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Relações Brasil/França: Imagens, Intermediações e Recepção

por Richard Meckien - publicado 18/10/2019 16:30 - última modificação 30/10/2020 06:42

A presença francesa no meio cultural brasileiro nos séculos XIX e XX é muito significativa e amplamente conhecida na literatura brasileira e nos estudos comparados. Quanto à imagem do Brasil na França, temos o relato de viajantes franceses (em especial Ferdinand Denis, Auguste de Saint-Hilaire e Adèle Toussaint‐Samson) durante o período colonial. Sobretudo do final do século XIX e início do século XX, para a literatura e a imprensa nacional contribuem escritores cuja erudição lhes permite acompanhar o meio literário francês.

Muitos desses autores estão atualmente bastante esquecidos e procura-se apresentar a relevância que tiveram em sua época, seja pela temática ou pela recepção de novas propostas para o comportamento feminino. Aborda-se também a circulação dos livros franceses em São Paulo, através do estudo da Casa Garraux. Quanto à epistolografia dos anos 1930, temos a correspondência de Mário de Andrade com personalidades francesas, sendo ele referência nos estudos sobre o negro no Brasil

Na área de conhecimento Literatura Comparada, procuramos desenvolver estudos relativos às relações Brasil/França nas respectivas literaturas brasileira e francesa centrados preferencialmente nos séculos XIX e XX.

Trata-se da apresentação do resultado de pesquisas realizadas por professores que compõem esse grupo de pesquisa, visando divulgar nossos trabalhos e aprofundar os estudos das imagens, intermediações e a recepção das referidas literaturas.

Gratuito, este curso será desenvolvido ao longo de cinco encontros, sempre das 14:00 às 16:00, a partir de 04/11/2020.

Objetivo

O objetivo deste curso é retomar a memória das relações Brasil/França e detectar e analisar suas possíveis ressonâncias no pensamento, na cultura e na literatura brasileira nos séculos XIX e XX, sem perder de vista que tais relações se deram e ainda se dão assimetricamente. Quanto à recepção, este projeto contempla também a recepção criativa, traduzida em termos teóricos como diálogo intertextual em nossa produção literária.

Coordenação

Grupo de Pesquisa Brasil-França

Público-alvo

Considera-se o público-alvo os estudantes de pós-graduação, os professores da rede pública e privada, os graduados em áreas afins, os estudantes de graduação e demais interessados.

Critérios de avaliação

75% de frequência às aulas.

Critérios de Seleção

A adequação dos inscritos ao público-alvo já os qualifica para acompanhar o curso. A seleção será feita por ordem de inscrição.

Cronograma

  • Inscrição: de 05/10 a 16/10 pelo sistema Apolo (http://e.usp.br/gen).
  • Divulgação das listas de matriculados e de espera: 19/10.

 

Número de vagas

100

Local

O curso será ministrado de forma online via plataforma remota Zoom. O link de acesso e outras informações pertinentes serão enviados por e-mail aos inscritos.

Programação

4 de novembro | 14:00-16:00

A intertextualidade e o universalismo nas crônicas machadianas
Ministrante: Dirceu Magri (Universidade Federal de Viçosa)

Considerado pela crítica um dos maiores, senão o maior nome da literatura brasileira, Machado de Assis, além de leitura obrigatória nas universidades, extramuros é ainda um daqueles escritores que vende bem. Romancista, começou escrevendo no jornal, veículo que frequentou por mais de 40 anos e no qual produziu romances, poesias, contos, crítica e crônicas. Estas últimas refletem não só a extensão, mas a qualidade do cabedal de leitura de Machado, leitor contumaz. Ledor dos clássicos espanhóis, ingleses e italianos, são, de fato, os franceses que nos oferecem um embarras de richesse sempre que nos debruçamos sobre tais crônicas. Pretende-se desse modo traçar a presença dos franceses nas crônicas machadianas, ressaltando aspectos de um universalismo - ecos de filósofos e escritores -, que ali ressoa e faz de Machado um escritor cuja arte é ao mesmo tempo brasileira e universal.

