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Cidades e a Emergência Climática

por admin - publicado 03/09/2025 14:15 - última modificação 01/10/2025 17:02

Autoras: Laura Valente de Macedo, Maria Cecília Lucchese e Marta Arantes Godoy

Laura Valente de MacedoI, Maria Cecília LuccheseII e Marta Arantes GodoyIII

3 de setembro de 2025

A mudança do clima já não é mais um assunto restrito a cientistas e lideranças nas mais altas esferas da governança global. Em pouco mais de 30 anos, passou-se da cautela sobre seus impactos e cenários ao alarme inconteste a respeito da ameaça que paira sobre a vida no planeta e nossas sociedades como as conhecemos hoje. Estamos na era da emergência climática, que já é particularmente trágica para as populações mais vulneráveis, sobretudo de países pobres, que são os que menos contribuíram e contribuem para suas causas. À medida que aumenta a população urbanizada nesses países, acumulam-se tragédias e se acentuam problemas socioambientais que já desafiavam os gestores e líderes das cidades, antes da entrada de temas globais na agenda municipal. Os impactos das mudanças do clima aliados à crescente urbanização exacerbam a desigualdade social aguda nas cidades do Sul Global e tendem a se agravar, ampliando a injustiça climática.  Há muito discurso e muitas promessas nas conferências, narrativas que enfatizam a importância das cidades e governos subnacionais, e até mesmo cientistas que advogam pela integração de atores subnacionais como partes na governança multinível do clima; os recursos financeiros e tecnológicos fundamentais, porém, não chegam aonde são mais necessários.

Cidades como parte do problema

Adensamento e aumento demográfico urbano e crescimento econômico são as principais causas de emissões urbanas dos gases de efeito estufa (GEE) responsáveis pelo aquecimento global. São mais de 54% da população mundial vivendo em áreas urbanizadas. Cidades concentram uma população altamente consumidora e atividades econômicas produtivas que demandam energia, como as que envolvem processos industriais e de serviços, além dos modais de transporte que atendem às necessidades de mobilidade e logística. Globalmente, boa parte dessas atividades baseia-se em combustíveis fósseis.  Ademais, as mudanças de uso da terra devido à urbanização, assim como o desmatamento para produção de alimento, têm como vetor o modo de vida urbano das sociedades humanas desde os primórdios da civilização, e que vem aumentando exponencialmente a partir do pós-guerra na metade do século XX.

Portanto, sendo o setor de energia o maior responsável pelas emissões globais de GEE, é possível situar cidades como protagonistas na questão climática. Segundo a Agência Internacional de Energia – IEA (sigla em inglês para International Energy Agency), estima-se que centros urbanos respondem por 70% da atividade econômica no mundo e por 75% das emissões de GEE. Embora a maior parte das cidades não seja diretamente geradora de energia, são consumidoras e, portanto, têm participação significativa no balanço energético dos países. Ademais, dados do IEA revelam que o setor de energia responde pelo ar poluído que mais de 90% da população mundial é obrigada a respirar, e que está relacionado a mais de 6 milhões de mortes prematuras por ano (2023). Além das doenças provocadas pela poluição do ar, verificam-se outras consequências adversas das mudanças do clima sobre a saúde, os meios de subsistência e as principais infraestruturas. Por exemplo, o aumento da incidência de doenças infecciosas com a proliferação de vetores, e de transtornos de saúde mental, associados ao trauma causado por eventos extremos, a escassez hídrica e a insegurança alimentar; aumento da salinização e perda de biodiversidade em regiões costeiras devido à elevação do nível do mar; destruição de pontes e estrada, redes de eletricidade e abastecimento de água, causada por tempestades e assim por diante.

Cidades como parte das soluções

Os países, enquanto Partes dos tratados internacionais sobre clima juntamente com governos subnacionais e locais - ainda que de forma tímida e descontínua -, vêm empreendendo esforços para reduzir suas emissões de carbono e mitigar os efeitos do aquecimento global. A literatura científica, assim como documentos oficiais, sites de ONGs e outras fontes não acadêmicas, é farta em exemplos de ação climática. Em 2014, a ONU estabeleceu o portal Ação Climática Global - GCAP (da sigla em inglês para Global Climate Action Portal), para registrar as ações climáticas de atores não-estatais (ANEs ou NSAs, da sigla em inglês para non-state actors) a partir da NAZCA, uma iniciativa lançada em Lima, durante a COP20. Além das ações voluntárias e autodeclaradas de NSAs, estão publicados relatórios resumidos sobre os compromissos dos países signatários da UNFCCC. As categorias de aderentes são: empresas, investidores, organizações, regiões e cidades. Até abril de 2024, havia registros de ações climáticas de 11.366 cidades no mundo, das quais 158 no Brasil (GCAP, 2024). Essas ações incluem políticas públicas climáticas, planos de ação e legislação abordando medidas de mitigação, adaptação e resiliência.

