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Workshop identifica obstáculos e caminhos para a cooperação academia-indústria

por Mauro Bellesa - publicado 30/06/2017 15:25 - última modificação 28/07/2017 10:03

"Ciência & Industria - Construindo Novos Caminhos em Tempos Desafiadores" foi o tema do encontro da série Strategic Workshops realizado no dia 19 de junho.
Ciência e Indústria mesa 1
A partir da esq., Paulo Saldiva, Cristovam Buarque, Marco Antônio Zago, José Eduardo Krieger e Marcos Buckeridge durante a abertura do encontro

O desempenho do Brasil em termos de inovação tem sido prejudicados por diversos fatores, principalmente pela falta de definição do novo marco regulatório para a ciência, tecnologia e inovação (CT&I) e pelos cortes orçamentários. O workshop Ciência & Indústria - Construindo Novos Caminhos em Tempos Desafiadores, realizado no dia 19 de junho, discutiu várias iniciativas acadêmicas, empresarias e das agências de fomento para a superação desses e outros entraves à inovação.

Foi mais um encontro da série Strategic Workshops, organizada pela Pró-Reitoria de Pesquisa (PRP) da USP e pelo IEA, com apoio da Academia de Ciências do Estado de São Paulo (Aciesp). O Núcleo de Política e Gestão Tecnológica (PGT) da USP também atuou na organização do evento.

Papel da USP

Na abertura do workshop, o reitor da USP, Marco Antônio Zago, disse que é preciso reconstruir o país a partir da sociedade, não a partir dos políticos, e que adotou duas diretrizes em sua gestão dentro dessa perspectiva: a preservação da autonomia da universidade, “essencial para que exerça sua função central na sociedade”, e a ampliação do relacionamento externo, pois “é muito fácil falar da sociedade, mas muito difícil ouvi-la e fazer o que ela precisa”.

No âmbito desse relacionamento, Zago destacou o papel do Conselho Consultivo da USP, “com representantes de setores da sociedade, que está de fato influindo na vida da Universidade”.

No que se refere às ações para maior interação da USP com o setor produtivo, ele exemplificou com a assinatura de contratos com a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) e o projeto para a construção de um prédio com 12 mil m2 para iniciativas ligadas à inovação e ao empreendedorismo.  “Nesse local, jovens pesquisadores trabalharão com produção de games, soluções digitais para comunicação, equipamentos hospitalares e outros temas, num ambiente inovador e com forte relação com o mundo empresarial”.

Além de Zago, participaram da abertura o senador Cristovam Buarque (PPS-DF), o diretor do IEA, Paulo Saldiva, e o presidente da Academia de Ciências do Estado de São Paulo (Aciesp), Marcos Buckridge.

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    Conceitos, Legislação e Diretrizes

    A primeira sessão do workshop tratou dos empecilhos conceituais e regulatórios para a parceria entre instituições de ciência e tecnologia (ICT) e empresas. Para o presidente da Embrapii, Jorge Guimarães, o modelo de sua entidade pode ajudar a pensar na quebra de algumas dessas barreiras, por já ter se tornado uma experiência pedagógica em seus poucos anos de funcionamento.

    O objetivo central da Embrapii é promover a inovação nas indústrias, “cuja grande maioria não possui centros de pesquisa”, por meio da diminuição de risco e custos para o desenvolvimento de soluções e produtos, explicou Guimarães.

    A empresa também busca fomentar a colaboração entre empresas e as ICTs, com estas sendo credenciadas como unidades Embrapii destinadas à execução de projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) para as indústrias.

    De acordo com Guimarães, esse modelo permite a negociação direta entre a unidade credenciada e a indústria. Com isso, os prazos de negociação são encurtados. O repasse de recursos da Embrapii é de natureza privada, o que permite à unidade de CTI contratar profissionais específicos para o projeto por meio da CLT.

