Habitações "Flutuantes" na Amazônia: Uma Proposta Sustentável por Via Etnográfica
Leno Barata SouzaI e Fraya FrehseII
1º de outubro de 2025
Um pouco de história
Há mais de dois séculos que as edificações flutuantes na Amazônia frequentam diferentes literaturas. Desde o discurso eurocêntrico dos viajantes naturalistas do século XIX, passando pelos determinismos, natural e econômico, do século passado, até chegar as atuais produções acadêmicas que repensam as edificações flutuantes por um viés mais técnico, cultural e socioambiental.
Esse ensaio, que versa sobre essa temática em expansão, baseou-se na tese de Barata Souza (2010) que focou na “Cidade Flutuante” de Manaus, fenômeno urbano e humano que, paulatinamente, se desenvolveu sobre o rio Negro e igarapés da cidade, entre 1920 e 1967.
O esforço etnográfico atual versa sobre os flutuantes em suas variadas modalidades (residencial, comercial, serviços) como um instrumento possível de desenvolvimento e sustentabilidade ambiental, com o objetivo de mostrar como contribui, por sua própria natureza na contemporaneidade, para as pautas socioambientais, promove qualidade de vida e resiliência urbana. Logo se apresenta como um dínamo de transição para municípios mais sustentáveis. Nesse contexto, alinha-se aos ODS da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), mais especificamente com o ODS 11 – Cidades e comunidades sustentáveis.
Assumindo a etnografia como método e “perspectiva epistemológica” (Frehse, 2011: 34), a metodologia se pauta em pesquisa documental e trabalho de campo de natureza etnográfica na forma de observação participante anotada em caderno de campo e registrada, ainda, por entrevistas, fotografias e croquis.
A pesquisa empírica se concentrou na ilha de Xiborena, no rio Negro, município de Iranduba que integra a Região Metropolitana de Manaus (Figura 1).
- Figura 1 – Mapa fluvial do cenário pesqusado. (Fonte: Campos Pinheiro, 2019: 35)
Em particular, interessou a comunidade flutuante Nossa Senhora Aparecida do Lago Catalão, na “Boca” do Lago do Catalão à beira-rio (Figura 2):
- Figura – Localização da Comunidade N. Sra. Aparecida do Lago do Catalão. (Fonte: Santos, 2013: 24)
Flutuantes em foco
As construções flutuantes amazônicas são obtidas apenas via determinados tipos de madeiras: maçaranduba, sucupira, louro vermelho, acariquara e, principalmente, o açacu. Eis a madeira-boia dessas edificações, responsável por sua flutuação, já que compõe o pilar sobre o qual se ergue a estrutura das casas. Mas, para tanto, é crucial dominar um antigo e peculiar saber-fazer ribeirinho.
Trata-se de uma tecnologia cabocla e, a seu modo, vernacular. Afinal, os modos de construção e utilização de técnicas são transmitidos de geração em geração pelo costume. É a condição sine qua non para a flutuação segura das casas.
Os chamados flutuantes se tornaram uma paisagem socioespacial das mais representativas para as classes populares. Estas se apropriam dos rios como espaços mais viáveis, em termos econômicos, para seus flutuantes. Provém das várzeas, sobretudo o açacu, o material mais barato, acessível e em equilíbrio com o meio natural do qual são construídos.
Por tais peculiaridades arquitetônicas, ambientais e econômicas, os flutuantes favorecem a meta 11.1 do ODS 11, que ambiciona “garantir o acesso de todos à habitação segura, adequada e a preço acessível”.
De fato, são construções mais sintonizadas com o bioma regional. Alinham-se a uma “infraestrutura verde” economicamente mais acessível e ambientalmente justa, um contraponto à agressiva “infraestrutura cinza” e vertical das urbes de arquitetura e urbanismo modernos, no Brasil. Suas construções e traçados, em regra, buscam romper com o meio ambiente natural, subjugando rios, lagos, margens e áreas verdes.
Erguidos com cimento, ferro, cal, vidro e asfalto, os atuais centros urbanos do país impermeabilizam o solo, agravando as periódicas chuvas/enchentes e secas/calor.
Assim, mesmo os fenômenos naturais cíclicos amazônicos são cada vez mais alterados pela crise climática planetária condicionada por atividades humanas. Tal crise se fundamenta no aumento inédito dos gases de efeito-estufa (GEE), para o qual concorrem atividades historicamente urbanas como a queima de combustíveis fósseis, as indústrias e os desmatamentos. Tais fenômenos expõem os limites de um modelo de ocupação inadequado às pressões atuais do clima, que reverberam na forma de inundações, alagamentos, deslizamentos, secas e ondas de calor.
