Curso "Floresta de Saberes" - vídeos 2 a 7

Realizado de 2 a 4 de setembro de 2024, o curso “Floresta de Saberes: A Diversidade de Existências e Territórios das Mulheres Indígenas” foi a segunda atividade do programa desenvolvido pelas três titulares indígenas e compreende os vídeos dois a sete da playlist. As seis aulas trazem um panorama da diversidade que permeia a existência e atuação das mulheres indígenas, de acordo com a coordenação da cátedra. Isso se refletiu na própria escolha dos temas e das 11 expositoras indígenas convidadas, elas também com formações e experiências diversas, assim como as três titulares.
O curso foi estruturado com temas transversais, entre os quais noções de território, machismo, racismo, tempo e maternidade. Por território, foi considerado tanto o espaço físico quanto o simbólico. Através das categorias machismo e racismo foram apontadas as especificidades vividas por mulheres indígenas neste enfrentamento. A matriz tempo contemplou críticas a projetos desenvolvimentistas, expropriação do meio ambiente, exploração da terra e exaustão psíquica. A partir da noção de maternidade, aconteceram reflexões sobre outras formas de cuidado e suporte.

- Participantes da Aula 1: nos destaques, as professoras convidadas Graça Graúna Potiguara (esq.) e Patrícia Pará Yxapy, que falaram por videoconferência; na Sala Alfredo Bosi, a catedrática Sandra Benites, Geni Núñez (moderadora) e as catedráticas Arissana Pataxó e Francy Baniwa
Ainda que as áreas abrangidas estejam há muito consolidadas na universidade, a especificidade do curso foi dar visibilidade ao “protagonismo indígena sobre estes debates, contribuindo para a ampliação de referências, de epistemologias e cosmogonias para além do eurocentrismo”, afirma a coordenação.
Mesmo voltado à atuação das mulheres indígenas, a organização do curso levou em consideração que a contribuição delas não se restringe ao debate de suas questões, uma vez que as preocupações políticas sempre envolvem seus povos como um todo. Diante disso, o curso objetivou contribuir não só para a visibilidade dos enfrentamentos e desafios vivenciados por mulheres indígenas em suas trajetórias, como também buscou dar visibilizar sobretudo às resistências por elas construídas.
Todas as aulas tiveram a mediação da psicóloga e ativista indígena guarani Geni Núñez e participação das titulares. Núñez também participou da coordenação do curso, ao lado de Martin Grossmann e Liliana Sousa e Silva, respectivamente coordenador acadêmico e coordenadora executiva da cátedra. O público priorizado foram indígenas e estudantes da USP (graduação e pós-graduação).

- A Aula 2 teve como professoras (a partir da esq.) a catedrática Sandra Benites, Catarina Tupi Guarani, Francy Baniwa, Beatriz Pankararu e (no destaque) Eliane Potiguara, que participou por videoconferência
Programa
Trançando as Artes: Mulheres Indígenas e suas Expressões Artísticas foi o título da Aula 1, que teve como professoras a catedrática Arissana Pataxó, Graça Graúna Potiguara, escritora e professora da Universidade de Pernambuco natural do Rio Grande do Norte, e Patrícia Para Yxapy, professora, roteirista, curadora e realizadora audiovisual indígena da etnia guarani mbyá nascida na Argentina e atualmente vivendo no Rio Grande do Sul. Graça falou sobre a falta de representatividade da arte e da cultura indígena na literatura e da importância da escrita para o resgate das tradições e da ancestralidade. Para Patrícia, o audiovisual é uma forma de resistência e registro da vida, pensamentos e costumes indígenas.
As duas apresentaram suas trajetórias nas diferentes expressões artísticas que as constituem. A diversidade de suas atividades reflete um fato comum nas artes indígenas: a não compartimentalização rígida, uma vez que diversas linguagens artísticas se encontram nos fazeres cotidianos, nos rituais, nos processos de plantio e colheita, no cuidado das crianças e dos mais velhos, afirma a coordenação.

- A partir da esquerda, Geni Núñez (moderadora), Cinthia Guajajara, Kellen Kaiowá e Eufélia, durante a Aula 3
A Aula 2 - Gestando Políticas: Liderança, Política e Movimento Indígena contou com quatro professoras: a titular Sandra Benites, Catarina Tupi Guarani, liderança indígena, artesã e pedagoga de São Paulo, Beatriz Pankararu, representante da Reserva Indígena Filhos Dessa Terra (Guarulhos, SP), artista visual e ativista, e Eliane Potiguara, do Rio de Janeiro, primeira autora de literatura indígena no Brasil e doutora honoris causa pela Uerj.
As expositoras contaram suas trajetórias políticas e discutiram a importância dos movimentos indígenas na política brasileira. Eliane defendeu a inclusão das obras de pensadores indígenas nos programas das escolas brasileiras. A falta de professores e acervos indígenas nas escolas regulares foi destacada por Eliane. A catedrática Francy Baniwa afirmou que "não há mais a desculpa de que não há produções indígenas: temos teses, dissertações, trabalhos de conclusão de curso e publicação de livros".
Os coordenadores ressaltam que as quatro são referências da presença das mulheres indígenas em diferentes formas de atuação política. “No movimento indígena, há muitas formas de fazer política para além da dimensão institucional, seja a política de diálogos internos com as comunidades, seja a política de negociações com não indígenas, seja na sensibilização dos mais jovens para a luta pelo território”, afirmam.