    “Atualmente temos 34 unidades credenciadas (12 são universidades) e até o final do ano termos 42, sendo 17 institutos privados e cinco públicos, entre eles o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) do Estado de São Pauloualo. As 140 empresas participantes serão 200 no final do ano, com 280 projetos.”

    Marco legal

    A definição e implantação do novo marco regulatório para CT&I foi o tema da exposição da presidente da Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência (SBPC), Helena Nader.

    Ela lembrou o fato de o Brasil responder atualmente por 2,7% da produção científica mundial, ficando em 13º lugar no ranking científico internacional, mas “com um nível de eficiência deprimente em termos de inovação, onde está na 69ª posição, com a queda de 6 posições de 2015 para 2016”.

    Ela historiou o processo em andamento de definição do novo marco legal para CT&I desde a inclusão do artigo 219-A na Constituição Federal por meio da aprovação por unanimidade da Emenda Constitucional nº 85, promulgada em fevereiro de 2015.

    O desafio, segundo ela, é a derrubada dos oito vetos da ex-presidente Dilma a artigos da Lei 13.243. Além disso, “a regulamentação da lei pode anular o que já está nela e na Constituição”. Ela defendeu também a implantação de marcos legais de CT&I nos estados e no Distrito Federal. “O único estado que fez algo foi o Acre, cujo Executivo encaminhou à Assembleia Legislativa uma proposta de adequação da legislação.”

    Disse ainda que é preciso aprimorar a Lei do Bem (11.196/05), que estabelece incentivos fiscais a empresas inovadoras, alterar o Decreto 8.772/16, que regulamenta a Lei 13.123/15, que trata do acesso ao patrimônio genético e conhecimentos tradicionais, e barrar a tramitação de um projeto para uma nova lei das licitações que vai contra tudo que foi definido no marco legal.

    Projetos mobilizadores

    Para o presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Luís Davidovitch, as diretrizes para o incremento e integração da ciência  e da indústria são: a redução dos entraves burocráticos, definição de marcos regulatórios, financiamento contínuo e adequado à pesquisa, reforma da educação – com indução da colaboração entre academia e indústria –, projetos mobilizadores e ambiente econômico favorável.

    “O exemplo que gosto de citar de projeto mobilizador é o programa espacial americano, desenvolvido depois que o primeiro satélite soviético foi lançado.” Como exemplo do passado de atuação do setor privado na pesquisa, citou os projetos de inovação para telecomunicações desenvolvidos pelos Laboratórios Bell. “E na atualidade, há o trabalho para desenvolver o computador quântico feito por pesquisadores na Microsoft, IBM e Google.”

    Entre as dificuldades do cenário brasileiro, Davidovitch mencionou a queda da participação de produtos industrializados nas exportações brasileiras desde 2015, as dificuldades orçamentárias do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) e a perda de cérebros, com  jovens pesquisadores preferindo continuar no exterior depois da conclusão de suas pesquisas em outros países.

    À título de comparação, ele citou a importância da participação da iniciativa privada no financiamento da pesquisa  nos EUA: “No MIT [Instituto de Tecnologia de Massachusetts], 19% dos recursos para pesquisas são pagos por empresas. A Universidade de Princeton recebeu US$ 400 milhões de ex-alunos em 2015, a Universidade Harvard obteve US$ 650 milhões.”

    Ensino

    As dificuldades na pós-graduação foram abordadas pelo secretário de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do MCTIC, Álvaro Toubes Prata. Ele destacou o desenvolvimento do sistema desde os anos 60, mas criticou a falta de apoio que recebe: “A primeira dissertação de mestrado é de 1963 e a primeira tese de doutorado é de 1967. O que fizemos nesse curto período é incrível. O sistema tem melhorado cada vez mais, mas em função das restrições orçamentárias não tem recebido os incentivos que merece”.

    Prata também falou sobre a necessidade de mudanças na graduação, que “não sabemos se é uma formação ou uma forma de profissionalização”. Ele defende que a profissão de “empreendedor” (independentemente do curso de formação) seja mais valorizada. “Há vida virtuosa para que gosta de ciência fora do ambiente universitário.”

