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Os desafios do Brasil no contexto da geoeconomia

por Mauro Bellesa - publicado 19/08/2025 10:35 - última modificação 04/09/2025 12:56

O seminário “O Brasil na Nova Era da Geoeconomia: Como se Situar, como Responder?” ocorreu no dia 7 de agosto, numa iniciativa do Grupo de Pesquisa Economia Política Internacional, Variedades de Democracia e Descarbonização.

Participantes do seminário "O Brasil na Nova Era da Geoeconomia"
Os temas discutidos pelos expositores incluíram fragilidade das instituições internacionais, mudança do eixo econômico para a Ásia, transição demográfica, emergência climática, minerais estratégicos e impactos da inteligência artificial

Para os expositores do seminário “O Brasil na Nova Era da Geoeconomia: Como se Situar, como Responder?”, realizado no dia 7 de agosto, a situação do país é delicada quanto à sua inserção no sistema internacional. Entre os motivos apontados estão a falta de projeto sobre qual papel o Brasil quer ter no mundo e as carências em termos de políticas e organismos que promovam setores estratégicos, como o mineral.

Organizado pelo Grupo de Pesquisa Economia Política Internacional, Variedades de Democracia e Descarbonização, o encontro teve como expositores o economista José Roberto Mendonça de Barros, a cientista política Lourdes Sola, o ex-ministro Raul Jungmann e o diplomata Rubens Barbosa. O moderador foi o cientista político Eduardo Viola.

Participantes

  • José Roberto Mendonça de Barros - economista, ex-professor da USP e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda; integrou conselhos de diversas empresas e instituições (atualmente participa do Conselho de Administração da Scicrop e do Conselho Consultivo do Scotiabank);
  • Lourdes Sola - livre-docente em ciência política, ex-professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, professora sênior do IEA e coordenadora do grupo de pesquisa organizador do seminário;
  • Raul Jungmann - conselheiro do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), diretor-presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), ex-ministro de quatro pastas (Política Fundiária, Desenvolvimento Agrário, Defesa e Segurança Pública) e ex-presidente do Ibama;
  • Rubens Barbosa - diplomata, ex-embaixador do Brasil nos EUA e no Reino Unidos, integrante do Grupo de Análise de Conjuntura Internacional (Gacint) da Instituto de Relações Internacionais da USP e presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice).
  • Eduardo Viola (moderador) - cientista político, professor de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo, pesquisador colaborador do IEA, professor titular aposentado da UnB e vice-coordenador do grupo de pesquisa organizador do seminário.
Assista ao vídeo
do seminário

Diversos economistas, cientistas políticos e especialistas em relações internacionais afirmam que o mundo está vivendo a era da geoeconomia, caracterizada pela intersecção entre a lógica do conflito e os métodos do comércio, de acordo com definição do estrategista militar e historiador estadunidense Edward Luttwak, que propôs o termo em artigo de 1990.

Os impactos são globais, mas há desafios de governança democrática específicos ao Brasil e à América Latina, segundo os organizadores do seminário. O objetivo do encontro foi justamente analisar esses desafios e as estratégias possíveis para a inserção do país no cenário internacional.

Panorama

José Roberto Mendonça de Barros apontou cinco processos indutores de grandes transformações no panorama global e a interação entre eles. O primeiro deles é a mudança do papel da China na economia mundial ao longo das últimas décadas, passando de país que copiava produtos ocidentais para a posição de manufatura do mundo, sede do sistema industrial mais eficiente e competidor direto com os EUA.

No plano multilateral, indicou o envelhecimento e enrijecimento das instituições de governança global, como o Conselho de Segurança da ONU, o Fundo Monetário Internacional (FMI), a Organização Mundial do Comércio (OMC) e o Banco Mundial. “O espantoso desenvolvimento do mercado de capitais, que se tornou um mar de fluxo monetário, ocupou o espaço do FMI e do Banco Mundial.”

A economia e a geopolítica mundiais também já começam a sofrer o impacto de uma forte aceleração da transição demográfica, de acordo com o economista. “Entre os países com redução absoluta da população, a China toma a frente, com a perspectiva de redução dos 1,422 bilhão de habitantes que tinha em 2023 para 1,260 em 2025. O Japão deve perder 15% população, passando de 124 para 105 milhões. A população russa deve diminuir de 146 para 136 milhões. O oposto deve ocorrer nos EUA devido à imigração, passando de 343 para 380 milhões em 2050. A população brasileira já está crescendo de forma bastante modesta e estamos entrando no período mais avançado da transição.“

José Roberto Mendonça de Barros - 7/8/25
José Roberto Mendonça de Barros

Uma das consequências desse quadro é o aumento considerável de países que podem ficar velhos antes de ficarem ricos, afirmou. E aí surge o problema da migração para os países mais ricos, que querem evitá-la, como os EUA e o Japão, disse.

