Dossiê da edição 116 da revista Estudos Avançados examina faces da violência na sociedade brasileira
Num momento em que o governo dos Estados Unidos discute se classifica o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações narcoterroristas, algo que pode dar margem a violações da soberania brasileira, a edição 116 da revista Estudos Avançados, lançada recentemente, abre seu dossiê “Violência, Dor e Sofrimento” com uma análise sobre a inadequação dessa classificação [veja o sumário abaixo].
O conjunto de textos também discute como o sistema prisional favorece os vínculos entre o PCC e quadrilhas independentes que cometem crimes violentos ao patrimônio. Ainda no âmbito da segurança pública, outro texto analisa como disputas entre grupos internos às polícias inviabilizam reformas substanciais na área.
Mas o dossiê não se restringe a análise da atuação e características de organizações criminosas e instituições policiais. O sociólogo Sérgio Adorno, editor da publicação, enfatiza que, além das formas usuais de violência associadas à delinquência e aos crimes contra a pessoa e o patrimônio, “o mundo globalizado tem experimentado exacerbação dos conflitos nas relações sociais e interpessoais, no mundo público e na vida privada, nas relações entre civis e nas políticas”. Essa é a razão da abrangência temática do dossiê.
Crime organizado
Francisco Thiago Rocha Vasconcelos e Ricardo Moura Braga Cavalcante, ambos vinculados à Universidade Federal do Ceará, são os autores do artigo “Narcoterrorismo e Narcoestado: Genealogias, Usos Políticos e Riscos Analíticos frente às Facções no Brasil”. A definição de narcoterrorismo opera sobretudo como categoria retórica e geopolítica, “sem consistência analítica”, afirmam. Para eles, o caso brasileiro mostra como grupos criminosos produzem formas de governança armada que não se confundem com terrorismo, exigindo distinções analíticas entre violência expressiva, captura institucional e mercados ilícitos.
A rotulagem de facções criminosas como “terroristas” apaga sua base social, sua inscrição prisional e seu caráter econômico, “substituindo a análise por uma gramática de guerra que autoriza políticas de exceção”, ponderam.
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Digital e impressa A versão digital do número 116 da revista Estudos Avançados está disponível gratuitamente na Scientific Eletronic Library Online (SciELO). Em breve será lançada a versão impressa (R$ 45,00). Os interessados em comprar/reservar um exemplar ou fazer assinatura anual (três edições por R$ 150,00) devem enviar mensagem para estavan@usp.br. |
Quanto ao narcoestado, consideram que o termo pode ter utilidade para descrever dinâmicas de captura institucional vinculadas a economias ilícitas, “desde que empregado de modo crítico, evitando generalizações que reforçam tutelas sobre países periféricos”. No caso brasileiro, avaliam que as dinâmicas envolvem menos captura vertical de instituições e mais infiltração capilar e fragmentada de atividades ilícitas, por meio de “combinações de omissão estratégica, corrupção localizada e interesses políticos imediatos”.
A relação do PCC com crimes violentos ao patrimônio, especificamente os grandes roubos a instituições financeiras em várias cidades do país, é analisada em artigo do sociólogo Leonardo José Ostronoff, da Universidade Federal de Santa Catarina. Esses roubos constituíram o que o jargão policial e a mídia passaram a chamar de “novo cangaço” ou “domínio de cidades”.
Por meio do exame de documentos, entrevistas e bibliografia, Ostronoff analisa o processo que, a partir do “novo cangaço”, típico de cidades pequenas, levou ao “domínio de cidades”, que atinge cidades médias e grandes e conta com grupos maiores, explosivos e armamento de maior poder de fogo. O trabalho de campo teve como referência a cidade de Curitiba, PR.
