Participantes do Programa Ano Sabático iniciam atividades
A variedade temática dos projetos dos sete docentes da USP selecionados para a edição 2026 do Programa Ano Sabático do IEA oferece uma amostra da diversidade dos trabalhos desenvolvidos nas várias áreas acadêmicas da Universidade.
Os participantes já iniciaram seus trabalhos, cujos temas são: democracia contestatória; taxas de analfabetismo no Brasil e resultados dos métodos de alfabetização; padrões de interação entre flavivírus e o sistema imunológico humano diante das mudanças climáticas; impactos da crise climática no turismo; dispersão de sementes e biodiversidade; efeitos da inteligência artificial nas relações de trabalho; e métodos cerâmicos de antigas populações da Amazônica Central.
Os docentes integrantes da atual edição do programa são:
- Alberto Ribeiro Gonçalves de Barros - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH);
- Daniel Domingues dos Santos - Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (Fearp);
- Gustavo Henrique Goulart Trossini - Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF);
- Paulo Roberto Guimarães Junior - Instituto de Biociências (IB);
- Rita de Cássia Ariza da Cruz - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH);
- Wilson Aparecido Costa de Amorim - Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA);
- Ximena Suarez Villagran - Museu de Arqueologia e Etnografia (MAE).
Programa
O Programa Ano Sabático do IEA é uma parceria entre a Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação e o Instituto. A iniciativa foi criada em 2015 para “fomentar um ambiente adequado à reflexão, na medida em que libera os docentes da USP de seus encargos didáticos e administrativos para que possam participar integralmente de pesquisas individuais e interdisciplinares”. A permanência no IEA pode ser de seis meses a um ano.
Para participar, é necessário ter, no mínimo, sete anos de trabalho no Regime de Dedicação Integral à Docência e à Pesquisa (RDIDP). Durante o período da pesquisa, os docentes são dispensados, sem prejuízo de vencimentos, do exercício de suas atividades, inclusive as didáticas, junto à unidade de origem [leia sobre a abertura de inscrições para a edição 2027 do programa].
PROJETOS
Alberto Ribeiro Gonçalves de Barros
O Modelo de Democracia Contestatória de Philip Pettit
Barros analisará se o modelo de democracia contestatória proposto pelo filósofo e teórico político irlandês Philip Pettit efetiva o ideal neorrepublicano de liberdade como ausência de dominação e se ele possibilita um verdadeiro controle popular sobre o governo, "princípios fundamentais de um regime democrático na perspectiva neorrepublicana", segundo o professor sabático.
As críticas e objeções ao modelo também serão discutidas. Também avaliará se essa concepção evita os inconvenientes apontados em outros modelos, em particular o procedimental e o deliberativo. Outra finalidade do projeto é discutir as contribuições e os limites do modelo no quadro das teorias contemporâneas de democracia.
Barros é professor do Departamento de Filosofia da USP, pela qual é mestre, doutor e livre docente em filosofia. Realizou pesquisas de pós-doutorado na Universidade de Londres, Reino Unido, e na Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne, França.
O Dilema Brasileiro da Alfabetização
Durante sua estada no IEA, Santos analisará criticamente as estimativas de taxas de analfabetismo e sua evolução recente no Brasil, considerando os critérios de literacia, letramento, fluência leitora e alfabetização funcional. Também examinará as evidências sobre a efetividade de distintos métodos de alfabetização, com base principalmente em dados brasileiros.
Outro objetivo da pesquisa é examinar a evidência disponível sobre o período sensível no processo de desenvolvimento para que se alfabetize uma criança, e discutir quais deveriam ser as contribuições da educação infantil para este processo e os empecilhos no debate atual para que estas contribuições possam ser dadas.
Santos é professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto da USP. Graduação pela USP, tornou-se mestre e doutor em economia pela PUC-RJ e Universidade Chicago, EUA, respectivamente.
Reconhecimento de padrões moleculares na resposta imune direcionada a flavivírus: uma abordagem populacional frente às mudanças climáticas
O objetivo geral do projeto de Trossini é investigar a coevolução entre flavivírus (transmitido por mosquitos e responsáveis por doenças como zika, dengue e febre amarela) e o sistema imunológico humano com base nas condições produzidas pelas mudanças climáticas.
Ele utilizará ferramentas computacionais avançadas para identificar e caracterizar epítopos virais imunodominantes. Esses epítopos são regiões na superfície de proteínas de um vírus reconhecidas pelo sistema imunológico. O foco desse trabalho são as implicações das mudanças climáticas na dinâmica das interações patógeno-hospedeiro. A intenção é contribuir para o desenvolvimento de vacinas e imunoterapias mais eficazes contra as doenças causadas por flavivírus.