Os outros dois aspectos citados por ele são a aceleração das mudanças climáticas e as mudanças tecnológicas lastreadas na inteligência artificial. No caso do clima, a prioridade é a transição energética, “mas ela está colocando seus próprios problemas, mostrando-se mais complicada do que se imaginava. A Europa, que mais avançou, está fragilizada pelos problemas econômicos”.

Ele disse que a China definiu em 2015 uma estratégia para reduzir duas de suas maiores dependências: alimentos e energia limpa. No caso dos alimentos, houve a migração para o fornecimento brasileiro. E o avanço consistente na transição energética concretizou-se na construção de 22 mil km de linhas de trens de alta velocidade e a disseminação dos carros elétricos, além do crescimento sem precedentes nas energias solar e eólica, apontou.

O atraso no mercado global de carbono também é um complicador para a transição demográfica, disse. No caso do Brasil, afirmou que o país aproveita pouco suas potencialidades para a transição energética.

Mendonça de Barros disse que há uma grande discussão se a IEA será tão transformadora quando seus entusiastas acreditam. “O volume de investimentos é fenomenal, mas ela ainda não desenvolveu ferramentas e modelos que transformem a produtividade. Vai acontecer, mas vai levar algum tempo.”

Aswath Damodaran, da Universidade de Nova York, um dos maiores especialistas em avaliação de empresas, teme que a IA tenha um desempenho similar ao que aconteceu com a internet em seu início, seja algo sem o qual não se consegue viver, mas que num primeiro momento não propiciou o salto de produtividade imaginado, porque não conseguiu se transformar em ferramentas úteis, afirmou o economista. Para Damodaran, se isso demorar a se dar com a IA, pode acontecer na bolsa americana a maior crise desde 2008, pois o valor das empresas da área representa 30% de todos os ganhos da bolsa nos últimos anos, medidos em trilhões de dólares, disse.

Crise financeira

No entanto, ele ressalva que os efeitos da evolução das cinco tendências globais que mencionou dependerão do futuro da economia americana sob o governo Trump. A tarifa média de importação dos EUA era de 2,5 a 3% e agora está próxima de 20%. Isso vai dar inflação, segundo 90% dos economistas, afirmou.  “Os indicadores são de que a inflação americana caminha para 4%. Se isso acontecer, teremos de conviver no ano que vem com taxa de juro maior, não menor. Em paralelo a isso, a atividade está caindo, sendo o mais provável, portanto, o fenômeno da estagflação. Se isso for verdade, o dólar tende a se desvalorizar num primeiro momento, caindo aqui para R$ 5,00, mas não passar disso.”

Com a probabilidade desse cenário, há o risco de uma crise financeira nos EUA parecida com a de 2008 nos próximos dois anos, disse. Contribui para isso o fato de o valor dos ativos na bolsa estar muito inflado, completou. “As criptomoedas jogarão um papel similar ao que os derivativos habitacionais desempenharam em 2008. O estoque delas já é de US$ 2 trilhões.”

Para Mendonça de Barros, só resta ao Brasil “reforçar as coisas em que somos bons, nossos fundamentos, pois somos pequenos nesse jogo”. É preciso “aumentar a resiliência da economia brasileira, porque ela vai balançar”.

Rubem Barbosa - 7/8/25
Rubens Barbosa

Além de pelo comportamento da economia, o papel do Brasil no mundo será definido por três outras questões, segundo Rubens Barbosa: a percepção externa sobre o país, implementação de objetivos a serem definidos e uma política externa acima de partidos e ideologia.

Barbosa indicou vários pontos a serem elevados em conta quando se pensa na inserção externa brasileira. Um deles é o quadro da economia global, que “deixou de ser uma economia liberal em função do enfraquecimento das instituições e passou a ser protecionista, sem regras, uma lei da selva”.

Outro é a mudança na ordem internacional, com novos polos de poder, mas sem uma organização geral: “Isso é muito delicado quando se pensa na inserção externa do país. O Brasil é uma potência média regional. O mundo mudou e o país está sem uma perspectiva de futuro, sem estratégia, sem excedente de poder para querer interferir em áreas fora do nosso alcance, como Ucrânia, Gaza e Irã”.

