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O território como fonte de conhecimento e inspiração para políticas públicas

por Mauro Bellesa - publicado 25/08/2025 15:30 - última modificação 28/01/2026 15:54

Cerimônia de Posse dos três novos titulares da Cátedra Olavo Setubal – Transversalidades: Arte, Cultura, Ciência e Educação foi realizada no dia 18 de agosto, na Sala do Conselho Universitário da USP.

Mesa da Cerimônia de Posse dos novos titulares da Cátedra Olavo Setubal em 2025
Além dos novos titulares, participaram da Cerimônia de Posse dirigentes da USP, do IEA e da Fundação Itaú, mais três ex-titulares e representante da família Setubal

Nos discursos de posse na Cátedra Olavo Setubal – Transversalidades: Arte, Cultura, Ciência e Educação no dia 18 de agosto, na Sala do Conselho Universitário da USP, os três titulares para o período 2025/2026, Alemberg QuindinsFernando José de AlmeidaNísia Trindade Lima, falaram sobre a importância da abordagem centrada no território nas atividades que realizam e no trabalho conjunto que realizarão.

Eles desenvolverão o programa Territórios: Diversidades, Desigualdades e Aprendizados Sociais, cuja agenda inclui três atividades principais:

  • série Cátedra em Movimento – Encontros Territoriais compreende atividades em diversos lugares de junho a outubro de 2025 (já ocorreram encontros na Fiocruz e redondezas, no Rio de Janeiro, e em Nova Olinda, CE, em julho);
  • seminário “Territorialidade: Diversidades, Desigualdades e Aprendizados Sociais”, em novembro de 2025, que fará um balanço dos encontros territoriais;
  • disciplina de pós-graduação “Territorialidade: Diversidades, Desigualdades e Aprendizados Sociais”, a ser oferecida em parceria com a Pró-Reitoria de Pós-Graduação no primeiro semestre de 2026.

Quindins é músico, empreendedor social, escritor e criador da Fundação Casa Grande - Memorial do Homem Kariri, em Nova Olinda, CE. Filósofo e educador, Almeida atua como professor universitário e gestor público na área de educação de São Paulo, onde foi secretário municipal; Lima é socióloga, professora universitária e foi a primeira mulher a presidir a Fiocruz e a ser ministra da Saúde.

Participantes da Cerimônia de Posse dos novos titulares da Cátedra Olavo Setubal

A cerimônia foi aberta pelo reitor Carlos Gilberto Carlotti Jr. e encerrada pela vice-reitora Maria Arminda do Nascimento Arruda. O reitor afirmou que os novos titulares trazem visões e conhecimentos diferentes que convergirão para responder a questões importantes para o país.

A vice-reitora destacou que a cátedra tem apostado numa mudança na agenda de pesquisa e no aprofundamento da relação da sociedade com a agenda pública. "Devemos celebras as mudanças do país nas últimas décadas, mas há grandes preocupações que temos de enfrentar, como o feminicídio, a violência, que tem cor, como mostra o genocídio dos jovens negros das comunidades pobres", afirmou.

A diretora do IEA, Roseli de Deus Lopes, disse que o modo de vida das pessoas mudou muito e a questão da violência e a destruição do meio ambiente são temas que poderão ser analisados em reflexões lideradas pelos novos catedráticos.

O presidente da Fundação Itaú, Eduardo Saron, afirmou que a fundação sempre se relaciona com uma instituição parceira para oxigená-la e também ser oxigenada por ela. "Para nós é bastante relevante o fato de que a parceria do terceiro setor com a universidade pode impactar ainda mais a sociedade."

Como na posse de todos os outros titulares desde 2016, Maria Alice Setubal, filha do patrono da cátedra, representou a família Setubal na cerimônia. Ela falou sobre o perfil de seu pai como empresário, homem público e incentivador das artes e dos princípios que transmitiu aos filhos: ética, valorização do trabalho e do conhecimento, coragem para assumir posições e o compromisso com o desenvolvimento do Brasil.

O coordenador acadêmico da cátedra, Martin Grossmann, ex-diretor do IEA, ressaltou que os três novos titulares se destacam por suas práticas nos campos, acadêmico, cultural e profissional. "A formação dessa trinca se apoia nos conceitos de territorialidade, formação e diversidade, levando em conta a desigualdade social, problema histórico que afeta a sociedade brasileira."

A cerimônia teve também a participação de duas das três titulares indígenas do período 2024-2025. Arissana Pataxó destacou que no projeto que realizaram (Caminhos da Cutia: Territórios e Saberes das Mulheres Indígenas) a proposta foi caminhar de forma coletiva, agregando muitas mulheres indígenas, além das catedráticas. Francy Baniwa disse em vídeo apresentado que foi muito importante a presença das três titulares para mostrar que "a nossa ciência e nossa tecnologia ancestral tem muito a contribuir com as universidades, de como entendemos nossa ciência a partir de nossas narrativas".

Os novos titulares foram saudados por Eliana Sousa Silva, titular em 2018. Ela afirmou que os novos titulares chegam com o desafio de "aproximar vivências distintas, permitindo não só a possibilidade de criação de novos olhares, percepções e repertórios sobre os campos que atuam, mas também concretizar um movimento de transversalidade em importantes questões".

Alemberg Quindins - posse
Alemberg Quindins

Quindins contou, emocionado, ter passado a infância na Amazônia, onde aprendeu duas lições:  "Enquanto existir floresta neste mundo, existirá encanto; e enquanto existir criança neste mundo, existirá inocência. A inocência e o encanto são as coisas mais potentes neste mundo".

