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São Paulo, da Cidade Balneário ao Sesc Interlagos: Sonho e Legado

por admin - publicado 11/02/2026 17:25 - última modificação 31/03/2026 10:03

Autores: Adriana L. de Oliveira, Alejandro J. Dourado, Francisco L. Biazini, Gilson V. Monteiro, Grislayne G. L. da Silva, Jéssica R. da Costa, Leno J. B. Souza, Maria das Graças B. Gondim, Roberta F.P. Galvão, Sabrina de O. Anício, Thalita S. Dalbelo e professora Maria da Penha Vasconcelos

Adriana L. de Oliveira, Alejandro J. Dourado, Francisco L. Biazini, Gilson V. Monteiro, Grislayne G. L. da Silva, Jéssica R. da Costa, Leno J. B. Souza, Maria das Graças B. Gondim, Roberta F.P. Galvão, Sabrina de O. Anício, Thalita S. Dalbelo, e Professora Maria da Penha Vasconcelos[I]

 

A participação do SESC na 14ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, 2025, mostra o vínculo da instituição com esta categoria profissional, seja com o apoio direto ao evento, seja no histórico de concursos de arquitetura que promove, cujos projetos premiados costumam ser destaque nas Bienais, nesta em especial, com a apresentação de vários projetos de unidades do SESC.

Focalizamos no emblemático Centro de Cultura, Esporte e Lazer SESC Interlagos, inaugurado em 1975, que comemorou 50 anos de promoção do desenvolvimento social ampliado em 30/10/2025, oportunidade para destacar a sensibilidade da instituição com a cidade e para considerações sobre o legado arquitetônico e urbanístico desta unidade especificamente.

O SESC Interlagos oferta generosa infraestrutura de suporte às artes, à cultura e aos esportes, principalmente, além de estruturas complementares de saúde, convivência e lazer no grande espaço de qualidades paisagísticas singulares, com porte de um parque urbano.

Estratégia Urbanística

A concepção urbanística da inserção do complexo na cidade é um ponto especial nesta análise. Com área de 45,33 ha, equivalente a 30% do Parque Ibirapuera (Box 1), localizado às margens da Represa Billings na zona urbana Sul, em ambiente paisagisticamente privilegiado, que em sua origem apenas insinuava a tendência de crescimento que alcançou, meio século após sua inauguração, instiga à pesquisa.

Percorrendo memórias sobre o planejamento da cidade de São Paulo, o SESC Interlagos pode corresponder ao vislumbre do que teria sido o sonho paulistano de ter um espaço balneário na cidade, como idealizado no Plano Agache, em 1920: uma “cidade satélite balneário”, entre as represas Guarapiranga e Billings, deixado escapar pela frágil aposta no planejamento urbano como meio de assegurar futuros plausíveis, apesar de que foi atropelado pela crise de 29 e as Revoluções de 30 e 32 (Rolnick, 2009).

Imaginar que toda uma grande área, à exemplo do espaço do SESC Interlagos, pudesse ter sido preservada no entorno das represas, privilegiando a dimensão ambiental, ecológica e paisagística, tão importante para uma capital que, na condição de cidade interiorana, depende dessa oferta para uma população que se agigantou, conformando a grande São Paulo, é de se lamentar.

O crescimento de São Paulo do período pós-industrial, nos anos 1950, caracterizou-se pela atração de população e serviços para a Zona Leste e algumas áreas das Zonas Norte e Sul. A periferia urbana se expandiu na franja sul de São Paulo, especialmente em áreas de proteção de mananciais, mostrando como a dinâmica metropolitana incorpora territórios ambientais frágeis ao processo de urbanização (Bertolotti; Carlos, (2005).

Apesar da perda da concepção da cidade balneário, considerando o transcurso que teve a expansão da cidade, a escolha da localização deste equipamento resulta acertada para uma ocupação que foi progressivamente se consolidando e densificando. Isto reforça a pertinência e atualidade do nexo urbanístico do equipamento com relação ao entorno, exercendo sua função social e educacional, tanto quanto constituindo-se em reserva de espaço aberto de porte na franja Sul da cidade. Espaço testemunho, da possibilidade de concretização do sonho da “cidade balneário”, preenche o papel de preservação ambiental e de amortecimento das pressões por ocupação na borda de importantes mananciais que representam as Represas Billings e Guarapiranga para suprimento de água para a cidade de São Paulo. Hoje, o Programa São Paulo Mais Verde não tem maior alcance que buscar reverter, com ações socioambientais, a ocupação desordenada que avançou sobre as áreas de proteção dos mananciais.

