Por que os parques naturais importam? Natureza, lazer, turismo sustentável e resiliência urbana frente às mudanças climáticas
Grislayne Guedes Lopes da SilvaI e Debora Cordeiro BragaII
7 de abril de 2026
Introdução
O aumento das emissões de gases de efeito estufa (GEE) e a consequente intensificação dos fenômenos associados às mudanças climáticas têm colocado as cidades no centro de um conjunto crescente de desafios relacionados ao planejamento territorial e à gestão pública (Begum et al., 2025; Dube, 2024). Fenômenos como enchentes, períodos prolongados de seca e ondas de calor têm se tornado mais frequentes e severos, ampliando as vulnerabilidades socioambientais e exigindo respostas estruturadas voltadas à adaptação e à resiliência urbana (Kabisch et al., 2017). Esse cenário gera riscos de degradação de ecossistemas, aumento de episódios de desastres, redução da segurança hídrica e alimentar, entre outros desafios, ocasionando impactos em diversos setores (Kabisch et al., 2017; Scott et al., 2019; Begum et al., 2025).
No contexto urbano brasileiro, tais desafios são agravados por processos de expansão desordenada de áreas urbanas, impermeabilização do solo, desmatamento e redução de áreas verdes, fatores que intensificam os impactos climáticos, como a formação de ilhas de calor e enchentes, e reduzem a capacidade adaptativa dos territórios (Kabisch et al., 2017; Sancho-Pivoto; Raimundo, 2022). Diante desse cenário, torna-se fundamental compreender que a natureza não deve ser tratada apenas como elemento afetado pela crise ambiental, mas como componente ativo das soluções, especificamente por meio das Soluções Baseadas na Natureza (SbN). Essas estratégias utilizam a infraestrutura verde para proteger, gerir e restaurar ecossistemas, oferecendo uma defesa poderosa contra riscos climáticos e promovendo simultaneamente o bem-estar humano, a conservação da natureza e a proteção da biodiversidade (IUCN, 2020).
A consolidação de agendas globais voltadas ao desenvolvimento sustentável, como a Agenda 2030 (UN, 2015) e o Acordo de Paris (Brasil, 2017), reforça a necessidade de incorporar estratégias de mitigação e adaptação às políticas públicas em diferentes escalas. No Brasil, essa articulação ganha espaço por meio do Plano Nacional sobre Mudança do Clima (Plano Clima 2024-2035), instrumento central que orienta a política climática nacional e traduz os compromissos internacionais em metas e ações concretas para o país. Nesse sentido, a implementação dessas diretrizes depende fortemente da atuação dos governos locais, responsáveis por traduzir compromissos globais em ações territoriais. Há uma meta estabelecida pelo próprio Plano Clima de garantir que ao menos 35% dos municípios brasileiros tenham planos de adaptação até 2035 (MMA, MCTI, CC/PR, 2025).
Nesse cenário inserem-se as áreas protegidas, denominadas Unidades de Conservação (UCs) no Brasil, como é o caso dos parques naturais (Brasil, 2000), cuja relevância já era evidenciada desde o Relatório Brundtland, do fim da década de 1980, como fundamentais para garantir a proteção de ecossistemas nativos, a conservação da biodiversidade e a sustentabilidade dos sistemas naturais e sociais (UN, 1987), benefícios que, no atual Plano Clima do Brasil, são reafirmados como estratégicos para a resiliência dos biomas e a manutenção de serviços ecossistêmicos essenciais (MMA, MCTI, CC/PR, 2025). É nesse contexto que a existência de parques naturais em áreas urbanas pode ganhar centralidade. Esses espaços podem ser compreendidos como elementos estruturantes da infraestrutura verde, ao articularem conservação ambiental, bem-estar, lazer, turismo sustentável e estratégias de adaptação climática.
Assim, este ensaio propõe refletir sobre a seguinte questão: Qual a importância dos parques naturais para o desenvolvimento sustentável de cidades? A resposta está na sua capacidade de integrar as dimensões da sustentabilidade (ambiental, social, econômica e institucional), tornando-se fundamentais para a construção de cidades mais sustentáveis, resilientes e para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), especialmente aqueles relacionados a cidades sustentáveis e ação climática (UN, 2015).
Os serviços ecossistêmicos que tornam os parques naturais essenciais
A relevância dos parques naturais está diretamente associada à sua capacidade de fornecer serviços ecossistêmicos indispensáveis para o funcionamento equilibrado dos ambientes urbanos, definidos como os benefícios diretos ou indiretos que os seres humanos obtêm das funções e processos dos ecossistemas (IPCC, 2023; Silva et al., 2025; Xiao et al., 2025). Esses serviços costumam ser classificados como serviços de provisão (exemplos: alimentos, água e madeira), serviços de regulação e manutenção (exemplos: controle do clima, enchentes, secas e deslizamentos de encostas) e serviços culturais (exemplos: lazer, turismo, experiências espirituais) (Silva et al., 2025; Sancho-Pivoto et al., 2022).