Pelo menos 170 países e inúmeras cidades de grande e médio porte pelo mundo implementaram suas políticas climáticas com benefícios documentados e eficácia variável. Apesar desses progressos, porém, existem muitas lacunas, não apenas no cumprimento dos compromissos de redução de emissões de GEE, mas em medidas de adaptação, prioritárias para países em desenvolvimento. O tema ganhou escala a partir de 2022, com o lançamento da Agenda de Adaptação Sharm-El-Sheikh, na COP27 no Egito. Na COP28, em Dubai, foram acordadas as metas para a Objetivo Global de Adaptação (GGA), reconhecendo a importância de garantir recursos financeiros para a resiliência de cidades em países menos desenvolvidos e em desenvolvimento.

É classificado como alto a muito alto, o potencial de impactos e riscos associados à emergência climática; estes devem tornar-se cada vez mais complexos e difíceis de gerenciar, com múltiplos perigos para a vida humana e outras espécies, pela intensificação de chuvas volumosas mais frequentes, tempestades, vendavais e ciclones, eventos com alto poder de destruição. Esses eventos podem causar enxurradas catastróficas, deslizamentos em áreas de risco nos morros e inundações em baixios e planícies fluviais. Atingem ocupações informais, vias de tráfego e construções regulares, com queda de árvores sobre moradias, veículos e sobre a rede elétrica, causando interrupção do fornecimento de energia e isolamento de famílias, além de prejuízos materiais e até perda de vidas.

Embora esses desastres aconteçam em toda parte, o que muda são as consequências e suas vítimas, sua capacidade e tempo de resposta, adaptação e resiliência, seja pelo poder público local, seja individualmente. Aumentam os desafios urbanos e as vulnerabilidades já existentes, com consequências graves para a vida humana e para os desfavorecidos social e economicamente diante das catástrofes do clima, conforme apontam as evidências. O panorama brasileiro não é diferente. Nas regiões tropicais e no hemisfério sul, a maior parte dos desastres é de natureza hidrológica e seus impactos são exacerbados pela gestão inadequada do poder público, como se pode constatar ano após ano nos noticiários, a exemplo do ocorrido no Rio Grande do Sul em 2024. São tempestades atípicas, ciclones extratropicais e enchentes que causam inundações, deslizamento de encostas, solapamento de margens de cursos d’água. Ao mesmo tempo, várias regiões do Brasil, inclusive no Sul, sofrem com secas severas e escassez hídrica.

Dados até novembro de 2023 para desastres causados por problemas hidrológicos, meteorológicos e climáticos, do centro de pesquisa sobre epidemiologia dos desastres da Universidade de Louvain, na Bélgica (The International Disaster Database do Centre for Research on the Epidemiology of Disasters - CRED), mostram que, entre 2000 e 2023, desastres no Brasil causaram 3.722 mortes e afetaram diretamente mais de 53 milhões de pessoas. Os eventos mais frequentes foram alagamentos fluviais e enchentes repentinas e violentas, juntamente com episódios de deslizamento de terra, em áreas de ocupação irregular por assentamentos humanos de zonas ribeirinhas e encostas.

Outra questão bastante importante para adaptação das cidades à emergência climática refere-se à sustentabilidade da produção e da conservação de energia, e da necessidade de blindar o sistema elétrico contra os eventos extremos, diminuir o consumo energético, além da necessidade urgente de descarbonizar a economia. As cidades brasileiras são supridas por recursos centralizados da geração de energia de grande escala, a energia elétrica produzida é conectada ao Sistema Interligado Nacional (SIN), com uma matriz bastante sustentável. A coordenação e controle operacional da geração e transmissão de energia elétrica do SIN são executadas pelo Operador Nacional do Sistema (ONS).

O sistema elétrico brasileiro interliga quase todas as regiões, à exceção do estado de Roraima, abastecido por sistemas isolados. É um sistema vulnerável, pois além de depender de períodos chuvosos frequentes e com certa homogeneidade para sua geração, a rede está sujeita a interrupções pelo fato de a transmissão e a distribuição serem aéreas, estendendo-se por longas distâncias, com exposição constante das torres e fiação às intempéries. A vulnerabilidade do sistema se agrava diante de eventos extremos como furacões, vendavais, tornados e relâmpagos, além de queimadas por ondas de calor, secas prolongadas e manejo inadequado do solo junto às faixas de servidão.

