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As relações da inteligência artificial com a naturalidade, irracionalidade e existência - Entrevista com João Cortese

por Mauro Bellesa - publicado 25/09/2025 14:40 - última modificação 25/09/2025 14:41

Entrevista concedida à série 3por1 pelo filósofo e historiador da ciência João Cortese em 12 de setembro de 2025 no Instituto de Biociências da USP.

João Cortese - 3por1Em entrevista* à série 3por1, o filósofo e historiador da ciência João Cortese comenta aspectos epistemológicos e ontológicos relacionados com a inteligência artificial (IA). Para ele, "talvez seja algo pretencioso do ser humano dizer que está criando uma inteligência". Também comenta a possibilidade de a racionalidade instrumental da IA atingir um nível elevado de potência e diz que "isso é um problema".

E se uma máquina inteligente chegar à conclusão de que a existência não tem nenhum sentido? Aí será o caso de "pensar por que a máquina chegou a essa conclusão e o que os seres humanos deveriam pensar em relação ao sentido da existência", afirma.

Cortese é professor de filosofia do Instituto de Biociêncas da USP e pesquisador do grupo Understanding Artificial Inteligence (UAI) do IEA. Doutor em filosofia pela USP e em epistemologia e história da ciência pela Universidade Paris 7 (atualmente integrada à Universidade Paris Cité), pela qual é também mestre em história e filosofia da ciência, ele graduou-se em ciências moleculares pela USP. É autor do livro "Infini et Disproportion chez Pascal" (Infinito e Desproporção em Pascal), publicado na França em 2023. Suas áreas de trabalho são: filosofia e história da biologia; bioética; história e filosofia da matemática; e ética da inteligência artificial.

Entrevista

3por1 – Professor João Cortese, ao se falar na possibilidade de a inteligência artificial ser algo externo ao mundo natural não se está atribuindo às capacidades cognitivas humanas um poder criativo sobrenatural?

Assista ao vídeo
da entrevista com
João Cortese


JC – Se a gente pensar que o ser humano está no fundo lidando com a natureza – e mesmo com a própria natureza humana –, isso de algum modo questiona a própria separabilidade entre o natural e o artificial de um modo geral. Isso dito, claro que a gente pode ter uma separação, ainda que ela seja muito difícil de ser definida de modo preciso do ponto de vista filosófico. Pensando em particular na inteligência artificial, de fato, talvez tenha aí uma pretensão de poder humano no sentido de que a gente está falando de uma faculdade humana, uma potencialidade humana, que é a inteligência, que estaria sendo, por assim dizer, recriada ou replicada ou reinstanciada pelo ser humano. Desde o início da IA, o [Alan] Turing, em 1950, vai dizer: Olha, não me comprometo com a inteligência em sentido forte; é só um teste, um jogo de imitação para ver se o sistema age tal como o ser humano inteligente. Mas a gente sabe que há no fundo uma tentação de pensar isso de fato como uma inteligência. Pode ser talvez algo pretencioso da razão humana, do ser humano dizer que está criando uma inteligência.

3por1 – Parece impossível avaliar o desempenho da racionalidade humana sem levar em conta os desafios e complementaridade da irracionalidade. A humanidade conseguirá conviver com máquinas inteligentes que tenham algum componente irracional?

JC – A questão da IA é uma oportunidade incrível para a filosofia, porque traz, como que por um espelho, questões que a gente já discutia na antropologia filosófica, na filosofia da mente. Então, quando se critica que a máquina não tem criatividade, ou então que a máquina não tem inteligência, ou que a máquina não tem consciência, sempre há uma questão um pouco de a quem cabe o ônus da prova. Talvez as inteligências artificiais sejam “mais racionais” do que nós no sentido estrito, o que a gente chama de racionalidade instrumental. Então, já se colocou no debate da ética da IA que às vezes uma IA poderia receber instruções para maximizar a produção de clipes por uma fábrica, e se essa é a única demanda que ela recebe, por que ela não vai matar alguém para fazer um clipe? Então, talvez a racionalidade técnica-instrumental vá até a outra potência num sistema de IA. A gente entende que o ser humano tem algo além dessa racionalidade instrumental. Se, além disso, a gente tem a irracionalidade e a que serve é uma boa questão. Eu diria que no momento a gente não vê irracionalidade nas inteligências artificiais, mas o que a gente chamaria de “racionalidade” nelas já nos faz pensar, para o bem e para o mal, no impacto delas.

3por1 – Atingida a singularidade, o que aconteceria se as máquinas inteligentes chegassem à conclusão, como muitos de nós, de que a existência não tem nenhum sentido?

JC – Fala-se hoje em singularidade como hipótese de que as máquinas, os sistemas de inteligência artificial ultrapassariam os seres humanos na sua inteligência, por assim dizer. Isso gera muitos temores, inclusive de dominação, que sistemas de IA nos dominariam. Mesmo que eles não nos dominem, mas então se a gente pudesse aprender de algum modo com essas máquinas, como a gente interagiria com elas? Eu não vejo nada claro nessa questão, a gente não tem muito isso muito no nosso repertório. Se é para a gente hipotetizar, por que não que seria um momento para a gente exercer uma humildade epistêmica? [Garry] Kasparov disse que o Deep Blue [supercomputador que o derrotou em 1997] não estava jogando xadrez – mas, poxa, ele estava exercendo o xadrez –, ou quando o AlphaGo [software de inteligência artificial] ganhou de Lee Sedol [jogador de go derrotado por 4 a 1 pelo AlphaGo em 2016], por que não a gente aprender com as máquinas? Isso acho ótimo. Agora, se a máquina chegar à conclusão de que a existência não tem sentido, a gente talvez [deva] tentar aprender num diálogo com ela, tendo consciência de como a máquina funciona e as limitações dela, porque ela chega a essa conclusão. E aí, como sempre no espelho, trazer para o lado antropológico: pensando por que a máquina chegou a essa conclusão, o que nós seres humanos deveríamos pensar em relação ao sentido da existência.

* Entrevista gravada em 12 de setembro de 2025 no Instituto de Biociências da USP.