Entre esses serviços destacam-se a regulação térmica, a melhoria da qualidade do ar, o controle do escoamento superficial e a conservação da biodiversidade (Kabisch et al., 2017; Yao et al., 2025). Esses espaços funcionam como áreas centrais de uma infraestrutura verde multifuncional e altamente interconectada, indispensável para o funcionamento equilibrado dos territórios (IPCC, 2023; Yao et al., 2025). Exemplo disso são os sete parques naturais municipais existentes dentro da cidade de São Paulo, próximos às áreas urbanas do município, que resguardam 30% de áreas remanescentes de vegetação nativa de Mata Atlântica (Prefeitura de São Paulo, 2025).
Em áreas urbanizadas, onde os processos naturais são frequentemente alterados pela ocupação humana, esses serviços assumem papel ainda mais crítico no enfrentamento de desafios associados às mudanças climáticas e à poluição atmosférica (Yao et al., 2025). A presença de áreas verdes, como os parques, contribui para reduzir impactos associados a eventos extremos, como inundações, ao mesmo tempo em que favorece o equilíbrio térmico por meio da mitigação das ilhas de calor e a estabilidade dos ecossistemas urbanos (Kabisch et al., 2017). A estrutura da vegetação, incluindo a cobertura arbórea e a riqueza de espécies, é fator determinante para a eficácia desses serviços de regulação climática (Yao et al., 2025).
Além das funções ecológicas, os parques naturais também exercem papel significativo na conectividade ambiental, servindo como corredores que permitem a circulação de espécies e contribuem para a manutenção de ecossistemas fragmentados, especialmente em contextos de intensa pressão urbana (IPCC, 2023). A proteção dessas áreas é reconhecida mundialmente como a estratégia mais efetiva para a conservação a longo prazo da integridade dos habitats e da biodiversidade (Welch, 2005; Silva et al., 2025).
Outro aspecto central diz respeito aos benefícios não materiais, classificados como serviços ecossistêmicos culturais (Sancho-Pivoto et al., 2022). A vivência em ambientes naturais está relacionada à redução de estresse, melhoria da saúde, fortalecimento de vínculos sociais e do bem-estar em múltiplas dimensões: física (pela prática de exercícios), social (pelo fortalecimento de vínculos e coesão), espiritual (pela conexão com a natureza) e psicológica (Sancho-Pivoto; Raimundo, 2022). Pesquisas indicam que os benefícios mais valorizados pelos visitantes são de ordem psicológica e emocional, como a redução do estresse, o alívio da fadiga mental e a recuperação do equilíbrio psicofísico por meio de experiências como os "banhos de natureza" (Sancho-Pivoto et al., 2025).
Esse cenário evidencia a importância desses espaços para a qualidade de vida da população (Sancho-Pivoto; Raimundo, 2022). Além do bem-estar, os parques naturais promovem o turismo sustentável, que gera impactos positivos na economia local e empregos (Gan et al., 2025). O reconhecimento do valor dos parques naturais por parte da população local é primordial para fortalecer o sentimento de pertencimento e o engajamento social na proteção desses patrimônios naturais (Sancho-Pivoto et al., 2025).
Dessa forma, os parques naturais não apenas conservam recursos ambientais, mas também promovem bem-estar, lazer, turismo sustentável e educação ambiental, aproximando a sociedade da natureza. O reconhecimento desses espaços pelos gestores públicos é um fator primordial para fomentar a consciência ambiental, fortalecer o pertencimento e o engajamento público na proteção e valorização desses patrimônios naturais brasileiros.
Parques naturais e seus benefícios no contexto das infraestruturas verdes e soluções baseadas na natureza
A compreensão dos parques naturais como infraestrutura verde amplia significativamente sua relevância no planejamento urbano (IPCC, 2023). Esse conceito refere-se ao conjunto interconectado e estrategicamente planejado de sistemas ecológicos naturais e construídos, como parques e espaços verdes abertos, capazes de oferecer funções e serviços com múltiplos benefícios ambientais, sociais e econômicos (Kabisch et al., 2017).
Nesse sentido, esses espaços também podem ser interpretados como soluções baseadas na natureza (SbN), isto é, ações para proteger, gerir de forma sustentável e restaurar ecossistemas que desenvolvem processos naturais para enfrentar desafios contemporâneos, incluindo aqueles relacionados às mudanças climáticas (IUCN, 2020).