A preocupação com essa situação tem estimulado as pesquisas de sistemas autônomos e sustentáveis, de menor escala e que continuem utilizando recursos renováveis. O setor vem gerando um movimento crescente no Brasil, com expressiva participação das usinas solares fotovoltaicas, aumento da geração de energia por biomassa, fonte eólica e hídrica. Entretanto, como o território nas cidades é intensamente disputado para as mais diversas funções do espaço urbano, entre usos residenciais, comerciais e industriais, setor de serviços, infraestrutura e circulação, a produção de energia local encontra restrições, sobretudo pelo alto valor da terra e pelos impactos socioambientais, o que é especialmente válido para cidades densamente povoadas e populosas.

Se a transição energética é uma das ações recomendadas, não podem ser menosprezadas outras alternativas, como as soluções baseadas na natureza (SBN), mais baratas e fáceis de alcançar no curto prazo, e a captura de carbono, que depende de investimentos altos e tecnologia de ponta. Estas incluem soluções complexas e controversas, como geoengenharia e usinas de captação de carbono, enquanto as primeiras têm sido promovidas amplamente para resolver questões locais e contribuir para a resiliência das cidades, sendo soluções mais acessíveis a gestores urbanos, como o aumento de áreas vegetadas no ambiente construído. O plantio pode ser feito em espaços públicos ociosos, ao longo de cursos d´água e vias de circulação, ou ainda em construções, com lajes, paredes e muros se transformando em suportes para a vegetação. Conhecida também como infraestrutura verde, além de prestar serviços ambientais de regulação, a estratégia funciona como sumidouro de carbono. São soluções que contribuem para mitigar fenômenos hidrológicos, modular o clima, e fortalecer a segurança alimentar, além de promover o aumento da biodiversidade e a criação de espaços mais agradáveis e inclusivos.

Nesse contexto, acrescentam-se as preocupações com as possíveis consequências dos eventos extremos sobre a disponibilidade de água para usos domésticos, agrícolas e industriais. Diante desses desafios, vê-se aumentarem as pesquisas relacionadas ao múltiplo aproveitamento dos recursos hídricos, como a captura de água da chuva, reaproveitamento de águas servidas, tratamento de esgoto doméstico para reuso, ademais de ações de incentivo à conservação da água, seja de forma individual pelas famílias, seja pelos sistemas de abastecimento e esgotamento sanitário.

A emergência climática já faz parte do “novo normal”, com poucas expectativas de se mudar essa trajetória rumo a um aumento de mais de 2oC até 2050. Às cidades resta adaptar-se e procurar os meios para reduzir o impacto maior sobre suas populações vulneráveis. A ciência tem papel fundamental em apoiar a busca por respostas que possam contribuir para fortalecer a resiliência das cidades e diminuir as consequências da injustiça climática.  Mas também será crucial em apontar caminhos melhores para as futuras gerações na proteção à vida e ao clima do planeta.

Referências

IEA (2023). World Energy Outlook 2023. IEA, Paris. Disponível em https://www.iea.org/reports/world-energy-outlook-2023. Acesso em 3 de abril de 2024.

MACEDO, L. S. V.; LUCHESE, M. C.; GODOY A. Apresentação. In: MACEDO, L. S. V.; LUCHESE, M. C.; GODOY A. (orgs.) Cidades e a emergência climática: pesquisas e respostas. São Paulo: Annablume, 2024. ISBN 978-65-85936-32-3. Disponível em: https://loja.annablume.com.br/meio-ambiente/cidades-e-a-emergencia-climatica-pesquisas-e-respostas. Acesso em 27 de junho de 2025

UN-HABITAT - World Cities Report 2022 - Envisaging the future of cities. Disponível em https://unhabitat.org/wcr. Acesso em 4 de abril de 2024.

ODS relacionados

  • ODS 3 – Saúde e Bem-estar
  • ODS 11 – Cidades e Comunidades Sustentáveis
  • ODS 13 – Ação Contra a Mudança Global do Clima

 

Nota: Ensaio baseado em texto das autoras para a Apresentação do livro "Cidades e a emergência climática: pesquisas e respostas", organizado por elas e publicado em agosto de 2024. A publicação é resultado do trabalho desenvolvido como pesquisadoras do Centro de Síntese USP Cidades Globais, do Instituto de Estudos Avançados da USP, entre 2022 e 2024.


I Centro de Síntese Cidades Globais, IEA-USP e FGVCeisa, Fundação Getúlio Vargas, Escola de Administração de Empresas de São Paulo.
II Centro de Síntese Cidades Globais, IEA-USP e Instituto Federal de São Paulo – IFSP.
II Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo – FSP-USP.