No campo econômico, a perda de espaço do Brasil no cenário internacional se deve à situação da economia, perda na participação das manufaturas nas exportações e atraso na inovação tecnológica. No caso do desgaste em termos de percepção externa, apontou a maneira como a pandemia foi conduzida, a política ambiental em relação à Amazônia, a insegurança jurídica, corrupção sistêmica e aumento da violência. Quanto à política externa, Barbosa disse que não temos uma definição clara dos interesses em relação aos principais parceiros, o que torna difícil a ação diplomática. “Desde o segundo mandato do presidente Lula há uma atuação ideológica nos organismos internacionais que compromete a ação diplomática em quase todas as áreas.”

Riscos

Ele relacionou os riscos a que o país está sujeito. Às elevadas tarifas de importação estabelecidas por Trump e à provável elevação da taxa de juro dos EUA, itens mencionados por Mendoça de Barros, acrescentou o menor crescimento da China e a concentração das exportações em poucos produtos para poucos mercados. Também citou os impactos diretos e indiretos das guerras, as ameaças de ataques cibernéticos e questões de natureza ambiental, como desastres e crimes ambientais na Amazônia, que levam a restrições a produtos não sustentáveis.

Para ele, o Brasil pode ter voz no mundo em áreas como segurança alimentar e transição energética, mas não está aproveitando as oportunidades. Quantos aos minérios estratégicos, disse faltar uma política específica para isso.

Uma inserção internacional adequada do país depende da superação de várias vulnerabilidades, disse. Algumas são estruturais, como educação, saúde e atraso tecnológico. Entre as conjunturais que afetam o setor produtivo relacionou baixa competitividade, custo brasil, ineficiência do governo, interferência estatal e baixa produtividade das empresas.

Barbosa criticou a dependência brasileira da Ásia: “50% das exportações vão para lá, dos quais, 70% vão para a China. Se sair um acordo comercial e a China concordar em aumentar a importação de produtos americanos para reduzir o superávit que possui, isso afetará o agronegócio brasileiro”.

Outra dificuldade brasileira apontada por ele é a não participação do país em cadeias produtivas, com exceção da Embraer e outras três ou quatro empresas. “Ninguém está pensando na criação de cadeias produtivas na América Latina.” Ele também disse que o Brasil não dá nenhuma prioridade para o setor de defesa.

Raul Jungmann - 7/8/25
Raul Jungmann
Raul Jungman indicou três aspectos relacionados com o panorama geopolítico. O primeiro, em consonância com as opiniões de Mendonça de Barros e Barbosa, é a desordem progressiva na governança global. “A construção dessa governança foi liderada pelos EUA nos últimos 80 anos e eles mesmo estão liderando sua destruição, sem que nada seja colocado no lugar.”

O segundo é o atual processo de rearmamento, inclusive da Alemanha e do Japão, e com a Otan estabelecendo um acordo que prevê um crescimento de 5% no orçamento militar nos próximos dez anos, disse. Segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo, 2024 foi o ano com mais conflitos nos últimos 70 anos, com 33 nações envolvidas em 61 conflitos, afirmou.

O terceiro fato é a emergência econômicas da Ásia a partir dos anos 90. “Atualmente, de 120 a 150 países tem a China como principal parceiro comercial.”

Para ele, o Brasil permanece na ordem ocidental, mas tem um pé muito firme nos Brics e em especial na China. “O Brics não questiona a ordem ocidental, procura se estruturar de forma paralela. Aí surge o conceito de Sul Global, com o qual tenho dificuldade em lidar, pois são países diferentes em termos culturais, linguísticos e geográficos. Me parece muito mais uma comunidade de propósito. O Brics tem futuro, mas ainda não tem robustez para se contrapor à governança ocidental, aos EUA”

Para Jungman, as atuais transformações geopolíticas surgiram a partir da pandemia de Covid-19, quando se percebeu a dependência de cadeias produtivas atreladas à Ásia. A necessidade de máscaras e respiradores foi um exemplo. O resultado foi a concepção de que certas cadeias de valor são estratégicas e precisam ser nacionalizadas, ou pelo menos é preciso ter o controle dos suprimentos que as abastecem, afirmou.

Minerais

É exatamente isso que a acontece com os minerais críticos e estratégicos, segundo ele. Alguns estão diretamente ligados à segurança alimentar, como o potássio e o fosfato, fundamentais para a produção de fertilizantes. “O Brasil é um gigante agrícola com pés de barro, pois importa 90% do potássio e 78% do fosfato”, afirmou.