Os parques naturais, estabelecidos como UCs de Proteção Integral pelo Sistema Nacional de UCs – SNUC (Brasil, 2000), localizados próximos de áreas urbanas, exemplificam essa abordagem ao desempenharem funções como:
- Moderação das temperaturas urbanas: por meio da evapotranspiração e do sombreamento, o que ajuda a reduzir o efeito das ilhas de calor (Kabisch et al., 2017);
- Aumento da infiltração hídrica: contribuindo para a regulação do ciclo da água e o controle de enchentes (Kabisch et al., 2017);
- Proteção de ecossistemas: garantindo a integridade dos biomas e o abrigo de espécies de fauna e flora (IUCN, 2020);
- Oferta de espaços para lazer, turismo e promoção da saúde: proporcionando relaxamento psicológico, alívio de estresse e oportunidades para atividade física (Kabisch et al., 2017).
Essas funções evidenciam sua contribuição tanto para a mitigação (por meio do sequestro de carbono pela vegetação) quanto para a adaptação climática (reduzindo riscos de eventos extremos) (MMA, MCTI, CC/PR, 2025). Além disso, tem conexão direta com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, especialmente o ODS 11 (Cidades e Comunidades Sustentáveis) e o ODS 13 (Ação Contra a Mudança Global do Clima) (UN, 2015). Ao serem incorporados de forma estratégica ao planejamento urbano e à governança local, os parques deixam de ser tratados como espaços isolados e passam a integrar sistemas territoriais mais amplos, como infraestrutura verde, reforçando a capacidade das cidades de responder aos desafios ambientais de forma resiliente e sustentável (IPCC, 2023).
Benefícios sociais, econômicos e turísticos dos parques naturais próximos às áreas urbanas
Os parques naturais desempenham papel relevante na promoção de benefícios sociais e econômicos (Silva et al., 2025). Do ponto de vista social, esses espaços ampliam o acesso ao lazer e turismo, e contribuem diretamente para o bem-estar ao oferecerem ambientes seguros e acessíveis para convivência e recreação (Sancho-Pivoto; Raimundo, 2023).
Além disso, esses espaços favorecem processos de educação ambiental e fortalecem a identidade territorial, ao promover o sentimento de pertencimento e sensibilização da sociedade para a urgência da conservação da biodiversidade, reconhecendo e valorizando o patrimônio natural (Silva et al., 2025). Estudos indicam que a visitação a essas áreas contribui para a redução do estresse, melhora do humor e prevenção de doenças como hipertensão e ansiedade, funcionando como verdadeiras "academias ao ar livre” (Sancho-Pivoto et al., 2025). Assim, quanto mais próximas as áreas naturais estejam das áreas urbanas vulneráveis, maior será a possibilidade da democratização de lazer junto a comunidades marginalizadas e, ao mesmo tempo, ampliam-se as possibilidades de conscientização destes sobre a necessidade de conservação desses espaços (Krippendorf, 2000).
No campo econômico, os parques apresentam potencial significativo para o desenvolvimento do turismo sustentável (Silva et. al., 2023; Zhao et al., 2024). A valorização de recursos naturais como atrativos turísticos permite a geração de emprego e renda em áreas como de hospedagem, alimentação e condução de visitantes, ao mesmo tempo que incentiva práticas de baixo impacto ambiental (Begum et al., 2025; Chen et al., 2025). Quando estruturado de forma planejada, o turismo em áreas naturais pode contribuir para o fortalecimento de economias locais e para a diversificação das atividades produtivas, articulando conservação ambiental e desenvolvimento territorial (Silva et al., 2023; Zhao et al., 2024).
No Brasil, estima-se que cada real investido em parques pode gerar um retorno significativo para a economia regional por meio dos gastos dos visitantes (Sancho-Pivoto; Raimundo, 2022). Portanto, os parques naturais são espaços estratégicos para a integração entre bem-estar, lazer, turismo e resiliência urbana, devendo ser prioridade no planejamento público das cidades.
Governança e políticas públicas para a valorização dos parques naturais
Apesar de sua relevância, a incorporação dos parques naturais nas políticas públicas municipais ainda ocorre de maneira limitada. Na análise de 76 planos de governo de prefeitos eleitos, em 2024, de um total de 78 Estâncias Turísticas do estado de São Paulo (Lei nº 18.379/2025)1, constatou-se que a integração entre turismo, conservação ambiental e adaptação climática ainda se apresenta de forma incipiente no planejamento municipal. Embora o turismo seja amplamente reconhecido como um vetor de desenvolvimento econômico em 67 dos planos de governo analisados, observa-se que a articulação entre turismo, gestão de áreas naturais protegidas e estratégias de adaptação climática permanece ausente nos documentos analisados. Ainda que 38 planos façam referência a parques, trilhas ou áreas verdes no contexto do turismo ou do lazer, nenhum deles estabelece, de maneira explícita, a conexão entre esses espaços e estratégias voltadas à mitigação ou adaptação às mudanças climáticas.