- A Aula 4 contou com Geni Núñez (moderadora), Rutian Pataxó, Márcia Mura e Jera Guarani
Além da catedrática Francy Baniwa, participaram como expositoras da Aula 3 – Redes de Amparo: Saúde da Mulher e Meio Ambiente uma educadora e duas profissionais da área de saúde: Cinthia Guajajara, linguista, especialista em direitos indígenas, coordenadora da Articulação das Mulheres Indígenas do Maranhão (Anima) e presidente do Conselho de Educação Escolar Indígena do Maranhão, Kellen Kaiowá, bióloga e doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Clínica Médica da Unicamp, e Eufélia Tariano, do Amazonas, pesquisadora, enfermeira e especialista em saúde indígena.
As violências sofridas pelas mulheres indígenas foram discutidas a partir da noção de corpo-território, considerando as inter-relações dessas violências com aquelas sofridas pelo ambiente. Foram discutidas ainda possíveis de cuidado e de saúde integradas, territorializadas e tradicionais.
As professoras falaram sobre a cura indígena e o fato de a academia não reconhecer os saberes milenares dos povos originários. Kellen apontou as dificuldades que encontrou para abordar os tratamentos indígenas em suas pesquisas por conta dos padrões acadêmicos. A preservação da natureza e o reconhecimento do canto como terapia tradicional foram temas abordados por Cinthia. Eufélia defendeu que a proteção e o apoio às mulheres e crianças indígenas são questões de saúde pública.

- Aula 5, com (a partir da esq.) Geni Núñez (moderadora) Altaci Kokama, Sueli Maxakali e Anari Pataxó
As professoras da Aula 4 – Tecituras das Mulheres Indígenas na Universidade foram Rutian Pataxó, economista especializada em direitos humanos pela UFBA, mestranda em estudos étnicos e africanos na mesma instituição e ouvidora adjunta da Defensoria Pública da Bahia, Márcia Mura, do Amazonas, doutora em história social pela USP, educadora, escritora e articuladora política e cultural, e Jerá Guarani, liderança indígena comunitária na Aldeia Guarani Mbyá Kalipety, no extremo sul da cidade de São Paulo.
A escolha do tema levou em consideração que a presença de mulheres indígenas na universidade é acompanhada de uma série de entraves, uma vez que sua permanência nem sempre é amparada institucionalmente, de acordo com os coordenadores. Para povos em que a coletividade é fundamental, separar mães de suas crianças ou não propiciar condições para que estejam juntas, por exemplo, pode ser uma forma de expulsão indireta, afirmam. “Além disso, os currículos e as ementas dos cursos raramente contemplam perspectivas de mundo para além da eurocêntrica”, dizem.

- A partir da esquerda, a moderadora Geni Núñez e os relatores das cinco primeiras aulas: Eric Kamikiawa, Sophia Pinheiro, Natalia Farias, Anai Vera e Emerson Guarani
Marcia disse que construiu sua carreira no meio acadêmico a partir da história oral e saberes de seus antepassados. "Custou muito caro estar na academia. Não desisti porque sabia a minha tese de doutorado e a minha dissertação de mestrado não eram um trabalho meu, mas sim algo coletivo"", afirmou. A importância das cotas e incentivos indígenas para incluir diferentes povos e saberes no meio acadêmico foi ressaltada por Rutian. Se não fosse isso, a UFBA (onde se formou) "nunca seria a referência de políticas afirmativas para povos indígenas que é hoje", disse. Jerá contou sua trajetória como parte da liderança de sua comunidade e as dificuldades que encontrou ao propor mudanças para seu povo, inclusive ofensas verbais e ameaças de agressão. "Tento lembrar e fortalecer a ideia de que se a gente se comportar assim vamos estar fazendo a mesma coisa que caciques, cabos e capitães faziam", completou.
A revitalização das línguas indígenas tem contado com a participação de mulheres de diferentes povos em iniciativas coletivas. A organização convidou três delas para ministrar, na companhia da catedrática Arissana Pataxó, a Aula 5 – Ecossistema de Línguas Indígenas. São elas: Altaci Kokama, pesquisadora e ativista natural do Amazonas, doutora em linguística e primeira indígena a ingressar no corpo docente da UnB, Sueli Maxakali: professora, cineasta e liderança indígena em Minas Gerais, e Anari Pataxó, da Bahia, integrante do Grupo de Pesquisa Pataxó Atxohã, Bahia.
A destruição e a exploração da terra também têm efeitos no "ecossistema" de línguas originárias, pois com a continuidade da invasão dos territórios indígenas e com o aumento do racismo religioso, o direito ao território, ao modo de vida e ao falar da língua também se vê profundamente afetado.

- O público do curso foi constituído principalmente por indígenas e estudantes da USP de graduação e pós-graduação
Altaci disse que os indígenas têm a concepção de que a língua é espírito e por isso não morre. Ela falou sobre sua trajetória como pesquisadora e a dificuldade para entender as apresentações e textos obrigatórios dos programas em que participou: "Eram todos em inglês ou francês". Também defendeu o reconhecimento da língua de sinais dos indígenas o português que falam. Anari questionou a existência de cursos de letras focados apenas em línguas estrangeiras: "Estamos no século 21 e ainda não foi criado um curso voltado às línguas indígenas. Isso é vergonhoso. As línguas indígenas são parte das línguas brasileiras".
A três titulares da cátedra foram as expositoras da Aula 6, que encerrou a atividade. Também participaram cinco pós-graduandos indígenas da USP (Anai Vera, Emerson Guarani, Eric Kamikiawa, Natalia Farias e Sophia Pinheiro). Eles apresentaram seus relatos críticos sobre as aulas anteriores e comentários gerais sobre o curso.
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