    Ciência e Indústria - Cristovam Buarque
    Cristovam Buarque: "Razões corporativas da academia levam à falta de rigor na avaliação de programas de pesquisa"

    Commodities x manufaturas

    Para Cristovam Buarque, "não bastam os políticos, é preciso haver ideias, filosofias na cabeça dos políticos”. O que está acontecendo é que “não temos coesão social e política e não temos um rumo para onde seguir”. Afirmou que “a indústria metal-mecânica se foi nos anos 80 e não nos preparamos para a nova era do conhecimento e para a falta de recursos.”

    Vanderlei Salvador Bagnato, coordenador da Agência USP de Inovação (Auspin) comentou que, ao contrário do que fora dito pelo senador, “o Brasil tem um rumo: ser fornecedor de comida para o mundo”.  Enfatizou que as commodities do agronegócio possuem muita tecnologia no seu desenvolvimento e produção. A presidente do CNPq concordou com Bagnato e afirmou que “o Brasil já é o pais da segurança alimentar”. Ressalvou, no entanto, que a Embrapa vai perder competitividade em razão das restrições orçamentárias.

    Ao comentar esses questionamentos, Buarque disse que não investir em tecnologia é trabalhar com demanda física. “Carne é mais importante que computador, mas computador a gente troca quando surge uma inovação”. Outra fragilidade do modelo, segundo ele, é que “a soja será levada para a África por empresários brasileiros, a produção ficando mais próxima da China”.

    Mentalidade

    Ainda em sua exposição, o senador apresentou críticas à academia e ao empresariado. Quanto à primeira, disse que razões "corporativas" levam à falta rigor na avaliação de programas de pesquisa "que, apesar de bons, são mais de interesse dos pesquisadores envolvidos do que da sociedade".

    Buarque também fez críticas severas à mentalidade do empresariado brasileiro, “acostumado a viver às custas do Estado, sonegar impostos, importar tecnologias antigas e explorar o trabalhador”. Para mudar essa mentalidade, ele sugere que o BNDES só incentive empresas preocupadas com a inovação tecnológica e que alguns impostos sejam substituídos por tributo específico para o apoio à ciência e à tecnologia.

    No debate após as exposições, o pró-reitor de Pesquisa da USP, Eduardo Krieger, disse que entre os problemas citados pelos expositores não figurou o fato de o Brasil “ser campeão” em economia fechada: “Por que o empresariado investiria se a economia é fechada, se não tem de competir?”. Davidovitch respondeu que há outros mecanismos de estímulo: “A Oracle começou com uma encomenda CIA para um banco de dados”.

    Estímulos às indústrias

    A segunda sessão do encontro foi dedicada às formas de estimular a demanda da indústria por ciência. O coordenador da Agência USP de Inovação, Vanderlei Salvador Bagnato foi o moderador e destacou que a melhor forma de promover isso é a criação pelas universidades de parques tecnológicos e incubadoras. “A USP não possui um parque tecnológico, mas tem incubadoras, até em associação em cidades onde não possui campus.”

    Ciência e Indústria - Carlos Américo Pacheco
    Carlos Américo Pacheco: "A cooperação universidade-empresa é importante, mas não substitui o esforço interno das empresas”

    Um dos expositores da sessão foi o presidente do Conselho Técnico-Administrativo da Fapesp, Carlos Américo Pacheco, para quem a inovação é um fenômeno empresarial dependente de investimento, crédito e outros fatores: “As empresas inovam por pressão do mercado. A cooperação universidade-empresa é importante, mas não substitui o esforço interno das empresas.”

    Financiamento privado

    Por outro lado, ele considera que as universidades não devem ver na cooperação com empresas uma forma de financiamento, mas sim uma maneira de ampliar as oportunidades para seus alunos. “No futuro o dinheiro virá do setor privado, mas vai ficar nele, não vai financiar as universidades”.