Escritores démodés: Victor Margueritte, Chrysanthème e Benjamin Costallat
Ministrante: Regina Salgado Campos (Universidade de São Paulo)

No período posterior à Primeira Guerra Mundial, houve modificações no comportamento feminino registradas em obras literárias francesas e brasileiras. Nos dois casos, os autores de maior sucesso na época acabaram por desaparecer no registro atual das melhores realizações literárias do período 1919-1930. Para a França, trataremos de Victor Margueritte e seu best-seller La Garçonne e, no Brasil, de seus leitores: Mme Chrysanthème com Enervadas (1922) e Benjamin Costallat com Mademoiselle Cinema (1923). São os "escritores démodés" de que fala Brito Broca em 1958.

9 de novembro | 14:00-16:00

Um romance naturalista esquecido: de Adherbal de Carvalho, A Noiva
Ministrante: Norma Wimmer (Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho")

O naturalismo, tal como era praticado na França, teve expressivo número de seguidores no Brasil. Este fato parece ter ocorrido porque, por um lado, o espírito romântico, entre nós associado ao próprio regime monárquico, parecia ver esgotadas suas fontes de inspiração; por outro, o "moderno" espírito científico, associado ao pensamento republicano que, aos poucos, foi-se impondo, passou a demandar, dos artistas de modo geral e, particularmente, dos literatos, outra percepção da realidade: era essencial a representação rigorosa  da "verdade". Dentre os autores brasileiros que buscaram seguir a nova tendência aqui difundida entre outros, pelos romances de Eça de Queiróz e, notadamente pelos de Émile Zola e por sua concepção do romance experimental, muitos acabaram relegados ao esquecimento. É o caso de Adherbal de Carvalho, que foi jurista, jornalista, poeta e escritor. Sua produção, como a de tantos outros naturalistas brasileiros, não foi incluída no cânone. Carvalho publicou, em 1888, em São Paulo, na editora de Felinto de Oliveira e do Dr. Brazílio, A Noiva – esçorço de um romance naturalista - seu único texto de ficção em prosa. Pouquíssimo se fala, em nossos dias, sobre esse romance naturalista, do qual sobrevivem apenas raros exemplares. O objetivo da exposição a ser apresentada é o de resgatar o texto de Carvalho e de nele situar ecos das propostas do naturalismo europeu, notadamente do de Zola.

Traços da França nas primeiras linhas de Júlia Lopes de Almeida
Ministrante: Maria Cláudia Rodrigues Alves (Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho")

A escritora Julia Lopes de Almeida, uma das idealizadoras da Academia Brasileira de Letras, poucas vezes foi lembrada nos manuais de história da literatura brasileira. Seu romance A Falência, indicado como leitura dos recentes vestibulares, revisita uma de suas mais importantes obras. No entanto, a primeira obra em prosa da autora é hoje praticamente uma relíquia. Traços e Illuminuras, publicado em 1887 compila 22 contos nos quais notamos a presença francesa. Seja na referência ao glamour de Paris ou à menção de Jules Michelet e Adrienne Lecouvreur, interessa-nos verificar o olhar de Julia Lopes de Almeida sobre a França e a cultura francesa em seus primeiros contos.

11 de novembro | 14:00-16:00

Por uma história das livrarias de São Paulo: o caso Garraux e a circulação dos livros franceses (1850-1910)
Ministrante: Marisa Midori Deaecto (Universidade de São Paulo)

Nesta seção pretendemos apontar alguns caminhos metodológicos para o desenvolvimento da história das livrarias. Para tanto, vamos enfocar uma figura central na organização do comércio livreiro em São Paulo: Anatole Louis Garraux. A Casa Garraux, como ficou conhecida, foi fundada em 1859 e logrou se tornar a principal loja de importação de artigos de luxo e de livros franceses no último quartel do século. Com o enriquecimento da cidade e sua inserção na economia agroexportadora, o negociante francês fez de seu estabelecimento o principal ponto de sociabilidade dos intelectuais da cidade. A trajetória da livraria será analisada no movimento das trocas internacionais e das transferências culturais, sem, todavia, perder de vista aspectos locais da expansão da economia de bens culturais. Em última análise, nosso objetivo é apontar alguns caminhos para a análise das condições materiais para a difusão da literatura e da cultura francesa em São Paulo, na virada do século XIX para o XX.