Comparativamente às áreas dos 10 maiores parques e espaços abertos de São Paulo, o SESC Interlagos tem dimensões de parque urbano, espaço aberto, acessível à população.

Ensaio SESC - Box - 1

Arquitetura do Centro de Cultura, Esporte e Lazer SESC Interlagos

O Projeto Arquitetônico do Escritório Botti Rubin Arquitetos, com paisagismo de Maddalena Re e Rosa Kliass, desenvolve diverso programa arquitetônico com 90.052 m2 de área construída[1]. O maior SESC da capital abrange: um setor cultural, integrado por biblioteca, bibliotecas móveis, teatro para 330 pessoas, espaço para shows, centro de educação ambiental, artes e tecnologia, espaço para exposições; um setor de esportes, com campo de futebol e mini campos, quadras poliesportivas, de areia e de tênis, sala de ginástica multifuncional, parque aquático, pista de caminhada e corrida, equipamentos esportivos em áreas internas e externas; um setor de suporte à saúde, com RX e clínicas odontológicas; e ainda espaços de apoio à convivência e lazer, com cafeteria, lanchonetes, restaurante, salas multiuso, lojas, parques lúdicos, áreas de convivência, espaço de brincar, quiosques com churrasqueira, além das dependências de serviço, centrais de atendimento, estacionamento e apoio.

Ambiência do equipamento

A sequência de imagens do SESC Interlagos ilustra os elementos construtivos e a espacialidade deste equipamento.

Entrada da sede social: predominância da horizontalidade

Ensaio Sesc - Entrada da sede social _ Largura - 735

Vista da sede a partir de visuais do plano das piscinas: linguagem brutalista da arquitetura. A dimensão vertical do edifício aparece, mediada por terraços em vários níveis

Ensaio Sesc - Vista da sede do plano das piscinas_Largura-735

Edifício debruçado sobre áreas de esportes e lazer com vista da represa Billings

Area piscina -1

Visuais internas: transparências, ventilação cruzada, fluidez dos ambientes.

Area interna - L 735

Pelos caminhos

Ensaio Sesc - Pelos caminhos-1_largura 240

Campo de futebol acomodado nas curvas de nível do terreno

Ensaio Sesc Campo de futebol_largura - 735

Com dimensões de um parque urbano, tudo surpreende no SESC.

Implantação e espacialidade

Da percepção de quem chega na sede pelo nível da entrada principal, o edifício não é mais que uma presença de dimensão horizontal dominante, dissimulando o grande porte do edifício.

Na implantação da sede, tirou-se partido do declive situando-a num ponto que permite o desenvolvimento do edifício em vários pavimentos, em planos escalonados, como uma grande arquibancada a observar o enorme espaço onde acontecem múltiplas atividades: parque aquático, quadras, espaços de lazer etc. As áreas de convivência também assim dispostas, em diversos níveis, intensificam a mútua visibilidade dos participantes, que podem compartilhar da belíssima paisagem de grandes visuais que alcançam até o plano d’água da barragem Billings.

A robustez da edificação é dissimulada verticalmente pela integração de planos em campos visuais que se interpenetram. Horizontalmente, a fluidez acontece pelo diálogo com o espaço externo, obtido com as transparências transversais que incorporam perspectivas do ambiente natural, agregando qualidade e conforto ao edifício, assim como incrementando sinergia entre os distintos públicos usuários do equipamento, em permanente troca ambiente externo/ambiente interno.

O cuidado com a implantação se reproduz tanto na locação do campo de futebol, de grande dimensão e encaixado na sinuosidade das curvas de nível do relevo, quanto na locação das 753 vagas de estacionamento, a céu aberto, adaptadas à declividade e às curvas que modelam o relevo.

Linguagem arquitetônica

O edifício sede tem linguagem arquitetônica datada, de concepção estética brutalista, predominando elementos robustos em concreto aparente, na estrutura principal e nos elementos de marcação de fachada, inclusive.