A conclusão é que esses crimes não são organizados institucionalmente pelo PCC, são operações de indivíduos independentes, apesar de alguns membros da facção atuarem nelas. As relações desses criminosos com a facção ocorrem devido ao controle que ela tem do sistema prisional. As redes formadas nos presídios possibilitam o recrutamento de criminosos especializados nas tarefas exigidas pelas ações, além do empréstimo de armas e acesso a explosivos, explica o autor.
Ainda no campo da segurança pública, Julia Maia Goldani, pesquisadora da Escola de Direito de São Paulo da FGV, escreve sobre as dinâmicas institucionais que “minam reformas democráticas nas polícias militares do Brasil pós-1988”. Ela vê uma lacuna na compreensão dos mecanismos que propiciam a resistência das polícias a mudanças institucionais.
Para discutir essa lacuna, Goldani analisa o ocorrido com a Proposta de Emenda Constitucional 51/2013, cujo objetivo era uma reforma estrutural, e com a implantação das Unidades de Polícia Pacificadora do Rio de Janeiro, exemplo de reforma incremental.
No caso da PEC 51/2013, ela comenta que a atuação das cúpulas de associações das diferentes categorias policiais resultou num impasse político no Congresso Nacional, com Presidência da República não interferindo para não assumir o custo político da iniciativa. O resultado foi o abandono da proposta. Já a implantação gradual de um policiamento democrático por meio das UPPs “esbarrou nos interesses de outros grupos dentro da corporação, que divergiam da visão de segurança pública proposta ou percebiam a mudança de paradigma como uma ameaça às suas posições e perspectivas dentro da organização”.
Filosofia
O dossiê conta ainda com duas traduções (acompanhadas de introduções dos tradutores): “O Sofrimento Não É Dor”, do filósofo francês Paul Ricoeur (1912-2005), traduzido por Caroline Fanizzi e José Sérgio Fonseca de Carvalho, ambos professores da Faculdade de Educação da USP; e “Invisibilidade: Sobre a Epistemologia do Reconhecimento”, de Axel Honneth, traduzido por Arthur Meucci, da Universidade Federal de Viçosa.
O texto original de Ricoeur foi apresentado em colóquio da Associação Francesa de Psiquiatria em janeiro de 1992. De acordo com os tradutores, o filósofo adota como hipótese de trabalho a de que o sofrimento consiste na diminuição da potência de agir.
Axel Honneth propõe uma reformulação epistemológica da teoria do reconhecimento a partir da análise da invisibilidade social, inspirada no romance “O Homem Invisível”, de Ralph Ellison. Para Honneth, a invisibilidade não remete à ausência perceptiva literal, mas a uma forma simbólica de desrespeito: o ato de “olhar através” do outro nega-lhe reconhecimento como sujeito moral e social válido.
Literatura e canção
O retrato da violência feito em obras artísticas como contos e canções e até como ela foi facilitada pelos meios digitais são temas de três artigos. Em sua análise do livro de contos “Insubmissas Lágrimas de Mulheres”, de Conceição Evaristo, Ianá de Souza Pereira, da Universidade Paulista, aponta que a obra deve ser entendida a partir de estruturas econômico-sociais, raciais e patriarcais que explicam o lugar social destinado às mulheres negras nas sociedades capitalistas. No livro, são elas que comunicam e refletem sobre a experiência de ser mulher e negra dentro do patriarcado de supremacia branca e capitalista. O objetivo do artigo é compor uma análise crítica do racismo e do patriarcado exposto pelo texto de Evaristo.
Adriano de Paula Rabelo, da Universidade Federal de Kazan, Rússia, compara como uma canção estadunidense e outra brasileira tratam de um tipo específico de violência urbana: o assassinato, por agentes do Estados e outras pessoas, de jovens levados ao crime pelas desigualdades sociais. As canções são “In the Ghetto”, de Mac Davis, gravada por Elvis Presley em 1969, e “O Meu Guri”, de Chico Buarque, gravada por ele em 1981.