Em diversos casos, os parques são tratados apenas como espaços de lazer, sem serem reconhecidos como elementos estratégicos para a resiliência urbana, para a educação ambiental e geração de emprego e renda. Essa abordagem reduz seu potencial no contexto das infraestruturas verdes e como soluções baseadas na natureza, além de os governantes municipais não considerarem os parques naturais para alavancar a atividade turística. Diante disso, torna-se essencial fortalecer os arranjos de governança, promovendo a integração entre diferentes atores e setores para o desenvolvimento de ações efetivas.
A implementação da Agenda 2030 em nível local depende da capacidade dos municípios de articular políticas públicas e incorporar diretrizes globais em seus instrumentos de planejamento, municipalizando os ODS de maneira efetiva (Foschi et al., 2025; Katsikis et al., 2025). Isso implica na identificação e mapeamento de áreas de vegetação nativa existentes passíveis de instituição como UCs, incluindo parques naturais, para conservação da biodiversidade, bem como a inclusão desses parques em planos diretores, planos de turismo, planos ambientais e demais instrumentos de gestão territorial, garantindo sua integração às estratégias de desenvolvimento sustentável. Mais do que reconhecer sua existência, é necessário reposicionar esses espaços como bens comuns estratégicos para o enfrentamento das mudanças climáticas.
Considerações finais — Valorização dos parques naturais como bens comuns
Diante dos desafios impostos pelas mudanças climáticas, torna-se evidente que a adaptação das cidades passe, necessariamente, pela valorização da natureza no ambiente urbano. Os parques naturais próximos às áreas urbanas importam porque integram, de forma única, benefícios essenciais à sociedade: promovem o bem-estar, ampliam oportunidades de lazer e educação ambiental, impulsionam o turismo sustentável, geram emprego e renda e fortalecem a capacidade adaptativa da cidade, ou seja, a resiliência urbana frente às mudanças climáticas.
Considerando o que foi exposto, é possível afirmar que quando os parques naturais são reconhecidos no contexto das infraestruturas verdes e soluções baseadas na natureza, passam a ocupar um papel central no planejamento urbano e nas políticas públicas, contribuindo para a redução de vulnerabilidades e para a construção de cidades mais sustentáveis. No entanto, esse potencial só será plenamente alcançado a partir de ações bem planejadas, governança efetiva e integração entre políticas públicas. Isso exige compromisso institucional dos gestores públicos municipais, o que envolve decisões políticas e de planejamento qualificadas, e a capacidade de articulação entre diferentes setores e atores sociais, bem como participação ativa da comunidade na construção de cidades sustentáveis.
Mais do que espaços de conservação, lazer ou turismo, os parques naturais devem ser reconhecidos como bens comuns e como legados para as futuras gerações. Ao integrar essas soluções no planejamento, as cidades podem se tornar mais resilientes, sustentáveis e preparadas para enfrentar os desafios climáticos do futuro e aptas ao usufruto da comunidade local e de turistas. Nesse sentido, investir na criação, valorização e gestão adequada dos parques naturais é investir diretamente na qualidade de vida da sociedade e no futuro das cidades.
Referências
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ODS relacionados
- ODS 8 – Trabalho Decente e Crescimento Econômico
- ODS 11 – Cidades e Comunidades Sustentáveis
- ODS 13 – Ação contra a Mudança Global do Clima
- ODS 17 – Parcerias e Meios de Implementação
I Pós-doutoranda do Centro de Síntese USP Cidades Globais (CS USPCG) do Instituto de Estudos Avançados da USP. Doutora e mestre em turismo pela Escola de Comunicações e Artes da USP.
II Professora associada do Curso de Turismo da Escola de Comunicações e Artes da USP e da Pós-Graduação em Turismo da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP. Supervisora do Eixo Turismo Sustentável do Centro de Síntese USP Cidades Globais (CS USPCG) do Instituto de Estudos Avançados da USP.
1 Essa Lei nº 18.379/2025 classificou 8 novos municípios como Estâncias Turísticas junto aos 70 classificados na Lei nº 17.469/2021, totalizando 78 Estâncias Turísticas em dezembro de 2025. No entanto, não foi possível localizar os planos de governo de dois municípios que na época da coleta de dados estavam com candidatos eleitos sub judice.