Trossini graduou-se em farmácia pela UFMS e obteve os títulos de mestre e doutor (com período na Universidade do Novo México, EUA) em fármacos e medicamentos pela FCF-USP, onde realizou pesquisa de pós-doutorado e tornou-se docente.
Dispersão de Sementes por Animais: Interações-Chave para a Manutenção de Serviços Ecossistêmicos
O projeto de Guimarães Junior deverá consolidar um Centro Interinstitucional sobre Frugivoria e Dispersão de Sementes, criando uma rede de colaboração internacional de laboratórios que estudam as consequências da dispersão de sementes para padrões observados em diferentes escalas espaciais, temporais e organizacionais.
O trabalho também vai organizar e analisar bancos de dados para integrá-los a modelos matemáticos. Com isso, a expectativa é que surjam novas ideias e hipóteses sobre como processos ecológicos e evolutivos ligados à dispersão de sementes moldam a biodiversidade.
Essa integração de dados e teoria será usada para desenvolver hipóteses e modelos visando explorar as consequências da dispersão de sementes para a manutenção de serviços ecossistêmicos.
Guimarães Junior é professor titular do Departamento de Ecologia do ICB-USP. Obteve os títulos de mestre e doutor em ecologia pela Unicamp. Foi pesquisador associado na Universidade da Califórnia em Santa Cruz, EUA, e no Instituto de Física Gleb Wataghin da Unicamp.
Crise Climática e Turismo: Impactos, Riscos Sociais e Adaptação
O projeto de Cruz pretende contribuir com a produção de conhecimento crítico sobre as relações entre turismo e crise climática. O caminho analítico escolhido baseia-se numa perspectiva dialética a partir da tríade crise climática-turismo-adaptação.
Dessa forma, ela pretende produzir uma leitura crítica sobre os casos ocorridos no século 21 envolvendo localidades brasileiras que têm o turismo como uma atividade econômica relevante.
Cruz é graduada em geografia pela FFLCH-USP, onde tornou-se mestre e doutora em geografia humana. Além de professora na área de geografia regional na mesma faculdade, é líder da Rede Internacional de Pesquisa Turismo e Dinâmicas Socioterritoriais Contemporâneas.
Inteligência Artificial e as Relações de Trabalho no Brasil: A Percepção de seus Atores Tomando por Base Setores Escolhidos
A partir do estudo dos setores bancário, de saúde e de tecnologias da informação, Amorim pretende identificar e analisar a visão de atores envolvidos com as relações de trabalho quanto à natureza da inteligência artificial e seus efeitos sobre a contratação do trabalho em seu âmbito coletivo, em termos do contexto, estrutura, processos e conteúdo de negociações.
Entre os objetivos específicos da pesquisa estão identificar e analisar iniciativas internacionais e nacionais de regulação dos efeitos da IA no campo das relações de trabalho e desenvolver parâmetros metodológicos básicos para o desenvolvimento ampliado de estudos semelhantes em outros setores.
Economista formado pela FEA-USP, onde tornou-se doutor e livre docente em administração, Amorim foi pesquisador do Consórcio Fudan de Universidades Latino-Americanas e da Universidade de Fudan, China. Ele integra a Rede Lusófona de Sociologia, Gestão e Economia e lidera o grupo de pesquisa Gestão de Pessoas e Gestão do Conhecimento nas Organizações.
Contatos, Rupturas e Transições na Amazônia Central
Villagran utilizará uma abordagem petrográfica e microarqueológica para caracterizar a tecnologia das cerâmicas Açutuba (TPOA), Manacapuru (TBI), Paredão (TBI) e Guarita (TPA) recuperados dos sítios arqueológicos Hatahara e Açutuba escavados no âmbito do Projeto Amazônica Central, coordenado pelo arqueólogo e antropólogo Eduardo Góes Neves.
O objetivo principal será verificar se as diferenças nos critérios estilístico-decorativos também se expressam nos métodos de produção. Segundo a pesquisadora, "o estudo completo das matérias-primas (matriz argilosa, inclusões não plásticas, desengordurantes), a datação direta dos vasos e o estudo do uso cotidiano (por meio de análises de resíduos lipídicos) têm o potencial de revelar rupturas, continuidades e/ou inovações, permitindo uma compreensão mais aprofundada da complexidade cultural da região nos últimos 2000 anos".
Villagran é coordenadora do Laboratório de Microarqueologia do MAE-USP, onde é professora doutora. É graduada ciências antropológicas pela Universidade da República do Uruguai, com mestrado em arqueologia e doutorado em geociências pela USP. Realizou pesquisa de pós-doutorado na Universidade de Tübingen, Alemanha.