Uma nova forma de violência contra a mulher surgiu com o mundo digital: os sites eróticos. No artigo “A Dialética do Visível e do Oculto na Cibercultura”, Priscila Gonçalves Magossi, doutora em comunicação e cultura, aponta que “os resultados revelam uma arquitetura de impunidade global sustentada por contratos ilegítimos e fake news que se apropriam de pautas progressistas”. Segundo a autora, os mandantes desse submundo atuam em vácuo jurídico total, impondo cláusulas que silenciam vítimas e violam direitos fundamentais. O combate a isso, diz, exige regulação transnacional, educação mediática crítica e políticas públicas que priorizem direitos humanos.
História
As marcas de um tipo brutal de violência, aquela vivida pelos sobreviventes das bomba atômicas lançada em Hiroshima e Nagasaki pelos Estados Unidos em 1945, são analisadas em texto de Cristiane Izumi Nakagawa, psicanalista e doutora em psicologia pelo Instituto de Psicologia da USP. O trabalho tem como base entrevista da autora com Keiko Ogura, uma hibakusha, como são chamados aqueles que sobreviveram à bomba, no caso dela, à lançada em Hiroshima. O objetivo foi fazer um exame psicológico dos testemunhos desses sobreviventes, com atenção especial a dois fenômenos psicológicos fundamentais para a compreensão dessas memórias: o trauma e o sentimento de culpa por ações ou omissões que causaram sofrimento a outras pessoas.
Mas a violência também suscita discussões sobre a postura institucional e do público em relação a ela. Isso é explorado em artigo sobre pesquisa e trabalho técnico desenvolvidos por parceria entre o Departamento de Patologia e Medicina Legal da Faculdade de Medicina e o Instituto de Biociências, ambos da USP, sobre as cabeças decepadas de Virgulino Ferreira da Silva (1897-1938), o Lampião, e Maria Gomes de Oliveira (1910-1938), a Maria Bonita. A abordagem dos pesquisadores foi baseada na revisão historiográfica e na análise qualitativa de documentos históricos, entrevistas e reportagens. "Essa metodologia permitiu explorar as narrativas que envolvem o consumo do trágico e as controvérsias sobre a preservação e exposição desses vestígios, contribuindo para discussões mais aprofundadas sobre memória, identidade e práticas museológicas", afirmam os autores.
SOCIOLOGIA
Outros três textos da edição configuram um minidossiê dedicado à sociologia, com propostas para sua evolução, um debate sobre o papel dos autores clássicos no discurso sociológico e um ensaio sobre o livro “A Revolução Burguesa no Brasil”, de Florestan Fernandes.
De acordo com Maria Aparecida de Moraes Silva, da Unesp e da UFSCar, diante das mudanças aceleradas do mundo contemporâneo, "somos levados a crer que nossa missão é dar respostas aos problemas que nos afligem desde a esfera do cotidiano, dos mais longínquos e, até mesmo, dos desconhecidos". Seu artigo "Por uma Sociologia Provocadora (de Respostas)" é baseado em conferência que fez no 22º Congresso da Sociedade Brasileira de Sociologia, em julho de 2025. O objetivo do trabalho, afirma, "é contribuir para uma sociologia provocadora de respostas, na qual o fazer sociológico esteja em constante processo de diálogo crítico e autocrítico com as teorias e métodos adotados, e os pontos de observação da realidade social não sejam tomados como fixos, determinísticos, porém como moventes e probabilísticos".
Mas diante dessa necessidade de transformação da sociologia defendida por Moraes Silva, que papel fica reservado aos autores clássicos? É sobre isso que trata o texto "O Qque Fazer com os Clássicos da Sociologia? Diagnóstico e Prognóstico", de Carlos Eduardo Sell, da UFSC. Ele examina a transformação do papel desses autores, com destaque para as implicações epistemológicas, metodológicas e pedagógicas disso. Sell identifica a emergência de um novo regime discursivo (heurística negativa) e de um consenso difuso que molda o etos científico contemporâneo. Na segunda parte do artigo, ele propõe uma heurística positiva de reflexão e ensino da teoria sociológica.