18 de novembro | 14:00-16:00

Imagens, representações e projetos de nação: relatos de viajantes franceses no Brasil
Ministrante: Ana Beatriz Demarchi Barel (Universidade Estadual de Goiás)

Durante todo o período da História do Brasil conhecido como período colonial, inúmeros foram os viajantes que vieram ao Brasil, por razões as mais variadas. Esses viajantes registram sua experiência no Novo Mundo quer seja através de imagens, quer seja através de textos, promovendo uma ampla divulgação a um público interessado em novidades e informação, de costumes, paisagens e populações desconhecidos e "exóticos". Essa produção pictórica e escrita se insere, muitas vezes, em projetos expansionistas promovidos por Estados no contexto colonialista. Quer se trate de projetos pessoais ou de missões – diplomáticas, científicas, artísticas – esses viajantes deixarão registros de sua estada em nosso país. De uma lista extensa de nomes, escolhemos alguns dos mais significativos representantes deste interesse por estabelecer, de uma forma ou de outra, uma relação franco‐brasileira. Assim, analisaremos os textos de : Ferdinand Denis – Le Brésil, ou histoire, mœurs et coutumes des habitants de ce royaume (1822); Lettres familières et fragments du journal intime de Ferdinand Denis à Bahia (1816‐1819) (1957), Auguste de Saint-Hilaire - Voyage aux sources du rio S. Francisco et dans la province de Goyaz (1847) e Adèle Toussaint‐Samson – Une parisienne au Brésil (1883). Os fragmentos analisados serão propostos em português e/ou em francês (nesse caso, cotejados com tradução em português, realizada pela proponente do projeto).

23 de novembro | 14:00-16:00

A Mário de Andrade, africanista: cartas de Nancy Cunard e Roger Bastide
Ministrante: Ligia Fonseca Ferreira (Universidade Federal de São Paulo)

Na década de 1930, Mário de Andrade era considerado por especialistas estrangeiros como uma referência no campo dos estudos sobre o negro no Brasil, solicitado a participar de projetos editoriais realizados na França ou ainda a servir de "orientador" a intelectuais franceses desejosos de se aprofundar no tema. Nesta aula, pretende-se evocar aspectos pouco conhecidos de sua atuação, a partir da correspondência trocada com a escritora, editora e ativista Nancy Cunard e o sociólogo Roger Bastide.

Monteiro Lobato, crítico de literatura francesa: séculos XIX e XX
Ministrante: Ana Luíza Bedê (Universidade Federal de Viçosa)

Além de grande leitor de romances, contos e poesias, a curiosidade literária de Monteiro Lobato estendia-se também ao teatro, às memórias, às crônicas e às correspondências. Interessava-se pelas obras de diferentes países e das épocas mais diversas. Nesta aula, pretendo examinar quais aspectos Lobato admirava ou reprovava em alguns dos escritores franceses dos séculos XIX e XX que mais o instigavam. O autor de Urupês partilhava seus comentários com um interlocutor privilegiado: o escritor mineiro Godofredo Rangel. Nesse sentido, A Barca de Gleyre, que encerra a correspondência de Lobato e Rangel ao longo de  quarenta e cinco anos, será fundamental para abordarmos as reflexões de Lobato sobre Honoré de Balzac (1799-1850), Gustave Flaubert (1821-1880),  Edmond (1822-1896) e Jules (1830-1870) de Goncourt, Émile Zola (1840-1902), Anatole France (1844-1824), Guy de Maupassant (1850-1893) e Antoine Albalat (1856-1935).