O território como fonte de conhecimento e inspiração para políticas públicas
- Além dos novos titulares, participaram da Cerimônia de Posse dirigentes da USP, do IEA e da Fundação Itaú, mais três ex-titulares e representante da família Setubal
Nos discursos de posse na Cátedra Olavo Setubal – Transversalidades: Arte, Cultura, Ciência e Educação no dia 18 de agosto, na Sala do Conselho Universitário da USP, os três titulares para o período 2025/2026, Alemberg Quindins, Fernando José de Almeida e Nísia Trindade Lima, falaram sobre a importância da abordagem centrada no território nas atividades que realizam e no trabalho conjunto que realizarão.
Eles desenvolverão o programa Territórios: Diversidades, Desigualdades e Aprendizados Sociais, cuja agenda inclui três atividades principais:
- série Cátedra em Movimento – Encontros Territoriais compreende atividades em diversos lugares de junho a outubro de 2025 (já ocorreram encontros na Fiocruz e redondezas, no Rio de Janeiro, e em Nova Olinda, CE, em julho);
- seminário “Territorialidade: Diversidades, Desigualdades e Aprendizados Sociais”, em novembro de 2025, que fará um balanço dos encontros territoriais;
- disciplina de pós-graduação “Territorialidade: Diversidades, Desigualdades e Aprendizados Sociais”, a ser oferecida em parceria com a Pró-Reitoria de Pós-Graduação no primeiro semestre de 2026.
Quindins é músico, empreendedor social, escritor e criador da Fundação Casa Grande - Memorial do Homem Kariri, em Nova Olinda, CE. Filósofo e educador, Almeida atua como professor universitário e gestor público na área de educação de São Paulo, onde foi secretário municipal; Lima é socióloga, professora universitária e foi a primeira mulher a presidir a Fiocruz e a ser ministra da Saúde.
Participantes da Cerimônia de Posse dos novos titulares da Cátedra Olavo SetubalA cerimônia foi aberta pelo reitor Carlos Gilberto Carlotti Jr. e encerrada pela vice-reitora Maria Arminda do Nascimento Arruda. O reitor afirmou que os novos titulares trazem visões e conhecimentos diferentes que convergirão para responder a questões importantes para o país. A vice-reitora destacou que a cátedra tem apostado numa mudança na agenda de pesquisa e no aprofundamento da relação da sociedade com a agenda pública. "Devemos celebras as mudanças do país nas últimas décadas, mas há grandes preocupações que temos de enfrentar, como o feminicídio, a violência, que tem cor, como mostra o genocídio dos jovens negros das comunidades pobres", afirmou. A diretora do IEA, Roseli de Deus Lopes, disse que o modo de vida das pessoas mudou muito e a questão da violência e a destruição do meio ambiente são temas que poderão ser analisados em reflexões lideradas pelos novos catedráticos. O presidente da Fundação Itaú, Eduardo Saron, afirmou que a fundação sempre se relaciona com uma instituição parceira para oxigená-la e também ser oxigenada por ela. "Para nós é bastante relevante o fato de que a parceria do terceiro setor com a universidade pode impactar ainda mais a sociedade." Como na posse de todos os outros titulares desde 2016, Maria Alice Setubal, filha do patrono da cátedra, representou a família Setubal na cerimônia. Ela falou sobre o perfil de seu pai como empresário, homem público e incentivador das artes e dos princípios que transmitiu aos filhos: ética, valorização do trabalho e do conhecimento, coragem para assumir posições e o compromisso com o desenvolvimento do Brasil. O coordenador acadêmico da cátedra, Martin Grossmann, ex-diretor do IEA, ressaltou que os três novos titulares se destacam por suas práticas nos campos, acadêmico, cultural e profissional. "A formação dessa trinca se apoia nos conceitos de territorialidade, formação e diversidade, levando em conta a desigualdade social, problema histórico que afeta a sociedade brasileira." A cerimônia teve também a participação de duas das três titulares indígenas do período 2024-2025. Arissana Pataxó destacou que no projeto que realizaram (Caminhos da Cutia: Territórios e Saberes das Mulheres Indígenas) a proposta foi caminhar de forma coletiva, agregando muitas mulheres indígenas, além das catedráticas. Francy Baniwa disse em vídeo apresentado que foi muito importante a presença das três titulares para mostrar que "a nossa ciência e nossa tecnologia ancestral tem muito a contribuir com as universidades, de como entendemos nossa ciência a partir de nossas narrativas". Os novos titulares foram saudados por Eliana Sousa Silva, titular em 2018. Ela afirmou que os novos titulares chegam com o desafio de "aproximar vivências distintas, permitindo não só a possibilidade de criação de novos olhares, percepções e repertórios sobre os campos que atuam, mas também concretizar um movimento de transversalidade em importantes questões". |
- Alemberg Quindins
Quindins contou, emocionado, ter passado a infância na Amazônia, onde aprendeu duas lições: "Enquanto existir floresta neste mundo, existirá encanto; e enquanto existir criança neste mundo, existirá inocência. A inocência e o encanto são as coisas mais potentes neste mundo".
Para ele a maior missão humana é tornar a Terra um planeta educativo. "Daí a importâncias desses territórios ambientais para a educação brasileira. Que a escola seja o território, que as crianças possam acessar essa escola a céu aberto que é nosso planeta. Por isso é importante derrubar os muros das escolas e fazer com que a humanidade seja pacífica."