    “Em todo lugar do mundo as políticas nacionais estimulam essa cooperação como forma de criar oportunidades para os alunos, até para justificar o investimento público em pesquisa e a contribuição dela para a sociedade.”

    Pacheco foi um dos representantes das agências de fomento no workshop, por isso deu algumas informações sobre os programas da Fapesp para o estímulo à cooperação universidade-empresas.

    Um deles é o programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe), funcionando já há 20 anos, tendo apoiado 1.700 projetos de 1.100 empresas. “A geografia de implantação dos projetos segue mais ou menos a geografia dos principais campi no Estado de São Paulo. A taxa de mortalidade das empresas é muito baixa, ficando ao redor de 7%. Depois de oito anos elas atingem um faturamento de  R$ 20 milhões”.

    Outra iniciativa da Fapesp é o Programa de Apoio à Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (Pite), que possibilita a gestão conjunta de pesquisas sobre temas escolhidos pelas empresas. “Como spin-off desse programa surgiram os Centros de Pesquisa em Engenharia, projetos com dez anos de prazo em vez dos três ou quatro anos habituais do Pite.”

    A fundação implantará um terceiro programa a partir de consulta pública sobre a criação de centros de engenharia em manufatura avançada (manufatura aditiva, sistemas ciber-físicos, sensores/rastreadores e aplicações de inteligência artificial).

    Ações do empresariado

    Uma das representante do setor privado na mesa foi Gianna Sagazio, diretora de Inovação da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e coordenadora executiva da Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI).

    Ela disse que a MEI foi lançada 2008 com o objetivo de “contribuir com a elaboração de políticas de inovação efetivas e estimular as empresas a investir nessa atividade“. A entidade reúne 150 lideranças empresariais mais 400 pessoas, entre empresários, presidentes de conselhos e dirigentes de empresas.

    Gianna afirmou que mesmo a ideia de criação da Embrapii surgiu e prosperou na MEI, que também gestou a criação de um programa envolvendo o BNDES e a Finep, além de atuar para a aprovação do novo marco regulatório de CT&I.

    Assim como a presidente da SBPC na primeira sessão, Gianna destacou o fato de o Brasil ter caído da 47ª para a 69ª no Índice Global de Inovação entre 2011 a 2017, sendo o 7º colocado entre os países da América Latina e o último entre os Brics.

    “O Brasil tem um ambiente nada favorável para os negócios. Precisaria aumentar em 60% seus recursos financeiros e humanos e apresentar resultados 160% maiores para se comparar ao primeiro país do ranking, a Suíça.

    Ela defendeu a adoção de planejamento de longo prazo para projetos estratégicos para o país, com encomendas tecnológicas que estimulem a relação entre instituições de pesquisa e empresas.

    A pesquisa nas empresas

    A mesa teve também a participação de representantes das áreas de pesquisa e desenvolvimento de duas empresas: o diretor executivo do Instituto Tecnológico Vale, Sandoval Carneiro Jr., e o líder do Social Data Analytics Group da IBM Research do Brasil, Cláudio Pinhanez.

    De acordo com Carneiro Jr., a Vale criou a Gerência Executiva de Tecnologia e Inovação em 2009 para servir como ambiente de interação interna, com outras empresas e com instituições de pesquisa brasileiras. O resultado foi a implantação de dois Institutos de Tecnologia Vale, um em Belém, PA, voltado ao desenvolvimento sustentável, e outro em Ouro Preto, MG, dedicado à mineração.

    Os dois institutos possuem parecerias com várias agências federais e estaduais e mais de 200 iniciativas com universidades e empresas fornecedoras de produtos e serviços. Há parcerias também com universidades do Chile, Japão, Suécia, África do Sul e de outros países e mestrados profissionais em Belém, Ouro Preto e Moçambique, segundo o expositor.

    Perspectivas

    O cenário favorável brasileiro no início da década fez com que o país fosse escolhido entre 150 candidatos para a instalação de um laboratório da IBM, informou Pinhanez.  “A disputa final ficou entre Brasil, Austrália e Emirados Árabes Unidos.”

