo e de seu ingresso, em 1978, como técnico de laboratório no antigo Instituto de Pré-História da USP, incorporado ao Museu de Arqueologia e Etnologia em 1989. Ali passou a se interessar por bioantropologia, arqueologia e divulgação científica.
Ainda nesse período, formou-se em biologia, tornou-se pesquisador, iniciou o mestrado em biologia evolutiva, realizou estágio na Universidade Stanford, nos Estados Unidos, e deu início ao doutorado sobre os sambaquis do Paraná e de Santa Catarina.
Mesmo após ser demitido do Instituto de Pré-História em 1985 (“com o apoio, se não com o incentivo, dos corvos da instituição”, em suas palavras) por uma diretora que havia assumido o cargo seis meses antes, Neves conseguiu realizar um curto pós-doutorado em universidades dos Estados Unidos graças a uma liminar judicial. De volta ao Brasil, realizou arqueologia de contrato no rio Xingu e passou a atuar no Museu Paraense Emílio Goeldi.
O capítulo 4 detalha suas pesquisas em sambaquis no litoral sul do Brasil durante o doutorado, ainda como pesquisador do Instituto de Pré-História. O capítulo seguinte relata o trabalho de arqueologia de contrato realizado por ele e por Solange Caldarelli, também demitida do instituto, no rio Xingu, onde o governo federal pretendia construir duas grandes hidrelétricas — Kararaô e Babaquara —, o que exigia um amplo programa de salvamento arqueológico. O projeto, porém, foi cancelado quando o governo desistiu das obras diante de pressões nacionais e internacionais. Somente na década de 2010 seria construída a Usina de Belo Monte, sucessora do projeto de Kararaô.
Os trabalhos mais importantes desenvolvidos por Neves no período em que esteve vinculado ao Museu Paraense Emílio Goeldi, a partir de 1986, são descritos nos capítulos 6 a 8. Entre eles estão as escavações no sítio da Guerra de Canudos, realizadas a convite do reitor da Universidade Federal da Bahia; os projetos desenvolvidos com a arqueóloga Maria Antonieta Costa Junqueira sobre populações pré-históricas do Deserto de Atacama, no Chile; e um grande projeto de antropologia ecológica no município de Ponta de Pedras, na Ilha do Marajó.
O povo de Luzia
As pesquisas que levaram à datação do crânio de Luzia e à sua caracterização, por meio de estudos morfológicos, como paleoamericana (com traços semelhantes aos de africanos e aborígenes australianos) e não ameríndia (associada a traços mongoloides) são apresentadas no capítulo 9. Neves menciona também a identificação de características paleoamericanas em outros fósseis de Lagoa Santa e em diferentes regiões do Brasil e em outros países das Américas.
Ele discute ainda o Modelo de Duas Ondas Migratórias, que propôs com Hector Pucciarelli. Segundo essa hipótese, uma primeira onda migratória teria saído do centro-leste da Ásia e ingressado nas Américas, pelo Estreito de Bering, há cerca de 16 mil anos. Aproximadamente 4 mil anos depois, povos com características mongoloides teriam realizado a mesma travessia. Neves também comenta alguns dos questionamentos feitos a esse modelo.
“Quando Luzia estourou na imprensa e na comunidade acadêmica em 1998/1999, senti-me ainda mais premido a atacar o carste de Lagoa Santa por diversas frentes complementares: arqueologia, geocronologia, geomorfologia, sedimentologia, site formation, paleoambientes, prospecção de sítios fora das cavernas e paleontologia de megamamíferos, configurando-se no primeiro projeto verdadeiramente paleoantropológico brasileiro”, afirma no capítulo 10. Esse foi o projeto Origens, no qual ele e outros pesquisadores buscaram contextualizar a existência de Luzia e de seu povo.
Pesquisas no exterior
Os três últimos capítulos tratam de projetos realizados no exterior, na Geórgia, Jordânia e Romênia. Neves recorda que, até meados dos anos 1990, acreditava-se que o gênero Homo teria saído da África há cerca de 1 milhão de anos, após o desenvolvimento de ferramentas mais elaboradas. Essa ideia foi questionada quando três crânios datados de 1,8 milhão de anos foram descobertos em Dmanisi, na Geórgia, associados a uma indústria lítica simples, baseada em pequenas lascas de pedra.
Em 2002, Neves esteve em Dmanisi com Luís Beethoven Piló para examinar os crânios já encontrados e acabou ajudando na retirada do quarto exemplar (o quinto seria descoberto em 2005).
Quando retornou ao sítio em 2019, acompanhado de Clóvis Monteiro, o objetivo principal era ministrar um curso sobre evolução humana na escola de verão local. Aproveitou também para examinar réplicas dos crânios 4 e 5 e acompanhar o andamento das escavações.
Ele observou que o crânio 4 pertencia ao indivíduo mais senil que já havia analisado em sua carreira, com perda total dos dentes e forte reabsorção dos alvéolos dentários. Isso sugeriria algum grau de solidariedade social entre aqueles hominínios, já que o indivíduo teria dependido do grupo para se alimentar.
O crânio 5, por sua vez, revelou características bastante diferentes: grande robustez, mandíbula extremamente volumosa e tamanho cerebral reduzido. Apesar dessas diferenças, muitos pesquisadores insistem em classificá-los todos como Homo erectus. Neves discorda e propõe que os crânios 1 a 4 sejam classificados como Homo caucasi, uma forma intermediária entre Homo habilis e Homo erectus, enquanto o crânio 5 deveria ser chamado de Homo georgicus.
Em 2017, Neves aposentou-se como professor titular do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva do Instituto de Biociências da USP. Mas não interrompeu suas atividades de pesquisa e divulgação científica. No ano seguinte ingressou no IEA como professor sênior, onde coordena o Núcleo de Pesquisa e Disseminação em Evolução Humana.
“Decidi que dali para frente passaria a me dedicar àquilo que tinha sido meu sonho desde criança: buscar nossos ancestrais de milhares ou milhões de anos no Velho Mundo. Ou seja, implantar no Brasil, de fato, uma tradição de pesquisas em paleoantropologia digna do nome”, afirma.
Entre esses projetos está o realizado no vale do rio Zarqa, na Jordânia, coordenado por ele e Fábio Parenti. Segundo Neves, os artefatos de pedra encontrados no local mostraram-se muito mais antigos do que se imaginava. As análises indicam que se tratam de instrumentos lascados por humanos presentes em uma formação geológica datada entre 2,5 e 1,9 milhões de anos, o que desafia a teoria dominante de que os hominínios teriam deixado a África apenas por volta de 1,8 milhão de anos.
Com base nessas evidências e nas descobertas de Dmanisi, Neves e seus colaboradores sugerem que não teria sido o Homo erectus o primeiro hominínio a sair da África, mas sim o Homo habilis.
O livro termina com um capítulo dedicado às pesquisas atuais de Neves na Romênia. Ele e outros pesquisadores brasileiros e romenos realizam escavações em cavernas localizadas em maciços calcários às margens do rio Vârghiș, na Transilvânia.
A motivação do projeto é o fato de que os Bálcãs provavelmente foram a porta de entrada do Homo sapiens na Europa e o local onde teria ocorrido o encontro com os neandertais. Como explica Neves, o objetivo é investigar essa relação em profundidade: “É essencial que se encontrem nos Bálcãs esqueletos neandertais. Essa é a principal razão de implantação do projeto.”
A narrativa termina em 2024, mas o trabalho prossegue. E, quando se fala de Walter Neves, pode-se apostar que novas pesquisas ainda virão, no Brasil e no exterior.