Ele considera a Fundação Casa Grande um espaço de vivência e educação patrimonial. A cidade onde fica a instituição, Nova Olinda, está localizada na região do Cariri (CE), que contém vários sítios arqueológicas, com fósseis do período Cretáceo, floresta petrificada e pinturas rupestres. "Olhamos tudo isso pela ótica do patrimônio, que deve ser trabalhada desde a infância."
Antes de saber que esses locais eram sítios arqueológicos, ele os considerava sítios mitológicos. E assim aprendeu que "primeiro vêm as lendas, depois vêm os mitos, porque a própria história da natureza é a natureza das lendas". Para ele, "esses territórios antes de tudo são sagrados, e as crianças na fundação aprendem isso desde a infância".
- Fernando José de Almeida
Fernando José de Almeida disse que os três não estavam tomando posse de nada, mas sim sendo apossados pela cátedra, para prestar serviços a ela, para "pensar conspirativamente sobre o coletivo, justiça, verdade, educação, cultura e arte". Ele atribuiu o caráter conspirativo como uma das contribuições transmitidas pelo patrono da cátedra, Olavo Setubal: "Respirar todo mundo junto, todo mundo do mesmo ar, comprometido pela mesma ideia."
A partir de suas contribuições como educador e cidadão, ele pretende atuar no programa com os outros titulares falando sobre a escola, os alunos, o currículo e os professores no âmbito do território. "Vou fazer o que sempre fiz, a curiosidade construída no coletivo."
A cátedra deve apresentar o aprendizado como uma relação social de significados e pertencimento ao território, afirmou. "Quanto mais pertenço ao território, mais o conheço. O objetivo final da escola não é a escola, é o território, mas ela tem uma função sem a qual o território se desterritorializa."
Almeida disse que a cátedra é também um espaço para posicionamento "contra a ambiência em que vivemos, que é a do elogio à ignorância. "Temos levado aos jovens uma mensagem discreta e ao mesmo tempo insistente, cotidiana, de que conhecer não é preciso, conhecer dá trabalho, conhecer tem de ser lúdico."
Para ele, isso leva à concepção de que não é preciso usar a memória, que todo o processo cognitivo não é necessário, porque já há quem o faça. Em segundo lugar, surge a ideia de que "tudo que pode ser aprendido já está num banco de dados, e mesmo que a pessoa aprenda, não poderá usar o conhecimento, porque quando for fazer isso, tudo já terá mudado".
Essa sina entregue à juventude é totalmente desmobilizadora dos processos cognitivos, afirmou. "É contra esse elogio à ignorância que a gente tem de lutar. Isso vem embutido na fala de alguns chamados educadores que acham que não é preciso cansar muitos as pessoas, pois tudo cai do céu com certa facilidade lúdica e gratuita, ou paga em suaves prestações."
- Nísia Trindade Lima
Nísia Trindade Lima disse que sua trajetória está vinculada às ciências e à defesa das políticas públicas e da democracia. “Minha felicidade é poder dar uma pequena contribuição a uma agenda [da cátedra] que considero da maior relevância e que para mim também significa um aprendizado, e para toda a comunidade científica.”
Afirmou que os tempos são desafiadores e exigem muito das instituições de pesquisa e universidades. Comparou os tempos atuais com o período da Segunda Guerra Mundial: “O sociólogo estadunidense Robert Merton avisava naquele contexto que era uma ilusão pensar numa ciência autônoma. E o fenômeno da guerra mostrou o quanto a ciência era totalmente perpassada pelos conflitos políticos e culturais de sua época. Portanto, é de extrema atualidade quando pensamos nesta cátedra na articulação ciência, cultura e sociedade”.
Citando o documento “Brasil: Estatísticas do Século 20”, produzido pelo IBGE em 2003 [agora versão atualizado], disse que em 1940 a mortalidade infantil era de 146 por mil nascidos vivos, “algo que só se reduziu com muitas ações, políticas públicas e de uma forma muito lenta”.
A expectativa de vida maior era a da Região Sul, 50 anos, ao passo que a menor era a de Região Nordeste, 38 anos. “Segundo dados de 2020, agora a expectativa de vida se aproxima dos 80 anos e a distância entre Nordeste e Sul diminui de 18 para quatro anos. É um outro Brasil, num processo que se intensificou em anos recentes, sobretudo com políticas de saúde, educação e combate à pobreza extrema.”
No entanto, o país apresenta outras estatísticas terríveis, segundo ela, com quase a metade dos homicídios sendo praticados contra jovens de 15 a 29 anos, com dois terços deles sendo pessoas negras. A referência que mencionou é o Atlas da Violência, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Fórum Nacional de Segurança Pública [veja a edição 2024 do relatório]. “Creio que seja também papel da cátedra, que trabalha com o conceito de território, incluir essa agenda.”
Lima disse que falar de desigualdades é falar de políticas públicas. “Muitas inovações ocorrem em nível local, e temos de trazê-las para a academia e colocá-las como proposições de política pública. O trabalho na cátedra nos dá essa oportunidade.”
Outro aspecto abordado pela catedrática é a questão da memória: “Quando falamos de aprendizado, não podemos esquecer do papel político da memória.” Ela pretende trabalhar com o tema a partir da experiência do país com a pandemia de Covid-19.
Fotos (a partir do alto): 1, 2 e 3, Leonor Calasans/IEA-USP; 4, Cecília Bastos/USP Imagens