Portanto, as cidades chamadas modernas são mais vulneráveis à crise climática. Esta, aliada a passivos históricos de saneamento e habitação, agravam a situação, especialmente entre os mais pobres.
Ora, a arquitetura ecológica dos flutuantes significa – eis a hipótese – uma alternativa mais sustentável e resiliente para assentamentos urbanos na Amazônia. De fato, desafogam a pressão, sempre intensa e nefasta ao meio natural, por moradias em terra nos municípios amazonenses.
Ademais, os assentamentos flutuantes protegem contra o desmatamento e assoreamento das várzeas. São, portanto, mais adequados ao enfrentamento dos prementes desafios climáticos, como “reduzir o impacto ambiental negativo per capita das cidades” (ODS 11.6).
Impressões etnográficas do Catalão
Na popularmente chamada comunidade flutuante Nossa Senhora Aparecida do Lago Catalão não existem casas em terra. Há apenas aproximadamente 113 edificações flutuantes que se estendem, a partir da “boca”, lago adentro (Figura 3):
- Figura 3 – Entrada da Comunidade N. Sra. Aparecida do Lago do Catalão. (Fonte: Barata Souza, 25.03.2025)
A primeira experiência de trabalho de campo na área começou em 25 de março último. Fez-se uma sondagem exploratória para conhecer a comunidade e estabelecer contato com os moradores mediante conversas informais e fotografias do lugar.
Apesar dos esforços, foi possível chegar ao Catalão sem contatos prévios com os moradores. No caderno de campo constavam sete nomes (aqui, todos fictícios) referenciados em trabalhos recentes (Santos, 2013; Campos Pinheiro, 2019; Ferreira de Souza, 2020), e reportagens televisivas.
Daí que foi especialmente fundamental poder contar com o sentido comunitário de Edilson, catraieiro com quem atravessei para à comunidade e também morador em um flutuante ali. Ele comentou, durante a travessia, conhecer “todo mundo”. Graças a ele, foi possível chegar à casa do primeiro nome da lista percorrendo o paraná e lado corretos da ilha.
Senso comunitário análogo observado nas duas casas visitadas na ocasião. Todos ali não apenas conheciam Edilson, mas também apelidos, familiares, localizações e profissões dos portadores dos nomes listados. Sem saber, mobilizaram, assim, uma teia capilar de interações e relações humanas que, especializadas, reproduzem identidades, valores e símbolos; animam um particular sentimento de pertencimento ao meio que só faz sentido dentro e a partir daquela teia. Cabe aqui relembrar que o “espaço não existe independentemente de relações sociais humanas” (Frehse et al., 2024: 4). Ou, por outra: são essas que conferem referências, sentidos, profundidades e perspectivas ao meio físico: “sem entender a sociedade com suas redes de relações sociais e valores, não se pode interpretar como o espaço é concebido” (DaMatta, [1985] 1997: 19).
Permaneceu-se uma manhã na comunidade, tendo aportado na “Boca” após uma travessia de 15 minutos, aproximadamente 600 metros e valor de cerca de 30 reais na voadeira de Edilson, a partir do ancoradouro da Cooperativa De Transporte Fluvial Solinegro, no chamado Porto da Ceasa, em Manaus.
O trajeto é praticamente uma linha reta, que se insinua imaginariamente na Fig.2. Ao menos os flutuantes do Catalão localizados nas “bocas” do lago com o rio já se deixam ver da beira-rio em Manaus.
De fato, segundo a cartografia científica, a comunidade se compõe de quatro “bocas” e seus respectivos paranás (Figura 4):
- Figura 4 – Localização da comunidade durante a cheia. (Fonte: Ferreira de Souza, 2020: 47)
Depois de entrar pelo terceiro paraná, aportou-se na casa de cor azul fotografada a partir do barco (Figura 3), logo no início da chamada Ilha do Meio (Figura 4). Ali mora D. Vina, líder comunitária, ausente devido à lida em sua roça de macaxeira. Seu neto Valdo me recebeu e apresentou o seu avô, João. Este demonstrou acolhimento, mas não quis “conversar”, alegando que “não sabia muita coisa”.
Em seguida, atendendo às ordens do avô, Valdo me levou de “rabeta” (canoa motorizada), a uma casa flutuante no segundo paraná, onde a hospitalidade da travessia se repetiria.
O flutuante pertence a Antônio e Maria, casal que mora no Catalão desde 1980. Carpinteiro aposentado ele, desde que chegou, viveu de construir flutuantes, oficio que legou aos quatro filhos. Maria cuida da casa, do pomar e do canteiro adjacentes.