O brutalismo da edificação é amenizado pela delicadeza da implantação e pela qualidade e leveza da ambiência que consegue realizar com a interpenetração de planos verticais e horizontais que asseguram visuais de amplitude para a barragem de toda fachada nos diversos pavimentos.

Conforto ambiental

Como consequência desta espacialidade, espaços fluidos, por onde se integram as atividades e diferentes funções, a ventilação transpassa os ambientes, capturada de todas as direções, percorre o interior deixando o ambiente com temperaturas amenas. Por diversas estratégias, os espaços semiabertos, com inserção de áreas verdes e iluminação zenital na cobertura do último pavimento, capturam a luz natural que atravessa o edifício. Nos registros da visita foi notificado que as proporções do edifício e as condições de nebulosidade resultam na dependência de complementação de iluminação artificial, maior ou menor.

Sustentabilidade

Em análise a posteriori, há 50 anos pós construção, a impressão primeira é de que o edifício se encontra em muito bom estado de conservação, refletindo a adequada escolha de materiais na perspectiva do ciclo de vida do edifício.

A linguagem da estética brutalista e o uso do concreto como elemento construtivo central, certamente, em reedição deste projeto, tenderia a utilizar os processos sustentáveis de fabricação, com utilização de materiais reciclados (como agregados e cinzas volantes), o uso racional de água, uso de subprodutos industriais com substituição parcial do cimento para reduzir emissões de CO2.

Outros requisitos incorporados na atualização da pauta de projetos de arquitetura sustentável foram os sistemas de captação de água pluvial, utilização de placas fotovoltaicas para produção de energia solar, reuso do esgoto sanitário, gestão de resíduos sólidos, todos passíveis de serem implementados, pois, supõe-se que, como pautas recentes, não foram contemplados no projeto inicial. Entretanto, grande estrutura de apoio a serviços e manejo de resíduos, incentivo ao público quanto à segregação de resíduos em lanchonetes e horta, sinalizam que a gestão atual está atenta aos requisitos de sustentabilidade.

Nos anos 70, no contexto do milagre brasileiro, com a realização das grandes obras de infraestrutura, o dimensionamento e programa arquitetônico das áreas construídas do SESC poderiam ser, atualmente, apontados, como excessivos à época, refletindo os diferentes contextos econômico e político, mas que, o passar do tempo se encarregou de equalizar.

Analisando hoje, com base na realidade do contexto urbano e socioambiental atual, o SESC, na sua generosa escala, se coaduna ainda melhor a um universo populacional muitas vezes maior, complementa e atenua a carência de urbanidade de grandes bairros no seu entorno, o que lhe incrementa significado para a cidade.

Saudamos o SESC Interlagos pelo legado de 50 anos de serviço à cidade de São Paulo. Legado que se estende ao reconhecido valor arquitetônico, sociocultural e ambiental deste equipamento, cada dia mais importante para a zona da cidade em que se insere, e por deixar o testemunho de que persistir em boa estratégia urbanística, com objetivos de alcance maior para o bem coletivo, confere potência para atravessar eventuais circunstâncias e levar as idealizações do plano dos sonhos à realidade.

Referências

BERTOLOTTI, Frederico; CARLOS, Ana Fani A. A produção da periferia urbana em área sob proteção aos mananciais na franja sul da metrópole de São Paulo. In: Simpósio Internacional de Iniciação Científica da USP, 2005. Resumos. São Paulo: USP, 2005.

ESTRELLA, Giuliana P. A. Espaços educadores, arquitetura inclusiva: a experiência no Centro de Cultura, Esporte e Lazer Sesc Interlagos. Dissertação de mestrado: PUC-SP, 2025.

ROLNIK, Raquel. A história do autódromo de Interlagos começou com um projeto de balneário entre as represas de SP. Blog da Raquel, publicado em 15/10/09.

ODS relacionados

  • ODS 11 – Cidades e Comunidades Sustentáveis
  • ODS 13 – Ação Contra a Mudança Global do Clima
  • ODS 15 – Vida Terrestre

 


[I] Grupo de pós-doutorandos do Centro de Síntese USP Cidades Globais do IEA-USP.

[1] Encontramos divergência com relação a área construída nas publicações sobre o edifício: 90.052 m2 e 48.837 m2.