A seção é completada justamente com texto sobre a importância atual de um livro clássico de um dos expoentes da sociologia brasileira, Florestan Fernandes. Em 2025, seu livro "A Revolução Burguesa no Brasil" completou 50 anos da primeira edição. Para os autores do artigo, André Botelho e Antonio Brasil Jr., ambos da UFRJ, a obra está mais atual do que nunca, seja pelo ponto de vista teórico, que pode ser testado na concepção, na fatura do texto e na análise crítica forjadas a partir de uma abordagem sociológica peculiar, seja pela visão política das espirais da democracia no Brasil e no mundo.
RESENHAS
A seção “Resenhas” traz artigos sobre os livros “Des Électeurs Ordinaires: Enquête sur la Normalization de l’Extrême Droite” (Eleitores Comuns: Investigação sobre a Normalização da Extrema Direita), de Félicien Faury, ainda sem edição no Brasil; “Permanecer Bárbaro: Não Brancos contra o Império”, de Louisa Yousfi; “História da América Latina em 100 Fotografias”, de Paulo Antonio Paranaguá; e “Razão Desumana: Cultura e Informação na Era da Desinformação Inculta (e Sedutora)”, de Eugênio Bucci.
Violência, Dor e Sofrimento
- Narcoterrorismo e Narcoestado: Genealogias, Usos Políticos e Riscos Analíticos frente às Facções no Brasil – Francisco Thiago Rocha Vasconcelos e Ricardo Moura Braga Cavalcante
- A Centralidade da Prisão nas Relações entre Crimes Violentos ao Patrimônio e o PCC – Leonardo José Ostronoff
- Polícias em Conflito: “Pluralismo Policial” e os Vetos a Reformas na Segurança pública – Júlia Maia Goldani
- No Gueto e na Favela: Duas Canções, Dois Retratos da Violência – Adriano de Paula Rabelo
- Um Intérprete da Experiência Contemporânea: Paul Ricoeur e a Compreensão do Sofrimento – Caroline Fanizzi e José Sérgio Fonseca de Carvalho
- A Invisibilidade Social como Desrespeito na Teoria do Reconhecimento de Axel Honneth – Arthur Meucci
- Trauma e Culpa nos hibakusha: Um Estudo da Memória de Keiko Ogura – Cristiane Izumi Nakagawa
- Conceição Evaristo e os Arredores de “Insubmissas Lágrimas de Mulheres” – Ianá de Souza Pereira
- A “Mortigrafia” de Lampião e Maria Bonita: Considerações sobre a Musealização do Trágico (1938-2023) – Jô Veras Closs et al.
- A Dialética do Visível e do Oculto na Cibercultura – Priscila Gonçalves Magossi
- Esperançar o Presente: Sobre Futuros Inéditos e Viáveis – Bruno Souza Leal e Ana Regina Rego
Sociologia
- Por uma Sociologia Provocadora (de Respostas) – Maria Aparecida de Moraes Silva
- O Que Fazer com os Clássicos da Sociologia? Diagnóstico e Prognóstico – Carlos Eduardo Sell
- "A Revolução Burguesa no Brasil": 50 anos de um Clássico Difícil – André Botelho e Antonio Brasil Jr.
Resenhas
- Sociologia da Normalização Política: A Extrema-Direita na França – Fabio Mascaro Querido
- "Permanecer Bárbaro" de Louisa Yousfi: Insurgências contra a Domesticação Civilizatória – Morgane Reina
- Propósito e Valor dos Acervos Fotográficos ao redor do Mundo – Hoje e no Futuro – Sergio Burgi
- Razão, Técnica e (Des)Informação: Os Vetores das Crises Contemporâneas – Tatiana Dourado