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Microplásticos em solos de hortas urbanas e seus impactos no solo, plantas e saúde humana

por Fernanda Rezende - publicado 18/12/2025 17:20 - última modificação 08/01/2026 11:45

Autoras: Jéssica Costa e Wanda M. R. Günther

Jéssica Costa1, Wanda M. R. Günther2

Introdução


Nas últimas décadas, a poluição por componentes plásticos consolidou-se como uma das maiores ameaças ambientais globais. Embora a maioria dos estudos sobre a poluição plástica inicialmente tenha se concentrado em ecossistemas marinhos, o ambiente terrestre, especialmente o solo, também é destino desses resíduos. Estima-se que a quantidade de microplásticos depositados nos solos supere a encontrada nos oceanos (Rillig e Lehmann, 2020). Essa constatação amplia o foco do debate ambiental nesse tema, revelando que o problema não se restringe ao espaço oceânico, mas afeta também a base dos sistemas agrícolas e alimentares. No contexto urbano, essa preocupação ganha contornos ainda mais complexos.

As hortas urbanas, muitas vezes essenciais para a promoção da segurança alimentar e para o fortalecimento de vínculos comunitários, frequentemente estão expostas à poluição diversa. Compostos orgânicos oriundos de resíduos sólidos, lodos de esgoto, poeira atmosférica e materiais de construção são potenciais vetores de microplásticos. Assim, essas áreas de produção de alimentos podem funcionar como reservatórios e veiculadores de contaminantes invisíveis.

A partir da análise das bases de dados Web of Science e Scopus, realizada em setembro de 2025, sem delimitação de período temporal, foram selecionados os dez trabalhos mais citados que estabelecem relações entre microplástico, solo, planta e saúde humana. A escolha desses estudos teve como objetivo evidenciar possíveis meios pelos quais a presença de microplásticos em solos de hortas urbanas pode afetar as propriedades do solo, o desenvolvimento vegetal e, consequentemente, a saúde humana. Buscou-se, ainda, compreender como esse cenário impõe desafios à sustentabilidade urbana e tensiona o ideal de alimentação saudável frequentemente associado às hortas urbanas.

Tabela ensaio Jéssica Costa

Os trabalhos encontrados demonstram que os microplásticos configuram uma ameaça aos ecossistemas. No caso do sistema terrestre, o solo é reconhecido como um dos principais reservatórios dessa forma de poluição. Trabalhos amplamente citados, como Microplastics as an emerging threat to terrestrial ecosystems (2018) e Microplastics can change soil properties and affect plant performance (2019), ambos desenvolvidos por instituições alemãs, concluem que os microplásticos não apenas modificam as propriedades físico-químicas do solo, mas também afetam o desenvolvimento das plantas. De forma complementar, o estudo holandês Effective uptake of submicrometre plastics by crop plants via a crack-entry mode (2020) demonstra o potencial ingresso de microplásticos na cadeia alimentar humana com possíveis consequências nocivas.

Apesar dos artigos integrarem os termos de busca (microplástico + solo + planta + saúde humana) nos metadados, muitas vezes, a relação entre eles é costurada de modo superficial. A maioria desses artigos utiliza a estrutura do "sanduíche", onde a introdução cita o risco à saúde humana para justificar a importância do estudo. O desenvolvimento do trabalho mede propriedades físicas do solo ou fisiologia da planta. E por fim a conclusão, volta a especular que, "portanto", isso pode ser um problema para a segurança alimentar humana.

Os artigos que provam que o plástico entra na planta param exatamente no momento em que a planta se torna comida. O estudo de Li et al., "Effective uptake of submicrometre plastics... via a crack-entry mode" (2020), prova que o plástico sai do solo e chega à parte comestível (de alface e trigo). A "costura superficial" ocorre porque a ciência está montando um quebra-cabeça onde cada pesquisa só tem uma peça. Os trabalhos usam as palavras-chave (Microplastico/Solo/Planta/Saúde) para sinalizar que as peças do quebra-cabeça fazem parte de quadro geral. Mas, individualmente, os dados empíricos de cada artigo raramente cruzam mais de duas fronteiras (geralmente ficam em Solo-Planta).

Microplásticos no solo: fontes, distribuição e comportamento

De acordo com Rillig e Lehmann (2020) e Guo et al. (2020), os microplásticos são definidos como partículas plásticas com dimensões inferiores a 5 mm, originadas tanto de fontes primárias (como cosméticos) quanto de fontes secundárias (fragmentação de materiais maiores). Em sua revisão bibliográfica, Zhang et al. (2020) apresentam que nos solos, a existência de microplásticos é atribuída principalmente à deposição atmosférica, à presença de resíduos plásticos sem destinação ambientalmente adequada e ao escoamento superficial proveniente de ruas e telhados.

Os solos funcionam como sumidouros de microplásticos, acumulando partículas que dificilmente são removidas por processos naturais (Souza Machado et al., 2019). As propriedades físico-químicas do solo, como textura, teor de matéria orgânica e umidade influenciam o comportamento e a mobilidade dessas partículas. Trabalho de Guo et al. (2020) destaca que a persistência de microplásticos no solo é elevada, uma vez que a degradação dos polímeros é lenta e depende de fatores como radiação ultravioleta e oxigenação. Além disso, as partículas plásticas interagem com agregados do solo e substâncias húmicas, podendo se integrar à estrutura do solo e alterar suas funções ecológicas (Zhang e Liu, 2018). Essas partículas também podem atuar como veiculadores de contaminantes. Por exemplo, sua superfície altamente reativa é capaz de adsorver metais pesados e pesticidas (Chae e An, 2018).