    “Era um momento bom na economia e na política. Poderíamos suprir as necessidades de muitas empresas que não possuem laboratórios. Entramos no mercado para competir com as universidades em certo nível de pesquisa.”

    Dois atrativos do país para esse tipo de iniciativa da IBM são o grande número de pesquisadores com alta qualificação e um bom conjunto de incentivos governamentais, segundo Pinhanez.

    Em 2010 foram inaugurados os laboratórios no Rio de Janeiro e na capital paulista, que contam atualmente com 70 doutores, brasileiros e estrangeiros, com uma média de uma nova contratação por mês. “Em 2016, os trabalhos resultaram em 101 publicações e 56 patentes depositadas. Nos sete anos de funcionamento, foram 412 publicações e 250 depósitos de patentes.”

    Competição limitada

    Ele apontou algumas dificuldades para vender ciência no Brasil: a competição no mercado é limitada e, portanto, há baixo incentivo à inovação; há poucas empresas de alcance global enfrentando forte competição internacional; e os juros altos tornam os investimentos de risco pouco atrativos, canalizando os recursos para o mercado financeiro. “Mas a academia não consegue inteferir nesses fatores.”

    Pinhanez considera que os acadêmicos brasileiros devem se preparar para a competição com estruturas de pesquisas externas à universidade, inclusive vindas do exterior. “O mundo virá aqui para competir por ciência, inovação, e alunos. A pesquisa é algo internacionalizado hoje em dia e as  universidades têm todos os recursos para serem competitivas. “Como a USP vai se transformar para fazer frente à esse desafio?”, indagou.

    Os outros problemas que ele identifica são a preocupação excessiva com o retorno do investimento em curto prazo e a mentalidade dos gerentes de inovação, “que não assumem riscos”.

    Gerações

    Pinhanez também criticou o perfil dos acadêmicos mais velhos, “tanto de direita quando de esquerda”, por serem “muito puristas”. Além da questão cultural, ele vê um problema geracional, pois considera a faixa etária abaixo de 40 anos mais apta a desenvolver inovação. “A idade média em Silicon Valley é de 35 anos. Em Israel é a mesma situação. A mudança tem de ser cultural.”

    Essa tese de maior aptidão dos pesquisadores mais jovens para fazer inovação foi questionada no debate pelo presidente da Aciesp, Marcos Buckridge, e pelo coordenador científico do NGT-USP e vice-diretor do IEA, Guilherme Ary Plonski, que disse ser mais baixa a taxa de mortalidade das start-ups lideradas por pesquisadores seniores, de acordo com pesquisas feitas nos EUA e em Israel.

    O caso Petrobras

    O gerente de Relacionamento com a Comunidade de C&T da Petrobras, Eduardo Fernando dos Santos, disse que a empresa não tem problema para se beneficiar da ciência. Ele lembrou que em 1963 foi criado o seu Centro de Pesquisa, já em parceria com a UFRJ. Quando da descoberta dos campos gigantes na Bacia de Campos nos anos 80, foi instituído o Programa de Capacitação em Águas Profundas, responsável pelo desenvolvimento da tecnologia de produção de petróleo em lâminas d’água de até mil metros, que foi aprimorada para exploração até 2 mil metros de profundida nos anos 90, quando da descoberta de jazidas mais profundas.

    “A descoberta da reserva do pré-sal em 2006 trouxe desafios tecnológicos imensos.” A partir do uso de recursos definidos pela cláusula de investimento em P&D (0,5% da receita bruta da exploração dos campos de alta produção) em parcerias com a academia, “o pré-sal hoje é uma grande realidade, responsável atualmente por 58% da produção doméstica”.

    Os resultados para a academia são imensos, segundo Santos. Ele disse que publicação do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) indicou que até 2013, tinham sido publicados 3.719 artigos publicados e produzidas 2.479 dissertações de mestrado e 1.738 teses de doutorado. “Esse trabalho também produziu um grande número de pesquisadores e bolsistas e originou cursos de graduação e pós-graduação.”