Ao aportar, por volta das 08:30, eles haviam acabado de tomar café em uma ampla varanda. Seguiram-se os cumprimentos, sorrisos, apresentações de Antônio para com à esposa, e convite para tomar café.
Além de café e pão, dividiram histórias, inicialmente suas que, em seguida, se entrelaçaram com as da comunidade. A base da narrativa foi a comparação de tempos mediados por suas memórias: o passado (1980) de apenas cinco flutuantes na comunidade e o presente com mais de 100 edificações (predominantemente casas residenciais); o pequeno flutuante que os abrigou quando chegaram e a espaçosa casa de agora; a serenidade interiorana de antes e a intensidade cotidiana atual de moradores, trabalhadores, turistas, jornalistas e pesquisadores.
No flutuante moram ainda a filha Ana e seu esposo Pedro. Ana estava em Manaus, onde cursa psicologia. Maria, após alguns minutos, dirigiu-se à cozinha para fazer o almoço.
Após quase uma hora de conversa na varanda, seguiu-se o convite de Antônio para conhecer a casa. Orgulhoso, apresentou cada um dos cômodos: três quartos, corredor, sala e cozinha.
Algumas considerações
Essa aproximação exploratória com o Catalão possibilitou articular alguns fios temáticos de pesquisa que, acredita-se, se ramificam por dentro do universo empírico da comunidade: (i) a organização político-espacial dos flutuantes nas águas; (ii) as interações dos moradores com o rio, sobretudo nos ciclos de cheia e vazante; (iii) suas “espacialidades cotidianas”, ou seja, modos, corporal e materialmente mediados de interagir com terceiros, com objetos, animais, plantas, nos e em torno dos flutuantes (Frehse, 2022, p. 5; Frehse et al., 2024, p. 5) e (iv) significados, sentido e valores comunitários que norteiam as relações entre os moradores.
Tais fios, por se tecerem no interior de uma complexa teia de natureza social (Fernandes, 1970, p. 20), e captados via observação participante e entrevistas de natureza etnográfica, foram esticados, desfiados ou mesmo rompidos. Assim, foi possível descrever e explicar os fenômenos submetidos à observação no interior de uma “unidade”, compreendida como “totalidade integrada” (Fernandes, [1959] 1967: 4).
Referências
BARATA SOUZA, Leno José. Cidade Flutuante: Uma Manaus sobre as águas (1920-1967). Tese (Doutorado em História). São Paulo: PUC–São Paulo, 2010.
CAMPOS PINHEIRO, Luana. A Comunidade Flutuante Lago Catalão – Iranduba AM: Um tecido urbano sobre as águas. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo). Belém: UFPA, 2019.
DaMATTA, Roberto. A Casa & a Rua. Rio de Janeiro: Rocco, [1985] 1997.
FERNANDES, Florestan. Fundamentos Empíricos da Explicação Sociológica. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1967.
FERNANDES, Florestan. Elementos de Sociologia Teórica. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo/Companhia Editora Nacional, 1970.
FERREIRA de SOUZA, Deise Nilciane. O Devir das Águas: Os modos de vida dos moradores da comunidade Lago do Catalão em Iranduba. Dissertação (Mestrado em Ciências Humanas). Manaus: UEA, 2020.
FREHSE, Fraya. Ô da rua!. São Paulo: Edusp, 2011.
FREHSE, Fraya et al. Contribuições interacionais de pessoas em situação de rua para a sustentabilidade urbana. RBCS, 39 e39014.2024: 1-21, 2024.
FREHSE, Fraya. Introdução. In: Frehse, Fraya et al. (orgs.) Relato Crítico – Seminário UrbanSus “Everyday Spatialities of Dwelling in the Streets of Covid-19 São Paulo: Articulating Research and Practice”. São Paulo: IEA-USP, 2022, https://gcsmus.org/wp- content/uploads/2022-Frehse_Ulloa_Reis-Relato-Critico- UrbanSus-II-PORT-2.pdf, consultado em 13/11/2023.
SANTOS, Fernando Alvarenga dos. Organização socioeconômica da comunidade Nossa Senhora Aparecida do Lago Catalão – Iranduba/AM. Dissertação (Mestrado em Antropologia). Recife: UFPE, 2013.
ODS relacionado
- ODS 11 – Cidades e Comunidades Sustentáveis
I Pós-doutorando do Centro de Síntese USP Cidades Globais (CS USPCG) do Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP) da USP.
II Professora Associada III do Departamento de Sociologia da USP e supervisora do CS USPCG.