Arboviroses, temperatura ambiental e desigualdades sociais: uma análise integrada
Angela GuillenI e Carlos NavasII
18 de maio de 2026
Introdução
As arboviroses representam um dos principais desafios contemporâneos para a saúde pública global, especialmente em países subtropicais e tropicais como o Brasil. Doenças como dengue, Zika e Chikungunya possuem transmissão vetorial dependente de artrópodes hematófagos, principalmente mosquitos do gênero Aedes, cuja dinâmica populacional é profundamente influenciada por fatores ambientais e socioeconômicos. A temperatura ambiental, em particular, exerce papel central na biologia do vetor e na eficiência da transmissão viral, enquanto as desigualdades sociais determinam padrões distintos de exposição, vulnerabilidade e acesso à prevenção e tratamento.
Temperatura ambiental e dinâmica vetorial
Estudos experimentais demonstram que temperaturas mais elevadas aceleram o desenvolvimento larval dos mosquitos, aumentam sua taxa de reprodução e reduzem o período de incubação extrínseco dos arbovírus, permitindo que os vetores se tornem infectantes mais rapidamente. Delrieu et al. (2023) destacam que a faixa térmica ideal para transmissão de dengue, chikungunya e zika favorece diretamente a competência vetorial de Aedes aegypti e Aedes albopictus. Além disso, Ryan et al. (2019) demonstram que as mudanças climáticas globais tendem a expandir geograficamente as áreas favoráveis à transmissão dessas arboviroses, aumentando o risco epidemiológico em diferentes regiões urbanas.
As mudanças climáticas também alteram padrões de precipitação, umidade e sazonalidade, fatores que contribuem para a permanência e expansão dos vetores. Em cenários urbanos, o aumento da temperatura média associado à impermeabilização do solo e à redução da cobertura vegetal intensifica a formação de ilhas de calor urbano, criando ambientes altamente favoráveis à proliferação do mosquito.
Arboviroses e desigualdade socioambiental em São Paulo
No contexto brasileiro, a cidade de São Paulo apresenta evidências importantes sobre a relação entre temperatura urbana e incidência de dengue. Araujo et al. (2014) demonstraram que aproximadamente 93,1% dos casos de dengue registrados concentraram-se em áreas com temperatura superficial acima de 28°C, associadas às chamadas ilhas de calor urbano. Em regiões com maior cobertura vegetal e menor temperatura superficial, a incidência foi significativamente menor quando comparada a áreas densamente urbanizadas, caracterizadas por intenso asfaltamento, baixa arborização e maior retenção térmica.
Os autores observaram ainda que áreas com temperatura média de aproximadamente 29 ± 2°C apresentaram incidência muito superior quando comparadas a regiões urbanas menos aquecidas. Esses achados reforçam que as heterogeneidades térmicas intraurbanas influenciam diretamente a distribuição espacial das arboviroses.
Além dos fatores ambientais, as desigualdades sociais exercem papel central na vulnerabilidade às arboviroses. Comunidades periféricas frequentemente convivem com abastecimento irregular de água, ausência de saneamento básico e coleta inadequada de resíduos sólidos, fatores que favorecem o armazenamento doméstico de água e a formação de criadouros para mosquitos vetores.
Sousa e Tonini (2025) evidenciam que a irregularidade no abastecimento hídrico no município de Xique Xique, Bahia, contribuiu diretamente para o aumento da proliferação de larvas de Aedes aegypti, demonstrando como problemas estruturais urbanos intensificam o risco epidemiológico.
Conforto climático como variável de saúde pública
Nesse contexto, torna-se fundamental problematizar o conforto climático como uma variável estratégica para a saúde pública. Tradicionalmente associado apenas ao urbanismo e à arquitetura, o conforto térmico influencia diretamente processos ambientais e epidemiológicos relacionados às arboviroses.
A exposição contínua a ambientes urbanos excessivamente aquecidos favorece tanto a proliferação vetorial quanto o estresse térmico populacional, afetando principalmente grupos socialmente vulneráveis. Bairros periféricos, marcados por menor cobertura vegetal, alta densidade construtiva e infraestrutura urbana limitada, apresentam temperaturas mais elevadas e menor capacidade adaptativa frente às mudanças climáticas.
Assim, ignorar o conforto climático nas políticas públicas implica negligenciar um determinante ambiental relevante para a distribuição desigual das doenças infecciosas urbanas. O planejamento urbano e as políticas sanitárias precisam considerar variáveis como arborização, ventilação urbana, disponibilidade hídrica e mitigação de ilhas de calor como componentes essenciais para prevenção epidemiológica.
Conclusão
A dinâmica das arboviroses deve ser compreendida como resultado da interação entre fatores biológicos, ambientais e socioeconômicos. A temperatura ambiental atua como catalisador da transmissão, enquanto as desigualdades sociais definem padrões assimétricos de vulnerabilidade e exposição. Nesse sentido, o enfrentamento das arboviroses exige estratégias intersetoriais que integrem vigilância epidemiológica, planejamento urbano, justiça ambiental e adaptação climática. Medidas voltadas exclusivamente ao controle vetorial são insuficientes diante de um cenário em que mudanças ambientais e desigualdades sociais atuam de maneira sinérgica na manutenção dessas doenças. Portanto, compreender a relação entre clima, urbanização e vulnerabilidade social é essencial para o desenvolvimento de políticas públicas mais eficazes, sustentáveis e socialmente equitativas.
Referências
ARAUJO, Ricardo Vieira et al. São Paulo urban heat islands have a higher incidence of dengue than other urban areas. Brazilian Journal of Infectious Diseases, v. 19, n. 2, p. 146-155, 2014. DOI: 10.1016/j.bjid. 2014.10.004.
BRASIL. Ministério da Saúde. Arboviroses. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/ saude-de-a-a-z/a/arboviroses/arboviroses. Acesso em: 12 maio 2026.
DELRIEU, Méryl et al. Temperature and transmission of chikungunya, dengue, and Zika viruses: A systematic review of experimental studies on Aedes aegypti and Aedes albopictus. Current Research in Parasitology & Vector-Borne Diseases, v. 4, p. 100139, 2023. DOI: 10.1016/j.crpvbd.2023.100139.
RYAN, Sadie J. et al. Global expansion and redistribution of Aedes-borne virus transmission risk with climate change. PLoS Neglected Tropical Diseases, v. 13, n. 3, e0007213, 2019. DOI: 10.1371/journal.pntd. 0007213.
SOUSA, Adriana Pereira de; TONINI, Rita Maria Costa Wetler. Impacto provocado pelo abastecimento irregular de água e o alto índice de proliferação de larvas do mosquito Aedes aegypti no município de XiqueXique, Bahia. Revista Sertão Sustentável, v. 7, n. 1, p. 81-98, 2025.
I Pós-doutoranda do Centro de Síntese USP Cidades Globais (CS USPCG) do Instituto de Estudos Avançados da USP. Doutora em biologia celular e molecular pela UFPR.
II Professor titular no Instituto de Biociências da USP. Supervisor no programa de pós-doutoradoto do Centro de Síntese USP Cidades Globais (CS USPCG) do Instituto de Estudos Avançados da USP.