    Mas há alguns problemas no sistema, admitiu: a burocracia rígida da Agência Nacional do Petróleo (ANP), das instituições de ciência e tecnologia, dos órgãos de controle e da própria Petrobras. Outro problema é como inserir na cadeia de valor inúmeras empresas que são geradas a partir desse relacionamento. “Há empresas que nem sequer conseguem fazer parte do cadastro de fornecedores da Petrobras, pois não podem atender certos requisitos, como experiência na área.”

    No debate, Buckridge disse que artigo recente afirma que “a economia mundial já se descolou da dependência do petróleo, cujo espaço está sendo tomado pelas fontes renováveis”.  Diante disso, pergutou a Santo se  “vai valer a pena para o Brasil todo o investimento futuro da Petrobrás”.

    O representante da Petrobras afirmou que discorda da ideia de que a economia mundial se desconectou do petróleo. “Enquanto houver grandes reservas ainda vai estar atrelada. A Petrobras não está fugindo desse debate, nosso plano de negócio é a reafirmação da empresa como indústria de energia. Além disso, haverá a matriz de transição baseada no gás natural. É difícil sair do petróleo, pois apesar de haver combustíveis substitutos, não há alternativa para outros produtos importantes da indústria petroquímica.”

    Diferença de valores

    Para o presidente da Opto Eletrônica, Jarbas Caiado de Castro Neto, também professor do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP, as dificuldades na relação entre universidades e empresas é que os dois lados possuem ideias e valores diferentes para um mesmo mundo. No entanto, acredita que a interação entre os dois setores não exige que as universidades estejam presentes nas empresas, mas que criem um ambiente favorável para elas.

    “Criamos o Optical Innovation Universe em São Carlos, um grupo de ótica que não é uma enormidade e que teve um impacto grande no surgimento de empresas na região.”

    Ele afirmou que uma das causas do baixo desempenho em inovação que o impressiona é a “falta de ambição dos estudantes brasileiros, falta de vontade de mudar sua cidade, a sociedade”.

    Castro argumentou que a maioria das 10 empresas mais valiosas do mundo tem menos de 30 anos de vida. “As empresas de sucesso são muito valorizadas nos EUA. Pessoas como Steve Jobs e Mark Zuckenberg são tratados como popstars".

    Para ele, se o Brasil quiser ser um país do Primeiro Mundo e gerar empregos para engenheiros e outros profissionais qualificados, deve questionar o modelo baseado na exportação de commodities.

    A atuação das agências de fomento

    A terceira e última sessão do workshop foi dedicada ao papel das agências de fomento como facilitadoras de interação universidade-empresa, tendo como expositores o presidente do CNPq, Mário Borges, e o superintendente da Regional São Paulo da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), Oswaldo Massambani. A moderação foi de Glaucius Oliva, do IFSC-USP, ex-presidente do CNPq.

    Ciência e Indústria - Mário Neto Borges
    Mário Borges: "Brasil tem desenvolvimento distorcido"

    Para Borges, o Brasil tem um “desenvolvimento distorcido”, porque desenvolveu muito bem a ciência, pouco a tecnologia e quase nada a inovação. “É bom que tenhamos desenvolvido a ciência. O representante da IBM destacou na sessão anterior que uma vantagem brasileira é a qualidade dos recursos humanos. Essa formação de mestres e doutores ocorreu graças ao trabalho do CNPq e da Capes, com programas que evoluíram independentemente dos governos.”

    O que deve ser feito hoje, segundo ele, é atuar mais na tecnologia e inovação, sem descuidar da ciência, “para termos equilíbrio no desenvolvimento do Brasil e gerar riqueza.”

    Comércio exterior

    Ele citou exemplos do comércio exterior que justificam essa necessidade: “Nas importações brasileiras, as máquinas respondem por 27%, produtos químicos por 18%. Em comparação, das exportações, 7,6% são máquinas e 5,5% são produtos químicos. Um prejuízo considerável para a balança comercial”.