Para ele a maior missão humana é tornar a Terra um planeta educativo. "Daí a importâncias desses territórios ambientais para a educação brasileira. Que a escola seja o território, que as crianças possam acessar essa escola a céu aberto que é nosso planeta. Por isso é importante derrubar os muros das escolas e fazer com que a humanidade seja pacífica."

Ele considera a Fundação Casa Grande um espaço de vivência e educação patrimonial. A cidade onde fica a instituição, Nova Olinda, está localizada na região do Cariri (CE), que contém vários sítios arqueológicas, com fósseis do período Cretáceo, floresta petrificada e pinturas rupestres. "Olhamos tudo isso pela ótica do patrimônio, que deve ser trabalhada desde a infância."

Antes de saber que esses locais eram sítios arqueológicos, ele os considerava sítios mitológicos. E assim aprendeu que "primeiro vêm as lendas, depois vêm os mitos, porque a própria história da natureza é a natureza das lendas". Para ele, "esses territórios antes de tudo são sagrados, e as crianças na fundação aprendem isso desde a infância".

Fernando José de Almeida - posse
Fernando José de Almeida

Fernando José de Almeida disse que os três não estavam tomando posse de nada, mas sim sendo apossados pela cátedra, para prestar serviços a ela, para "pensar conspirativamente sobre o coletivo, justiça, verdade, educação, cultura e arte". Ele atribuiu o caráter conspirativo como uma das contribuições transmitidas pelo patrono da cátedra, Olavo Setubal: "Respirar todo mundo junto, todo mundo do mesmo ar, comprometido pela mesma ideia."

A partir de suas contribuições como educador e cidadão, ele pretende atuar no programa com os outros titulares falando sobre a escola, os alunos, o currículo e os professores no âmbito do território. "Vou fazer o que sempre fiz, a curiosidade construída no coletivo."

A cátedra deve apresentar o aprendizado como uma relação social de significados e pertencimento ao território, afirmou. "Quanto mais pertenço ao território, mais o conheço. O objetivo final da escola não é a escola, é o território, mas ela tem uma função sem a qual o território se desterritorializa."

Almeida disse que a cátedra é também um espaço para posicionamento "contra a ambiência em que vivemos, que é a do elogio à ignorância. "Temos levado aos jovens uma mensagem discreta e ao mesmo tempo insistente, cotidiana, de que conhecer não é preciso, conhecer dá trabalho, conhecer tem de ser lúdico."

Para ele, isso leva à concepção de que não é preciso usar a memória, que todo o processo cognitivo não é necessário, porque já há quem o faça. Em segundo lugar, surge a ideia de que "tudo que pode ser aprendido já está num banco de dados, e mesmo que a pessoa aprenda, não poderá usar o conhecimento, porque quando for fazer isso, tudo já terá mudado".

Essa sina entregue à juventude é totalmente desmobilizadora dos processos cognitivos, afirmou. "É contra esse elogio à ignorância que a gente tem de lutar. Isso vem embutido na fala de alguns chamados educadores que acham que não é preciso cansar muitos as pessoas, pois tudo cai do céu com certa facilidade lúdica e gratuita, ou paga em suaves prestações."

Nísia Trindade Lima - posse
Nísia Trindade Lima

Nísia Trindade Lima disse que sua trajetória está vinculada às ciências e à defesa das políticas públicas e da democracia. “Minha felicidade é poder dar uma pequena contribuição a uma agenda [da cátedra] que considero da maior relevância e que para mim também significa um aprendizado, e para toda a comunidade científica.”

Afirmou que os tempos são desafiadores e exigem muito das instituições de pesquisa e universidades. Comparou os tempos atuais com o período da Segunda Guerra Mundial: “O sociólogo estadunidense Robert Merton avisava naquele contexto que era uma ilusão pensar numa ciência autônoma. E o fenômeno da guerra mostrou o quanto a ciência era totalmente perpassada pelos conflitos políticos e culturais de sua época. Portanto, é de extrema atualidade quando pensamos nesta cátedra na articulação ciência, cultura e sociedade”.

Citando o documento “Brasil: Estatísticas do Século 20”, produzido pelo IBGE em 2003 [agora versão atualizado], disse que em 1940 a mortalidade infantil era de 146 por mil nascidos vivos, “algo que só se reduziu com muitas ações, políticas públicas e de uma forma muito lenta”.

A expectativa de vida maior era a da Região Sul, 50 anos, ao passo que a menor era a de Região Nordeste, 38 anos. “Segundo dados de 2020, agora a expectativa de vida se aproxima dos 80 anos e a distância entre Nordeste e Sul diminui de 18 para quatro anos. É um outro Brasil, num processo que se intensificou em anos recentes, sobretudo com políticas de saúde, educação e combate à pobreza extrema.”

No entanto, o país apresenta outras estatísticas terríveis, segundo ela, com quase a metade dos homicídios sendo praticados contra jovens de 15 a 29 anos, com dois terços deles sendo pessoas negras. A referência que mencionou é o Atlas da Violência, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Fórum Nacional de Segurança Pública [veja a edição 2024 do relatório]. “Creio que seja também papel da cátedra, que trabalha com o conceito de território, incluir essa agenda.”

Lima disse que falar de desigualdades é falar de políticas públicas. “Muitas inovações ocorrem em nível local, e temos de trazê-las para a academia e colocá-las como proposições de política pública. O trabalho na cátedra nos dá essa oportunidade.”

Outro aspecto abordado pela catedrática é a questão da memória: “Quando falamos de aprendizado, não podemos esquecer do papel político da memória.” Ela pretende trabalhar com o tema a partir da experiência do país com a pandemia de Covid-19.

Fotos (a partir do alto): 1, 2 e 3, Leonor Calasans/IEA-USP; 4, Cecília Bastos/USP Imagens