O transporte horizontal (via erosão e escoamento) e o transporte vertical (por infiltração) contribuem para a disseminação de microplásticos entre diferentes camadas do solo, inclusive atingindo zonas radiculares. No ambiente urbano, o acúmulo de microplásticos pode ser ainda mais intenso, pois solos próximos a rodovias e a áreas industriais, condição típica de cidades, apresentam concentrações significativamente maiores de partículas plásticas (Zhang et al., 2020). Em hortas, geralmente localizadas em espaços residuais da cidade, como terrenos baldios e áreas de servidão, a proximidade com fontes emissoras, como pneus, deposição indevida de resíduos e poeira urbana, representa fator do risco ampliado.

Assim, o solo urbano emerge como compartimento-chave do ciclo global do plástico, cuja função de suporte à vida vegetal e de filtro ambiental é gradualmente comprometida pela incorporação de partículas sintéticas.

Efeitos sobre as propriedades do solo e o crescimento vegetal

Os impactos dos microplásticos sobre o solo vão além da contaminação física, pois alteram suas propriedades estruturais, químicas e biológicas, afetando a fertilidade e a capacidade de prestação de serviços ecossistêmicos. Em experimentos conduzidos por Souza Machado et al. (2019), observou-se que diferentes tipos e formas de microplásticos produzem efeitos contrastantes. Fibras tendem a aumentar a macroporosidade e a aeração do solo, enquanto filmes e fragmentos podem reduzir a infiltração e dificultar o armazenamento de água. Além das alterações físicas, há evidências de mudanças na atividade microbiana e na respiração do solo (Souza Machado et al., 2019).

Os nanoplásticos, menores que 1 µm, representam preocupação ainda maior. Pesquisas recentes revelam que essas partículas são capazes de penetrar nos tecidos vegetais (Guo et al., 2020) e afetar o crescimento radicular (Sun et al., 2020). Pesquisas na China (Guo et al., 2020) identificaram que partículas submicrométricas podem adentrar as plantas através de microfissuras nas raízes e se mover para folhas e tecidos.

Em hortas, deve ser considerada, portanto, a possibilidade de transferência direta de partículas plásticas para alimentos consumidos in natura.

Riscos e implicações para a saúde humana

Os impactos dos microplásticos transcendem o solo e as plantas, alcançando a esfera da saúde humana. A presença de microplásticos foi identificada em alimentos e bebidas, evidenciando a exposição humana. Essa exposição ocorre por múltiplas vias. Além da ingestão direta (água, sal, vegetais), também há inalação de microplásticos por poeira urbana e contato dérmico (Zhang et al, 2020). Microplásticos no corpo humano já foi identificado em diversos órgão (Abbas et al., 2025), incluindo o cérebro, como em trabalho publicado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (Amato-Lourenço et al., 2024).

Em uma extensa revisão, Abbas et al. (2025) levantam possíveis consequências da presença de microplásticos no corpo humano. Inclui-se nessa lista, neurotoxicidade (doenças neurodegenerativas, comprometimento cognitivo), doenças cardiovasculares (estresse oxidativo, disfunções endoteliais, implicações cardiometabólicas), complicações respiratórias (estresse oxidativo, inflamação), perdas no sistema endócrino (desequilíbrios hormonais, neoplasias relacionadas a hormônios), comprometimentos do sistema gastrointestinal e reprodutivo (síndrome do intestino permeável, infertilidade) e desregulação do sistema imunológico (doenças autoimunes).

Microplásticos em hortas urbanas

O risco de ingestão de microplásticos talvez possa ser aumentado pelo consumo de produtos de origem nas hortas urbanas. Trabalho de Ihenetu et al. (2024) apresenta cidades como ambientes de maior acumulação de microplásticos, em comparação com áreas rurais, por terem mais fontes de materiais plásticos.

No caso das hortas, os microplásticos, assim como já foi demonstrado em outros ambientes de cultivo de vegetais, podem aderir à superfície de folhas, acumular-se em raízes ou serem incorporados aos tecidos vegetais. Além disso, podem atuar como veiculadores de contaminantes químicos e biológicos, incluindo pesticidas e microrganismos patogênicos. Essa característica amplia a complexidade toxicológica da exposição, já que o risco não decorre apenas do polímero em si, mas também das substâncias e organismos que ele transporta. De modo geral, a toxicidade direta dos microplásticos para humanos ainda é pouco compreendida. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece a necessidade urgente de padronizar métodos de detecção e avaliação de risco para esse tipo de contaminante emergente.

A dimensão socioambiental do problema é igualmente relevante. Em muitas cidades, as hortas urbanas estão localizadas em áreas periféricas. Assim, a contaminação por microplásticos pode aprofundar desigualdades ambientais, expondo comunidades mais vulneráveis a riscos invisíveis. Apesar desses riscos, as hortas urbanas mantêm importância estratégica para a sustentabilidade e resiliência urbana, além de promovem a educação ambiental e a segurança alimentar local. O desafio é integrar essas funções positivas com estratégias de mitigação da poluição difusa, evitando que os espaços de cultivo se tornem fontes de exposição a micropoluentes.

Referências

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1 Pós-doutoranda do Centro de Síntese USP Cidades Globais (CS USPCG) do Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP) da USP.

2 Professora Titular do Departamento de Saúde Ambiental da Faculdade de Saúde Pública/USP; Coordenadora acadêmica e supervisora do CS USPCG/IEA/USP.