    “Nossas commodities, embora tenham muita tecnologia, não serão suficientes para gerar riqueza, transformar o Brasil numa potência não só econômica, mas também social, científica e cultural.”

    Além dos problemas de financiamento, ele cita outras três dificuldades do sistema: burocracia, falta de pessoal qualificado e desarticulação entre as agências. “Estamos tentando melhorar a articulação. Havia uma disputa  danada entre CNPq e a Finep, uma vez que os dois disputam verbas do FNDCT [Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico]. Levamos o escritório da Finep para dentro do CNPq para iniciarmos uma maior articulação.”

    Ele também relacionou os atuais programas do CNPq ligado direta ou indiretamente à inovação:

    • Recursos Humanos em Áreas Estratégicas (RHAE), que concede bolsas a pesquisadores nas empresas;
    • Bolsas de Fomento Tecnológico;
    • Bolsa para Jovens Talentos, “para repatriar aqueles que foram atuar exterior”;
    • Bolsa para Jovens Talentos Inovadores;
    • Doutorado Acadêmico Industrial (“primeiro em parceria com a UFABC e agora a ser expandido para o ITA”);
    • Inova Talentos, em colaboração com o IEL e envolvendo empresas internacionais;
    • Agente Local de Inovação, em parceria com o Sebrae, para alunos de gradução.

    Em relação aos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCT), afirmou tratar-se de um programa prioritário da Presidência da República na área de tecnologia e inovação, ao lado do projeto de um satélite geoestacionário. “A boa notícia é que estamos ampliando o programa, vamos passar de 101 para 104 INTCs, tendo o apoio da Vale em 3 dos novos institutos e de fundos do Reino Unido e Alemanha para alguns existentes e outros a serem criados. Nossa meta é chegar a pelo menos 130 INCTs.”

    Investimentos e subvenção

    Massambani concentrou sua exposição nas iniciativas atuais e planejadas da Finep, financiadas em grande parte por recursos provenientes do FNDCT e voltadas ao atendimento de três finalidades: demanda espontânea de crédito pelas empresas, chamamentos públicos por meio de editais e encomendas governamentais.

    Os projetos são avaliados a partir de cinco níveis crescentes de grau de inovação e risco tecnológico: pré-investimento, inovação para a competitividade, inovação contínua para desempenho, inovação pioneira, e inovação crítica. “Quanto maior a inovação e o risco, menor o custo do dinheiro”. Outros atrativos dos programas são os prazos maiores de carência e de pagamento.

    Uma ação importante da Finep para alavancar empresas inovadoras são os investimentos diretos, com a aquisição de participação acionária, e indireto, através de fundos de investimento, afirmou o expositor.

    Há também a subvenção (aporte de recursos não reembolsáveis), que exige uma contrapartida da empresa. “Isso acaba puxando a participação de capital privado para o processo de desenvolvimento, reduzindo o investimento público.”

    Massambani destacou também o programa Inova Empresa, que prevê investimento em áreas estratégicas, fomento a planos de inovação empresariais e descentralização do crédito para pequenas e médias empresas.

    Apesar das dificuldades orçamentárias, novas ações tem sido adotadas, de acordo com Massambani. É o caso do Finep Startup, que aporta até RS$ 1 milhão para empresas com receita bruta de até RS$ 3,6 milhões. “E estamos trabalhando na criação do Finep Conecta, que acopla crédito à subvenção.”

    “Outra iniciativa relevante é a que está sendo desenvolvida com os núcleos de inovação tecnológica. A ideia é treinar agentes de inovação para que interajam com as empresas. Isso está sendo articulado com Fiesp, Ciesp, Sebrae, Investe São Paulo, Centro Paula Souza, Senai e institutos federais.”

    Foto 1: Fernanda Rezende/IEA-USP; Fotos 2,3 e 4: Leonor Calasans/IEA-USP