Quanto às terras raras, explicou que não são terras, são rochas, e não são raras, sendo encontráveis em todo o planeta, com maior concentração na China. Seu processo de refino é muito difícil. São utilizadas em telefones celulares, televisores de tela plana, lâmpadas fluorescentes, turbinas eólicas, carros elétricos, lentes de alta refração, fios de fibra óptica, baterias de íon-lítio, ímãs permanentes e catalisadores para veículos. Também são essenciais e tecnologias de defesa, como mísseis teleguiados e sistemas de radar.

Jungman destacou que os minerais críticos e estratégicos estão na base da transição para uma economia de baixo carbono, com o seu uso em baterias, acumuladores e painéis solares, por exemplo.

“O Brasil tem grande potencial. Tem a maior reserva de nióbio, a segunda maior em terras raras e a terceira em grafite. Mas nos falta rumo. Não tempos uma política para esses minerais. Em mais 50 anos de existência, o Serviço Geológico do Brasil mapeou apenas 27% do território nacional. O Brasil não sabe o que tem em termos minerais, quanto mais em termos de minerais críticos e estratégicos.”

Outro problema do setor é a falta de financiamento, disse. “Em 2024, o setor financeiro investiu R$ 2,1 trilhões no setor privado, dos quais apenas R$ 19 bilhões foram destinados ao setor mineral. Na B3 [Bolsa de Valores de São Paulo] há quatro mineradoras, na bolsa de Toronto, Canadá, são 42.”

Lourdes Sola - 7/8/25
Lourdes Sola
A partir das reflexões dos expositores anteriores, Lourdes Sola retomou o ponto central do seminário sob o ponto de vista da ciência política. Disse que o interesse sobre a geoeconomia foi motivado por uma discussão de tentativas de diagnóstico, pois é preciso dar conta de contradições, como a desconstrução empreendida por Trump e o incremento do comércio no âmbito da Ásia.

“Estamos numa situação em que a ciência política e outras ciências estão exigindo conceitos transversais que deem conta de uma situação multifacetada e com vários tipos de crise e, portanto, vários tipos de statemanship [habilidade política] para o Estado navegar.”

De acordo com a cientista política, as decisões e as perspectivas dos atores-chave nas economias nacionais passam pelos cálculos dos riscos políticos envolvidos nos investimentos e nas várias decisões. Isso requer um cálculo estratégico de longo prazo, não o de curto prazo, que está dominando, disse.

Uma das especificidades que atingem o Brasil no momento é a forma que a política está emaranhada com a economia no caso do ultimato de Trump, que envolve uma questão complexa em política: a soberania, afirmou.

“A relação com Trump, exige calibragens muito delicadas por parte do Estado, porque há interseções entre economia e defesa, economia e meio ambiente, regulação e liberdade de expressão. O conceito de rally ‘round the flag [reunião entorno da bandeira] é muito bonitinho, mas ineficaz, se esgota.”

Diagnósticos

Sola disse que em sua busca por mapas cognitivos sobre a atualidade se interessou por dois diagnósticos. Um é do gestor de investimentos estadunidense Ray Dalio, autor do livro “How Countries Go Broke: The Big Cicle” (como os países quebram: o grande ciclo), lançado em junho. O outro é do economista Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central. “O diagnóstico deles coloca a política de uma forma muito precisa. Em ambos há um elemento de insustentabilidade: assim como está não dá.”

Segundo ela, Dalio argumenta que os EUA precisam cortar sua dívida de US$ 36 trilhões, diante do risco de uma outra crise financeira. Mas há um impeditivo: o populismo de direita e de esquerda. Resolver esse problema passa por uma política de coalização doméstica, defende o investidor.

O diagnóstico de Campos Neto mostra uma configuração de fatores similar à apresentada por Dalio, mas indica como ponto central o fato de os gastos dos países centrais terem levado a uma situação em que os países mais vulneráveis terão de instaurar disciplinas sociais muito mais específicas e prudentes e identificar que coaliza precisam adotar, afirmou a pesquisadora.

Aos fatores enumerados pelo economista brasileiro, Sola acrescenta o quantitative easing (flexibilização quantitativa), política monetária em que o banco central de cada país compra ativos financeiros, como títulos públicos, para injetar liquidez na economia, reduzir juros de longo prazo e estimular o crescimento econômico.

“Sempre que há crise desse tipo, os países centrais se ajustam e transferem os custos para nós, países importantes, mas periféricos. Se estivermos desinteressados do contexto doméstico e internacional, estamos perdidos.”

Fotos: Leonor Calasans/IEA-USP