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Artigo revisa dados sobre microplásticos no ar e aponta riscos à saúde

Pesquisadores vinculados ao IEA participam da autoria de artigo sobre microplásticos presentes no ar.

Fragmentos de partículas de polímero
Fragmentos de partículas de polímero presentes no ar da cidade de São Paulo analisados por microscopia de transmissão e espectroscopia de infravermelho acoplada a microscópio

Se a presença de plástico nos oceanos, rios, reservatórios e no solo já se tornou um problema ambiental de grandes proporções e do conhecimento de boa parte da população, pesquisas dos últimos anos alertam para uma preocupação adicional: a presença de microplásticos (MPs) em suspensão no ar e os riscos potenciais ao serem inalados.

Um panorama do problema pode ser conferido no artigo "An emerging class of air pollutants: Potential effects of microplastics to respiratory human health?", publicado pela revista "Science of the Total Environment" no dia 19 de agosto. O trabalho foi escrito por pesquisadores da USP, IPT e Universidade de Leida (Países Baixos). Dois deles integram o Programa USP Cidades Globais do IEA.

Os autores revisam e discutem o conhecimento atual sobre as características de exposição de resíduos plásticos transportados pelo ar em áreas urbanizadas, com destaque para concentração, tamanho, morfologia, presença de aditivos e distribuição de diferentes polímeros. O trabalho compila dados e os compara a análises de laboratório para ampliar o conhecimento sobre potenciais efeitos adversos à saúde humana decorrentes da inalação de partículas plásticas.

O grupo desenvolve pesquisa no Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina (FM) da USP para entender as características de exposição, como concentrações e morfologia dos MPs, em ambiente interno e externo na cidade de São Paulo e em tecido pulmonar humano (fragmentos de tecido pulmonar e linfonodos hilares).

Os autores do artigo são: Luís Fernando Amato-Lourenço, pós-doutorando do Programa USP Cidade Globais do IEA e pesquisador do Departamento de Patologia da FM-USP; Luciana dos Santos Galvão, do IPT; Letty A. de Weger, Pieter S. Hiemstra e Martina G. Vijver, os três da Universidade de Leida (Países Baixos); e Thais Mauad, também integrante do Programa USP Cidades Globais e professora do Departamento de Patologia da FM-USP.

Segundo Amato-Lourenço, os estudos sobre microplásticos presentes no meio ambiente começaram a ser publicados depois de 2015, por isso os dados sobre essas partículas no ar ainda são bastante escassos. "No Brasil não há nenhum estudo que mostre essas informações (concentração, tipos de plástico etc.). Somos o único grupo fazendo esse tipo de trabalho com financiamento da Fapesp."

Já está bem estabelecido nos estudos ocupacionais e com animais que os microplásticos (MPs) são um risco para a saúde humana, ressalta o pesquisador. Muitas questões, porém, ainda precisam ser respondidas, como os problemas relacionados a adesão ou liberação de compostos químicos, microfilme bacteriano (em fibras que agregam material biológico) e a frequência e dose de exposição.

Essa é a razão de o artigo afirmar que “o risco de exposição a MPs inalados para a saúde (respiratória) humana também não está resolvido. Uma das principais questões a serem respondidas é se e como a inalação de MPs naturalmente degradados pode causar ou contribuir para a patogenia de diferentes doenças pulmonares”.

O público está acostumado com a ideia de que o plástico é de difícil degradação. Então, o que levaria a substância a provocar danos à saúde? De acordo com pesquisador, o fato de as partículas plásticas serem biopersistentes, seu tamanho e formato (especificamente fibras, encontradas em maior quantidade no ar) são fundamentais para afetarem negativamente o sistema respiratório.

Para exemplificar essa questão, ele cita o caso do asbesto (comercialmente conhecido como amianto), uma substância mineral de difícil degradação: “Como ele provoca fibrose pulmonar se não se degrada facilmente? É justamente o fato de ele não se degradar que suscita uma série de reações inflamatórias crônicas na região onde ficou ‘preso’, podendo causar granuloma e fibrose. Com o plástico as evidências apontam a mesma coisa. Adicionalmente, há a questão da liberação dos compostos químicos e microrganismos presentes nas partículas”.

Formas, origens e dispersão

Os microplásticos são divididos em três categorias: fibras, filamentos com comprimento substancialmente maior que o diâmetro; partículas, com formatos e tamanhos variados; e grânulos, com formato regular, geralmente esférico. As fibras estão em maior quantidade no ar. Seu comprimento varia entre 200 e 700 de 5 μm (0,2 a 0,7 mm). Há relatos de microplásticos bem menores, como partículas com 20 a 40 nm (0,00002 a 0,00004 mm) resultantes de impressão 3D com um determinado polímero numa câmara de teste.

O artigo destaca que mais de 4 mil substâncias químicas são utilizadas apenas nas embalagens plásticas de alimentos. Como há mais de 5 mil diferentes tipos de plástico em uso no mercado em geral, é provável que o número de substâncias químicas empregadas seja maior.

Os autores indicam que entre as muitas fontes que contribuem para o lançamento de MPs no ar estão tecidos sintéticos, desgaste de pneus, objetos domésticos, incineração de lixo, materiais de construção, lama de esgoto, aterros, pós abrasivos, impressão em 3D e ressuspensão de poeira urbana.

O trabalho menciona que a simples lavagem de uma vestimenta pode liberar cerca de 1.900 fibras de plástico. Os processos de industrialização, corte e usinagem de polímeros também contribuem para a formação de partículas e seu lançamento no ar.

Mas é um engano imaginar que os MPs sejam um problema apenas em áreas urbanas. Microplásticos em suspensão no ar são uma fonte potencial de poluição em ambientes marinhos e rios, ressalta o artigo. No processo contrário, no entanto, ainda não se sabe em que extensão MPs oriundos de águas podem ser uma fonte de microplásticos presentes no ar.

Outro agravante é grande facilidade de dispersão atmosférica dos microplásticos em razão das correntes aéreas. O trabalho cita que já foi reportada a existência de MPs no ar de regiões remotas e desabitadas, como os Pirineus Franceses, as Montanhas Rochosas e em partes do Ártico.

Imagens: Luciana dos Santos Galvão/IPT