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Para educadores, qualidade da escola depende do contexto e das circunstâncias

por Vinícius Sayão - publicado 25/10/2017 18:40 - última modificação 06/11/2017 12:36

No segundo seminário sobre problemas da educação básica, Guiomar de Mello, Luís Carlos Menezes e José Renato Nalini comentaram também a Base Nacional Curricular Comum, o desinteresse dos alunos e os desafios para implantar uma educação de qualidade

Mesa Educação
Da esq. para dir., Guiomar de Mello, Luís Carlos Menezes e Nilson José Machado durante a abertura do encontro

"Não existe uma boa escola no sentido abstrato da palavra, existe boa escola dentro de suas circunstâncias", é o que acredita a educadora Guiomar de Mello, ex-secretária da Educação da cidade de São Paulo. “Conheci uma escola no Pará em que a maioria dos pais dos alunos eram analfabetos e a professora lia frequentemente para os estudantes para estimulá-los, mostrar como [a leitura] é legal”, complementou Luís Carlos Menezes, assessor do Ministério da Educação para a elaboração da Base Nacional Curricular Comum (BNCC). Guiomar e Menezes participaram de conferência no dia 9 de outubro, no IEA, sobre a qualidade da educação básica.

Organizado pelo Grupo de Estudos Educação Básica Pública Brasileira, este foi o segundo encontro de uma série de cinco seminários, prevista para acontecer até o final deste ano sobre problemas da educação básica brasileira – que compreende educação infantil, ensino fundamental, ensino médio geral, ensino médio técnico e a Educação para Jovens e Adultos (EJA). O primeiro aconteceu em setembro e abordou a qualificação dos professores do ensino básico público e a infraestrutura de que dispõem para sua atuação. Os próximos seminários serão sobre os temas: experiências inovadoras, tecnologias na educação, documentos reguladores (planos, currículos, base nacional comum).

Para Guiomar, uma das dificuldades de se estabelecer um currículo comum é a heterogeneidade do país. “Por isso a BNCC não padroniza, só indica o rumo final, só indica que nenhum brasileiro pode sair da escola sem ter acesso àquele conhecimento”.

A BNCC é um documento de caráter normativo que define o conjunto de aprendizagens essenciais que todos os alunos devem desenvolver ao longo da Educação Básica. Promulgada na Constituição Federal de 1988, apenas em 2015 ocorreu o primeiro seminário e a consulta pública para a elaboração da primeira versão da Base, finalizada em março de 2016. Naquele ano também foram feitas a segunda e terceira versões. Em abril de 2017, o MEC entregou a versão final da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) ao Conselho Nacional de Educação (CNE).

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Entre algumas das competências da BNCC citadas por Guiomar estão exercitar a curiosidade do aluno, sua vontade de investigar e formular hipóteses, e reconhecer e valorizar a cultura. “A construção da Base Nacional Curricular vem de seminários feitos em outro governo e que sobreviveu ao período de maior turbulência política. Nossa educação tenta andar nesse rumo da BNCC”, explicou.

Guiomar chamou ainda o atual sistema escolar de “meia escola", comparando com outros países, como os Estados Unidos, onde o aluno chega à escola no começo da manhã e sai apenas no meio da tarde. “Uma escola com duração de quatro anos e mais horas de aula é melhor do que nove anos de escola como é agora”.

A Avaliação Nacional da Alfabetização (ANA) mostra que que mais da metade dos alunos possuem nível insuficiente em leitura, 54,73%. Em matemática, o percentual relativo à proficiência insuficiente foi de 54,46%. Os dados são dos testes realizados em 2016 com 2,5 milhões de estudantes matriculados no terceiro ano do ensino fundamental em 50 mil escolas.

Na opinião de Menezes, o ensino em tempo integral traria melhores resultados para as crianças. Mas, caso isso ocorra no Brasil, defende que a grade de aulas não pode ser preenchida apenas com o conteúdo pedagógico é preciso desenvolver atividades culturais, informativas e esportivas.

“O tempo é crucial, nosso maior aliado e maior inimigo na educação. O professor tem um tempo, a criança tem um, a escola tem outro. A boa escola é aquela que consegue equacionar bem esses tempo, o tempo da criança aprender”, complementou a educadora.

Desinteresse dos alunos

José Renato Nalini
Nalini: "Se a família não toma conhecimento da escola, o aluno não se sente motivado”

José Renato Nalini, secretário de Educação do Estado de São Paulo e ex-membro do Conselho do IEA, acredita que o aprendizado do aluno não é e não deve ficar restrito ao que é ensinado em sala de aula: “o aprendizado prossegue em todos os espaços, inclusive no âmbito doméstico. Se a família não toma conhecimento da escola, o aluno não se sente motivado”.

Para o secretário, que participou das discussões no período da tarde, a desmotivação dos alunos é justamente um dos principais problemas do sistema de ensino. “É preciso tornar a educação sedutora”, disse. Entre as causas de desinteresse citadas por ele está o excesso de professores diferentes no ensino médio são cerca de 13 professores, que por lecionarem em diversas turmas, acabam não possuindo vínculos com os estudantes e, às vezes, nem lembrando seus nomes.

A falta de uso de todas as tecnologias e informações disponíveis também é um ponto de desinteresse: “Os alunos não aguentam permanecer em fileiras durante horas ouvindo aulas prelecionais”. Outro aspecto importante é a existência de um currículo engessado, que não permite que o aluno trilhe os caminhos de acordo com suas inclinações.

Nalini refletiu também sobre a defasagem do sistema de ensino. Citando o educador e filósofo Mário Sérgio Cortella, que diz que os edifícios e sistemática são do século 19, os professores são do século 20 e alunos são do século 21, o secretário criticou a falta de evolução da educação durante os anos, permanecendo praticamente a mesma desde o século passado ou até mesmo retrasado, a não ser pelas poucas inserções de tecnologia, como o uso de apresentações em Power Point.

Durante a conferência, Nalini criticou também a falta de verba: “30% do orçamento do estado são destinados para a rede de ensino público, entretanto têm sido insuficientes. Quase 90% do orçamento da secretaria são destinados ao pagamento dos profissionais da educação, onde temos 240 mil docentes que deveriam estar em atividade. Porém, desse total, 70 mil não estão nas salas de aulas, o que obriga o estado a contratar mais professores temporários, com o mesmo valor de orçamento”. Ele estima que a rede pública em São Paulo tem 5.469 escolas e mais de quatro mil alunos, com 400 mil pessoas na folha de pagamento da secretaria.

Outra crítica foi feita aos contratos de licitações. Segundo ele, é comum empresas não capacitadas ganharem as licitações ao oferecerem um preço muito baixo. A consequência disso é a quebra frequente de contrato: "A obra que poderia possuir um percentual de execução bastante elevado, acaba sendo paralisada. Às vezes ela é depredada e tem que começar do início", completou Nalini.

Desafios

Os conferencistas também citaram os principais desafios para se obter uma educação de qualidade. Entre eles está o tema do primeiro seminário do ciclo: a qualificação do professor. Para Guiomar é urgente a necessidade de mudar a formação de professores. “Há mais de 50 anos a medicina exige, para abrir um curso, convênio com algum hospital em rede pública de saúde. Quem conhece algum curso de formação de professores que tenha sido solicitado a ter um convênio com uma rede pública de escolas?", refletiu a educadora.

Outros desafios citados por ela são as causas sociais, como sectarismo político, autoritarismo e ameaças à democracia. Além de outros econômicos: globalização, inovação e desenvolvimento sustentável.

A globalização inclusive se relaciona a outro ponto observado por Nalini: o rápido desenvolvimento tecnológico. “Sabemos que o mundo será diferente, mas não temos ideia de como será daqui 20 anos. A ficção científica foi ultrapassada e a educação não pode permanecer alheia a isso".

Ele lembrou ainda que profissões existentes hoje talvez desapareçam e que as atividades necessárias no futuro sequer têm um nome atualmente. Em sua opinião, os jovens precisam obter conhecimento em áreas como robótica, inteligência artificial, biotecnologia, nanotecnologia e softwares, e comentou que é necessário estimular o empreendedorismo, a criatividade e a ousadia dos estudantes.